NU IMPOSSÍVEL
JULLIEN, François; GIBSON, Ralph. De l’essence ou du nu. Paris: Éd. du Seuil, 2000.
A constatação em si é simples: tudo aponta para a criação do nu, na arte, como um fenômeno que se integrou tão bem à cultura europeia que nunca mais nos livramos dele. Tanto ele une o Ocidente de ponta a ponta, de uma época a outra e até mesmo de uma arte a outra, da escultura à pintura e até à fotografia; e assim serviu continuamente de base na formação das Belas Artes. A Igreja conseguiu cobrir o sexo, mas manteve o nu.
Hoje vemos o Nu esculpido em nossos monumentos, pintado em nossas igrejas, preenchendo nossos museus, sem mais nos surpreendermos com essa banalidade. Existem bibliotecas inteiras sobre “como o Nu?” (a que cânone ideal deve obedecer sua representação? qual é a história de sua evolução? etc.); mas até agora quase ninguém se perguntou: por que o nu?
Por outro lado, se existe um vasto espaço cultural onde o nu nunca penetrou, onde permaneceu completamente ignorado, esse espaço é a China. Ora, esse é um dado tanto mais surpreendente quanto a tradição artística da China desenvolveu amplamente a pintura e a escultura de figuras.
Uma ausência tão radical, e que não admite exceções, exige, portanto, que seja analisada mais de perto. Pois não se trata de algo anedótico. Ela remete a uma impossibilidade que se esclarece a partir das escolhas culturais próprias da civilização chinesa.
Assim, essas escolhas nos levam a refletir, por sua vez, sobre as escolhas culturais que, em nosso contexto, deram origem ao Nu; a condição de impossibilidade do Nu na China leva a questionar sua condição de possibilidade na Europa: o que, de um ponto de vista teórico, teve de se interpor entre a carne e a nudez, o desejo e a vergonha, para instaurar o plano do Belo? Tal Nu provoca repentinamente o espanto e se erige, por isso, em objeto filosófico. De tema privilegiado das Academias, e isso até nos cansar, o Nu torna-se um operador teórico. Ele serve de revelador para nossa busca atávica do em-si e da presença, reabrindo assim um acesso sensível à ontologia; ao mesmo tempo em que traz à luz um novo objeto, tanto mais intrigante quanto mais se pensa nele, pois deve ser identificado por sua ausência: “o Nu impossível”.
I. O nu, portanto, não seria algo natural. A nudez é comum, o pudor também – o nu, por sua vez, seria uma escolha. E essa escolha seria justamente a que fundamenta a filosofia: pois o nu é a “própria coisa” – é o em-si, é a essência. O que nos remete imediatamente à questão: em que medida o nu caracterizaria, antes mesmo da filosofia, uma certa tendência do pensamento na maneira de apreender o real e de se relacionar com ele?
Pois poderíamos ter acreditado que a arte se confundia com o nu. Já que o nu é tão antigo quanto a arte: não poderíamos remontá-lo às estatuetas antropomórficas, assim como às imagens rupestres da Idade da Pedra? Tal como a Ídola das Cíclades, de há quase cinco mil anos, já nos surpreende pela preocupação que se expressa, na geometrização do nu, de integrar todas as partes do corpo, elegantemente estilizadas, numa arquitetura de conjunto. Ou no afresco das Músicas do túmulo de Nakht, em Luxor, entre as jovens vestidas com uma túnica branca, seguindo uma mas voltando-se para a outra, e assegurando assim entre elas uma espécie de transição, a tocadora de alaúde de corpo nu atesta uma presença carnal, no meio do grupo, cujo encanto é acentuado pela fluidez dos contornos. Já existe ali a modelagem exigente do nu; aqui, a graça de um corpo delicado. Não é preciso esperar pela Grécia para ver surgir o nu?
Ora, a China, quando comparada, parece mais do que uma exceção: não apenas porque a exceção, nesse caso, seria de grande magnitude, mas sobretudo porque se pode perceber, no desenvolvimento da estética chinesa, o que resistiu ao nu. A ponto de bloquear sua possibilidade. A China deixou isso passar. Daí a questão: o que impediu o surgimento do nu na China, e que outra possibilidade prevaleceu a ponto de encobri-lo e bloqueá-lo? E, de forma mais radical: o que é (como compreender) – no plano cultural – uma possibilidade que não se concretiza? A questão, vale a pena repetir, não tem para mim nada de anedótico. Ela nem mesmo se deixa classificar no domínio, ainda que tão vasto, mas agora tão bem delimitado, da pesquisa antropológica. Em sua essência, ela é filosófica, e é essa essência que eu gostaria, por essa via – a partir do nu e da China –, de começar a trazer à luz e a esclarecer. Pois o nu não apenas revela o que constituiria a originalidade estética da tradição chinesa em relação à nossa (já que permite justamente o seu confronto); ele deve permitir também, de maneira mais geral, remontar à articulação entre a arte e o pensamento. Ou, mais precisamente, entre a “arte” e o implícito de nossos modos de pensar. Ele revela escolhas enterradas em nossa mente, ou que havíamos esquecido. Aquele que creiamos tão convencional – o nu acadêmico – eis que de repente nos encara por meio de sua ausência, remetendo à sua impossibilidade, aquilo que comumente concebemos como a “representação”. Tão comumente, aliás, que esse termo acabou por não nos dizer mais nada; mas o que o nu colocou em foco – e que a China nos revela indiretamente – nos devolve o controle sobre ele; assim, o nu não deixa de nos interrogar sobre o que pensamos, mas de maneira implícita, e sem poder questioná-lo, sobre a “forma”, ou o “ideal”, ou a “beleza”.
