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PROPENSÃO DAS COISAS

JULLIEN, François. La propension des choses: pour une histoire de l’efficacité en Chine. Paris: Éd. du Seuil, 1992.

Introdução

  • A dicotomia entre disposição estática e força dinâmica das coisas é uma abstração útil mas insuficiente, pois condena ao impensado teórico o que existe mais efetivamente — o entre-dois.
    • De um lado pensa-se a disposição das coisas — condição, configuração, estrutura; do outro, o que é força e movimento.
    • A questão reprimida pelo aparato lógico retorna sem cessar: como pensar o dinamismo através da própria disposição, ou como toda situação pode ser percebida ao mesmo tempo como curso das coisas?
  • Um termo chinês — che — serve de fio condutor para pensar o que escapa à dicotomia estático-dinâmico, sendo ele próprio fonte de embaraço e origem deste livro.
    • Che (shi em pinyin) deriva do mesmo ideograma que yi, representando uma mão segurando algo — símbolo de potência ao qual foi acrescentado o radical diacrítico da força; o que é assim sustentado é interpretado por Xu Shen como um torrão de terra, símbolo de posição.
    • Os dicionários traduzem o termo tanto por “posição” ou “circunstâncias” quanto por “poder” ou “potencial”.
    • Tradutores e exegetas, salvo no domínio político, compensam sua imprecisão com notas de rodapé que se limitam a registrar a polissemia — como se se tratasse de mais uma das imprecisões do pensamento chinês, supostamente pouco rigoroso.
    • Forjado para as necessidades da estratégia e da política, glosado quase exclusivamente por imagens recorrentes, o termo não possui a consistência de uma noção propriamente filosófica — tal como a filosofia grega estabeleceu como exigência.
    • É precisamente a ambivalência do termo que se revela atraente: por oscilar ostensivamente entre o estatismo e o dinamismo, oferece um fio a seguir para deslizar por trás da oposição de planos na qual a análise da realidade tende a se encerrar.
    • Che corresponde espacialmente ao termo che — tempo, tomado no sentido de oportunidade ou ocasião — e os dois chegam a ser escritos um pelo outro.
  • O termo che, embora escape a uma interpretação unívoca, desempenha papel determinante na articulação do pensamento chinês — e a aposta inicial deste livro é a de que sua lógica possa ser descrita com coerência e iluminar algo além da própria tradição chinesa.
    • Sua função é discreta, raramente codificada e muito pouco comentada, mas subjaz e fundamenta algumas das reflexões mais importantes do pensamento chinês.
    • A lógica do termo não deve iluminar apenas o pensamento chinês — que, desde as origens, dedicou-se a pensar o real em transformação — mas também o que o discurso em geral pouco alcança: a eficácia que não tem origem na iniciativa humana, mas resulta da disposição das coisas.
  • A investigação conduzida através do termo che percorre campos aparentemente díspares — da estratégia à política, da calligrafia à pintura, da teoria literária à filosofia primeira — revelando convergências que atravessam toda a tradição chinesa.
    • O percurso considera sucessivamente: o “potencial que nasce da disposição” na estratégia; o caráter determinante da “posição” hierárquica na política; a força em ação através da forma do ideograma caligrafiado; a tensão que emana da disposição na pintura; o efeito que ressalta do dispositivo textual na literatura; e a propensão que rege o grande processo da natureza.
    • Temas comuns emergem: a potencialidade em ação na configuração — seja a disposição dos exércitos, do ideograma ou da paisagem pintada; a bipolaridade funcional — entre soberano e súditos, entre alto e baixo na representação estética, entre “Céu” e “Terra” como princípios cósmicos; e a tendência engendrada espontaneamente por simples interação, desenvolvendo-se por alternância.
    • Questões de interesse geral surgem: por que a reflexão estratégica na China antiga recusa as qualidades pessoais — como a coragem dos combatentes ou a moralidade do governante — para atingir o resultado fixado? O que constitui, aos olhos dos chineses, a beleza de um traçado de escrita? Por que os chineses não precisam postular a existência de Deus para justificar a realidade?
    • Coloca-se a questão de se ainda é possível falar simplesmente de “tradição” — dado que, desde Michel Foucault, uma corrente importante da reflexão sobre as ciências humanas tornou suspeita tal representação.
    • O ponto de vista de exterioridade em relação à cultura chinesa — a “heterotopia” evocada por Foucault no início de As Palavras e as Coisas — permite perceber, por comparação, modos de permanência e homogeneidade que não aparecem tão nitidamente ao olhar interior.
    • A segunda aposta deste livro é a de que o termo che, decepcionante do ponto de vista de uma história nocional, é precioso como revelador da intuição de base da tradição chinesa: a realidade — toda realidade — concebida como um dispositivo sobre o qual é preciso apoiar-se e fazer operar, explorando estrategicamente a propensão que dele emana.
  • A intuição de eficácia subjacente ao termo che é demasiado difusa para ser refletida abstratamente e permanece como fundo de entendimento implícito na língua — e o esforço deste livro é desenvolvê-la em teoria a partir desse silêncio.
    • Sempre em recuo em relação às explicitações do discurso, essa intuição não aflora completamente em nenhum termo particular, mas o termo che a deixa entrever — em passagem significativa — a partir de seu domínio próprio: não a exprime sozinho, mas permite detectar sua presença e identificar sua lógica.
    • Para iniciar o diálogo, é necessário descentrar a visão, atacar de viés, recorrer a conceptualizações que — até aqui secundárias — oferecem um novo ponto de partida possível: os termos “dispositivo” e “propensão”, tomados à borda da própria língua filosófica, fixam o quadro nocional a partir do qual acolher, progressivamente, a diferença em jogo.
  • O confronto com a tradição chinesa coloca em questão categorias fundamentais do pensamento ocidental — meio a fim, causa a efeito — e revela os a priori mentais da filosofia europeia.
    • A originalidade dos chineses, em relação ao desenvolvimento do pensamento ocidental, está em não terem sido preocupados com nenhum télos como desfecho das coisas, interpretando a realidade unicamente a partir de sua lógica interna.
    • É necessário abandonar o preconceito hegeliano segundo o qual o pensamento chinês teria permanecido na “infância” por não ter evoluído do ponto de vista cosmológico para os estágios supostamente superiores da “ontologia” ou da “teologia”.
    • A filosofia ocidental se apoiou na hipótese e na probabilidade em vez da automaticidade, privilegiou uma polarização única e “transcendente” em vez da interdependência e reciprocidade, e valorizou a liberdade em vez da espontaneidade.
  • A excursão pela cultura chinesa visa medir o condicionamento exercido pela língua indo-europeia, pela razão especulativa e por uma expectativa particular de “verdade” — não por fascínio exótico, mas para renovar o impulso da reflexão.
    • Ao lado das questões que se pode formular, há também tudo aquilo a partir do que se interroga e que, por isso mesmo, não se está em condição de interrogar — esse fundo do pensamento tecido pela língua, informado pelos recortes implícitos da razão.
    • O desvio pela China não serve à má consciência ocidental nem aos novos dogmas do relativismo cultural — simples reverso do etnocentrismo —, mas permite remontar mais alto na apreensão das coisas e renovar — com ímpeto, quem sabe alegre — o questionamento filosófico.
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