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FORMAS DO UNIVERSO

MVM

  • Os Símbolos do Verbo, em sua extrema generalização, podem parecer mais vagos do que abstratos, mas seu esplendor se manifesta apenas quando provocado pela consulta ao texto geral em vista de uma adaptação particular e precisa, sendo possível iluminar imediatamente o Khien e o símbolo da marcha dos Dragões pelo estudo da fórmula tetragramática que o príncipe Wenwang, genro de Fohi, instaurou à frente do Yiking, sob o próprio ideograma do Khien.
    • Wenwang é identificado como genro de Fohi e como o responsável pela inserção do tetragrama no Yiking.
  • O tetragrama de Wenwang oferece, com forte concisão, a chave do fenomenismo universal convencionalmente chamado de criação do mundo — denominação que prepara, nas raças que a empregam, uma inconsciente petição de princípios e uma incontável quantidade de dificuldades metafísicas e lógicas, sintoma característico do estado do cérebro ariano deformado pelo influxo semítico.
    • A palavra criação, ao enunciar um fato (a saída do nada), acarreta dificuldades metafísicas e lógicas que o tetragrama evita.
    • A deformação do pensamento ariano pelo influxo semítico é mencionada como causa do uso acrítico do termo criação.
  • O tetragrama de Wenwang não nega nem afirma o fato em si mesmo — pois a realização ou não realização material da ideia importa muito pouco à tradição —, situando o evento fora do tempo e do espaço, retirando-lhe toda objetividade e mantendo-o no domínio da ideia pura e da lógica metafísica.
    • O tetragrama preserva o evento cosmogônico no plano da ideia pura, sem comprometê-lo com qualquer objetividade temporal ou espacial.
  • Todas as cosmogonias, inclusive a sinaitica, poderiam resumir-se em uma única doutrina se não se arrastasse, ao plano da criação universal, o antropomorfismo que sujou o plano divino, instalando o materialismo mais concreto no coração das religiões modernas sob o pretexto de render homenagem a um criador humanizado.
    • O antropomorfismo religioso é identificado como a fonte do materialismo introduzido nas religiões modernas do Ocidente.
  • É necessário esquecer a mediocridade convencional com que foi embalada a infância das nações ocidentais, pois seguindo esse conselho, o estudo da subida dos Dragões através dos Grafismos de Deus renderá os maiores frutos, e se estará preparado para apreender, em todo o seu abstrato metafísico, o tetragrama de Wenwang — a causa inicial, a modificação e a transformação final do Universo.
    • O abandono da mediocridade convencional ocidental é condição para a apreensão plena do tetragrama de Wenwang.
  • O tetragrama possui ainda outro alcance de igual importância: é do tetragrama de Wenwang, da própria medula do Yiking, que todo o taoísmo é oriundo, sendo Wenwang o Precursor de Laotse, e toda a cosmogonia taoísta estando contida no tetragrama.
    • Wenwang é declarado Precursor de Laotse.
    • Laotse é mencionado como o grande sistematizador do taoísmo, cuja doutrina tem raízes no tetragrama de Wenwang.
    • O Tao, já encontrado anteriormente sob a forma de hierograma misterioso, deve ser entendido como a série, a soma e o resultado de todas as modificações do Universo — ou os diversos estados do Khien manifestado, independentemente de quaisquer relações objetivas.
  • O tetragrama ideogramático de Wenwang — Uyan: Heng: Li: Tsheng — enuncia causa inicial, liberdade, bem, perfeição, e o Yiking acrescenta o comentário tradicional: “Quão grande é a causa inicial da atividade! Todas as coisas lhe devem o começo de seu éter constitutivo; isso é todo o céu. As nuvens marcham; a chuva estende seu efeito; os germes dos seres se perpetuam na forma. A vida universal age em um movimento sem fim. O fim e o começo são iluminados por uma grande luz. A via é a modificação e a transformação: cada coisa se conforma exatamente à sua natureza e ao seu destino, e mantém, ao acordar-se com ela, a extrema harmonia; eis o bem e a perfeição”.
    • A tradição explicativa dos arcanos do tetragrama é obra de Tsheoukong, filho de Wenwang, recolhida e codificada por Tsheng-tse e por Tsouhi.
    • A qualidade objetivamente predominante do Khien é a atividade, da qual irradiam energia e vontade, graças às quais o Ser começa a mostrar que existe.
  • A fórmula determinativa do tetragrama, em seus quatro ideogramas, manifesta e acompanha o Universo desde o germe-vontade que foi sua Gênese até seu pleno florescimento, segundo quatro momentos: a causa voluntária (começo) de todos os seres; a possibilidade de criação (crescimento) de todos os seres; a faculdade de satisfação (ação) das condições de todos os seres; e o desenvolvimento normal e perfeito (evolução) de todos os seres.
    • Os quatro ideogramas abrem e fecham sobre si mesmos os ciclos do Universo.
    • Esses quatro ideogramas têm expressão sigilar plana no símbolo gráfico do Yin-yang (Taiky ou Grande Extremo), cuja explicação é reservada ao capítulo sobre a condição humana.
  • Os quatro estados do tetragrama são chamados qualidades da substância do Khien — qualidades inteiramente inerentes e integrantes à entidade da substância, diferindo assim do sentido ocidental atribuído à palavra qualidade —, sendo que, segundo o excelente método chinês, essa qualidade integrante é tomada como a própria substância e com ela se identifica, ao menos momentaneamente, para facilidade da compreensão.
    • A identidade entre qualidade e substância é declarada de justeza absoluta no sistema chinês.
    • Tradução em linguagem ordinária dos ideogramas: causa inicial, liberdade, bem, perfeição.
  • A Causa inicial da Perfeição (Khien-uyan) é, segundo Tsouhi, o Grande Princípio de que decorre a virtude do céu, sendo nela potencialmente incluídas a Vontade e a Força; o princípio sendo ativo, a possibilidade do nascimento de todos os seres constitui seu poder e sua grandeza, e essa grandeza constitui o começo — que é o princípio de causalidade, primeira manifestação da Perfeição, gênese de tudo e especialmente dos três termos seguintes do tetragrama, bem como a Causa Universal em sua grandeza eficiente.
    • Da causa inicial decorrem potencialmente todos os universos, nela contidos em germe.
    • Pressionando esses dois princípios um contra o outro, deduz-se a impossibilidade metafísica da existência do mal em si — apenas multiplicações, divisibilidades e divisões, de onde resultam insuficiências, obscurações objetivas e ausências relativas, mas nenhum mal como princípio.
  • A concepção do mal é a concepção-tipo do estado insuficiente de consciência humana, pois o mal não existe senão pela ideia que dele se faz e pela crença que lhe é dada — existindo apenas em nós —, sendo que o mal relativo é visto onde se é incapaz de ver um elo na cadeia do Bem universal; toda erronia decorre da insuficiência e da incapacidade, que por sua vez decorrem da relatividade, da forma, da divisão analítica e da multiplicidade dos seres.
    • A concepção do mal resulta de atribuir inconscientemente ao objetivo e às relatividades o caráter e as funções do subjetivo e do absoluto.
    • Com o desaparecimento do dualismo, desaparecem todos os sistemas inventados para abolir o mal e todas as repressões celestes imaginadas para puni-lo.
  • Aplicada à humanidade existente, a causa inicial é a Ideia de Vida, princípio pelo qual os seres são engendrados — e segundo Tsouhi, a ideia de vida é precisamente a humanidade (Gen) no sentido de solidariedade da espécie —, sendo o Gen o termo mais repetido mesmo na conversação ordinária, implicando a comunidade e a perpetuidade da existência dos seres.
    • Tsouhi define: “A ideia de vida é precisamente a humanidade (Gen) no sentido de solidariedade da espécie”.
    • Todos os que percorreram a China observam com espanto a presença dessa noção impessoal e contrária ao individualismo no espírito de todos os chineses.
  • O povo amarelo extraiu da noção de Gen sua consequência imediata mais elevada — a solidariedade humana —, cujos preceitos fraternais são diária e universalmente aplicados como o primeiro e o mais natural dos deveres, fazendo com que de um dogma metafísico, descido ao plano psicológico e posto em prática no plano social, decorram a prosperidade relativa e a estável fecundidade do povo e das instituições.
    • A prática cotidiana da solidariedade tornou-se hábito e necessidade, constituindo uma resolução original, simples e perfeita das questões sociais que perturbam inconsideradamente o Ocidente contemporâneo.
  • A Tradição enuncia: “Se, em face da Ideia de vida, se apresentam os males alheios, a piedade surge imediatamente; se se trata da repulsa que o vício inspira, o dever se eleva; se se trata da modéstia, é a boa conduta e a obediência aos Ritos; se se trata do prós e contras, é a Razão.”
    • A conduta geral do povo e dos cidadãos é deduzida das necessidades relativas da existência e da coabitação dos seres, aplicando-se o mesmo princípio que se transmuta, segundo cada particularismo, em qualidades especiais com base na virtude do tetragrama.
    • Do Gen (ou Khien-uyan social) colocado em face dos estados da vida humana dependem o nascimento e o exercício das qualidades que tornam o homem bom, isto é, feliz.
  • O segundo termo do tetragrama (heng) exprime a liberdade da ação do céu — os seres começam a entrar na corrente da forma, passando da existência uniforme às existências multiformes —, sendo que a existência informal, que é precisamente a perfeição e a eternidade, não é aqui mencionada porque não pode ser mencionada senão na perfeição.
    • A raiz do Universo é eterna e inelutável; tudo o que existe, existe fora das formas; tudo o que é imortal é eterno — axioma que o texto declara obscurecido e desconhecido com frequência.
    • A liberdade (heng) representa o instante da vontade criadora que precede imediatamente o instante da criação efetiva — humanamente impalpável, mas necessário à lógica dos conceitos.
  • Uma comparação grosseira ilustra o valor do símbolo: a água de um canal retida por uma comporta, ao ser subitamente aberta, passa por um instante imperceptível e fugitivo em que não está mais em equilíbrio mas ainda não cai — e esse instante constitui, no tetragrama da Formação do Universo, a Liberdade (heng) entre a potencialidade da vontade criadora e o aparecimento das formas.
    • No plano metafísico, esse instante — que é simultaneamente um lugar geométrico e um estado de consciência universal — é ilimitado, parecendo curto e tênue apenas porque a força que o preenche é ininteligível aos sentidos humanos.
  • O terceiro termo (li) e o quarto termo (tsheng) do tetragrama — bem e perfeição — são imediatamente conexos: o terceiro exprime a modificação que a forma traz aos seres, e o quarto exprime a vantagem que deve resultar dessa modificação para aqueles que se conformam cada um à sua via — sendo que, segundo Tsouhi, “a via da autoridade é a modificação e a transformação progressiva; a transformação é o acabamento perfeito da modificação”.
    • Tsouhi enuncia: “A via da autoridade é a modificação e a transformação progressiva; a transformação é o acabamento perfeito da modificação”.
    • Antes do terceiro termo, a criação em estado volitivo era identificada ao Ser e não saída dele; após o terceiro termo, é sempre o Ser (Khien), mas escoado na corrente das formas e nos diferentes seres conhecidos.
  • Segundo Tsouhi, “a obra da criação é a razão de ser da vida” — mas a vida não é corolário inevitável e sim apenas uma variedade, um acidente da criação, pois o ato de criação não comporta essencialmente o de dar a vida; dar a vida é uma tradução grosseira de criar a forma, sendo a vida apenas uma das inúmeras formas da criação (modificações), de modo que a criação não compreende somente os seres vivos, mas também todos os não-vivos, isto é, todas as formas.
    • Tsouhi enuncia: “A obra da criação é a razão de ser da vida”.
    • A consciência não é de modo algum inerente à vida — observação registrada como passageira mas relevante.
    • Edgar Allan Poe é mencionado em nota como intuitivo ocidental que enuncia: “E o mal chamado viver está enfim vencido”.
  • O sábio Shipingweng expressou de modo preciso, raro no Extremo Oriente, a obra inteira compreendida no tetragrama: “A modificação é o mecanismo que produz todos os seres; a transformação é o mecanismo no qual todos os seres se absorvem” — e nisto consiste toda a gênese oriental: não há criação no sentido mecânico e material, mas produção dos seres por modificação do Ser, sendo a modificação o momento presente e a transformação o retorno dos seres em modificação ao Ser immodificado.
    • Shipingweng enuncia: “A modificação é o mecanismo que produz todos os seres; a transformação é o mecanismo no qual todos os seres se absorvem”.
    • A via do céu compreende simultaneamente a emissão nas formas e o retorno fora das formas.
  • Do ponto de vista humano, a morte é um dos momentos da criação, sem que se possa afirmar se é o vestíbulo da transformação ou apenas uma modificação que, na sequência normal da atividade, segue imediatamente a modificação da vida.
    • O ponto de vista da marcha segundo a vontade do céu estabelece o princípio da involução e da evolução no sentido de viagem para fora e retorno para dentro pela corrente das formas, cuja fonte e foz se confundem.
  • Modificação e transformação comportam, desde a emissão da vontade do céu, todos os fenômenos materiais ou imateriais da criação; e a sequência normal das modificações e transformações produz a perfeição (quarto termo), de modo que o quarto termo é a emanação imediata e como iminente do terceiro termo não impedido — o que significa que, ao plano humano, basta ao homem desenvolver-se segundo sua via para que a felicidade sobrevenha.
    • Os dois últimos termos da fórmula são intimamente ligados e devem ser estudados juntos.
  • Após o acabamento perfeito da transformação e a absorção das modificações, há retorno ao começo da fórmula — ou seja, ao estado anterior à causa inicial —, e todos os seres retornando à Perfeição ativa (Khien), a Via que fez atravessar os termos da fórmula existe sempre e existirá eternamente, implicando partida em um novo ciclo; mas em nenhum lugar está dito que os mesmos seres devem escoar-se na mesma parte da corrente das formas.
    • Traduzida ao plano humano: as formas subsistem, modificadas e transformadas pelo mesmo mecanismo, mas os seres formais não podem prevalecer-se de suas formas passadas ou presentes para prever suas formas futuras.
    • A essência subsiste una, sob aparências diversas, na eterna sucessão dos ciclos, como era una antes que a causa inicial abrisse às formas do Universo as portas da Via.
  • Levando a fórmula matematicamente até o fim, concebe-se a transformação como um último ciclo que os quatro termos do tetragrama percorrem sem sair absolutamente do seio da Perfeição — e assim se toca a verdade total sobre os destinos finais do Universo e da Humanidade, aplicação suprema e triunfante da Tradição Primordial.
    • A Tradição Primordial é mencionada como o horizonte último ao qual o tetragrama remete em sua aplicação mais elevada.
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