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TEMPO

TIME AND EASTERN MAN. The Henry Myers Lecture 1964. JOSEPH NEEDHAM F.R.S. Royal Anthropological Institute of Great Britain & Ireland, 1965

I — O Tempo na Filosofia Chinesa e na Filosofia Natural

  • O tempo e seu conteúdo eram objeto frequente de discussão e especulação nas escolas filosóficas do período dos Estados Combatentes (século IV a.C.), contemporâneas de Aristóteles, e a expressão atualmente usada para designar “o universo”, yu-chou, carrega essencialmente o significado de “espaço-tempo”
    • O período dos Estados Combatentes situa-se aproximadamente no século IV a.C.
    • Aristóteles é mencionado como contemporâneo dessas escolas
    • O termo yu-chou compõe-se de dois caracteres: yu (espaço) e chou (tempo)
    • Trecho do Huai Nan Tzu, capítulo 11, datado de aproximadamente 120 a.C.: “Todo o tempo que passou desde a antiguidade até agora é chamado chou; todo o espaço em cada direção, acima e abaixo, é chamado yu. O Tao (a Ordem da Natureza) está dentro deles, porém nenhum homem pode dizer onde ele habita.”
  • O significado original de ambos os termos antigos era “teto” — de casa, carroça ou barco —, de modo que a significação semântica é a de algo que se estende sobre uma extensão para cobri-la, e a palavra para duração (chiu) é explicada pelos lexicógrafos da dinastia Han como derivada do caractere jen, o homem que estende as pernas e caminha “um trecho”, tal como um teto se estende sobre um espaço e o tempo se estende de um evento a outro
    • Os lexicógrafos da dinastia Han são mencionados como fonte dessa etimologia
    • O caractere jen representa o homem em movimento, metáfora da extensão temporal
  • Definições notáveis de tempo e espaço são encontradas nos escritos transmitidos pela escola Moísta (Mo Chia), seguidores de Mo Ti, o grupo de pensadores chineses antigos mais interessado na filosofia da matemática e da ciência, cujo livro Mo Tzu é de datas distintas
    • Mo Ti floresceu entre 479 e 381 a.C.
    • A escola Moísta é designada Mo Chia
    • O Mo Tzu divide-se em partes de épocas distintas: a exposição sistemática da doutrina de Mo Ti, incluindo o amor universal (chien ai), não pode ser muito posterior a 400 a.C.
    • Os Cânones e suas Exposições — corpus de definições acompanhadas de comentário — datam de aproximadamente 300 a.C.
    • Os capítulos tecnológicos situam-se dentro de meio século após essa data
    • Marcel Granet é mencionado como estudioso que apenas tangenciou o tema em La Pensée Chinoise (Renaissance, Paris, 1934), pp. 90 ss., sobretudo a partir de fontes não filosóficas
  • A duração (chiu), segundo o Cânone Moísta, abrange todos os tempos particulares (shih), e a Exposição esclarece que tempos passados, o tempo presente, a manhã e a tarde se combinam para constituir a duração
    • O termo chiu designa duração em sentido abrangente
    • O termo shih designa os tempos particulares ou específicos
    • Essa definição é comparada à definição absolutista do tempo proposta por Estratão de Lâmpsaco (fl. 300 a.C.), discípulo de Aristóteles, e antecipa a posição de Newton contra Leibniz
    • A referência à obra Science and Civilisation in China, de J. Needham et al., 7 vols. (Cambridge University Press, 1954—), abreviada como SCC, vol. 4, pt. 1, p. 2, é indicada como paralelo
  • O espaço (yu), conforme o Cânone Moísta, abrange todos os lugares diferentes (so), e a Exposição afirma que leste, oeste, sul e norte estão todos encerrados no espaço; já o movimento no espaço, segundo outro Cânone, não permite dizer em sentido absoluto se um objeto se aproxima ou se afasta, sendo necessário estabelecer coordenadas por medição de passos (fu)
    • O termo yu designa o espaço
    • O termo so designa os lugares particulares
    • O termo fu refere-se ao procedimento de estabelecer coordenadas por passos
    • O termo chhü designa um distrito ou região específica
    • A definição absolutista do espaço por Estratão de Lâmpsaco é citada como paralelo (Simplício, Phys., 618. 20), seguida por João Filópono (século VI d.C., Phys., 567. 29)
  • O movimento no espaço exige duração, pois o deslocamento de um observador parte sempre do que está mais próximo em direção ao que está mais distante, sendo que o próximo e o distante constituem o espaço, e o anterior e o posterior constituem a duração
    • O termo hsien hou designa o “anterior e posterior”
    • Alfred Forke é mencionado como aquele que observou que o movimento conduz geneticamente à ideia tanto de tempo quanto de espaço
    • Aristóteles é citado: “o movimento é o assento objetivo do antes e do depois” (Physica, IV, 11)
    • Aristóteles é caracterizado como relacionista quanto ao tempo, ao passo que os Moístas não partilhavam dessa posição
  • O movimento, como assinalado por Forke, conduziu geneticamente à ideia de tempo e de espaço, pois as distâncias deixadas para trás por um corpo em deslocamento constituem o espaço, e as mudanças de posição de um corpo observado em movimento — como o sol ou a lua — despertam a concepção de tempo, além de o ser humano, como todos os animais e plantas, possuir seus próprios relógios biológicos internos, sensíveis às necessidades intrínsecas e ao ciclo rítmico de luz e escuridão
    • Forke é o estudioso mencionado como fonte dessa observação
  • Um grande debate entre os filósofos do século IV a.C. girava em torno da relatividade e do infinito, sob a influência de Hui Shih, da Escola dos Lógicos (Ming Chia), cujos paradoxos se assemelham aos paradoxos eleáticos da Grécia
    • Hui Shih é o principal nome mencionado da Escola dos Lógicos
    • A escola é designada Ming Chia
    • Hui Shih afirmou: “O sol ao meio-dia é o sol a declinar; a criatura que nasce é a criatura que morre.”
    • Hui Shih afirmou também: “Partindo hoje para o Estado de Yüeh, chega-se lá ontem.”
    • Os Moístas sustentavam não apenas que o tempo passava constantemente de um momento a outro, mas também que as localizações particulares no espaço mudavam constantemente — o que pode indicar o reconhecimento do movimento da Terra
  • Os Moístas anteciparam algo próximo ao que hoje se designa como continuum espaço-tempo universal, dentro do qual coexiste um número infinito de espaços-tempos locais, e conjecturaram que o universo se apresentaria de modo muito diferente a observadores distintos conforme suas posições no todo
    • O Cânone Moísta sobre espaço e tempo afirma: “Os limites do espaço (o universo espacial) estão constantemente se deslocando.”
    • A Exposição correspondente diz: “Há o Sul e o Norte de manhã, e novamente à tarde. O espaço, porém, há muito mudou de lugar.”
    • Outro Cânone afirma: “As posições espaciais são nomes para aquilo que já é passado.”
    • A Exposição esclarece: “Sabendo que 'isto' não é mais 'isto', e que 'isto' não está mais 'aqui', ainda assim chamamos de Norte e Sul. Ou seja, o que já passou é tratado como se ainda estivesse presente.”
    • Boeto (fl. 50 a.C.) é mencionado como paralelo pela observação de que movimento e repouso têm em comum a mudança da variável independente do tempo
    • Estratão de Lâmpsaco é citado na observação de que o repouso é movimento ao longo do eixo do tempo
  • O debate sobre o infinito e o infinitamente pequeno era recorrente, com paradoxos da escola de Hui Shih semelhantes aos de Zenão sobre o atomismo, e um trecho notável do livro Lieh Tzu apresenta, sob a forma de diálogo entre personagens semi-imaginários, uma discussão sobre os limites do tempo e do espaço
    • O livro Lieh Tzu não foi definitivamente concluído antes de aproximadamente 380 d.C., mas contém muito material dos períodos dos Estados Combatentes, Qin e Han (a partir do século IV a.C.)
    • Zenão é mencionado como paralelo grego dos paradoxos de Hui Shih
    • Thang (o Rei Supremo) da dinastia Shang e Hsia Chi são os personagens do diálogo
    • R. Wilhelm e A. C. Graham são citados como fontes de interpretação para a tradução do capítulo 5 do Lieh Tzu
    • Hsia Chi responde sobre as origens das coisas: “Os fins e as origens das coisas não têm limite a partir do qual tenham começado. A origem de uma coisa pode ser considerada o fim de outra; o fim de uma pode ser considerada a origem da seguinte. Quem pode distinguir com precisão entre esses ciclos? O que está além de todas as coisas, e antes de todos os eventos, não podemos saber.”
    • Sobre o espaço, Hsia Chi responde: “Se não têm limites, pode existir um infinitamente grande. Se os têm, deve existir um indivisivelmente pequeno. Como podemos saber? Se além do infinito existisse um não-infinito, se dentro do infinitamente divisível existisse um indivisível, então o infinito não seria infinito, e o infinitamente divisível conteria um indivisível. É por isso que posso compreender o infinito e o infinitamente divisível, mas não posso compreender o finito e o indivisível.”
  • Um trecho adicional do mesmo capítulo do Lieh Tzu aponta a relatividade do tempo tal como deve parecer a diferentes seres vivos, mediante as imensas variações dos períodos de vida de plantas e animais, e o livro Chuang Tzu enuncia que a existência real do homem nada tem a ver com a localização no espaço, nem sua duração real com começo ou fim no tempo
    • O Chuang Tzu, capítulo 23, é citado na tradução de Legge (vol. 2, p. 85): “O homem tem uma existência real, mas ela nada tem a ver com a localização no espaço; ele tem uma duração real, mas ela nada tem a ver com começo ou fim no tempo.”
    • Hsia Chi é o personagem do Lieh Tzu que desenvolve o argumento sobre a relatividade temporal para diferentes criaturas
  • Embora Hsia Chi favorecesse um continuum espaço-temporal infinito, os Moístas tendiam mais ao atomismo, pelo menos no que diz respeito à definição do ponto geométrico e do instante de tempo, definindo o começo (shih) como um instante de tempo sem duração
    • O Cânone Moísta afirma: “O começo (shih) significa (um instante de) tempo.”
    • A Exposição esclarece: “O tempo às vezes tem duração (chiu) e às vezes não, pois o ponto 'inicial' do tempo não tem duração.”
    • Há paralelos indianos e semíticos para essa concepção, embora não seja historicamente provável que tenham influenciado os Moístas
  • Apesar do atomismo moísta quanto ao instante, o atomismo no sentido físico-químico jamais desempenhou papel relevante no pensamento científico tradicional chinês, que estava comprometido com as ideias do continuum e da ação à distância
    • J. Needham e K. Robinson são mencionados como autores do estudo “Ondes et Particules dans la Pensée Scientifique Chinoise”, Sciences, 1960
  • O avanço das concepções moístas e dos lógicos pode ser apreciado em comparação com o pensamento científico dos gregos, pois os Moístas estavam muito próximos de formular a “dependência funcional” na relação do movimento com o tempo, algo que os Estoicos, os Peripatéticos e mesmo Galileu só alcançariam posteriormente
    • Os Estoicos desenvolveram os primeiros esboços de uma lógica multivalorada e captaram um dos elementos do conceito de função — a variável contínua —, mas não puderam pensar o tempo como variável independente
    • Os Peripatéticos concebiam o tempo como cíclico e não linear, sendo incapazes de tratá-lo como coordenada que se estende ao infinito a partir de um zero arbitrário
    • Galileu é mencionado como aquele que, na modernidade, tratou o tempo como dimensão geométrica matematicamente manejável
    • A descrição do movimento pela geometria analítica como mudança de lugar dependente funcionalmente do tempo teve de aguardar a matematização da física no Renascimento
    • S. Sambursky é citado como fonte sobre o pensamento científico grego: The Physical World of the Greeks (Routledge & Kegan Paul, Londres, 1956) e The Physical World of Late Antiquity (Routledge & Kegan Paul, Londres, 1962)
    • Para a maioria dos Peripatéticos havia algo de irreal no tempo — posição seguida pelos neoplatônicos
    • Na China, as escolas budistas compartilhavam essa convicção como parte de sua doutrina geral do mundo como ilusão, ao passo que os filósofos chineses autóctones nunca o fizeram
    • A questão de por que a escola moísta não se desenvolveu na sociedade chinesa posterior é apontada como um dos grandes problemas que apenas uma sociologia da ciência pode responder
  • Os Moístas também discutiram a causalidade, distinguindo entre condição necessária (causa menor) e causa eficiente (causa maior), sendo a primeira aquela sem a qual algo nunca ocorre, mas com a qual pode não ocorrer necessariamente, e a segunda aquela com a qual algo ocorre necessariamente
    • O Cânone Moísta define: “Uma causa (ku) é aquilo com cuja obtenção algo se torna (vem a ser, chheng).”
    • A Exposição esclarece: “Uma causa menor é aquela com a qual algo pode não ser necessariamente assim, mas sem a qual nunca o será. Por exemplo, um ponto em uma linha. Uma causa maior é aquela com a qual algo será necessariamente assim (pi jan) (e sem a qual nunca o será). Como no caso do ato de ver que resulta na visão.”
    • Essa distinção é comparada à competência de reagir a um estímulo na biologia moderna
  • Uma compreensão iluminada da relação entre causalidade e tempo está implícita em algumas das proposições moístas, mas nem sempre prevaleceu no pensamento chinês antigo, pois assim como os europeus medievais falavam de causas finais aristotélicas, no pensamento chinês a causalidade podia operar tanto para frente quanto para trás no tempo
    • M. Granet é citado pelo estudo do incidente datado em 621 a.C., em Danses et Légendes de la Chine Ancienne (Alcan, Paris, 2 vols., 1926), vol. 1, pp. 104 ss.
    • O Shih Chi, capítulo 5, é mencionado como fonte do exemplo histórico
    • C. G. Jung é citado como estudioso das concepções não convencionais de causalidade na filosofia natural chinesa, como a “causalidade reticular” e a “causalidade sincrônica”
    • N. R. Hanson é mencionado pelo artigo “Causal Chains”, Mind, 1955, 64, 289
    • Na filosofia natural primária da China havia espaço para ideias de causalidade em que um evento causal poderia não ser estritamente anterior ao seu efeito, produzindo-o antes por uma espécie de ressonância absolutamente simultânea
    • Embora essa concepção fosse congruente com a tendência organicista do pensamento científico e filosófico chinês, ela nunca foi elaborada de modo muito sistemático
  • A escola confuciana antiga, sempre ocupada com os assuntos humanos, não se interessava por essas especulações e as desaprovava, e o tempo entrava em suas considerações apenas em relação aos momentos propícios para a ação do sábio na sociedade, sendo a “média” ou “norma” (chung) o guia para a emoção e a ação
    • A obra Chung Yung (Doutrina do Meio) é citada como fonte do conceito de “média oportuna” (shih chung)
    • O livro I Ching (Livro das Mutações) é mencionado como texto em que o conceito de oportunidade correta é muito proeminente
    • Feng Yu-Lan é citado como autor de History of Chinese Philosophy (Allen & Unwin, Londres, 1937), vol. 1, pp. 371, 391
    • O conceito de shih chung é comparado ao idios kairos dos escritores cristãos primitivos — o momento apropriado ou decisivo para a ação, divina ou humana
    • A escola neoconfuciana da Idade Média tinha uma abordagem inteiramente diferente
  • Os pensadores escolásticos neoconfucianos dos séculos XI a XIII tinham conhecimento das especulações moístas e taoístas antigas, bem como das numerosas filosofias do budismo, e adotaram ecleticamente o que convinha a sua nova síntese, sendo que a maioria aceitava o tempo como real, objetivo e infinito
    • Shao Yung (1011—1077) é mencionado como exemplo de neoconfuciano que aceitava o tempo como real, objetivo e infinito
    • Shao Po-Wen (1057—1137), filho de Shao Yung, considerava o tempo subjetivo, pois para o Tao eterno não poderia haver passado, presente ou futuro
    • A. Forke é citado como fonte: Geschichte d. neueren chinesischen Philosophie (Friederichsen & de Gruyter, Hamburgo, 1938), p. 42
    • O estudioso Ming Tung Ku é mencionado pela resposta de que o tempo poderia ter um começo se falado em termos de um único período mundial (yuan), mas não se tratado da cadeia interminável de todos os períodos mundiais
  • A mentalidade cíclica dos taoístas era extraordinária — nada mais marcante do que sua apreciação da mudança cíclica —, pois o retorno é o movimento característico do Tao, e o próprio tempo (shih), segundo alguns, era gerado por essa circulação (yün) incriada, espontânea (tzu-jan) e incessante
    • O Tao Te Ching, capítulo 40, é citado: “O retorno é o movimento característico do Tao (a Ordem da Natureza).”
    • Marcel Granet escreveu: “A virtude típica do tempo é proceder por revolução.”
    • Fukunaga Mitsuji e Than Chieh-Fu são mencionados como fontes da formulação sobre o tempo gerado pela circulação espontânea
    • A natureza (thien) era concebida pelos taoístas como análoga aos ciclos de vida dos organismos vivos
    • O conceito de destino (ming) está associado às expressões shih-yün e shih-ming
    • Essa preocupação com os ciclos teve resultados interessantes quando o pensamento científico chinês reconheceu a existência de ciclos naturais — como o ciclo hidrológico meteorológico e a circulação do sangue e do pneuma no corpo humano e animal — por vezes antes de outras civilizações
    • Lu Gwei-Djen e J. Needham são mencionados pelo artigo “Medieval Preparations of Urinary Steroid Hormones”, Nature, 1963, 200, 1047
    • W. Pagel é citado pelo estudo “Giordano Bruno: the Philosophy of Circles and the Circular Movement of the Blood”, Journ. Hist. Med. & Allied Sci., 1951, 6, 116
    • P. Huard e Huang Kuang-Ming (M. Wong) são mencionados pelo artigo “La Notion de Cercle et la Science Chinoise”, Archives Internat. d'Hist. des Sciences, 1956, 9, 111
  • Uma questão importante é até que ponto os ciclos individuais, ou partes particulares de ciclos, eram compartimentalizados e separados uns dos outros em unidades discretas para os pensadores chineses antigos e medievais, tendo Granet concluído, em obra influente, que o tempo na concepção chinesa antiga era sempre dividido em períodos, trechos, blocos ou caixas separadas, à semelhança da diferenciação orgânica do espaço em extensões e domínios particulares
    • Marcel Granet é o autor mencionado e a obra é La Pensée Chinoise
    • Shih (tempo) parecia sempre implicar circunstâncias específicas, deveres e oportunidades específicos — um tempo essencialmente descontínuo, “embalado”
    • Granet denominava esse tempo de “litúrgico” por sua conexão com as cerimônias da religião cósmica imperial e com os rituais que marcavam os episódios das vidas familiares
    • Essa conclusão baseava-se não no estudo das escolas filosóficas já mencionadas, mas (à maneira de Granet) na mitologia, no folclore e na visão de mundo geral dos clássicos e de outros escritos antigos, incluindo a literatura dos períodos Qin e Han
    • Tsou Yen (fl. 350 a 270 a.C.) é mencionado como chefe da Escola Proto-científica dos Naturalistas (Yin Yang Chia) e o mais antigo dos Academistas de Chi-Hsia
    • Os Naturalistas elaboraram a teoria das duas forças naturais fundamentais — Yin e Yang —, a teoria dos cinco elementos e o sistema das correlações simbólicas, no qual um grande número de objetos e entidades era classificado em grupos de cinco em correspondência com os elementos Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água
    • As estações eram proeminentes nessa classificação, assim como as duplas-horas do dia e da noite
    • W. E. Soothill é citado pela obra The Hall of Light, a Study in Early Chinese Kinship (Lutterworth, Londres, 1951), pp. 30 ss., sobre os detalhes das vestimentas rituais do imperador conforme a estação
    • O sucesso ou fracasso na paz e na guerra poderia depender, acreditava-se, da adesão ao elemento apropriado e a todas as suas entidades correspondentes no sistema de correlação simbólica
    • Todo esse conjunto formou a visão de mundo primária chinesa sobre a qual se baseou a filosofia natural tradicional posterior de alquimistas, geomantes, farmacêuticos, ferreiros, tecelões e mestres artesãos ao longo dos séculos
  • Para os chineses antigos, o tempo não era um parâmetro abstrato, uma sucessão de momentos homogêneos, mas estava dividido em estações concretas e separadas e suas subdivisões, sendo a ideia de sucessão como tal subordinada à de alternância e interdependência
    • Granet, La Pensée Chinoise, pp. 329 ss., é citado como fonte para a subordinação da sucessão à alternância
    • Os chineses “preferiam ver no tempo um conjunto de eras, estações e épocas” (p. 86)
    • “O tempo e o espaço jamais foram concebidos separados de ações concretas” (p. 88)
    • Os chineses “decompunham todo o tempo em períodos assim como decompunham todo o espaço em regiões” (p. 96)
    • Os chineses “nunca se preocuparam em imaginar o tempo e o espaço como matrizes homogêneas adequadas para abrigar conceitos abstratos” (p. 113)
  • Essa conclusão era sem dúvida verdadeira, mas não contava toda a história, pois as teorias dos Naturalistas, embora amplamente aceitas, eram muito menos poderosas em alguns domínios da sociedade chinesa do que em outros, e o tempo compartimentalizado coexistia com o tempo contínuo no pensamento chinês
    • Os Moístas e os Lógicos jamais se interessaram pelas teorias dos Naturalistas
    • As teorias dos Naturalistas desempenharam papel relativamente pequeno na longa evolução da astronomia e da cosmologia
    • A recorrência cíclica presente na filosofia natural referia-se quase inteiramente aos ciclos das estações anuais, meses, dias e horas, e dos que se manifestam em organismos biológicos ou sociais
    • Os períodos astronômicos de longo prazo desempenhavam papel insignificante, e as concepções de “Grande Ano” eram inexistentes
    • As aplicações políticas da filosofia natural foram progressivamente questionadas — debates intensos sobre cor, notas musicais, sacrifícios etc. apropriados a uma determinada dinastia ocorreram nos períodos Qin e Han e ainda no século VI d.C., mas após isso o significado político das correlações simbólicas declinou continuamente
    • Cerca de 543 d.C., o grande ferreiro e metalurgista taoísta Chhiwu Huai-Wen, provavelmente o inventor do aço de cofusão, aconselhou o imperador Kao Tsu do Wei Oriental a mudar a cor das bandeiras da dinastia de vermelho para amarelo, de acordo com a teoria dos cinco elementos
    • G. J. Whitrow, Natural Philosophy of Time (Nelson, Londres e Edimburgo, 1961), p. 58, é mencionado como estudioso ocidental que concluiu equivocadamente que o tempo “embalado” descontínuo era o único tempo que os chineses conheciam
    • O tempo compartimentalizado era importante para algumas ciências e para a tecnologia; o tempo contínuo era importante para a história, a sociologia e também para a proto-arqueologia
  • Nesse ponto pode estar uma das chaves para responder à questão de por que a ciência moderna não se desenvolveu espontaneamente na China, pois na medida em que a filosofia natural tradicional estava comprometida com a concepção do tempo em compartimentos ou caixas separadas, talvez fosse mais difícil o surgimento de um Galileu que uniformizasse o tempo em uma coordenada geométrica abstrata, dimensão contínua passível de tratamento matemático
    • Galileu é mencionado como o pensador que tratou o tempo como coordenada geométrica abstrata e dimensão contínua matematicamente manejável
    • A astronomia chinesa, contudo, não exibia de modo proeminente essa compartimentalização do tempo — nenhuma revolução planetária particular era associada a um elemento ou cor
    • A invenção chinesa do mecanismo de relógio mecânico é mencionada como evidência de que não havia inibição por parte de ideias de fronteiras nítidas entre trechos de tempo
  • O cíclico não implica necessariamente o repetitivo nem o serialmente descontínuo, e o ciclo das estações no ano individual (annus) era apenas um elo (annulus) em uma cadeia infinita de duração, passada, presente e futura, medindo-se o tempo também em períodos sexagenários por meio de dois conjuntos entrelaçados de caracteres cíclicos, um de dez e outro de doze
    • Os períodos sexagenários eram usados para a contagem dos dias a partir do século XV a.C. e para a contagem dos anos a partir do século I a.C.
    • O termo hsün designa a “semana” de dez dias
    • Em uma civilização primariamente agrária, o conhecimento preciso dos tempos adequados para cada ação era essencial
  • Em uma civilização primariamente agrária, a promulgação do calendário luni-solar (li) na China era o dever cósmico numinoso do governante imperial (o Filho do Céu, Thien Tzu), e a aceitação do calendário constituía a demonstração de lealdade, de modo análogo à autoridade da imagem e inscrição do soberano na moeda de outras civilizações
    • O calendário luni-solar é designado pelo termo li
    • O imperador era denominado Filho do Céu (Thien Tzu)
    • Entre 370 a.C. e 1742 d.C., não menos de 100 “calendários” ou conjuntos de tabelas astronômicas foram produzidos, incorporando constantes de precisão crescente
    • Os ciclos metoniano, calípico e similares ao saros para eclipses foram reconhecidos precocemente
    • Dr. Yabuuchi Kiyoshi é mencionado como a maior autoridade sobre a história das efemérides chinesas, tendo publicado sua obra volumosa quase inteiramente em japonês
    • Chu Wen-Hsin é citado pelo monógrafo Li Fa Thung Chih (Commercial Press, Xangai, 1934), considerado indispensável sobre os sistemas calendários chineses
    • O calendário desempenhou papel central na história da ciência e da cultura chinesas e, abrangendo muitos anos ou décadas, fundia-se com a própria história
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