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SCHIPPER
KRISTOFER SCHIPPER
Norman Girardot
Prefácio “Corpo Taoísta“
- É irônico que a redescoberta, senão a plena ressuscitação, do corpo taoísta — o “grande corpo dos antigos”, que era a corporeidade cósmica do céu, da terra e da humanidade — tenha se dado pela obra de um estudioso desta era tardia, o que surpreende sobretudo ao se recordar que, nessa era moderna sombria, o país original do Tao renunciou oficialmente a seus caminhos antigos em favor de uma dialética alienígena.
- A “arte do Tao” — que dependia das visões primordiais de viandantes chineses antigos como Lao zi e Zhuangzi e das revelações posteriores dos Mestres Celestes — foi certamente dilacerada e despedaçada pelo mundo; foi, afinal, a Revolução Cultural Chinesa que buscou obliterar todo vestígio do passado “supersticioso”.
- Tendo caído em extrema escuridão dentro da terra de seu nascimento, além de ter sido largamente difamada por missionários cristãos e quase totalmente ignorada por historiadores dinásticos chineses tradicionais e estudiosos ocidentais, a antiga tradição da religião taoísta continuou, todavia — ainda que velada, desanimada e em estado germinal — nas margens do mundo chinês contemporâneo.
- Oculta nos modos cotidianos dos chineses periféricos tanto ao Reino Central do Povo quanto ao mundo industrial moderno da diáspora chinesa, a corporação insular da religião taoísta começou a revelar-se publicamente ao mundo todo precisamente quando parecia ter-se extinguido.
- A manifestação pública da religião taoísta no mundo moderno se deve às descobertas fortuitas de Kristofer Schipper, um jovem estudioso holandês formado em Paris que trabalhava e vivia na ilha de Taiwan nos anos 1960.
- Embora reconhecendo a importância da erudição japonesa e de estudiosos franceses pioneiros como Henri Maspero, Max Kaltenmark e Rolf Stein, pode-se afirmar que o estudo efetivo da religião taoísta — distinto do fetiche acadêmico pelo “taoísmo filosófico” de Lao zi e Zhuangzi — é quase inteiramente uma conquista da segunda metade do século XX e deriva em grande medida das descobertas de Kristofer Schipper em Taiwan nos anos sessenta.
- O Corpo Taoísta de Schipper é ainda a única obra em qualquer língua que pode ser considerada um guia geral para a prática efetiva, o significado sociológico e o sentido simbólico da tradição litúrgica taoísta.
- As fases iniciais da carreira acadêmica de Kristofer Schipper em Paris eram convencionalmente focadas e respeitavelmente distintas: após uma preocupação inicial com a arte oriental, voltou-se em 1958 para o estudo da história das religiões chinesas sob a tutela de Max Kaltenmark e Rolf Stein, dois grandes expoentes da paixão sinológica francesa pela precisão técnica e pela amplitude interpretativa — principalmente sob a perspectiva sociológica de Marcel Granet e L'Année Sociologique.
- Durante esse mesmo período na École Pratique des Hautes Études, foi ainda influenciado por vários brilhantes estudiosos franceses em campos conexos — especialmente Paul Demiéville em budologia, Jacques Gernet em história chinesa, André Leroi-Gourhan em etnologia e Roger Bastide na história geral das religiões.
- Somente após a conclusão do diploma na École Pratique — que resultou em uma obra significativa de análise textual dedicada ao Han Wudi neichuan, uma novela taoísta de autoria desconhecida datando do fim do período das Seis Dinastias — é que o verdadeiro ponto de inflexão na trajetória sinológica de Schipper se deu: em 1962, seguindo o conselho de Rolf Stein, decidiu sair dos confins das bibliotecas parisienses e embarcar, como membro da École française d'Extrême-Orient, em um período de trabalho de campo etnográfico sobre a religião popular em Taiwan.
- Após vários anos desanimadores em Taiwan, associado à Academia Sinica perto de Taipei e estudando o teatro popular de marionetes — que tinha, como logo aprendeu, profundas afinidades com o ritual taoísta —, Schipper decidiu abandonar as prerrogativas acadêmicas oficiais e os procedimentos formais da observação etnográfica para conduzir seus estudos da tradição popular vivendo dentro, e como parte, do “país real” do povo comum.
- Essa decisão foi parcialmente devida às suas frustrações com a incapacidade dos intelectuais chineses da Academia Sinica de levar a sério as próprias tradições populares — até mesmo de saber ou admitir que formas folclóricas tradicionais como o teatro de marionetes continuavam em Taiwan contemporâneo.
- Igualmente importante para sua resolução de mergulhar na clandestinidade foram os problemas que tinha em desempenhar o papel de observador etnográfico, cuja própria presença, aparato de pesquisa e métodos de obtenção de informação tendiam a influenciar o fenômeno investigado — foi essa “destruição do terreno”, observada enquanto estudava o teatro de marionetes, que diretamente motivou a decisão de Schipper de viver “oculto entre o povo”, como diz o ditado taoísta.
- Na primavera de 1964, após ter-se estabelecido no sul da ilha e sem ter qualquer agenda acadêmica particular em mente, Schipper foi convidado por um amigo chinês a um importante ritual comunitário taoísta — genericamente um ritual chiao, uma oferenda e banquete, ou mais especificamente nesse caso um wen-chiao, realizado num ciclo de vários anos para a prevenção de epidemias e a renovação de um grupo regional de comunidades confederadas — realizado ao longo de vários dias em um templo ao norte da cidade de Tainan.
- Essa ocorrência fortuita foi o momento formativo na carreira de Schipper e, como se provou, um evento liminar significativo na compreensão acadêmica da religião taoísta.
- Outros ocidentais haviam observado diversas celebrações públicas associadas a esse tipo de ritual — como, por exemplo, J. J. M. de Groot, um estudioso holandês anterior que descreveu, na virada do século, o que chamou de rituais “Wuistas” ou quase-xamânicos do sul da China —, mas nenhum forasteiro até Kristofer Schipper havia testemunhado, descrito com precisão ou apreciado simpaticamente os ritos “puros” privados dos sacerdotes taoístas — os tao-shih — que ocorriam no interior de um santuário do templo.
- Alternadamente fascinado e entediado pelo intrincado e longo espetáculo ritual que se desenrolava diante dele, Schipper reagiu inicialmente de modo condizente com o consenso prevalente da erudição acadêmica da época: não pôde deixar de sentir que a performance manifestava apenas uma versão moderna irremediavelmente degenerada da tradição taoísta “verdadeira” que reivindicava a ancestralidade venerável da filosofia mística de Lao zi e das revelações posteriores do primeiro Mestre Celestial, Zhang Daoling.
- O primeiro indício de uma resposta ao desconcerto de Schipper veio quando, durante uma pausa nos procedimentos rituais, ele pôde examinar um dos manuscritos rituais dos sacerdotes celebrantes e ficou surpreso ao descobrir que era um texto litúrgico transcrito no início do século XIX — e, além disso, um manuscrito que claramente reproduzia textos canônicos encontrados no antigo corpus escritural taoísta conhecido como Daozang, um compêndio de mais de mil obras de vários períodos históricos, das quais mais da metade são textos litúrgicos.
- O que era incrível nessa descoberta era que o manuscrito caligráfico do sacerdote taiwanês não poderia ter sido copiado diretamente do Daozang, já que a edição impressa dos escritos taoístas só esteve disponível em Taiwan após 1949; da época de sua quarta e última impressão oficial durante a dinastia Ming, em 1445, até sua fotorreprodu- ção em 1926, o Daozang era, fora de alguns raros mosteiros taoístas do continente, uma obra largamente desconhecida e inacessível.
- Conforme verificado pelo mestre taoísta de Schipper, os manuscritos litúrgicos usados nos rituais não haviam sido copiados de uma edição impressa do cânone taoísta, mas dependiam de uma tradição viva de transmissão textual mantida dentro da linhagem familiar de um sacerdote; como regra geral, era apenas no momento de uma nova ordenação que os textos rituais de uma família eram recopiados e transmitidos à geração seguinte — manuscritos que eram, além disso, propriedade exclusiva e secreta do sacerdote ordenado, cujo longo aprendizado lhe dava a capacidade de decifrar a altamente técnica terminologia esotérica do texto.
- Os primeiros insights de Schipper sobre a prática contemporânea do taoísmo religioso, junto com sua verificação preliminar de que os manuscritos copiados à mão pelo sacerdote de fato replicavam os antigos textos impressos do Daozang, levaram à percepção de que o “Caminho dos Mestres Celestes”, remontando em última instância às revelações de Zhang Daoling em 142 d.C., era ainda uma tradição viva e coerente nessa obscura comunidade de Taiwan contemporâneo — e essa continuidade era, no mínimo, verdadeiramente notável.
- Percebendo que esses sacerdotes taiwaneses tardios possuíam a chave para compreender o vocabulário técnico dos textos canônicos com os quais havia anteriormente lutado em Paris, e tendo desenvolvido empatia pela tradição popular chinesa tantas vezes desprezada pela sinologia ocidental e pelos intelectuais chineses contemporâneos, Schipper decidiu que uma compreensão real do taoísmo exigiria sua própria iniciação no saber esotérico da tradição — não mais apenas estudaria o taoísmo; empreenderia o caminho para tornar-se um sacerdote taoísta.
- No outono de 1964, após ter sido adotado na família do sacerdote que havia sido o celebrante principal do chiao testemunhado na primavera, Kristofer Schipper iniciou seu aprendizado formal como tao-shih; nos anos que se seguiram, esse jovem holandês, que havia anteriormente se formado em Paris com alguns dos maiores adeptos europeus do saber sinológico, tornou-se o primeiro ocidental a aprender a tradição oral secreta e os métodos rituais dos mestres taoístas.
- Aprender os caminhos de um sacerdote taoísta estava, como Schipper descobriu, essencialmente em consonância com a antiga descrição do sábio no Laozi como aquele que está “preocupado com o ventre, não com os olhos” — seu treinamento não estava diretamente preocupado com a decifração e compreensão intelectual dos escritos taoístas, mas centrado no domínio prático da execução das formas litúrgicas.
- Conhecer os caminhos rítmicos do Tao no mundo humano era, nesse sentido, um ofício teatral e musical que envolvia o ajuste gradual de seu corpo a um complicado sistema de movimentos físicos, gestos, sons e palavras — e o Mestre jamais tentava “explicar o significado” do que faziam.
- Schipper começou tocando um pequeno gongo na orquestra ritual de seu Mestre e auxiliando na preparação da área sagrada temporária construída para cada liturgia maior; gradualmente passou para a flauta, ao papel de acólito encarregado do incênsio e, finalmente, à posição de cantor — a culminação de seu treinamento veio em 1968 quando foi oficialmente ordenado sacerdote taoísta por Chang En-pu, o sexagésimo terceiro Mestre Celestial em descendência direta de Zhang Daoling.
- Há algo estranhamente apropriado no fato de ter sido um estranho educado vindo da Europa a redescobrir e imergir-se em uma tradição que se tornara quase totalmente alienígena aos intelectuais chineses contemporâneos; a afinidade da tradição taoísta por uma espécie de perifericidade ambígua em relação a todas as formas do mundo oficial — que inclui burocratas imperiais chineses tradicionais, funcionários do PCC, políticos do KMT, estudiosos confucionistas, missionários cristãos e sinólogos modernos — não é nada novo.
- Uma das observações mais importantes de Schipper é que é o irônico gênio da religião taoísta servir essencialmente como a legitimação “oficial” do mundo “não-oficial” do povo da terra — aqueles que eram tradicionalmente a carne e o sangue do “país real” da China.
- O ofício sacerdotal taoísta envolve primariamente o aprendizado das formas rituais, cuja verdade interior só pode ser conhecida por e através do próprio corpo de cada pessoa — o que constitui, de fato, o lado meditativo da arte litúrgica; não há fé exigida em uma coleção de proposições intelectuais ou “segredos” credais e, portanto, nenhum conflito necessário de interesses entre o status sacerdotal de Schipper e sua profissão acadêmica.
- A erudição de Schipper sempre foi respeitosa dos mais altos padrões críticos e de seu acesso privilegiado à tradição viva; da época de sua ordenação e de seu relatório provisório em 1968 — na primeira conferência internacional sobre taoísmo, na Itália — até o presente, evitou generalizações precipitadas sobre sua experiência em Taiwan.
- Após seu retorno a Paris para assumir um cargo na École Pratique em 1970, ocupou-se em produzir, em cooperação com um crescente grupo internacional de estudiosos, as cruciais ferramentas filológicas e historiográficas para trabalhar com o cânone taoísta impresso.
- Quatorze anos após sua ordenação em Taiwan e doze anos de erudição técnica em Paris, Schipper publicou Le corps taoïste (Paris, 1982) como sua primeira discussão geral da tradição litúrgica taoísta para o “grand public”.
- O Corpo Taoísta representa uma apreciação introdutória provisória de uma tradição extraordinariamente rica que, até as últimas décadas, havia sido a menos compreendida e mais comumente ignorada e difamada de todas as grandes religiões do mundo — obra que se destaca como um marco na história dos estudos taoístas e foi devidamente agraciada com o prestigioso Prix Julien em reconhecimento de sua significância no campo geral da sinologia.
- Como síntese brilhantemente provocativa das experiências de Schipper em Taiwan e Paris e do crescente reconhecimento acadêmico do papel do taoísmo ao longo da história chinesa, O Corpo Taoísta tem implicações importantes não apenas para uma compreensão revisada da civilização chinesa, mas também para a história geral das religiões mundiais e a fenomenologia comparada da experiência religiosa e do ritual.
- Mais do que se tem percebido nas intermináveis elucubrações etéreas sobre o Laozi, a religião taoísta encarnada — a religião nacional “real” do povo chinês — tem, como John Lagerwey sugere acertadamente, “muito a nos ensinar sobre o que é ser, ou melhor, tornar-se humano”; uma das lições silenciosas tanto do Laozi quanto do Senhor Lao, e de todo o corpus de revelação e ritual taoístas, é, afinal, simplesmente o caminho para recuperar uma humanidade comum em meio à vida cotidiana — é a esse “ensinamento sem palavras” que O Corpo Taoísta de Kristofer Schipper se dirige de modo tão poderoso.
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