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JANAKA: Nada me afeta, sou serenidade, consciência, além das formas vivas. Tão longo foi o tempo em que fui iludido pelo véu das formas.
Apenas eu torno visíveis tanto o meu corpo quanto o mundo. Para mim, o mundo é ao mesmo tempo toda coisa e nada.
É morrendo para o meu corpo e para o mundo que de súbito um estranho poder me faz aperceber a suprema consciência.
Ondas, espuma ou turbilhões, tudo se acha ligado à água. Assim é com o universo: emanado de si mesmo, acha-se ligado a si.
Uma veste, quando observada, é formada apenas de fio. Assim é com o universo, quando observado: não é tecido senão de si mesmo.
O caldo da cana-de-açúcar impregna inteiramente o açúcar que produz. Assim é com o universo: produzido em mim, acha-se inteiramente impregnado de mim.
É da própria ignorância que nasce o mundo, porém o conhecer-se o dissipa. Não reconhecer a corda faz aparecer uma serpente, a qual desaparece quando se a reconhece.
A verdadeira forma é luz, nada mais sou senão ela. E quando o universo aparece, sou eu quem é visível.
Mas o universo fictício, a ignorância em mim o faz surgir, como a prata parece na pérola, a serpente na corda, e a água no raio de sol.
Este universo surgido de mim, em mim se reabsorverá como o jarro na argila, a onda no mar e o bracelete no ouro.
O ser! Saúdo em mim o ser, para quem morte alguma existe, que, quando perece o mundo em sua totalidade, da folha de relva a Brama, apenas ele permanece.
O ser! Saúdo em mim o ser, o ser que é único, ainda que tenha um corpo. A parte alguma vai, de parte alguma vem, mas sem cessar preenche o universo.
O ser! Saúdo em mim o ser, o ser aqui embaixo por nada igualado, este ser que sustenta de todo tempo o universo, sem o contato do corpo.
O ser! Saúdo em mim o ser, o ser que nada possui, este ser para quem tudo o que, neste mundo, é palavra, é alimento para o espírito.
O conhecimento, o conhecido, o conhecedor não têm existência real. A ignorância faz surgir todos os três no ser a quem nada afeta.
A raiz do mal é a dualidade. Não há outro remédio senão saber que todo objeto percebido é ilusório e que apenas o ser tem o sabor da pura consciência.
O ser é toda consciência. Minha ignorância construiu disso uma réplica. Mesmo assim refletido, o ser acha-se ausente de toda imagem.
Para o ser não existem nem libertação nem prisão. Desprovida de suporte, enfim a ilusão cessa. O universo está no ser, sem contudo materialmente aí se encontrar.
O universo e o corpo nada são, é a evidência. O ser é pura consciência; sobre o que, pois, doravante divagar?
Corpo, céu e inferno, prisão e liberdade, e medo também, nada disso é senão ficção em verdade. Para o ser que é consciência, o que há, pois, a realizar?
Mesmo em uma multidão imensa, para o ser que percebe, inexistente é a dualidade, que parece então uma floresta. Em que haveria de deter-se o ser?
O ser não é o corpo, o corpo não pertence ao ser. Não sou aquele que vive, sou apenas consciência.
Em mim, que sou insondável oceano, quando sopra o vento do pensamento, produzem-se de pronto ondas de universos.
Em mim, que sou insondável oceano, quando cessa o vento do pensamento, perecem os fundamentos do universo, e sem piedade para quem especula.
Em mim, que sou insondável oceano, as ondas da vida nascem e se chocam, folgam e se reabsorvem, por sua própria natureza.
