Cartas a Alfonso
1
Querido Alfonso.
Desde o dia do seu desaparecimento…˜ há vinte anos…˜ eu, que fiquei aqui…˜ que coisas realmente importantes…˜ que coisas realmente significativas…˜ eu testemunhei…˜ que você deixou de testemunhar?…˜ Em que…˜ por que motivo esses vinte anos que você não viveu puderam ter valido a pena ser vividos?…˜
Tudo o que um dia foi importante…˜ tudo o que parecia significativo…˜ cheio de sentido…˜ transbordando de esplendor e de promessa…˜ está revelando agora sua total vacuidade…˜ Nenhuma das esperanças que alimentavam a ilusão de continuar se concretizou… ˜ Nada de extraordinário…˜ nada verdadeiramente significativo surgiu para dar resposta àquela sede de verdade que, um dia, se descobriu a si mesma buscando compreender…˜
Querido Alfonso…˜ você não perdeu nada por não estar mais aqui…˜ O que poderia ter saciado aquela sede de verdade…˜ Que atividade teria sido realmente significativa?… ˜ Essa busca pela verdade compreendeu que não há nenhuma verdade a ser buscada…˜ exceto que a noite vai caindo e preenchendo tudo com seu desconhecimento…˜ exceto que o silêncio íntimo que você já alcançou apague suavemente os últimos balbucios dessa criança que só anseia por esquecer e descansar no colo de sua mãe…˜ Não…˜ você não perdeu nada… ˜ Você não perdeu nada, nem mesmo se tivesse sido rei…˜ ou sábio…˜ nem mesmo se tivesse tido o poder de fazer milagres ou a própria missão de salvar o mundo…˜ Na verdade…˜ que bom…˜ como o mundo ficou perfeitamente salvo quando você adormeceu para sempre no abraço íntimo do silêncio!… ˜ como ficamos todos perfeitamente salvos, e você mesmo, nesse esquecimento absoluto de que este mundo…˜ eu…˜ e você mesmo jamais tivéssemos existido!…˜ que salvação alegre!…˜ que verdadeira libertação!…˜
Querido Alfonso…˜ eu também não teria salvado nada desses vinte anos…˜ eu também não teria preferido o que foi vivido em mim àquela não-vida que já é a sua natureza indestrutível…˜
