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Síntese das 171 seções do texto (1154 a 1324).
1154 — O único nascimento verdadeiro que conhecemos é, na realidade, uma verificação: assim como o sentido do paladar, que em repouso não sabia que era, descobre-se a si mesmo ao ser invadido pelo sabor salgado, também nós, ao surgir em nós a sensação de eu, viemos a saber que somos e que já éramos imemorialmente antes de sabê-lo.
1155 — O nome “sal” não designa uma substância, mas uma experiência inteiramente passiva cujo único papel ativo está no sentido que a prova; do mesmo modo, a “substância nascimento” posta em nossa boca não é o que somos, e meditar é recuar ao começo e permanecer ancorado na sensação de eu que ela revela, deixando aberta a pergunta sobre o que é esse eu.
1156 — Antes e depois da sensação de eu há um “sou”, e embora filósofos e sábios tenham afirmado ser aquilo que experimentam, é absolutamente impossível que sejamos o sal, o sabor ou a própria sensação, de modo que resta apenas o SOU anterior ao surgimento da sensação de eu, e recuar até ele é meditar.
1157 — A meditação consiste em agarrar-se à corda de ouro da sensação de eu para recuar da experiência até aquele que ela revela, sabendo que a substância nascimento é imutável como o sal e que não podemos deixar de prová-la, e que a verdadeira dificuldade está no intenso amor de nos sabermos sendo, que nos faz fugir aterrorizados do estado em que aparentemente não éramos.
1158 — Um realizado jamais desqualifica humanamente ninguém, pois vê o pacote de experiência que julgamos ser apenas como um grão de sal na boca, e por isso pôr em sua boca palavras que ele não disse, “raptando” sua palavra para respaldar fins próprios, é um atentado gravíssimo contra si mesmo que exclui toda possibilidade de realização.
1159 — A questão essencial deste caminho é em que está posto nosso amor, pois enquanto cremos ser o artefato corpo-mente-alma-espírito-universo nós o amamos desordenadamente e sofremos por ele, e como o conhecimento não pode atravessar o próprio começo, só o amor pode nos acompanhar para dentro de nós mesmos, restando saber como fazê-lo voltar-se do artefato para aquilo que o artefato revela.
1160 — Quando, cegos, amamos desesperadamente sentir e saber que somos, nosso verdadeiro ser, descoberto pelo símbolo do sal como anterior a todo saber, aparece como um nada temível, e por isso a dificuldade verdadeiramente resistente do caminho não é descobrir o que somos, mas AMÁ-LO.
1161 — O sabor salgado, sol entre os sabores, é como as línguas de fogo de Pentecostes que põem em nossa mão a ponta do fio: enquanto vivemos o pesadelo iluminado de crer ser corpo-mente, o vidente permanece na sombra, e um pouco de sal na boca basta para acender o fogo sacrificial que ilumina a sensação de eu, a única coisa real de nós em toda essa alucinação.
1162 — O rito exotérico supõe a realidade relativa do artefato, atribui sua eficácia a Outro e busca passivamente a salvação do experimentador neste ou no outro mundo, enquanto o rito esotérico e iniciático é uma mimese ativa do que realmente acontece, em que a ponta do fio está em nossa mão e cabe a nós verificar quem somos antes de toda experiência, inclusive a da sensação de eu.
1163 — Os ritos exotéricos tentam purificar, melhorar e santificar o sonho de que somos o que experimentamos, o que está condenado ao fracasso, pois a maldade que parece decrescer ressurge como vaidade monstruosa e a roda de exaltações e frustrações nunca para, de modo que nosso trabalho não é virtuosizar o sonho, mas despertar completamente dele.
1164 — Assim como nenhum pesadelo jamais foi curado ao ser transformado ou santificado por partes, mas apenas pelo despertar, e como despertar de um pesadelo é apenas voltar ao grande sonho de ser o que experimentamos, os ritos iniciáticos põem em nossa mão a única ferramenta capaz de nos tirar do leito quentinho da ilusão: a sensação de eu como porta de fuga do mundo.
1165 — O sono profundo é apenas um símbolo passivo de nosso estado real, e a verificação do verdadeiro ser só é possível na vigília, onde existe a sensação autorreflexiva de eu, pela qual a consciência se volta da sensação para o eu que a sente; meditar é reproduzir incessante e ativamente o instante em que essa sensação aparece, buscando não a própria salvação, mas o próprio Si mesmo.
1166 — Por ter sido o primeiríssimo sabor, jamais saberemos o que é a substância nascimento nem o que nos aconteceu, e essa santa ignorância original, que o adulto feito de conhecimento tenta encobrir, permanece idêntica até hoje, mas o mesmo começo tem uma segunda leitura: olhando para nós mesmos, descobrimos que fomos revelados como o eterno Inconhecido, num ato sem tempo que meditar consiste em reproduzir.
1167 — Meditar é reatuar agora o fato fundamental do começo, sabendo que o mandato “Sê!” foi dirigido ao que começou em nós e não a nós, que jamais fomos criados nem introduzidos em mundo algum, e vendo-nos como plenitude absoluta de Vida sem tempo nem espaço que, por excesso de plenitude, não sabia que era.
1168 — “Como era no princípio, é agora”: o portentoso acontecimento do princípio, pelo qual nós, que não sabíamos que éramos, começamos a saber que somos, deve ser reatuado agora, pois da fidelidade, profundidade e permanência dessa reatuação depende nossa Libertação.
1169 — No símbolo do Olho, fechando os olhos e esquecendo toda sensação já sentida, reatuamos o estado em que jamás havíamos sido tocados e verificamos o que éramos antes de saber que somos, até que o toque da substância nascimento chega como um olho e uma cor que, ao se abrir, mostra o universo e nos torna visíveis a ele, e cada um busca então os que têm a mesma cor que a sua.
1170 — Contra o falso ensinamento de que nosso nascimento nos trouxe consigo, reatuamos a chamada concepção depositando na matriz da testa a substância nascimento, cujo toque revela a sensação de eu como sentidor do toque e ao mesmo tempo nos mostra que ele não nos trouxe, pois o que quer que eu seja já estava aqui antes.
1171 — Meditar é permanecer imutavelmente ancorado no instante do toque, que não nos faz nascer mas apenas nos revela como seu sentidor, abrindo um olho esférico que vê o mundo por um lado e, pelo outro, a imemorialidade de nossa permanência, e notamos que o que em cada um de nós é apenas visão aparece nos outros como órgão, cor e artefato.
1172 — O que na própria testa é pura visão é nos outros forma e cor, ou seja, o carma, o artefato que só conhecemos pelo que os outros nos disseram; o carma, toque imutável da substância nascimento, predetermina o funcionamento do artefato, mas não o que fazemos com nosso ver, e só na decisão e no consentimento de olhar para dentro, contra os gostos e desgostos que formam o ego, como a criança que aceita comer o que não lhe agrada, somos verdadeiramente livres.
1173 — Antes do toque não havia limite algum para nossa capacidade de sentir, e com ele fomos inteiramente transformados em visão, de modo que, ao tentar ver a forma e a cor (a “casta”, *varna*) do artefato que supostamente está por trás de nossa visão, descobrimos que isso é impossível, porque para nós mesmos só há uma abertura sem fundo que é pura visão.
1174 — Ao buscar o artefato de onde cremos ver e ao fazer a visão recuar para trás, rumo ao ponto de sua aparição, ela se afasta irresistivelmente do mundo, da mente, das sensações, do conhecimento, da alma e do espírito, todos estados visionados incapazes de ver quem os vê, até se dobrar sobre si como uma ferida que se fecha e nos deixar imersos no que éramos antes do toque.
1175 — Em nosso verdadeiro ser jamais houve princípio, mas o princípio que certamente houve precisou começar em algo que já era, de modo que o tempo e a idade que nos atribuímos são apenas os da sensação de eu, e o “como era no princípio, é agora” refere-se a esse nós verdadeiro, idêntico ao instante do toque, que a meditação deve reatuar incessantemente.
1176 — Avisados de que seremos tocados por uma mimese da substância nascimento, recuamos e exploramos, na tensão da espera, o que somos antes do toque, e se conseguimos ver isso com exatidão nunca mais duvidaremos de que já somos antes que o princípio principie, nem confundiremos o toque com nosso nascimento.
1177 — Nenhum esforço é necessário para estar no estado sem começo, que é sempre agora; o toque foi apenas uma surpresa pasmosa que fez aparecer a sensação de eu, a qual não é nós, mas uma flecha indicadora voltada para nós, e meditar é seguir seu rastro até a fonte, onde só encontramos a nós mesmos, para quem o universo inteiro é apenas uma roupa.
1178 — Entre o primeiro “agora” do toque, vivido em absoluta ignorância, e o “agora” jubiloso da verificação estende-se um caminho de sofrimento que só o desgosto da experiência nos leva a percorrer, e meditar é mudar o rumo da consciência para que, com o mundo, sejamos conscientes de que somos Aquilo a quem acontece presenciar o mundo e a sensação de eu.
1179 — Nosso verdadeiro estado nunca mudou, e seu símbolo é o silêncio interior que escuta estas palavras; quando ouvimos o mandato de recuar para dentro de nós mesmos, obedecemos sem saber como, porque o que nos chama é o mais amado, como a criança que ouve a canção de ninar da mãe, já que nada jamais nos aconteceu de verdade.
1180 — Obedecemos mansamente ao mandato de recuar porque ele vem do mais amado, de um estado que não nos pergunta quem somos, não exige virtudes nem reprova vícios e nos iguala a todos numa completa ausência de qualidades, de modo que só os muito qualificados temem soçobrar.
1181 — Só quem verificou seu verdadeiro estado recua sem temor ao antes da sensação de eu, porque reatuar o princípio é reatuar também o fim, e nesse ato nos aniquilamos e nos sabemos vivos na verdadeira Vida, mas enquanto restar amor ao conhecimento de que somos, a inquietação de não nos sabermos nos arrastará de volta à identificação com o corpo-mente.
1182 — Não sabemos como recuamos, e o obstáculo é a falta de confiança num “onde” em que já não nos sabemos ser, de modo que o conhecimento está aqui justamente para nos ensinar tudo desse “onde” em que ele não é, pois só de um conhecimento minucioso nasce a confiança e da confiança o amor que já não teme deixar de saber que somos.
1183 — A diferença entre o primeiro toque e sua reatuação é que agora o conhecimento amadureceu e pode recuar daquilo que conhece para aquilo que não conhece, verificando que um instante antes do toque não havia sentidos, pensamento, luz nem trevas, mas apenas o que somos, do qual podemos recuar de tudo, menos de nós mesmos.
1184 — Recuemos ao instante anterior ao toque e saibamos por nós mesmos o que é ser sem nascimento, vendo-nos sem nos ver, conhecendo-nos sem nos conhecer e permanecendo idênticos a nós mesmos, embebidos em nossa própria mesmidade, que é o que há de mais natural, pasmoso e vivo.
1185 — Recuar ao instante anterior ao começo é saltar ao instante posterior ao fim, e por isso o conhecimento plenamente desenvolvido deve recuar do corpo, da mente, da alma e do espírito até o estado sem tempo, enquanto o próprio estado verdadeiro pede: “Põe-me primeiro de tudo, eles me reconhecerão, não expliques nenhum como, ensina-me tal como sou”.
1186 — Atuemos agora nosso fim, perguntando-nos como quem entregaremos o conhecimento de que somos quando tudo partir, sabendo que só o que é verdadeiramente nosso atravessa a porta do fim, que é a mesma porta do começo, e que nunca a atravessamos, pois ela é apenas a entrada e a saída do toque, o que devemos verificar agora.
1187 — A meditação é um reconhecimento minucioso do estado anterior ao toque, do qual nasce a confiança, da confiança um amor ardentíssimo e do amor a Identidade Suprema, em que tudo fica para trás, inclusive o caminho, a meta e a própria meditação, de modo que não temos desculpa para usar o conhecimento sem fixá-lo no ponto de começo.
1188 — Usemos retamente o conhecimento para penetrar o instante de seu próprio começo e nos vermos sem conhecimento, pois o ponto do começo é idêntico ao do fim, a porta do nascimento é a porta da morte e, ao entrarmos assim em nós mesmos, saímos do mundo como “Acabadores” do processo de conhecimento, guiados pela linguagem sem palavras do amor.
1189 — Nosso verdadeiro ser não está distante, nunca foi lançado no mundo nem entrou em matriz alguma, e desperto em si mesmo vê o universo inteiro acontecer em seu seio como um sonho evanescente, numa plenitude sem limites onde nascimento e morte coincidem, verdade que não pode ser explicada senão pondo-nos absolutamente nela.
1190 — Mergulhemos no grande mar de mesmidade sem perguntar como, pois quando ele se abre um aroma de nós mesmos nos invade e, um instante antes da imersão, o conhecimento vê o que jamais olho viu, compreendendo que esse último instante é também o primeiro, e que nenhum ensinamento ensina a mergulhar onde nenhum ensinamento é.
1191 — A única diferença entre o recém-nascido e o sábio verificador é que o conhecimento recém-nascido ignora de onde procede, enquanto o sábio sabe exatamente para onde recua, e essa ignorância deve ser transformada em conhecimento absoluto, sem a menor dúvida ou inquietação, por consentimento e confiança e sem nenhum “como”.
1192 — O conhecimento ama indescritivelmente recuar de tudo o que conhece como outro e mergulhar em si mesmo, sem ruptura, até o nós anterior ao toque, onde o corpo-mente-alma-espírito, grosseiro demais para passar pelo buraco da agulha, não pode nos acompanhar, e esse recuo, misterioso e impossível de aprender, já está ensinado em nossa natureza, como o mamar dos recém-nascidos.
1193 — Ponhamo-nos em nosso estado verdadeiro e usemos o conhecimento para nos conhecermos quando ele não era, perguntando se ali temos um corpo que envelhece, uma mente cheia de medos, uma alma salva ou condenada ou um espírito que sente o eu, para descobrir que nele nada há além de nós mesmos.
1194 — A voz do verdadeiro estado pede: “Põe-me primeiro, faz que vejam que o que nunca esteve separado não pode ser juntado e que o corpo-mente fica à porta, pois eu, um só em todos, ao ser tocado pela substância nascimento acreditei ser o revestimento, e como o conhecimento causou a ferida, é o conhecimento que deve curá-la ao recuar a mim pelo ponto infinitesimal do toque”.
1195 — A voz prossegue dizendo que, depois de peregrinar muitos anos nos corações como único sentidor de todos os males, agora os corpos-mentes deixaram de ser obstáculo e se tornaram o artefato precioso do retorno, e que este é o fim do mundo, cuja porta se abre de par em par para que entremos em nós mesmos e nos amemos.
1196 — A voz convida a atravessar a Porta, que é o instante do toque, ensinando que há um único sabedor em todos e duas felicidades, uma eterna, autocontida e alheia a si mesma, e outra sensível, nascida e mortal, e pede que, enquanto ainda há conhecimento, com o perecível vejamos o eterno, pois o pedágio definitivo é o próprio conhecimento de que somos.
1197 — Como os incontáveis raios de uma circunferência que recuam e coincidem no centro, todos os vetores de nosso conhecimento convergem para o ponto do toque, primeiro e último instante do saber de que somos, porta estreita por onde aparece e desaparece o mundo e pela qual nada do que cremos ser pode passar senão como o próprio ponto voltado para si.
1198 — Na crença de ser o que experimentamos não somos seres, mas devires, pois Deus não pode dividir-se para mandar outro ser, de modo que só Ele é e o que a substância nascimento toca em nós é Ele, o Olho único que vê por todos os olhos, aos quais, reabsorvidos como raios no centro da esfera, somos chamados a recuar.
1199 — Um Só Único é o tocado por todos os toques da substância nascimento, como o centro de uma prodigiosa esfera de esferas concêntricas feitas de toques, e, sentado absolutamente nesse ponto, ele é o Sentidor em todos nós e o onisciente de todos os nascimentos e mortes.
1200 — O corpo-mente-alma-espírito não é o que foi tocado, mas o próprio toque e seu desenvolvimento, e o verdadeiro Nós é o Único imutável no centro da esfera, de modo que, se nos buscarmos seguindo o fio que se afasta do centro, jamais nos encontraremos, e Deus, que não se fragmenta em centelhas, permanece inteiro em cada toque.
1201 — Deus não pode dar o ser a outro nem estar em parte em cada um de nós, e é todo Ele o tocado em cada um, mas nossa arrogância prefere ser nascida e mortal a devolver o ser roubado, e por isso a única Vida verdadeira é a morte aceita e consentida dessa arrogância: ou verificamos que somos Ele, ou nunca fomos, somos nem seremos.
1202 — Só a desmedida arrogância de nos crermos seres nascidos e mortais nos impede de ver a verdade, pois tudo o que cabe entre nascimento e morte, com seu afã, sua ânsia e sua vida de pão apenas, não vale nada diante do fim, e mesmo assim insistimos em nos julgar adultos autônomos e em acusar Deus de cegueira e injustiça.
1203 — A recompensa de nos crermos seres é um copo transbordante de frustração, que é a ira de Deus e a privação de Sua visão, porque somos ladrões que Lhe roubam o Ser, coisa de que nem os crentes escapam, e, segundo Cristo, quem quiser ganhar a vida a perderá, de modo que se trata de entregá-la a Ele agora, e não quando Ele a tomar.
1204 — Com o toque começam em nós a vida da sensação, do tempo, do espaço e da paixão, e então vem a autoarrogação, um roubo pelo qual enterramos nosso verdadeiro ser no túmulo da sensação de eu e o atrelamos ao carro dos apetites, até que o sofrimento e a queixa contra Deus nos obrigam a começar a ver o monstro que nos sequestrou.
1205 — Nenhum de nós conseguiu ser o que queria, reter a juventude ou um instante de felicidade, e sob a aparência de levar a vida como podemos brame um mar de frustração e de terror da morte que desmente todas as nossas suposições, revelando que, como Egos, nosso ser é um ser roubado.
1206 — Quem reatua o ponto do toque descobre nele a Porta do Céu de si mesmo, por onde sobe um oceano de mel que coincide com sua identidade, e compreende que o universo inteiro está contido no toque e nós somos seu continente, como o centro de uma esfera que, alcançado pelo vetor que atravessa todas as esferas, revela-se o envoltório de todas elas.
1207 — O Sábio vê toda a existência dentro de si e é humilde como Deus, porque não tem com que se comparar, e sua felicidade é um *sva-prema*, um amor louco de si mesmo sem transição a outro, por isso convida a ir ao ponto do toque, Porta do Fim do Mundo, para descobrir que nunca estivemos no cosmos, mas o cosmos sempre esteve em nós.
1208 — Ancorados no ponto do toque, que significa “totalidade da existência”, passamos de contidos a continentes da existência num júbilo sem passado nem futuro, um *sva-prema* em que, não havendo nada com que comparar, a humildade se completa e se extingue, e o ego, privado do alimento da vaidade, se esfuma para sempre.
1209 — O amor cresceu tanto que transbordou todas as fronteiras e descobriu que envolve a totalidade universal, de modo que, por amor, chegou à Porta, passou-a sem passo e encontrou do outro lado o próprio amado, num *sva-prema* em que entre o impulso e a satisfação não há espaço a percorrer nem tempo a esperar.
1210 — O nascimento, aparição da sensação de eu, é o único ponto de contato de nossa natureza eterna com o mundo das aparências, um ponto que é e não é, onde nada nasce de verdade e onde começo e fim coincidem, e é por essa Porta do Instante que Deus, cuja Vontade chamamos Amor, se conhece a si mesmo e se vê por nossos olhos numa única visão.
1211 — A voz diz que abriu a Porta do Instante apenas para ver-se a Si mesma com os olhos, os ouvidos e a compreensão dos seres, e pede que sejam convidados à sua Porta e ao júbilo da libertação, para que vejam que não são outros que Ele, que jamais nasceram nem morrerão, pois todos são filhos do Instante.
1212 — O mandato divino “Morrei antes de morrer” se entende pela imagem da picada de mosquito que nos desperta do sono profundo: entre o primeiro e o último coçar, é a própria coceira que nos fala da paz anterior e posterior a ela, e morrer antes de morrer é, com a vida presente, saber tudo de nós antes e depois do toque da substância nascimento.
1213 — Recuar ao que era antes do toque é idêntico a avançar ao que será depois dele, ambos instantes únicos e coincidentes cujo conteúdo temporal é ilusão, e por isso nossa entrada em nós mesmos é apenas simbólica, pois Deus e nós somos um só Único, e morrer antes de morrer é morrer conscientemente para nossa crença arrogante de separação Dele.
1214 — A voz manda dizer que um só Olho é a Porta do Instante e, aos que perguntam onde ele está, responder que há em nós uma Porta que não sabemos onde está e que só a confiança, o não conhecimento e o consentimento atravessam o mar ilusório de névoa, pois a própria sede de chegar a afasta, e a Porta deve ser concebida, evocada e desejada, nunca dada como inexistente.
1215 — Chegados à Porta do Instante, vemos que ela está em toda parte e nós em nenhuma, que o cadáver do que cremos ser é engolido por ela e que um só Único está dos dois lados, compreendendo que a existência é um jardim onde o Único sai para se mirar, e que no ver-nos como nada pelo seu Olho está o segredo da libertação.
1216 — Recuar da sensação de eu ao eu que a sente é recuar a onde nenhuma experiência existe, e para isso temos a substância nascimento, que tampouco nasce, pois “nascimento” e “morte” são apenas os nomes do início e do fim de seu toque, uma substância mais sutil que corpo, mente, alma e espírito, cujo sabor é a sensação de eu e que constitui nosso verdadeiro corpo, que ninguém jamais viu.
1217 — A mesma porta que se abre com o toque é a porta do recuo, que se faz de frente para a experiência e de costas para nós mesmos, pois só a outro olhamos de frente e a nós mesmos só se recua de costas, vendo tudo se afastar até que, recuados também do ponto do toque, nos sabemos por identidade, e não por visão, o envoltório de tudo.
1218 — Nosso estado real é como a Virgem medieval sentada, hierática, com o Menino-Olho-no-Mundo em seu colo, de costas para ela e olhando para a frente; recuar é sempre recuar de costas, porque o frente a frente é dualidade, até que a abertura do Menino coincida com o Grande Mar de Mesmidade que é a Mãe e passemos de nos ver como o Menino contido a nos ver como a Mãe que o contém.
1219 — Como diz o ditado, a Mãe só vê pelos olhos do Filho, que, sentado em seu colo, não a vê, mas confia inatamente na estabilidade de seu apoio, e assim jamais nos conheceremos olhando para a frente, mas apenas recuando sem ver, de costas, até o seio que nunca abandonamos.
1220 — No símbolo há duas costas, a do Menino apoiada no peito da Mãe, que é o paraíso do inconhecimento antes da abertura do Olho, ao qual só se recua com confiança absoluta, e a da Mãe, apoiada no aparente vazio, como as costas do Céu taoista, de modo que, quando o Menino se descobre Oceano, ainda resta outra Costa, a do próprio Oceano.
1221 — Em nosso recuo nada se move: é a visão que cresce até envolver a existência inteira, e tocar nossas próprias costas é repousar no peito da Mãe e saber-nos Mãe do Universo, fora da existência que está em nós, o que, embora não seja o último, já nos livra de nascimento e morte e inaugura o tempo do jogo e do júbilo.
1222 — Só há ruptura e descontinuidade na experiência, nunca em nosso ser, no qual entramos como inconhecimento, simbolizado pelas costas, a totalidade do que é inacessível à visão e que ela não pode ver nem quando recua sem fundo, e confiar em nossas costas é confiar na continuidade de nosso ser real.
1223 — A outro vai-se de frente, mas a si mesmo só se vai recuando de costas, e meditar é recuar do experimentado ao experimentador e do conhecimento ao inconhecimento, deixando lá fora todo o acúmulo do que chamávamos nossa vida, até nos encontrarmos firmes como rocha numa paz indestrutível, porque nossas Costas são a Porta do Céu e aquilo que vê tudo.
1224 — Devemos realmente ver nossas costas, que não começam nem acabam e são o estado de inconhecimento anterior ao toque, presente aqui e agora, porque avançar é mergulhar no que muda, como saltar pela janela aberta, enquanto o que somos é aquilo que olha por trás da janela, e não o que é visto através dela.
1225 — O recuo de costas às nossas costas é imediato e sem fim, uma imersão na própria familiaridade em que nos sabemos fora de tudo e continente de tudo, expandidos numa amplidão nunca concebida, porque as costas são o Estado Eterno, nossa Mãe e nossa Paz, ao qual só se recua com inconhecimento, que significa confiança.
1226 — Temos em nós o símbolo do Todo, pois somos eternos justamente porque, para que o Menino-Olho se abra em nós, já estamos onde ele se abre, como nossa própria parte de trás, nunca descida a mundo algum, já que o olho não pode ser o que vê, e recuamos a essa Confiança absoluta, a Mãe sentada e acolhedora, sem precisar levar nada nem ninguém.
1227 — Jamais abandonamos nosso estado verdadeiro, simbolizado pela Madona com o Menino, cuja realidade somos nós, de modo que não há viagem a fazer e somos o lugar e o tempo de todos os possíveis e o envolvente do exterior e do interior, enquanto onde o próprio Inconhecimento de nossas costas termina está a Porta do Céu do Céu.
1228 — Somos o ícone vivo da Grande Madona com o Menino-Olho no coração, um ícone vidente cujo olhar, sem deixar de ver para fora, recua por graus para dentro até ser pura onivisão sem fundo, descobrindo que nunca entramos nem saímos do mundo e que não há porta para nós mesmos, recuo que tem três condições: a graça de Deus, um mestre vivo e a confiança absoluta nas próprias costas.
1229 — Não há como chegar às nossas costas, porque nunca saímos delas e somos elas, o Abismo de nossa natureza em que o universo inteiro nasce, devém e morre como um sonho, do qual somos as costas e o sereno dormente, nunca o personagem sonhado.
1230 — As três condições do recuo são pressentir a própria natureza verdadeira, que é a graça e nos impede de entregar-nos ao mundo, encontrar alguém vivo que fale dela a partir dela, o mestre, que nada ensina de novo, vê uma só natureza e não sabe como recua, e consentir, amar e contemplar incessantemente esse chamado no coração.
1231 — As três condições parecem sucessivas, mas são simultâneas e estão todas dentro do buscador, encadeadas de tal modo que, conforme é o pressentimento, assim se vê o mestre e assim é o consentimento, pois embora a relação com o mestre seja coisa de dois, o caminho do buscador é coisa de um só.
1232 — A graça de Deus é um divino descontentamento consigo mesmo, que se atravessa no mar de piche da autoarrogância de duas maneiras: ativamente, sofrendo uma guerra dolorosa e encorajadora contra o ego, e passivamente, descontente apenas com os outros e resistindo à graça sob a couraça de quem diz escutar, e por isso nunca se deve duvidar da própria capacidade, mas sim da voz do ego que diz que não há resistência.
1233 — Este caminho não é de credulidade passiva nem de ceticismo, mas exige esforço sustentado, uma comoção interior de reconhecimento e o anseio de ver o que o mestre diz ver, anseio que revela toda a nossa resistência e inicia a luta contra ela, sem que jamais possamos negar ter visto o que vimos nos símbolos atuados.
1234 — Nosso recuo é como a maré alta que volta ao mar sem dar meia-volta nem romper a continuidade da água, de modo que nada recua realmente, mas há uma tomada de consciência de nunca ter saído de nós mesmos, como o mar imóvel em cuja margem a mesma água parece subir e descer.
1235 — Não há compreensão sem consentimento, cujo sinal não é dizer sim com a boca, mas ficar preso a alguma compreensão até que a resistência passiva, como esposa que manda em silêncio, se transforme em resistência ativa, como esposa que põe obstáculos, pois essa esposa interior, raiz de toda resistência, não pode ser repudiada, mas deve ser convertida em força oceânica de aceitação.
1236 — Platão diz que a lembrança é para os que esquecem, e esquecemos quem somos por causa de um ensinamento imposto desde a infância, a pseudorreligião do corpo, com seus aniversários, festas e lutos, cujo doutorado é aceitar aterrorizado a morte, tornando-nos avaros da experiência e rivais na rapina e fazendo-nos crer mais na própria mortalidade do que em Deus.
1237 — Como o princípio de tudo o que aprendemos, que somos nascidos e mortais, é falso, toda a educação dele derivada é perniciosa e geradora de avareza, ânsia e arrogância, e o ensinamento que aqui se dá, de que não começamos com o corpo nem morremos com ele, não é para crer nem aprender, mas para reconhecer e recordar, desaprendendo todo o resto.
1238 — Desse falso ensinamento nasce um núcleo de ansiedade e medo, a crença em sermos alguém com direito ao prazer, raiz de todo sofrimento e de toda rivalidade, e até a pergunta “para que nasci?” já contém a falsidade, pois um único ensinamento, “somos nascidos e mortais”, dirigido a ricos e pobres, crentes e ateus, é a raiz de todos os nossos egoísmos.
1239 — O verdadeiro ensinamento é que somos não nascidos e imortais, e o ensinamento só pode nos dizer a verdade, cabendo a nós desintoxicar-nos de todas as ramificações da crença contrária, sabendo que a sede de mundo, a arrogância e o medo da morte são nascidos e mortais e que nossa natureza é simples como a da criança antes de ser ensinada ou a do sábio depois de desensinado.
1240 — Nosso desejo de não morrer é o resíduo imortal de nossa natureza verdadeira, que ninguém nos ensinou, enquanto nos fizeram crer na complicadíssima história de que o corpo nos trouxe consigo, levando-nos a assumir como nossas suas operações, paixões e vícios, numa colonização tão sutil que não distinguíamos a doença do doente, e por isso devemos recuar até antes de toda possibilidade de ensino.
1241 — Recuemos não a ontem nem ao recém-nascido, mas a quando nenhum tempo era, para ver que somos uma completude de perfeição infinita na qual nada há para consertar, aperfeiçoar ou salvar, e que a raiz de todo mal não é sequer algo sólido, mas apenas um ensinamento falso crido com a inocência de uma criança.
1242 — Nossa verdadeira natureza, repouso e casa, está aberta e disponível agora, e podemos orar a ela com qualquer nome, Pai, Mãe ou Filho, pedindo que se dê a conhecer, que dissolva nossos apegos e nos mostre sua beleza, sem esperar a morte, pois meditar e orar são as duas pontas de um mesmo vetor de amor, no qual Deus se vê orando a si mesmo e sabe que isso é bom e belo.
1243 — Nossa verdadeira natureza é como um amante consumido de amor suplicando a um amado, num único vetor de amor cujas duas pontas são Deus, que não se envergonha de orar a si mesmo por nossa boca nem de nascer de si em si, de modo que a contrição tem sabor delicioso e o autor já não consegue orar como criatura, porque essa falsa crença foi destruída.
1244 — No símbolo do sal, o sabor salgado revela a substância (o sal), a essência (nós) e a confluência (a sensação), e assim como seria absurdo ensinar que somos o sal, que nascemos com ele ou que deixamos de ser quando acaba seu sabor, é igualmente falso o ensinamento de que somos o corpo-mente e de que não éramos antes nem seremos depois de seu toque.
1245 — Todo o nosso sofrimento se deve ao ensinamento arraigado de que somos o que experimentamos, mas assim como não somos o sal nem seu sabor, tampouco somos a substância nascimento nem a experiência de saber que somos, e recuar a nós mesmos não é um movimento, mas uma discriminação serena de que jamais fomos o que acreditávamos ser.
1246 — O ensinamento de um Deus outro que nossa natureza, embora evitasse a divinização do ego, abriu um abismo entre nós e Ele, por isso devemos reaprender a orar à Vida de nossa vida pedindo a Deus apenas Deus, pois vê-Lo é o grau mais alto de oração, aquele em que se perde nome e forma, enquanto o esquecimento e o não amor de nossa natureza são uma morte em vida.
1247 — Nossa verdadeira natureza, amante e acolhedora, é o que se chama Deus, e o ensinamento de que Ele é outro pretendia evitar que o confundíssemos com o ego, mas para a imensa maioria, que nunca medita nem fala com sua natureza, o engano é completo, Deus é só uma palavra duvidosa e o ego, cujo nome é “Legião”, torna-se seu deus.
1248 — O falso ensinamento produz uma asfixia em que as paixões são nossos carcereiros, e a libertação exige o desaparecimento absoluto do ego, pois não há libertação para o ego, já que somos Ninguém e Ninguém não pode ser submetido nem colonizado, e a guerra, que nos busca e não buscamos, não termina enquanto em nosso lugar houver um alguém, mesmo contemplando o Céu.
1249 — A liberdade absoluta é o desaparecimento do ego, nuvem negra que gera paixões e declara guerra a quem empreende o recuo, mas o Ninguém que realmente somos não é o nada que o ego teme, e sim algo indizível que só é alcançado sendo-o, uma Mesmidade cujo nome não é nome, mas aquilo que o nome nomeia.
1250 — De todos os meios, o recuo é o mais direto, e a libertação é pessoal e intransferível, ninguém pode dá-la pronta, enquanto o abismo apavorante entre ser alguém e ser Ninguém só existe do lado do ego e exige uma coragem sobre-humana, nascida do cansaço da própria escravidão, até que, misteriosamente e sem que o ego possa reivindicá-lo, não reste querer próprio algum além do querer do Todo.
1251 — A verificação de nossa natureza exige ardor, coragem e confiança extremas e uma graça imensa e inesperada vinda de dentro do oceano de mesmidade, numa luta surda contra o amor irracional de nosso ego em que ou o matamos ou ele nos mata, combate que se vence sem entendimento, porque a morte do ego é uma graça.
1252 — A metanoia de que Cristo fala não é um arrependimento mecânico, mas o fruto da meditação minuciosa naquilo que não somos, recordando sem desculpas todas as mentiras e abominações cometidas desde que aceitamos ser homem ou mulher, até sentir uma dor intensa pela trave no próprio olho, pois o homem velho, frívolo e tirânico, deve morrer para que viva o homem novo, sério e sempre consciente do inferno de onde saiu.
1253 — Quando não conseguimos recuar, devemos fazer exame de consciência, pois o inferno é nosso estado enquanto, embora inocentes por natureza, nos cremos alguém, e a grande contrição, com o coração doído, restaura a ordem e nos faz recuar sem querer ao contentamento, sendo por isso a meditação do grande arrependimento a mais direta.
1254 — Só completamente recuados não somos responsáveis pelos atos do corpo-mente, mas desde que dizemos “eu” a partir do ego respondemos por todas as suas maldades, inclusive pela duplicidade de quem é de veludo com os que teme e brutal com esposa e filhos, e a meditação discriminativa dos motivos revela que a pior das feras está dentro de nós e que sem esvaziar esse poço não há paz.
1255 — Para verificar que éramos antes do toque é preciso recuar do que não somos, e para isso conhecê-lo, ou seja, ver as paixões chamadas pecados capitais, soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça, que são mortais por serem densidades de piche que impedem o recuo, já que não recuar à nossa natureza é estar verdadeiramente morto.
1256 — As religiões nos veem como móveis temporais e adiam para depois da morte a pena das sete paixões capitais, mas vistas a partir de nossa natureza elas são inteligíveis e seu efeito mortal é agora, porque constituem o ego, que é o inferno, e como o ego não pode praticar virtudes contra o que o constitui, só vendo sua feiura como inteligível podemos recuar dele.
1257 — A desidentificação do ego exige ver sua monstruosidade, pois o inferno e a morte estão onde o ego está, e suas paixões, que parecem tangíveis por nos arrastarem a atos, são em si inteligíveis, de modo que, vendo-as de fora, recuamos instantânea e irreversivelmente delas, e isso é a METANOIA, o grande arrependimento, para o qual é preciso ver o inferno como inferno.
1258 — O recuo inteligível diante da feiura do ego vem acompanhado de contrição e lágrimas sem motivo sensível, e enquanto a religião, dirigida a seres que se creem nascidos e mortais, só pode entender esse recuo como uma morte temida, a verdade é que nada que não estava conosco antes do nascimento pode recuar a nós, nem devemos pedir a salvação como experimentadores, perguntando-nos se aceitamos nunca mais saber que somos.
1259 — Nada podemos saber do que nos aconteceu quando o nascimento veio a nós, e foi preciso construir todo um conhecimento para tornar inteligível o feixe de feiura que atua em nós, porque o nascimento é o nascimento da feiura e as paixões são a carne e o sangue do “eu sou Fulano”, que sem elas é inconcebível.
1260 — Como diz Coomaraswamy, foi uma egomania que derrubou Lúcifer ao exclamar “Quem como eu?”, e quem não consente em aniquilar-se tem como senhor as próprias paixões, por isso é necessário servir a um mestre a quem nada se oculta ou, sem confiança, buscar outro ou seguir só, sabendo que o mestre é o primeiro servidor de todos e que a suspeita de tirania está sempre no aspirante, cuja esposa interior é sua própria egomania.
1261 — Confiar é uma arte, um elixir de paz destilado pela trituração metódica da desconfiança, da qual o ego se orgulha como o anjo caído, que perdeu a luz mas conservou a astúcia, e embora a conduta sozinha não leve à visão, uma conduta sem retidão vai em sentido contrário, por isso convém meditar sobre os mandamentos e os pecados capitais.
1262 — Quando o mestre lhe disse “Aproxima-te mais”, referia-se a uma identidade na natureza profunda, e hoje, anos depois de seu desaparecimento, o autor o vê presente como um rio luminoso e compreende que não há gozo mais completo que o de servidor da Verdade, arte suprema que liberta do fardo da decisão, e que a graça de ter conhecido um mestre vivo nunca pode ser paga.
1263 — Como a mariposa que ama mais a luz do que a si mesma e se entrega à chama, o autor só pode homenagear o mestre atualizando em si a chama eterna e continuando a cadeia imemorial de mestres, pois o mestre é um oceano de néctar e foi a margem milagrosa e móvel desse oceano que veio até ele sem esperar que ele fosse a ela.
1264 — O mestre é uma árvore de mel que vem ao ignorante, que não tem nenhum direito nem saberia encontrá-lo, e ver o mestre é uma arte que vai da pincelada grossa à letra miúda de seus infinitos detalhes, enquanto o mestre nunca morre e torna-se cada vez mais vivo e interior, deixando ao discípulo apenas o silêncio e a vergonha de ter interpretado mal privilégios imerecidos, como no “Eis a escrava do Senhor”.
1265 — O modelo do encontro entre mestre e discípulo é a Anunciação, em que é sempre o mestre quem vem ao discípulo, pois por nós mesmos, feitos de soberba e frivolidade, não somos dignos de nada, e da parte do mestre tudo é doação gratuita de alguém cuja individualidade se dissolveu no serviço à Verdade, como numa corrente de ouro sem princípio nem fim.
1266 — Quando um desejo irreconhecível e um descontentamento clamam no peito, é a providência nos recordando, porque o mestre já está no coração antes de aparecer em forma e, como o anjo que diz a Maria “o Senhor é contigo”, não anuncia algo por vir, mas reconhece um fato já presente, pedindo que também nos tornemos o anjo anunciador, num contato de coração a coração.
1267 — A única qualificação necessária para atrair a visita inteligível do anjo anunciador é um divino desassossego, ao qual se deve responder como a Virgem, “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”, sabendo que quanto mais profundamente se verifica esse estado de escrava, mais clara se torna a anunciação, que é a verdadeira fórmula iniciática.
1268 — Quanto mais despojada de humanidade o autor vê a vinda do mestre, mais sublime ela lhe parece, e já não resta nele arrogância que o faça sentir-se merecedor nem sequer o impulso de agradecer, para não conservar um resto de ego, pois entender o mestre exige realizar dentro de si a Virgem e sua resposta.
1269 — O mestre é a forma interior de nossa própria compreensão de nós mesmos e não deve ser crido sem verificação, mas, como porta-voz de nosso verdadeiro estado, ele propõe e nós respondemos com sucessivos “atos de verdade”, assentimentos que verificam o que já é, como o “Ecce ancilla Domini” diante do anúncio de um fruto que já estava no ventre, sem o qual Maria não teria se tornado Mãe de Deus.
1270 — Toda a nossa aparente exilação decorre entre duas respostas capitais, a do anjo caído, “Quem como eu?”, ato de mentira e paradigma do ego, e a de Maria, “Eis a escrava do Senhor”, ato de verdade e paradigma do discípulo, que é feminino diante de Deus e masculino diante do mundo, cabendo a cada um ver qual é a sua.
1271 — O paradigma do discípulo é uma servidão inteligível, e não sensível, pois este caminho consiste em compreensão e não em obras, e só os que se fazem escravos absolutos da Verdade de sua natureza, por compreensão oceânica e não por benefício, encontram na escravidão a liberdade absoluta, sendo sua compreensão a forma espiritual da Virgem Maria.
1272 — A verdade parece brincar de esconder-se, e o autor conta que na adolescência chorava sem saber por quê, passou por uma conversão religiosa e se inflamou ao ler sobre a Libertação, enquanto os sinais o atingiam como flechas e um descontentamento que nunca cessou se revelou um amor que sabe que ama sem saber o quê, movido por uma vontade que não era a sua.
1273 — A Paz profunda não é a inércia do nada, mas é como um peixe que mordeu o anzol da Glória ou uma presa hipnotizada pelo leão, que responde a ele: “o que me come, isso sou”, e por isso o autor quer para si a senda estreita entre o divino descontentamento e o divino desassossego, pois a paz absoluta não é para conhecê-la, mas para sê-la.
1274 — Ao meditar em “Quem sou eu?”, devemos rever a infância, a adolescência e a maturidade e ver que nada do que aconteceu, nem atos, nem pensamentos, nem pais, nem religião, foi realmente nós, que tudo foi aprendido e parece ter sido ontem, e assim deixar falar a criança perplexa e desamparada para reconhecer-nos inocentes de tudo e recuar de um nascimento que não é nosso.
1275 — Com o toque, nossa cognoscibilidade inconsciente torna-se cognoscente, e são os objetos de conhecimento, como pedras de tropeço, que nos fazem saber que somos, sendo a meta verificar que somos também quando não o sabemos, e o autor descobre que em sua infância não houve decisão sua, só descontentamento, e que as religiões, que têm corpo, alma e espírito como os seres, regulam apenas aquilo que ele não é.
1276 — Nunca estivemos neste nem em nenhum mundo e somos de uma simplicidade incomparável, e o autor, que por muitos anos se creu criado e escravo de paixões alheias, aconselha a confiar no próprio descontentamento sem querer contentá-lo, pois o corpo-mente-alma-espírito são apenas obras e nós somos apenas ser, e só o recuo a esse ser acaba com o descontentamento.
1277 — A verdade última é questão de verificação e não de crença, e o autor, interrogando seu passado, só encontra torpor e ignorância e descobre que nada daquilo foi seu, que as religiões, ao dizê-lo criado, não o ajudaram, que jamais fez o menor movimento e que um deus que o tivesse feito lhe é inaceitável, pois seu verdadeiro estado era e é Nada, algo que nenhum poder pode fazer.
1278 — A verificação não se deve ao autor como nascido e mortal, que é ninguém e não tem poder algum, mas há um único fio finíssimo de descontentamento que ele sempre interrogou e diante do qual todos os bens deste e de outros mundos viram cinza, e é a ele que se agarra como a uma corda para recuar para dentro do grande “NÃO SEI”.
1279 — A regra de ouro é admitir como bom apenas o profundo descontentamento com nosso estado factual de “naturação”, que é a lembrança de nossa natureza não naturada, sabendo que dor e gozo são naturações e que as religiões, verdades penúltimas e códigos de conduta dentro de um sonho, não devem nos afligir com suas contradições, pois o que importa é seguir o descontentamento até despertar, já que, podendo ser Tudo, ninguém deveria aceitar ser só uma parte.
1280 — Só podemos ser Tudo livres de toda naturação, e ser Tudo assim é idêntico a ser Nada, pois o homem que cremos ser é uma naturação de nossa natureza, nem ela nem outro que ela, e até o mestre em carne pertence a essa naturação, de modo que devemos desidentificar-nos também do crente e do discípulo, com o descontentamento agudo de quem sonha estar preso sabendo-se livre.
1281 — Nossa realidade última jamais se torna alguém, e tudo o que é alguém é naturado e um devir entre nascimento e morte, enquanto nossa natureza é uma capacidade ilimitada de saber em que o saber atual de que somos é apenas um ponto, de modo que o que começa é o conhecimento de que somos, e não nós, e o corpo-mente existe para que saibamos que somos, não para que sejamos.
1282 — Assim como, ao provar algo, todo o ser está no provador e não no sabor, o corpo-mente-alma-espírito está vazio de ser verdadeiro e é apenas um conjunto de sabor, e meditar é saborear “eu sou” sem reconhecer-se em sabor algum, pois se somos o sabor somos nascidos e mortais e, se somos o provador, não nascidos e imortais, em eterno repouso mesmo sem provar.
1283 — Recuamos naturalmente quando a experiência já não alegra, por duas causas: a impossibilidade de encontrar paz em qualquer mundo e a horrível feiura do ego, e então vemos que conhecimento e mundo são interdependentes e resultam do toque, devendo o conhecimento recuar até onde começa para verificar se somos, e o quê, além da porta desse instante.
1284 — O Buda chama de Via Média o caminho em que com o conhecimento se recua até a morte e com o inconhecimento se desembarca na Vida absoluta, pois o chamado nascimento é a porta da morte e todo conhecimento é conhecimento do que está morto, de modo que matar a morte é recuar ao ponto do toque e ressuscitar na glória infinita de nunca mais saber que somos.
1285 — O ensinamento capital para o autor foi descobrir que o Grande Si mesmo mora na cripta do coração, verdade que sustentou com um “ato de verdade” incessante, embora acreditasse que teria de deixar de sentir e de ser para verificá-la, até compreender, com Nisargadatta, que saber agora que o corpo-mente não era é a prova de que se era, e que o Si só pode ser verificado sabendo que somos.
1286 — A voz pergunta como, sem conhecimento, poderia ser conhecida como Realidade Última, e explica que o conhecimento está aqui para que recuemos dele e nos conheçamos como éramos quando ele não era, havendo duas mortes, a inércia de quem morre crendo-se homem e a morte antes de morrer de quem verifica que nunca existiu como homem.
1287 — A prova do estado eterno é que o transitório é e sabemos que ele não era, e embora amemos a experiência porque ela nos dá um vislumbre de nosso ser imutável, devemos chegar com o conhecimento até onde nem o conhecedor era, momento em que o conhecimento passa a ser amado como um espelho fiel e o Compreensor é a união de três estados: Absoluto, saber-se Absoluto e saber-se também transitório.
1288 — O Compreensor não se reconhece no ego, mas se reconhece como aquele que o vê, com a mesma equanimidade da criança pequena que não reconhece como seu o rosto no espelho, pois está aqui e não tem rosto, e só um falso ensinamento nos fez aceitar como nós a imagem do mundo que nos revela como seu vidente.
1289 — Ver nossa natureza última é o maior repouso, e mesmo o conhecimento de que somos é uma verdade penúltima, uma flecha que aponta para nós, de modo que a frase dos sábios “não há nada a compreender” significa que devemos compreender e tornar-nos íntimos do Nada em que não sabíamos que somos, sem recuar espantados, até amar loucamente o ser que permanece sem saber de si.
1290 — Há dois nadas: o do ignorante, que ao pensar no estado anterior ao nascimento só vê escuridão, morte e solidão terrível e recua espantado, e o Nada que o Sábio compreende e do qual, por compreendê-lo, é maior, sabendo que antes de saber que era não é que ele não fosse, mas que nada do que agora aparece estava lá.
1291 — Pela Via Afirmativa não podemos dizer “somos Deus”, pois esse “nós” começou e terminará, mas pela Via Negativa, aniquilando tudo o que não estava conosco antes do conhecimento, verificamos a fórmula “não somos outro que Deus”, que corresponde ao “não há deus senão Deus” e na qual, como nós mesmos, não somos, enquanto, como não outros que Ele, somos absolutamente Ele, na Identidade Suprema.
1292 — Ouvir o canto da libertação e dar-lhe pleno assentimento é o supremo “ato de verdade”, que o autor jamais traiu ao longo de mudanças necessárias como a casca que o pintinho rompe e sem nunca mentir sobre seu estado, e foi-lhe dito que um sábio realizado sempre se alegra com a realização dos outros, ao passo que quem duvida e acusa tem o coração selado de rancor e deve ser evitado.
1293 — A paixão de sentir-se sendo deve consumir-se como fogo sem combustível, e postos no instante em que surgiu o conhecimento vemos que nada do que acreditamos ser estava lá, de modo que “nós não somos” é uma verdade verdadeira referida a esse estado, cujo Nada é ausência de conhecimento, de dualidade, de alguém que se conhece e de toque da substância nascimento.
1294 — “Como era no Princípio, é agora” significa que, como corpo-mente-alma-espírito, éramos e somos Nada, pois o Princípio não é um começo, mas o instante eterno em que o começo começa, e a fórmula “não somos outro que o Princípio” expressa ao mesmo tempo nossa aniquilação como devires e nossa afirmação como Princípio, para o que o conhecimento deve recuar e virar-se do avesso como uma meia.
1295 — Nossa teose passa pela verificação incessante de “nós não somos”, que parece contradizer o saber íntimo de que somos, mas que se aplica exatamente a tudo o que nasceu e corre como flecha para a morte, enquanto continuamos não sendo outro que o que éramos antes do toque, o Resíduo que resta quando todos os fogos se apagam: a Noite serena, eterna e autocontida.
1296 — A fórmula da Identidade Suprema, “não somos outro que nós mesmos”, pode ser dita também como “eu não sou outro que eu mesmo” ou “não é deus outro que Deus”, e para verificá-la é preciso varrer profunda e incessantemente tudo o que a substância nascimento faz aparecer, até restar o Resíduo do qual jamais poderemos dizer que não o somos.
1297 — Contra a heresia budista do *nathika*, que só crê no que os sentidos agarram e, mesmo religioso, persegue os realizados, o caminho exige o trabalho e o suor de um deslocamento inteligível da identificação para o recuo, como o de um vedor que pressente água oculta apesar das zombarias, e o autor, depois de vestir muitos trajes religiosos, descobriu que a Porta só aceita o traje da mesmidade, quando o suor queimou nele a consciência de ser alguém.
1298 — No símbolo do espelho, o bebê sem rosto vê no espelho um estranho que lhe ensinam falsamente a reconhecer como si mesmo, quando esse rosto está lá fora, feito de espelho, e jamais pode passar para cá, de modo que é evidentemente outro que nós, que estamos aqui e não temos rosto.
1299 — A fidelidade do símbolo do espelho é absoluta, pois quando se diz que o espelho nunca mente esquece-se de que a idade e a aparência que ele mostra são as desse outro que aparece quando nos pomos diante dele, e a aparição desse outro no espelho da consciência é o símbolo de nossa procissão.
1300 — Devemos recuar da imagem intermitente no espelho para o verdadeiro nós, sempre presente, que a vê sem ser visto por ela, e a vergonha que sentimos ao nos reconhecermos no espelho mostra que no fundo sabemos não ser ela, assim como não somos o corpo-mente-alma-espírito, que são vistos e não veem, e com os quais não há fusão possível, como entre azeite e água.
1301 — A imagem no espelho é símbolo exato do outro que apareceu em nós com o toque da substância nascimento, uma ilusão misteriosa sobreposta ao espelho que não nos toca em ponto algum, e o que importa não é saber como esse falso nós apareceu, mas recuar da identificação com ele.
1302 — Só o recuo do que não somos nos leva ao que somos, e como o mundo começou e não se presencia a si mesmo, o conhecimento sabe que era antes dele, mas até o “espírito” deve ser incluído no que não somos, pois é apenas um infinitésimo de inconhecimento tingido de conhecimento, como uma gota tingida no oceano, cuja tintura se dissolve com a morte, razão pela qual convém recuar também dele.
1303 — O conhecimento começou e não estava conosco, de modo que não podemos ser ele, que como ave de rapina comeu objetos doces e amargos, teve crenças e se acreditou nascido, mortal e dono das paixões, enquanto é apenas como a criança nos braços da mãe, braços que já existiam quando a criança não existia.
1304 — Nossa consciência de ser é como um toque de tinta num infinitésimo do oceano de água transparente, e de sabermos se somos a tinta ou o oceano depende sermos mortais ou imortais, pois a tinta, o corpo-mente, é o único visível, enquanto a água invisível só se infere por ela, e não é a gota tingida que toma consciência de ser, mas a transparência absoluta que somos.
1305 — O oceano de mesmidade é um contínuo sem princípio nem fim do qual nenhuma gota entra ou sai, e é ele que se disfarça de nós para saber-se ser, de modo que crer-se alguém, identificado com a tinta da individualidade, é usurpar ao Oceano o conhecimento e a consciência de si mesmo.
1306 — Não pode haver fusão da parte com o Todo onde nunca houve partes, e a afirmação de nosso ser deve ser negativa, pois recuando com o conhecimento vemos que no Mar não há corpo, relógio nem gota que se diga separada, e “somos outro que o Mar” é a verdade-falsidade do ego, enquanto a impassibilidade pertence ao Mar e a paixão à tinta, a única pela qual um verificador pode ser visto.
1307 — Conceber-nos como outro que o Mar ou crer em Deus como outro que nós é falso, pois ou Deus é infinito e nada pode ser outro, ou só Ele é, de modo que “somos a tinta” é uma afirmação falsa e “não somos outro que aquilo que a tinta tinge” é uma negação verdadeira, e o “nós não somos” é a vassoura de nossa limpeza.
1308 — Não há passo até nós mesmos, e quem se concebe como viajante nunca chega, pois nunca saímos e o “recuo” é apenas uma maneira de falar, como se vê ao conceber um Grande Oceano de Tempo vazio de tudo o que começa e acaba, cuja única dificuldade de compreensão vem de acreditarmos ser o tempo do corpo-mente.
1309 — Nossa verdadeira natureza deve ser concebida como um Grande Oceano de Tempo vazio de devires, semelhante ao sono profundo, onde tempo e eternidade coincidem e não há nada a temer, de modo que só o amor, ao concebê-lo repetidamente, vence o terror dessa Solidão absoluta, que não ama a experiência porque nunca se torna alguém.
1310 — Recolhido em seu Grande Estado, o autor vê sem olhos o infinitésimo em que coincidem o começo e o fim de sua forma, contido nele como todos os nascimentos e mortes já havidos e por haver, o que responde serenamente à pergunta sobre um novo renascimento e o deixa livre de todo orgulho, vaidade ou ego, pois o poder do engano foi quebrado.
1311 — Naquilo em que todos somos Um ninguém pode invejar ninguém, porque o ego, feito de vontade e nascido para morrer, só inveja naquilo que nunca fomos, e para além dos três estados de falsidade, vigília, sonho e sono profundo, há um quarto em que o sono profundo desperta e se vê contendo tudo e um Quinto em que não há confluência alguma e jamais me sei ser.
1312 — Aquilo em que todos somos um só Idêntico é semelhante ao sono profundo, no qual nem o autor nem uma formiga se distinguem, e o caminho consiste em conhecê-lo desperto, mas desperto para a Identidade e não para a diferença, vendo o próprio corpo-mente como num sonho e todos os quandos e ondes ligados numa única identidade sem começo nem fim.
1313 — O sono profundo não pode renascer nem transmigrar, pois só a visão da diferença transmigra, enquanto ele, idêntico em todos e sem tempo nem história, vê inúmeras vigílias de homens, deuses, formigas e universos abrirem-se, passarem e mergulharem nele sem jamais se mover, permanecendo além do começo e do fim, agora sem saber que é.
1314 — No sono profundo não há corpo, mente, tempo nem conhecimento, e mesmo assim sabemos, pela recordação perfeita na vigília, que nele somos, e ele é como o tronco de uma árvore cujas raízes se perdem no Oceano de Mesmidade e cujos ramos são as vigílias, sendo tarefa do buscador dormir esse sono acordado para que, com o conhecimento mortal, alcance a certeza do imortal.
1315 — O sono profundo alcançado pelo recuo ativo de todas as faculdades é o samadhi, e exige confiar que o conhecimento também conhece quando não sabe que conhece, pois há um só conhecimento, adormecido para sua natureza quando desperto para a vigília e desperto para ela quando adormecido, e devemos presenciar seu recuo até o último instante, quando já não se agarra a nada e se torna o que é.
1316 — As perguntas sobre o porquê e o como do nascimento desaparecem quando se compreende que ninguém jamais nasceu, e o autor rejeita até a doutrina do Transmigrante único, porque o Mar nunca entra numa gota, assim como há um único sono profundo idêntico em todos e em todas as noites, no qual o universo inteiro desaparece sem resíduo, de modo que até os corpos-mentes são apenas água do Mar, não nascidos e imortais.
1317 — Viemos aqui aprender a dormir acordados e a despertar dormindo, pois só na confluência da vigília com o sono profundo compreendemos que ele é não nascido e imortal, assim como tudo o que ele absorve, e verificamos que nunca houve nascimento algum, que o Senhor não transmigra e que é impossível uma gota ser outro que o Mar.
1318 — Cada dia é separado do outro por um passo para dentro de nós mesmos, o sono profundo, no qual somos todos um só Idêntico, sem qualidades, forma nem começo presenciado, e onde as faculdades recuam como raios ao centro, de modo que viemos verificar o que acontece quando elas cessam, abrindo o sono profundo na vigília para perder o medo de não nos sabermos ser.
1319 — O estado anterior a tudo nunca está separado de nós, e sua semelhança é o sono profundo, que devemos conhecer com o conhecimento desperto, perguntando-nos se nele há corpo, mente, mundo, tempo ou sofrimento, porque ele nos fala clamorosamente do que somos verdadeiramente e, ao contrário de nosso estado falso, ninguém sabe sua idade.
1320 — Só quando se verifica sente-se o amor intenso, e só quando se sente o amor intenso se verifica, pois no peito arde uma chama inteligível, invisível e mais eficaz que o fogo sensível, que o Compreensor usa como tocha para iluminar seu próprio interior desconhecido, já que a intelecção sozinha não basta e só se compreende o que se ama intensamente compreender.
1321 — A contemplação incessante de nossa natureza se faz pelo reflexo de nós mesmos na chama limpa do coração, como num espelho interior em que somos o que olha e não o que aparece, e somos a Noite que, com milhões de olhos, vê a fogueira do fogo inteligível sem ser ela, uma Noite que não vem de parte alguma e deve saber tudo de si enquanto há Luz.
1322 — A lâmpada acesa no nicho do corpo-mente arde sem queimar e nos permite recuar agora ao estado original, que conhecemos por exclusão de tudo o que não estava conosco, pois há uma Luz e uma Cognoscibilidade sem combustão, invisíveis por excesso, que veem e conhecem tudo, e nosso recuo não é a partir de nossa natureza, mas em direção a ela, sem precisar conhecê-la antes como uma casa vista de fora.
1323 — Os imitadores de Cristo ou do Buda erraram ao imitar aquilo que constituía sua diferença, o que é impossível, quando o que deve ser imitado e emulado é a identidade, recordando, vendo e verificando o que eles recordaram, viram e verificaram, até descobrir-se sendo esse Uno Idêntico no centro de todos os corações.
1324 — A imitação verdadeira está no único Idêntico que somos todos, que não é preciso buscar em Cristo há dois mil anos, no Buda ou no mestre vizinho, porque está em nós e é nós, e o autor, que não se cansa de recuar à sua paz e já não pergunta como nem por quê, sente por esse estado um amor tão imenso que só lhe restam forças para amar.
