Sabe o conhecimento que Eu Sou?
Síntese das 178 seções de O livro da proposição “Sabe o conhecimento que Eu Sou?”.
1 — Nem a consciência de mim mesmo nem a autoidentificação “eu” jamais me encontraram, assim como o sonho não encontra quem o sonha nem o martelo encontra o carpinteiro, pois só a mesmidade, nunca ausente, repousa em si mesma, sabe que o estado nascimento não estava e não pode ser buscada nem achada.
2 — Os sentidos, o tato, a sensação de mim mesmo e o conhecimento nunca me sentiram nem me conheceram, porque, como o sonho da noite passada, não se valem nem se sustentam por si mesmos, restando a pergunta sobre quem os sustenta.
3 — Nada do que chamo “eu”, conhecimento, consciência, visão, espaço, estado nascimento, certeza, Brahman, escrituras ou ignorância jamais se dirigiu a mim dizendo “eu sou tu”, “eu te conheço” ou “eu sou tua história”, e nunca fui posse de nenhum deles.
4 — A série de perguntas sobre se a certeza, a consciência, os sentidos, as palavras, o estado nascimento, o Supremo ou a própria proposição “nada era comigo” me conhecem revela que nenhum deles se vale por si mesmo nem jamais esteve certo de mim independentemente de mim.
5 — Não há reciprocidade alguma, como se eu visse o sonho e o sonho me visse, ou eu conhecesse o conhecimento e ele me conhecesse, e ao verificar que a visão não me vê fica a pergunta decisiva: a quem estou verificando?
6 — O provador do sabor nascimento, o conhecedor de “eu sou” e o sentidor da sensação de mim mesmo não estavam comigo, onde nada se provava, conhecia ou sentia, nem havia medo de deixar de me sentir, de modo que desde sempre o conhecimento não me conhece.
7 — Jamais houve conhecimento de mim, real ou irreal, e eu era impossível de rastrear, de modo que é falso pensar que o conhecimento, a sensação ou a consciência possam me conhecer, pois nenhum deles tem imagem, modelo ou rastro de mim.
8 — Não há conhecimento, sensação, consciência, visão, gosto, tato ou escritura, supremos ou não, que me conheça, sinta ou expresse, porque não sou supremo nem não supremo, nem nada que tenha sido visto, conhecido ou sentido.
9 — Nada respira, cobre ou contém, e sou inalcançável por qualquer um que não eu mesmo, de modo que só sendo-o é possível ver-me, escutar-me ou compreender-me, já que nunca a visão, o conhecimento, a contemplação ou o arrebatamento se dirigiram a mim dizendo “eu te vejo”.
10 — Inescrutável, inviolável e sem rastro, sou independente do ser e do não ser, da vida e da morte, do conhecimento e da ignorância: a vida não me vive, a morte não me mata e o ser não me “é”.
11 — Nada era comigo, e sou da natureza que contém o que as palavras “nunca” e “nada” nomeiam, de modo que o nada é meu conteúdo, mas não minha identidade, e eu não sou estado nem não estado, nem sequer o estado supremo.
12 — Nem a proposição “nada era comigo” nem a compreensão “eu sou sem nascimento” jamais me viram ou se dirigiram a mim, porque sou inacessível, impensável, nunca conhecido e jamais ausente, sendo tudo difícil e evanescente exceto eu mesmo.
13 — Nem a pergunta “que vejo que sou?”, nem as escrituras, a repetição do nome de Deus, a compreensão, o pensamento ou o sonho jamais me viram, encontraram ou nomearam, pois em mim não há nome nem não nome nem nada nomeável.
14 — Em mim não há nome, estado, conhecimento, consciência ou nascimento, nem seus opostos, nem absolutamente nada que possa ser nomeado, tornado estado, conhecido, conscienciado ou feito nascer.
15 — Nem o estado nascimento sabe por si mesmo que não esteve sempre comigo, nem o conhecimento sabe que não estava, e a pergunta se volta para aquele que vê que nada disso estava: o que ele sabe de si mesmo?
16 — Não estou fora nem dentro do estado nascimento, do conhecimento, da visão ou da consciência, porque nenhum deles tem autonomia, nenhum é o que sou e nenhum *é*.
17 — Não sou conteúdo do conhecimento, de “eu sei que eu sou”, da sensação de mim mesmo nem do estado nascimento, e jamais vi nenhum deles me vendo, conhecendo ou sendo, já que não há outro que eu mesmo.
18 — Toda a interrogação converge para aquele que vê que a visão não me vê, que sabe que o conhecimento não me conhece e que nada era comigo: quem *é* quando o que não é *não é*?
19 — O estado nascimento é só um nome e não me encontrou porque não sou da natureza do que está perdido, e só por proposições que brotam desse ver-me compreendo o que sou, alguém em quem toda parte está mas a quem nenhuma parte toca, sem interior nem exterior.
20 — A pergunta se a sensação de mim mesmo me contém, e se as escrituras, a Libertação, a Iluminação ou estas próprias proposições me veem, é a mesma que Deus faria a si mesmo, e todas apontam para a proposição que dá título ao livro.
21 — O que é todo não tem partes, e por isso o conhecimento, a sensação e a consciência de mim mesmo não são partes de mim nem podem saber por si mesmos que *eu sou*, pois o encontrado é sempre o conhecimento, e não eu.
22 — Corpo, mente, emoções e até a inclinação a saber quem sou não estavam comigo, de modo que nunca fui um viajante em busca de mim mesmo nem pude ser chamado Deus ou criatura, e só resta a certeza, que não é identidade com coisa alguma.
23 — Primeiro era “absolutamente nada era comigo”, proposição que me expõe por completo, sem modelo nem qualidades, e é por isso que a visão não me vê e o conhecimento não me conhece; depois, é “absolutamente nada *é* comigo”.
24 — Depois surgiu a pergunta “o conhecimento me conhece?”, e se antes eu não podia ver-me vendo a ausência do conhecimento, agora me vejo vendo tudo o que não estava comigo, compreendendo que nunca estou dentro nem fora do mundo, porque o mundo é só visão, sensação e conhecimento, e nada disso me vê.
25 — Não sou da natureza de nenhuma das tríades, visão-vidente-visto, conhecimento-conhecedor-conhecido, consciência-consciente-conscienciado, sensação de mim-sentidor-autoconstatação, porque nada delas estava comigo.
26 — Comigo não havia conhecimento nem ignorância, escravidão nem libertação, e, assim como o Sol jamais é prisioneiro das nuvens que o ocultam, nenhuma nuvem pode dizer que aprisionou o Sol nem que eu seja um “libertado”.
27 — A proposição “nada era comigo” não me vê nem me faz ser, e quando as escrituras dizem “tudo é só consciência” isso significa que esse tudo *não é*, pois a consciência não estava e a certeza absoluta é apenas “absolutamente nada era comigo”.
28 — Nem o supremo, nem a libertação, nem a iluminação me alcançam, porque só a mesmidade coincide com a mesmidade, e a certeza é essa coincidência, pela qual este eu mesmo se vê ao ver que absolutamente nada era com ele.
29 — Não sou a proposição “nada era comigo” nem sua compreensão nem seu compreensor, e esse estado natural de certeza absoluta é tal que, apenas por um instante, devido à presença da consciência, a mesmidade parece ver-se e compreender-se, até que começo e fim coincidam e não reste estado nascimento.
30 — É apenas um instante de visão e de certeza, o mais profundo e estável, e quando o próprio instante desaparece ninguém resta para verificar, razão pela qual essa certeza deve ser assentida enquanto o instante permanece.
31 — A meta é que este eu mesmo que se vê compreenda que é tudo o que é, pois o mundo não se via por nunca ter sido outro que eu, e em minha mesmidade não há vidente nem visto, igual nem diferente, de modo que sê-lo e compreender que o sou é a mesma mesmidade.
32 — Este eu mesmo se vê apenas por si mesmo, sendo ele mesmo sua própria visão e seu próprio conhecimento, de modo que não há nenhuma outra visão que me veja, e sê-lo e ver que o sou é só minha própria mesmidade.
33 — Quando nada era comigo não havia visão, conhecimento, consciência, nem este eu que se vê, nem compreensão alguma, e é incalculável tudo o que eu não sabia, pois jamais fora despertado de minha mesmidade, que, sem nome, só por si mesma se encontra.
34 — A resposta à pergunta “o conhecimento me conhece?” vem silenciosa de minha mesmidade como um oceano de certeza, doce como mel na língua, revelando que conhecimento, visão e consciência são o “nada” da proposição, um instante cujo substrato era sem eles, e que o estado nascimento é só um instante de conhecimento cujo conhecedor não está nele.
35 — A ladainha da certeza pergunta se até o instante em que o conhecimento conhece, a visão vê e a consciência é consciente me conhece, e a certeza, néctar estável, sabe que nenhum deles estava.
36 — O estado nascimento é apenas função e processo pelo qual, numa “nada de tempo” que é sempre agora, o que não conhecia conhece, enquanto o que sempre é sabe que essa função não estava e se vê sem ela, numa certeza sem fissura nem dualidade em que vê-lo é sê-lo.
37 — Quem tem a certeza por outro que não si mesmo não se vê nem tem certeza, porque nenhuma escritura nem ninguém pode dá-la, já que ela se autodescobre quando se vê que nada era comigo, que as escrituras não me conhecem e que o estado nascimento nada sabe de mim.
38 — Todo mundo confia no conhecimento para saber quem é, mas nem o que aprendi, nem as escrituras e os livros, nem a proposição “tu és a Realidade” jamais se dirigiram a mim dizendo o que veem que sou.
39 — Diante da frase do *Ribhu Gita* de que a certeza é causa da Libertação, distinguem-se a linguagem explicativa, erudição que explica tudo por outro e é só ignorância, a expressiva, como “Isso és tu”, verificável apenas por quem já se compreende, e a convocativa, cujas perguntas despertam em mim uma resposta rotunda que expõe a certeza de mim mesmo, a qual nunca diz “sou isto” nem “não sou isto”.
40 — Nem sequer a certeza de mim mesmo tem certeza de mim, pois quando nada era comigo não havia certeza nem conhecedor, e o “grande Si mesmo” das escrituras só é grande para quem não se conhece, sendo este o mistério: nem a certeza estava.
41 — Para si mesmo, o mar não é o mar, o espaço não é o espaço e a Realidade não é a Realidade, porque nada há com que compará-los, e eu não tenho conhecedor nem presenciador que possa dizer o que sou ou não sou.
42 — Minha mesmidade se conhece só por si mesma num instante imediato que não é começo nem fim de nada, e o verdadeiro compreensor sabe que até esse saber-se não estava, de modo que não pede às escrituras, aos sábios ou à mente que lhe digam quem é, e então se instala a certeza, desaparecem a angústia de ter-se sentido perdido e o medo de “não saber”, e nascimento e morte se dissolvem em suas letras.
43 — Não há nada interior ou exterior a mim que me conheça, veja ou contenha, nem abismo que me engula ou no qual eu me dissolva, porque jamais apareci, assim como o mar não tem outro mar que o veja ou o contenha.
44 — A certeza surge simplesmente porque o que sou é exatamente o que é quando nada era comigo, e ela é inabalável, sem lugar e em todo lugar, medida das escrituras, mel na própria língua, impossível de aprender, roubar ou comprar, intensidade inteligível como um fogo extinto cuja luz é repouso absoluto.
45 — Nem os sentidos, nem o pensamento, a imaginação, a busca, a meditação ou a contemplação podem me conhecer, porque sou eu mesmo quem busca, medita e contempla, e nem sequer o “eu” me conhece, já que nada em mim é nomeado por essa palavra.
46 — Não sou “nada era comigo” nem “tudo era comigo”, nem as proposições deste livro, e “comigo” é só uma palavra de quando não havia língua nem concepção, de modo que só o que *É* compreende que “compreender” não estava e se aceita limpo de tudo o que nunca houve.
47 — Nenhuma proposição nem conhecimento, supremo ou não, sabe onde focar sua cognição ou expandir sua onipresença para me encontrar, porque o conhecimento não decide por si, e eu não sou o que exclama “eu sou”, já que ali não havia “eu” nem sequer “comigo”.
48 — As escrituras dizem que sou da natureza do conhecimento, da visão e da consciência, mas a pergunta revela que não sou cognoscível, já que conhecer é um processo e eu não sou processo, e essa exposição de minha realidade incognoscível não traz medo, mas paz: sou o que “eu sou” não conhece.
49 — Todos os nomes que as escrituras me dão respondem à visão de algo, mas ninguém vê o vidente, e minha única onisciência é a do que não estava comigo, porque conhecer exige dois e até o conhecedor do estado nascimento estava ausente, de modo que toda representação de mim é falsa.
50 — De olhos fechados vejo uma vacuidade ilimitada povoada apenas pela sensação de mim mesmo, sem corpo nem mente, mas não sou a vacuidade, nem a sensação, nem o conhecimento de que tudo é conhecimento de mim, e nenhum deles me vê, me busca ou me dá a certeza de ser.
51 — Quando se inverte o sentido do conhecimento e se pergunta por seu alcance, percebe-se que ele nunca me viu nem pode ver, e nem sequer a certeza me vê, de modo que me compreendo, por mim mesmo, como aquilo que o conhecimento não conhece.
52 — Comigo não havia esquecimento nem lembrança de mim, e este estado é só “lembrança” de quando o estado nascimento não estava, cujas faculdades apenas apreendem o que não sou, inertes e animadas por outro, de modo que a pergunta é: quem é a vida da vida, a visão da visão e o alento deste estado nascimento?
53 — Comigo não havia ninguém que me visse, nem felicidade, dualidade ou desejo, nem um “eu” a ser enganado, porque “eu” e o engano da consciência são a mesma coisa.
54 — O conhecimento me diz que sou “absoluto”, “eu”, “o maior” e “supremo”, mas essas palavras só têm sentido no domínio dos opostos, que não estava, e nem sequer “comigo” me nomeia, de modo que o conhecimento só é útil pontualmente para compreender que não estava, já que teria sido um fardo tremendo que estivesse.
55 — Não sou o supremo nem o absoluto, nem seus opostos, e não havia Existência-Consciência-Felicidade nem ninguém para carregá-la, nem eixo central em torno do qual um mundo girasse, nem presenciador algum.
56 — No sonho há conhecimento, tato, sensação de “eu”, espaço e duração exatamente como na vigília, mas é apenas pensamento visto, completo e sem saída, aparecido sem gestação, que não me conhece nem suspeita que é só um sonho.
57 — O conhecimento jamais sabe que é só conhecimento, nem a visão que é só visão, de modo que, se eu mesmo não me encontro como objeto, nem o sonho nem o conhecimento poderão me encontrar.
58 — Ao perguntar qual é a substância, os órgãos e o ser do conhecimento e do “eu sou consciente”, vejo que nada disso esteve sempre comigo e que este “comigo” com quem não estavam não tinha nome, felicidade, desejo, vida nem morte.
59 — Não sou o que o conhecimento conhece, a vida vive ou a morte mata, e até “abismo” é só uma palavra e um conceito, pois se essas coisas fossem reais teriam permanência e autonomia, seriam pessoas que sempre estiveram comigo, o que não são.
60 — Não existe a “pessoa” do conhecimento, da consciência, da visão, do estado nascimento ou do “eu” que exerça sobre mim seu poder, me busque, siga meu rastro ou me encontre.
61 — Nem a sensação de mim mesmo, nem o estado nascimento, a vigília, o sonho ou o sono profundo têm conhecimento, consciência, visão ou “pessoa” capazes de me sentir.
62 — O conhecimento surge de repente, sem autonomia, sendo ele o encontrado, e então se exclama “eu” como quem exclama “ai!” diante de um mal-estar nunca antes sentido, e assim como o “ai” não vê quem o exclama, a sensação “eu” não pode ver nem encontrar quem a tem.
63 — Ver o que é quando o conhecimento não está só é possível com o conhecimento presente, e não ter nascimento significa apenas que o conhecimento não estava, sem vigília, sonho ou sono profundo, sem matriz de concepção nem pretensão alguma de me conhecer.
64 — Ninguém vê o sonho da noite passada dissolver-se ou voltar a mim, e o conhecimento da vigília não difere do sonho, pois a palavra “eu” e seu conhecedor surgem juntos, como o provador e o sabor ao provar um grão de sal, sem que nenhum deles me conheça ou retorne a mim.
65 — Com o próprio conhecimento fica exposta a verdadeira realidade de cada um, que sabe que o conhecimento não estava, como o sentido do paladar, que em si não tem provador, prova nem sabor e só parece anterior a eles quando estes aparecem, sendo sempre, sem antes nem depois.
66 — A verdadeira realidade se apreende ao perceber que é com ela que o conhecimento não estava, isto é, que não havia estado nascimento, autorreferência “eu” nem presenciador, e saber isso é graça: o conhecimento não me conhece, mas “eu” me conheço sem conhecimento e me vejo sem visão, e o que vejo basta.
67 — Vê-se o que nenhum olho viu porque nenhum olho jamais saiu, não havendo dentro visível de fora nem fora que veja um dentro, de modo que o que nunca saiu se vê exatamente como não saído.
68 — É agora que se vê exatamente o que é quando o estado nascimento não estava, porque é nossa realidade vendo-se a si mesma sem dualidade, sendo o estado nascimento apenas um revestimento de atributos da realidade que, se fosse um ser por si, não teria começo nem fim e ninguém poderia ver que não estava.
69 — Ver-se sem estado nascimento é acessível agora, como ver-se nu por ser o poder que sustenta todas as roupas, num ver natural que nenhuma obra facilita ou impede, sem caminho de volta para quem nunca saiu.
70 — Comigo não havia conhecimento nem ignorância, centro nem circunferência, nem corpo que me dissesse “sou teu corpo”, e não há outro tempo senão agora, pois “no princípio” e “no fim” são agora, quando o que é se vê sem estado nascimento numa certeza que é repouso e só Paz.
71 — Nunca há outro tempo senão o Agora, pois ninguém lembra “ontem” nem “amanhã” que o estado nascimento não estava, e é agora que alguém se vê sem ele.
72 — Não se chega ao que sou porque nunca houve saída dele, o que exigiria dois “eu sou”, um vazio e outro angustiado, e “eu sou” é apenas a exclamação feita de ar de quem se sente ser, sensação que não se sentia, de modo que nada sai do que não é algo nem volta a ele.
73 — Não sou o depósito dos sonhos, da vigília, do sono profundo nem do estado nascimento, que não tem “eu sou” nem jamais me disse ter saído de mim, e o que não saiu de mim não pode voltar a mim.
74 — Quando vejo que a visão não me vê, não é há quarenta anos nem há um instante, e nunca os sentidos, o estado nascimento, a visão ou o conhecimento me buscaram, pediram para me ver ou ser vivificados, conheceram meu paradeiro ou fizeram uma imagem de mim.
75 — As respostas a essas perguntas mostram que nada mudou, pois nem agora o estado nascimento, o conhecimento, a vigília, o sonho ou o sono profundo me buscam, me conhecem ou me falam de igual para igual.
76 — Não é felicidade nem não felicidade, manifestação, silêncio, vazio ou abismo, nem seus opostos, porque todos esses nomes carecem de autonomia e de consistência própria, e nada, nem mesmo “o todo”, pode dirigir-se a mim dizendo “eu sou tua experiência”.
77 — Ao perguntar se o conhecimento me encontrou, descubro que ele é totalmente exterior e nada sabe de mim, enquanto me encontro onde sempre estou, numa certeza íntima que é ela mesma, sem poder definir-me como o maior, o ser, o absoluto ou o sempre, e vejo que o estado nascimento é inerte e cego, e que a certeza é absolutamente absoluta.
78 — Embora só eu seja, não estou só, porque nada há em relação a que se diga que estou só ou acompanhado, e tudo o mais é vivificado por este poder, tão simples que não sei aplicar conceitos grandes nem pequenos: simplesmente o estado nascimento não me vê.
79 — As grandes noções aprendidas, eterno, ser, consciência, felicidade, só têm sentido em oposição aos seus contrários e são conhecimento nascido de oposições conceituais que não me veem, de modo que nenhum atributo me “eseifica”, “eternifica” ou “supremifica”: são só palavras.
80 — O ser não me “eseifica” nem a existência me “existencifica”, e nenhum atributo me tinge com sua cor, nem há um “nunca”, um “sempre” ou uma eternidade que me qualifiquem.
81 — Palavras sonoras como eterno, supremo, absoluto e autoconhecimento tiveram um tempo em que não se escutavam, porque sem estado nascimento não havia nada qualificado, nem transitório que desse sentido ao eterno, nem ninguém que os concebesse ou presenciasse.
82 — O estado nascimento é só um conceito que não tinha conceptor, e o que *É* não se explicava, concebia nem saboreava, de modo que, ao ver-se sem ser conceptor de nada, sem vigília, sonho, sono profundo ou sensação de si, ele vê que “o todo” é só um conceito sem conceptor.
83 — Vendo-se sem ser conceptor de nada, o “eu” não se nomeia, o “eu sou” não tem exclamador, nenhum mundo encontra a quem aparecer e o conceito de nascimento fica vazio, de modo que ele não se toma pelo que não é, e esse é o verdadeiro ver-se.
84 — “Este todo”, o “me conheço” e o “me apreendo” me têm como conhecedor e apreensor, mas não me conhecem, sendo surdos, mudos e cegos, assim como o “Si mesmo” das disciplinas espirituais me tem como seu abarcador sem jamais me abarcar, e no entanto a certeza é absoluta.
85 — O que as palavras “Deus” e “Guru” nomeiam é desconhecido, pois qualquer significado que se lhes dê é minha compreensão que o compreende, e é impossível que esse conceito se volte para o ignorante e lhe ensine quem ele é.
86 — Os nomes “Deus”, “eu” e “Existência-Consciência-Felicidade” nomeiam apenas conjuntos de conhecimento separativo surgidos com a vigília, que não estava, de modo que é inútil pedir ao que não estava comigo, e a um Deus outro que eu, que me explique o que sou.
87 — O que não estava comigo não me conhece, mas a intimidade absoluta de mim mesmo me conhece e me vê com um conhecimento que não é “conhecimento-e-ignorância”, e por ela assinto que sou minha própria certeza, com a qual não havia certeza nem incerteza.
88 — Assinto que o que a visão não vê ao voltar-se para mim é minha própria mesmidade, enquanto tudo o que aparece é inerte e vivificado, qualidade de algo que qualifica, e assim como o filme não vê quem o assiste, este todo não me conhece, e resta perguntar como deixei de pedir-lhe que me conte minha história.
89 — Comigo não havia todo nem nada, e tudo o que agora se experimenta é como uma marionete inerte, ao passo que me conheço só por mim mesmo e vejo que sou apenas mesmidade, que não se pode chamar felicidade, consciência ou ser por falta de opostos, e que jamais aparece nem desaparece.
90 — A certeza absoluta aparece sozinha quando se vê que o conhecimento não me conhece, que nada era comigo e que nunca se encontrou a própria ausência, sendo a explosão rotunda da verdade de si mesmo, a própria inerência, em que não há nada a afirmar nem a negar.
91 — A certeza absoluta é um conjunto de felicidade que se tem por si mesmo, a certeza de nunca ter nascido e de ver que se vê, mas até este instante feliz de ver quem sou não sou eu, basta um só instante, todos são o mesmo e é indiferente que esteja ou não esteja.
92 — Todo este todo é sem nascimento e nada é à parte do Si mesmo, pois vigília, sonho, sono profundo e quarto estado aparecem em mim sem ser próprio, e por isso já não pergunto para que existe o estado nascimento, sabendo que “todo” e “nada” são só concepções cujo conceptor sou eu.
93 — Todo e nada, nascimento e não nascimento, são só significados presenciados num sonho, que ao despertar nada significam, de modo que os significados que eu mesmo atribuo não podem me fazer nascer nem me tornar sem nascimento, nem me ver.
94 — Ninguém pergunta para que serviu o sonho da noite passada nem lhe pede salvação, porque todos sabem que era só sonho e que até o eu visto nele não era o próprio eu, e do mesmo modo não há resposta ao “para quê?” do estado nascimento, cujo “todo” não é mais real que aquele sonho.
95 — Como “todo”, “nada”, “eu” ou “estado nascimento”, nada disso estava comigo nem havia quem verificasse sua presença ou ausência, de modo que nenhum abismo me continha, nenhuma totalidade me expressava e nenhum vazio me desalojava.
96 — Não há como entrar onde nunca saí, e a sensação de “eu” é o que há de mais estranho, estrangeiro, venenoso e urticante, sem que ninguém saiba que poção a provoca, sensação que não estava, assim como não havia desejo de existir, orgulho, vaidade nem quem os tivesse.
97 — Jamais houve um chamar-me “eu”, e a experiência que essa palavra nomeia é grosseira e urticante como um ato malfeitor não solicitado, de modo que este todo, este nada e este sentir “eu” juntos não valem o que vale sua absoluta ausência de mim.
98 — O “eu” é um solúvel urticante, como sal em ferida, com quatro modos de solubilidade que são a vigília, o sonho, o sono profundo e a felicidade ou conhecimento de ser o que sou, nenhum dos quais estava, e esse ato criminoso é uma sede corrosiva tão insuportável que se esquece de si mesmo num de seus estados.
99 — Alguns compreensores saboreiam a felicidade ou o conhecimento de ser o que sou, mas não veem que até essa felicidade e esse conhecimento não estavam.
100 — Quem compreende que o estado nascimento não estava não se vê como parte nem como totalidade, criador nem criação, mas só exclama sua conformidade, vendo-se sem ele num ver-se que não é eterno em relação ao efêmero, mas apenas si mesmo, onde não há dois nem sequer um.
101 — O estado nascimento é só a exclamação “eu”, um pouco de ruído que não pode ser detido nem salvo, e as palavras só significam para quem as preenche, de modo que, quando nada era comigo, havia apenas a Paz absoluta sem nome nem possuidor, que sei porque a sou, num saber tão exato que sabe que não estava.
102 — Agora vejo que desejos, inclinações e consciência não estavam comigo e que o que sou é absoluta inocência sem fazedor, sendo inútil investigar se o estado nascimento é uma vontade latente minha, pois me encontro à parte e intocado por esse malfeitor, sem ser sua semente, sua árvore nem o solo onde está plantado.
103 — Ao ver o que é, vê-se mesmidade pura, um mar onde nenhum rio é rio, e o estado nascimento, sensação estranha de “eu” que não se sustenta, está aqui só para que eu me veja sem ele, pois eu já estava absolutamente encontrado e realizado, e por maior que seja minha ignorância sobre ele, que bem me vejo sem ele!
104 — Ver-se quando o estado nascimento não estava é ver-se agora, e reconhecer-se como o infinito em que a sensação de “eu” não estava traz uma felicidade completa sem experiência, a dissolução de medos e dúvidas e uma Paz e uma Certeza sem possuidor, em que as palavras “nascimento” e “morte” já nada nomeiam: primeiro vê-lo, depois vê-lo e depois vê-lo.
105 — É indiferente que haja ou não estado nascimento, porque nada nele resiste à pergunta “estava comigo?”, assim como o vírus mortal do sonho da noite passada nunca saiu do sonho para me contagiar, e para quem vê que o estado nascimento não estava, ele nada pode ensinar.
106 — Sei absolutamente, em detalhe e em totalidade, tudo o que não está comigo quando o estado nascimento não está, sem que nada se tenha dissolvido, fundido ou submergido em mim, pois nada havia a purificar, o que é nada é sempre nada, e até esta compreensão não estava.
107 — Um instante antes de sentir-se a sensação “eu” havia só mesmidade, sem saber que o era, e sou o interior e o exterior do estado nascimento como o oceano o é do peixe, de modo que não há dissolução de algo que não é ser, como o sonho que não brotou de mim nem me transformou.
108 — O estado nascimento não sai do que é sem ele e por isso não retorna, pois o que sou não difere no sonho, no sono profundo e na vigília, e esse estado é apenas consciência, não ser, que começa a fazer ver como se eu fosse outro, sem ter sido pedida, e cujo remédio é ver-se absolutamente quando a consciência não está.
109 — Não preciso submergir em mim mesmo para ver o que sou, porque nunca saí de mim nem há dois eus, um que mergulha e outro em que mergulha, e que paz é essa da qual ninguém jamais emergiu, na qual meu eu se conhece só por si e conhece tudo o que não é ele.
110 — Não se entra nem se sai do que sou, e dar-se conta de mim é dar-se conta de mim sem outro referente, pois meu conhecimento de mim era absoluto por nunca ter sido objeto para mim mesmo, conhecimento e ser unidos, soma que se chama Paz, que nenhum estado novo pode obstruir.
111 — Nada jamais submerge em mim, pois o estado nascimento é como uma lâmpada que não ilumina a eletricidade que a vivifica, um solúvel que as vozes falsas chamam açúcar mas é sal abrasivo, e assim como nenhum som se dissolve no silêncio, nada retorna a quem nunca deixou.
112 — O estado nascimento, a vigília, o sonho, o sono profundo e o saber “eu sou” não me saboreiam, não têm ser nem “eu” próprios e não há reciprocidade com eles, e essa é a ciência infinita do autoconhecimento: o conhecimento não me conhece, mas “eu” tenho conhecimento absoluto do que “eu” nomeia, que se resolve em Certeza, Paz e Repouso.
113 — Ninguém pode ser acusado de ter buscado o estado nascimento, a identificação “eu” ou o desejo salobre de existir, que eu nunca conheci, pois não houve vontade anterior à vontade, e é falsa a proposição de que um “eu” saiu de mim e agora quer voltar, fundir-se ou submergir em mim.
114 — O mesmo conhecimento absoluto que tenho de tudo o que não está comigo é o que tenho de mim, tão íntimo que coincide com meu ser sem sujeito nem objeto, e só com o estado nascimento presente ele obtém a compreensão do que não estava, sendo impossível rastrear-me, embora eu nunca esteja perdido de mim mesmo.
115 — A ladainha sobre a quem o conhecimento não conhece, o sono profundo não adormece, Deus não cria, o espaço não contém e a *maya* não “mayifica” revela que estou sempre encontrado para mim mesmo e que nada mais me conhece.
116 — Nem corpo, mente, alma ou espírito jamais me disseram “sou tu”, “te penso”, “te busco” ou “sigo teu rastro”, e quando o conhecimento, a mente, a alma ou o espírito querem me conhecer, eles se dissolvem, perdem sua aparência de outro e se fundem no conhecedor absoluto que sabe tudo o que não estava comigo.
117 — Sou da natureza do resíduo que é quando nada mais é, onisciente de si e feito só de certeza e paz, conhecendo-me sem conhecimento, e quando o que não estava volta a não estar, até esse conhecimento absoluto de mim desaparece, sem que isso afete o que sou, que se vê ser sempre.
118 — É agora que vejo tudo o que não estava comigo e o que “comigo” nomeia, e nesse ver-me não há vidente nem visto, nem dois, nem um, nem zero, mas apenas a eclosão da certeza absoluta, pois eu não era nenhum tesouro oculto nem quis ser conhecido.
119 — As escrituras dizem “no princípio nada estava aqui”, mas é estranho dizê-lo sem acrescentar com quem não estava o que não estava, e quem o vê agora é quem se vê exatamente como sou.
120 — As respostas a estas perguntas deixam “manifesto”, e nunca “manifestado”, aquilo que jamais se manifesta, enquanto o resto é só a paixão insaciável da mente por apoderar-se do que não tinha mente, e só quem é Isso pode sabê-lo.
121 — Isso brilha por si mesmo e se conhece sem que nada escape a seu conhecimento, sem tornar-se sujeito nem objeto de si e sem partes, de modo que Sê-Lo e conhecê-Lo são uma mesma mesmidade, que é o que “comigo” nomeia em “absolutamente nada era comigo”.
122 — Em mim não havia sujeito nem objeto, lembrança nem esquecimento, e eu não era um, dois nem zero, nem contável ou rastreável, sendo o estado nascimento um engano consumado, de modo que as perguntas desembocam em quem é este “eu” sem “eu” que nunca se buscou nem se perdeu.
123 — As escrituras dizem “eu era um tesouro oculto”, mas oculto de quem, se nada era comigo, e aceitar isso é realizar-se, entendendo que realizar-se não é tornar-se real, pois o real não se faz real, e que essa incognitude é meu verdadeiro estado, tão amado.
124 — O que é “oculto” deve estar oculto de alguém, mas nada era senciente, não havia olho nem consciência que me vissem ou soubessem que não me viam, e essa é a certeza radiante, impossível de descertificar: nada era comigo.
125 — Se a senciência não sentia e o conhecimento não conhecia, ninguém pôde jamais chamar-me “tesouro oculto”.
126 — Ninguém estava sendo-me, conhecendo-me ou saboreando a paz de ser-me, nem o sonho nem o estado nascimento me “são”, e nada jamais me disse “tu não estavas comigo”, restando perguntar qual é minha natureza, que sabe por si mesma que absolutamente nada era com ela.
127 — Nem o estado nascimento nem Deus algum jamais me disseram “eu te estou sendo” ou “te faço tornar-te sido”, nem há reciprocidade que permita a algo dizer-me “tu não estavas comigo”.
128 — Nem a mente, a sensação de “eu”, Deus, a vigília, o sonho, o sono profundo, o silêncio ou a felicidade jamais se dirigiram a mim dizendo “tu não estavas” ou “tu não eras”, porque ninguém jamais me encontrou, falou comigo ou soube quem sou.
129 — Não se pode indagar o que se é a partir de outro, e nem a consciência, o conhecimento, o silêncio, o espaço ou o abismo jamais me disseram que me fizeram, conhecem, envolvem ou engolem, de modo que nada me indaga de fora, porque não sou da natureza do indagado.
130 — Nem o conhecimento, a consciência, a visão, o silêncio, o abismo, o estado nascimento, a sensação “eu”, a vigília, o sonho ou o sono profundo jamais me perguntaram se os conheço, se são meus ou desde quando não estavam comigo.
131 — Meu assombro é absoluto ao ver que sou eu quem conhece o conhecimento, vê a visão e engole o abismo, e que palavras como “silêncio”, “abismo” e “nada” nomeiam apenas experiências dentro do estado nascimento, sem poder ultrapassar quem as nomeia, enquanto a graça do Guru envolve toda esta compreensão como uma luz.
132 — O que é quando o estado nascimento não estava não é abismo, vazio nem nada, mas um rumor incessante de certeza em que vê-lo é sê-lo, e o mistério se resolve ao ver que todo este todo é da natureza de “nada era comigo”, razão pela qual nada me vê: nunca houve dois.
133 — Não sou da natureza deste todo, nem do silêncio que o contém, do abismo que ele teme ou do vazio do qual ele está ausente, e a pergunta “quem sou eu?” se resolve naquele a quem a presenciação não presencia e a quem só eu encontro.
134 — Sou o que nomeia o vazio de “vazio”, o abismo de “abismo” e o todo de “todo”, aquilo com quem nada mais era e com quem nem sequer havia o conhecimento, a certeza ou a felicidade de compreender que sou Isso, e não sou nenhum outro “eu sou Isso”.
135 — O nomeado nunca me nomeia nem o visto me vê, e não posso apanhar-me porque sou quem apanha, de modo que o que *é* nomeou tudo e sabe que este todo é só um monte de nomes atrás dos quais está apenas quem os nomeia, sendo até “eu sou Isso” apenas uma palavra exclamada.
136 — Não sou o “Isso” de “eu sou Isso”, porque nada exclamava e verificá-lo é encontrar-se, já que ninguém jamais esteve perdido, assim como o estado nascimento, ilhota no oceano da realidade, nunca saiu de mim, tal como o sonho que cria seu próprio antes e depois, pois um sonho que se sonhe a si mesmo é inconcebível.
137 — Estou profundamente surpreso de que a consciência tenha aparecido, pois eu era incognoscibilidade absoluta sem “eu” e agora sou conhecimento absoluto de que sou incognoscível, sem registro das tendências latentes de que falam os sábios, nomeado apenas em relação ao que não estava, perguntando o que sou em mim mesmo.
138 — Tudo recebe nome só desde que a consciência está aqui, e a autorreflexão “eu”, de aparição inexplicável, nomeia este todo e se põe em seu centro até desaparecer no sono profundo, sendo a única verdade que isso não estava, da qual brota a verificação irrefutável: nunca sou o que não sou.
139 — Não havia atos, fazedores, resultados nem herdeiros de atos, adiantados ou atrasados, e o estado nascimento tem sabor de fazedor e de atos como um gosto inexplicável, de modo que, assim como os sábios dizem que é “como se” fosse um sonho, o que sou não herda nem é antes ou depois de nada.
140 — É assombroso que o sonho da noite passada, sem deixar rastro, tenha aparecido com seus fazedores e atos, e daí brota uma grande nostalgia de quando nada se via nem se sentia, pois a aparição do estado nascimento é incompreensível, já que a compreensão não estava, e nem um acúmulo de desejo insatisfeito poderia viver por si e me encontrar.
141 — Nunca há dois em mim, que por eras não soube que era, e sei isso porque o sou, sendo o lugar de todos os possíveis, onde todo este todo é apenas um micronésimo de sensação contido em mim, sem o menor indício de que a catástrofe da sensação de “eu” fosse ocorrer.
142 — Eu não me nomeava, e esse é o estado sem estado, ausência de autorreferência “eu”, cuja compreensão, uma vez alcançada, já não é afetada pelo desejo, de modo que com o estado nascimento Isso se compreende como o “comigo” e sem ele é incognoscibilidade jamais detectada, nunca dois.
143 — Todas as palavras só se escutam desde o estado nascimento, e antes nem “supremo” nem “consciência” haviam sido concebidos, sendo as palavras a semente da concepção, de modo que não sou as palavras, nem o que elas nomeiam, nem a concepção “eu sou”.
144 — Nem a palavra, a concepção, o conhecimento ou a consciência “eu sou” me pronunciam, concebem ou vigiam, e as cinco envolturas das escrituras, alimento, respiração, mente, conhecimento e felicidade, são apenas palavras, pois ninguém jamais envolveu o “nada”.
145 — Não há envolvedor nem envolvido, mas uma realidade pasmosa sem referências, em que a sensação “eu” se desvanece uma vez sentida sem jamais retornar a mim, e a paz era paz justamente por não ter nome nem buscador, já que não pode haver esquecimento do que nunca foi esquecido.
146 — É assombrosa a exatidão do conhecimento do que não era comigo, uma ladainha cantada a partir do “comigo” que mostra que nenhum conhecimento, visão, abismo, espaço, tempo, começo ou fim me afetava, operações que não se sustentam sozinhas, de modo que nada é à parte de mim, embora eu jamais faça nada.
147 — Nenhum começo jamais me começou nem há conhecimento que me conheça sem que eu o conheça, e toda essa conversa de “voltar a mim”, “submergir em mim” ou “conhecer-me” supõe vários eus, levando à pergunta: quantos “eu mesmo” sou?
148 — Comigo só meu próprio ser era, e “nada era comigo” não admite meias medidas, de modo que o estado nascimento, como o sonho, continua sendo “nada era comigo”, sem ser próprio nem capacidade de dizer “eu te vejo”, e embora pareça que algo mudou, só meu ser é e nada mais.
149 — O compreensor de sua natureza sabe que nem ele nem sua compreensão estavam, e o provador de sua felicidade inata sabe que nem a felicidade nem o provar estavam, conhecimento irrefutável que tampouco estava, e com que clareza e conformidade se vê que nada jamais foi comigo!
150 — As religiões falam do “dom da vida”, mas um dom exige doador e receptor, e se sou o receptor não sou o dom, nem era desgraçado para precisar dessa graça, que é apenas um instante de saber “eu sou” no meio de uma plenitude sem esse saber, onde não havia doador, receptor nem um “eu” buscando seu Si mesmo.
151 — Nunca houve felicidade submersa em felicidade, conhecimento em conhecimento ou ser em ser, porque a felicidade não se saboreava, o conhecimento não se conhecia e o ser não se era, já que “eu” não é dois e nada jamais se torna, conhece ou saboreia o que sou.
152 — Nunca vi a pessoa do conhecimento, da consciência, do ser, do espaço, do tempo, do abismo, da vida ou do nascimento vindo a mim, e diante da frase de Ramana Maharshi de que a realização do Si mesmo não é algo novo, pergunto quem realiza e quantos sou antes e depois de realizar.
153 — Ausente a pessoa do conhecimento, ninguém dizia “fui criado” ou “nasci”, e quero saber se existe a pessoa de algo à parte de mim, pois quem conhece o conhecimento, vê a visão, vivifica a vida e contém o espaço não é nenhuma dessas “pessoas”.
154 — Parece que a pessoa do conhecimento, da visão e da consciência me conhece, vê e percebe, mas tais pessoas nunca existiram, nem jamais me vi vindo à vigília ou entrando no sonho, nem a pessoa “eu” me suplicou para ser pronunciada.
155 — Toda a interrogação aponta para a “pessoa” onividente que o todo nunca conhece, que conhece sem que o conhecimento a conheça, envolve o silêncio sem ser silenciada e contém o abismo sem ser engolida: a pessoa de todo, com quem nada mais é.
156 — O estado nascimento nunca me buscou nem encontrou, e ver-me não é uma visão de três termos, mas ver que não há a pessoa do estado nascimento, da consciência ou do conhecimento me vendo, ver-me pela pessoa de mim mesmo, que sabe que tudo isso não era e que nenhuma outra pessoa existe.
157 — Nenhuma pessoa do estado nascimento, do conhecimento, da consciência, do ser ou do não ser jamais me buscou ou seguiu meu rastro, e nem a vida nascida nem a certeza de ser têm cognição ou pessoa capazes de me viver ou de ter certeza de mim, pois nunca sou o “sido” de algo.
158 — Quando nada era comigo não havia pessoa da certeza, da consciência, do conhecimento, da mente ou do “eu” que seguisse meu rastro, sentisse meu pulsar ou escrutasse meu ser, e a pergunta “quantas pessoas eu era?” fica sem objeto.
159 — Submerso em minha mesmidade, sem que haja quem mergulhe nem possuidor e possuído, o substrato que se revela é só PAZ, que se afirma por si, é sua própria certeza, sabe-se eterna e sem começo, sem que nada emerja ou submerja nela, e é meu coração, minha mente, meu corpo e meus estados, dos quais jamais saio.
160 — A Paz revelada em “nada era comigo” se revela ao “comigo” que a palavra “eu” indica como simples nome e porta-voz, dado primordial sem o qual não há compreensão, de modo que jamais sou o “sido” de ninguém, nenhum começo me começa, e tudo é o que “comigo” nomeia, Fonte única.
161 — Comigo não havia céu nem terra, absoluto, ser, vontade, ilusão, realidade, desejo nem desejo anterior ao desejo, nem consciência anterior à consciência ou fonte do estado nascimento, e não me reconheço em desejo algum, pois eu era absoluto sem sabê-lo, estável, num “sempre” jamais pronunciado.
162 — Quem nunca se perdeu de si para perguntar “quem sou eu?” nem se buscou como se fosse outro é aquele que, quando nada era comigo, era insondável sem ser ele mesmo insondável, pois essa insondabilidade é sua patência, sem frente nem costas, e toda esta linguagem é só a patência de que nada era comigo.
163 — Jamais fui um tesouro oculto querendo ser conhecido, pois não havia para quem estar oculto nem nenhum “querer”, e ensimesmado eu nunca soube que “eu sou”, de modo que não há de onde a onde ir para ser o que sou.
164 — Tenho um conhecimento inegável de tudo o que não estava comigo, porque a sufocante sensação de mim mesmo, ao estar presente, me faz ver-me sem ela, como a grande baleia insondável que não sabia que era nem sentia arpão algum de “eu”, sem movimento nem viajante, de modo que só posso ser conhecido por mim mesmo.
165 — Agora se compreende que não havia vidente e visto, amante e amado, numa compreensão de que “eu sou o que sou” indistinguível de sua fonte, e vejo a sensação de mim dissolver-se como vapor no vasto céu, restando só a vastidão idêntica a si mesma, da qual os estados são apenas vapor, de modo que não posso negar que me conheço como mesmidade.
166 — Diz-se que a Verdade está oculta por setenta mil véus e que *Mahamaya* oculta tudo, mas oculta de quem, se a sensação de mim mesmo, a mente, o desejo, o corpo e o mundo vêm de mim, acontecem em mim e são eu, sem nada à parte de mim nem ignorância que se interponha.
167 — Nenhuma ignorância se interpõe entre mim e mim, porque a sensação de mim, o estado nascimento, Deus e o universo não são se não forem sentidos, concebidos ou presenciados, e assim como não há água de rio sem rio, a sensação de mim só é sensação de mim por mim mesmo, nada sendo em si.
168 — Dizer que a ignorância se interpõe entre mim e mim é como dizer que minha roupa me oculta de mim, pois antes não havia conceito algum, nem sequer “eu sou”, mas uma estabilidade indescritível, incógnita para si e penetrada de si, e a sensação e o conhecimento de mim mesmo *são* eu mesmo.
169 — Ninguém presenciava “eu era um tesouro oculto” ou “aquieta-te e sabe que eu sou Deus”, porque jamais houve autorreferência “eu”, e este conhecimento de mim é uma fraude, um feitiço de “eu” do qual as espiritualidades são o traje perfeito, ao nomeá-lo enquanto convidam a negá-lo, constatação que se verifica sozinha.
170 — Nunca houve um eu mesmo a buscar, pois o oceano de mesmidade não dizia “eu mesmo”, e assim como a onda é só oceano, com o mesmo fundo e a mesma água, e diz “vou me buscar porque tenho medo de morrer”, o ego é como a onda, cujo único erro é dizer-se “eu sou um ego por mim mesmo”.
171 — A sensação de mim mesmo não estava, numa oceanidade absoluta sem ondas onde ninguém exclamava “trevas” nem “eu sou o que sou”, e este conhecimento indivisível é a PATÊNCIA dessa REALIDADE sem nome, autossuficiente, onde não desponta o ardor de compreender, sabendo que o que sabe que esse ardor não estava *estava* então e *está* agora para dar testemunho de Si.
172 — “Como entrar em mim mesmo?” é uma proposição falsa, pois sem mim não há exclamação, estado nascimento, estados, homem, mundo nem Deus, e o que vejo que sou quando nada era comigo vejo agora: uma plenitude absoluta sem presenciador, que é o que é sem certeza, intelecção nem felicidade de sê-lo.
173 — A série de perguntas sobre se é um o que presencia o sono profundo e outro o que presencia a vigília, um o da primeira lembrança e outro o desta meditação escrita, um o que sente “eu sou” e outro o que sabe que não se sentia, desemboca na impossibilidade de haver um eu provisório que busca e outro verdadeiro encontrado.
174 — Se no sonho alguém é morto, é um o assassinado no sonho e outro o que desperta ileso, e onde se dissolvem o morto e seus matadores, se o adormecido não os acolhe como tais?
175 — Não sou um eu agora que se sente a sensação de mim e outro quando ela não se sentia, nem há um eu que diz “não me conheço” separado de um eu desconhecido, de modo que não há a partir de qual eu buscar-me nem abismo algum entre mim e mim.
176 — Descubro que a sensação, a consciência e o conhecimento de mim mesmo não estavam comigo e que não me sentem, detectam nem conhecem por não terem mesmidade própria, mas jamais encontro que eu mesmo tenha estado ausente de mim, que clareza indescritível e que serenidade nunca alterada!
177 — Nem a sensação de mim, nem a mente, nem a chamada compreensão de mim mesmo me detectam, veem ou contêm, nem se valem por si, e não sou um eu que nunca sentiu a sensação de mim e outro que agora a sente, porque nunca sou dois.
178 — O livro termina perguntando quantos eus há em “eu sou o que sou”, de quem é essa certeza, de onde vem essa exclamação e se fui alguma vez um lenho inerte insuflado por outro ou mero porta-voz, e se a compreensão, a sensação ou a certeza “eu sou o que sou” jamais estiveram comigo.
