8 Moksha
DEUTSCH, Eliot. Advaita Vedānta: a philosophical reconstruction. Pbk. ed ed. Honolulu: East-West Center Press, 1985.
Mokṣa e jñāna-yoga
I
1. A liberdade costuma ser compreendida como ausência de oposição e libertação de paixões, apetites, leis, condicionamentos sociais ou forças naturais, definindo um estado situado além da necessidade e das restrições que limitam a ação.
2. A concepção advaita de libertação também parte da superação do karma e do ciclo de nascimentos e mortes, mas reconhece que a liberdade entendida exclusivamente como ausência de vínculos não constitui uma finalidade humana suficiente e pode tornar-se uma condição da qual se procura fugir.
3. A eliminação das restrições pode expor o indivíduo a uma possibilidade ilimitada que ele não sabe assumir, levando-o a substituir os vínculos anteriores por outros e a refugiar-se em coisas, ideias, sonhos e formas de servidão socialmente justificadas, porque a liberdade puramente negativa parece vazia de conteúdo.
4. A liberdade possui uma dimensão positiva que ultrapassa a simples ausência de restrições e supera a própria oposição entre liberdade e necessidade, oferecendo uma finalidade capaz de orientar efetivamente a existência.
5. Mokṣa significa tanto libertação do karma quanto realização da unidade com a profundidade, a quietude e a potência criadora da realidade, constituindo o pleno desenvolvimento das possibilidades humanas como ser espiritual, conhecimento de si e alegria de ser.
II
1. A libertação é alcançada pela disciplina mental e espiritual do jñāna-yoga, entendida como processo vivo de conhecer e ser que, embora não possa ser dividido rigidamente, admite uma apresentação pedagógica em quatro qualificações fundamentais e três etapas gerais.
2. As quatro qualificações constituem as disposições necessárias para que o aspirante possa assumir a disciplina orientada à realização do Si mesmo.
3. A primeira qualificação consiste na capacidade de discernir o real do aparentemente real e a verdade atemporal dos acontecimentos temporais, distinguindo a profundidade espiritual da superficialidade da experiência.
4. A segunda qualificação exige renunciar voluntária e alegremente aos prazeres sensíveis e aos desejos de satisfação egoísta que dispersam a mente e dificultam o conhecimento da verdade e de si.
5. A terceira qualificação reúne tranquilidade mental, domínio de si, desapego, perseverança diante das dificuldades, concentração e confiança, formando as disposições interiores que sustentam a investigação espiritual.
6. A quarta qualificação consiste em uma aspiração positiva e integral à liberdade e à sabedoria, pela qual todos os desejos são concentrados na busca do entendimento.
7. A disciplina quádrupla exige uma transformação radical da consciência habitualmente envolvida nas coisas do mundo, tornando insuficiente a simples capacidade racional e restringindo, na prática, a realização do conhecimento àqueles cuja disposição lhes permite assumir as exigências árduas da busca.
8. O ingresso nas três etapas propriamente ditas do jñāna-yoga pressupõe que o aspirante tenha demonstrado sua capacidade e sua determinação de alcançar a libertação.
9. A primeira etapa, a escuta, compreende o contato com os sábios, o estudo dos textos vedânticos e a investigação das grandes sentenças das Upanishads, orientando a busca e oferecendo um horizonte tradicional para interpretar a experiência espiritual própria.
10. A tradição pode sustentar e aprofundar a experiência espiritual ao dispensar cada indivíduo de construir isoladamente toda a sua justificação filosófica, embora também possa limitar a originalidade da experiência e substituir o entendimento por fórmulas desgastadas, de modo que sua fecundidade depende do equilíbrio entre orientação recebida e realização efetiva.
11. A segunda etapa, a reflexão, exige apropriar interiormente os princípios do Advaita mediante análise prolongada de Brahman, dos níveis de ser, da ilusão, da ignorância, das sobreposições e dos meios de conhecimento, tornando explícitas as identificações equivocadas do indivíduo e fundamentando sua confiança no valor supremo da libertação.
12. A reflexão interior revela que o si mesmo ordinário e o mundo dividido não possuem realidade última, pois o intelecto isolado oferece categorias em lugar da apreensão do ser, enquanto desejos, necessidades e apegos perturbam o silêncio necessário ao reconhecimento da verdadeira identidade.
13. O corpo mutável, a mente instável, os papéis sociais e até os estados passageiros de harmonia não podem constituir o verdadeiro Si mesmo, porque todos permanecem condicionados e transitórios, embora os momentos de integração sem medo ou desejo de posse revelem a profundidade das possibilidades do ser.
14. A mudança dos acontecimentos, das avaliações e dos desejos mostra que os objetos mais valorizados podem perder seu sentido depois de alcançados, enquanto poder, prestígio, riqueza e vínculos familiares frequentemente produzem aprisionamento em vez de liberdade, impedindo atribuir realidade última a qualquer coisa sujeita à invalidação.
15. O crescimento do conhecimento e a intensificação do esforço não asseguram orientação existencial quando a experiência continua determinada pelos desejos e pelas próprias categorias, pois um mundo percebido apenas através dessas projeções não pode ser identificado com a realidade.
16. A terceira etapa, a meditação constante, conduz da compreensão reflexiva à realização direta mediante concentração na identidade entre o Si mesmo e a realidade, desapego da vida superficial e remoção das sobreposições, reconduzindo os efeitos às suas causas até reconhecer a consciência pura como fundamento de tudo e realizar o sentido de “eu sou Brahman” e “tu és isso”.
17. A libertação em vida consiste em uma potência de ser e de ver que reconhece Brahman em toda parte, sem excluir qualquer realidade, porque tudo possui seu fundamento no espírito e, em sua verdade essencial, é Brahman.
