4 Amor-próprio
LEVY, John. The Nature of man according to Vedanta. London: Routledge, 1956.
XXIX – DESEJOS, SENTIMENTOS E A TESTEMUNHA
1. Os objetos do desejo
1. Objeto de desejo é tudo aquilo que de algum modo possa satisfazer o apetite, seja um objeto sensorial, uma cadeia ou confluência particular de acontecimentos, a solução de um problema intelectual ou mesmo o anseio de realizar a não-dualidade, e também a evitação ou prevenção de algo temido ou detestado, então chamado objeto de aversão, que não passa do outro lado da mesma moeda, podendo ambos os tipos de objeto ser definíveis ou indefiníveis.
2. O dualismo de mente e matéria é irreal, exceto do ponto de vista de quem se identifica com o corpo.
2. A paz como objeto último de todo desejo
1. Sempre que há a noção de uma existência individual há algo que se deseja, e o desejo vem acompanhado de uma agitação cerebral que impede a chamada paz de espírito, mas no instante em que se encontra algo presentemente desejável a agitação, ou sua possibilidade latente, se aquieta e desfruta-se tranquilidade, de modo que a paz é o fim último, embora nem sempre o objeto aparente, de todo desejo.
3. O processo de fruição
1. Quando se experimenta a mistura de sensações e sentimentos associada à ideia de fome e o alimento é ingerido, satisfazendo essa carência particular, precisamente nesse momento não há desejo, segue-se um sentimento de satisfação e, cedo ou tarde, pela identificação com o corpo, atribui-se ao alimento a causa desse sentimento.
2. Embora corpo e sentidos tenham sido gratificados, cabe perguntar se o sentimento de satisfação, distinto do prazer sensorial, foi causado pelo que se comeu, e de modo geral, como às vezes antes e sempre depois do desfecho feliz ou infeliz de um desejo surgem vários sentimentos, qual seria a relação, se alguma, entre esses sentimentos e o objeto desejado.
3. A exceção ocorre quando a alegria ou a dor arrebatam a ponto de fazer perder a consciência, caso em que o estado sem desejo dura mais que o habitual, por ter o cérebro ficado temporária ou fatalmente entorpecido.
4. A análise do sentimento
1. Assim como a paz ou felicidade característica do sono sem sonhos não depende da fruição de objetos, já que nele não há experiência objetiva e se está imerso na não-dualidade, o mesmo ocorre ao encontrar-se um objeto desejado, pois precisamente no instante de sua obtenção a agitação real ou potencial causada pelo desejo se aquieta, reabsorve-se no eu cuja natureza mesma é felicidade ou paz e o objeto desaparece, manifestando-se essa apreensão imediata da não-dualidade logo depois nos sentimentos agradáveis, que não podem ter sido causados pelo objeto, ausente naquele estado não dual, e o homem comum não a reconhece pela mesma razão por que não reconhece o intervalo entre dois pensamentos.
2. Quando, ao contrário, o objeto desejado não aparece ou sua aparição não satisfaz, surgem sentimentos desagradáveis, porque o desejo não foi apaziguado conforme o costume ou a promessa e a agitação prosseguiu, impossibilitando a apreensão direta da não-dualidade, e é essa falta de realização que se exprime em pesar, raiva, frustração e afins.
5. Os sentimentos e a testemunha
1. Ainda que coincidam com o desfecho real ou provável de um desejo, os sentimentos apontam para o eu sempre presente e sem desejos, e não para objeto algum, sendo objetos da consciência dos quais o eu é testemunha, e embora os sentidos, segundo suas próprias leis e o temperamento particular, continuem a buscar o prazer e evitar a dor enquanto durar o corpo, o saber-se testemunha dos sentimentos como das percepções suprime todo apego ao desejo e à aversão e estabelece a paz consigo mesmo.
6. Realização e renúncia
1. Só quem possui o desejo concentrado e absorvente de realizar a verdade última pode vencer todos os obstáculos, e como desejo e aversão estão com razão na raiz de todo obstáculo no caminho da realização espiritual, pessoas desorientadas ou intelectualmente fracas tendem a reprimi-los, mas nenhuma tentativa de sufocá-los pela contenção dos sentidos conduz por si só à realização, que desponta da substituição da ignorância pelo conhecimento e não da troca de um modo de vida por outro.
2. Ainda assim, a maioria dos buscadores exerce espontaneamente, cada qual a seu modo, alguma contenção, pois o cultivo do prazer sensorial e intelectual impede o cultivo do conhecimento metafísico, o que responde à provável crítica de que tal ensinamento seria perigoso para aspirantes fracos ou imaturos, já que o perigo estaria na atitude de quem, por julgar-se princípio consciente alheio aos sentidos e mera testemunha deles, os deixasse à solta, e quem assim pensasse não estaria apto a seguir um método destinado às almas maduras cujo único fim é dissipar as trevas e a incerteza.
7. Conclusão: o anseio de felicidade
1. Todos querem a felicidade, que está sempre presente como o eu, mas o homem comum, ignorando-o, busca-a por meio de objetos, e a paz que desfruta depende do acaso, salvo quando vem passivamente como no sono, sem poder, em nenhum caso, perdurar.
2. Pessoas bem-intencionadas que têm apenas um vislumbre da verdade inclinam-se muitas vezes a renunciar ao mundo na esperança de encontrar a felicidade incondicionada, mas tampouco a encontrarão de modo duradouro enquanto não renunciarem ao corpo deixando de identificar-se com ele, pois sem isso não se elevam acima do desejo e da aversão, e a paz duradoura só se acha quando desejo e aversão são devidamente situados como pertencentes ao ego e não ao eu, sendo o ego fruto da identificação equivocada entre eu e corpo, de modo que não há paz irreversível enquanto o ego, ou pensamento-eu, não for visto como é, mera noção, mau hábito e objeto da consciência, andando juntos a felicidade e o conhecimento de si.
XXX – AMOR DE SI
1. O amor de si como fonte de todas as ações
1. Sendo a felicidade o fim de toda atividade humana e a natureza mesma do eu, todas as ações exprimem o amor de si, o que é evidente nas atividades privadas e menos evidente quando se age para ajudar os outros, dificuldade apenas verbal ou convencional, já que amor de si costuma designar interesse próprio ou egoísmo, quando aqui designa o desejo inato de paz e felicidade duradouras, e embora do ponto de vista ético o desejo de ajudar os outros seja menos egoísta que o de agradar ao pequeno eu, do ponto de vista da verdade ambos, mesmo com sacrifício pessoal, procedem de um motivo comum, a perspectiva da felicidade, independentemente da maior ou menor virtude envolvida, sendo o amor de si a única fonte de toda ação, incluída a inação voluntária.
2. Uma canção popular exprime a mesma ideia ao dizer que não se pode ser feliz sem ver também o outro feliz.
2. Sobre ajudar os outros
1. Quem visa à realização espiritual deve estar disposto a abandonar toda tentativa sistemática de ajudar os outros, ainda que sob o risco de ser chamado egoísta, pois exceder voluntariamente as responsabilidades sociais e pessoais exigidas pelos padrões civilizados de conduta seria pura dispersão para quem tem por meta a realização da verdade, mas, alcançado o fim, não pode deixar de ajudar espontaneamente, social ou espiritualmente ou de ambos os modos, ativa ou passivamente conforme o temperamento, todos aqueles com quem entra em contato, não havendo lei definida sobre como deve agir ao descer do estado de existência transcendental, já que sua conduta é guiada pela inclinação natural da mente e pelas forças do ambiente, embora só do ponto de vista dos observadores tal ser desça, pois do seu próprio não pode haver afastamento da não-dualidade.
2. Um poema de Sri Atmananda, a quem esta obra tudo deve, exprime a experiência de quem perdeu o próprio centro no desejo de agradar aos outros e, reencontrando-o ao perder-se no oceano de néctar da graça do Mestre, passou a agradar aos outros estabelecido nesse centro, alcançando assim uma tranquilidade sem falhas.
