MALAMOUD
Charles Malamoud (1929–)
Historiador das religiões, sanscritista e orientalista francês, Charles Malamoud foi diretor de estudos de religiões da Índia antiga na École Pratique des Hautes Études (EPHE, Vª Seção: Ciências Religiosas), em Paris. Formado sob a influência metodológica de Émile Benveniste, Louis Renou e Georges Dumézil, destacou-se por aplicar a linguística comparada e a antropologia estrutural à hermenêutica dos textos bramânicos clássicos, especialmente os Brāhmaṇas e as leis védicas, transformando a compreensão contemporânea do sacrifício e do pensamento sacrificial indiano.
1. Obras Monográficas e Estudos Fundamentais
- MALAMOUD, Charles. Cuire le monde: Rite et pensée dans l'Inde ancienne. Paris: Éditions La Découverte, 1989. (Coleção “Textes à l'appui”).
- Foco: Obra seminal que analisa a noção védica fundamental de que o cosmos, o homem e os alimentos só atingem a plenitude ordenada por meio de uma operação de cozimento sacrificial (Pakayajña / Paka). O sacrifício é concebido como o ato que “cozinha” o mundo bruto, transformando a natureza crua em ordem sociocultural e cósmica (Rta/Dharma).
- MALAMOUD, Charles. Le Jumeau solaire. Paris: Éditions du Seuil, 2002. (Coleção “La Librairie du XXIe siècle”).
- Foco: Ensaio sobre a figura mitológica e teológica de Yama (o rei dos mortos e primeiro mortal) e a estrutura dos pares, da gemelaridade e da morte na especulação dos Vedas.
- MALAMOUD, Charles. Féminité de la parole: Études sur l'Inde ancienne. Paris: Albin Michel, 2005. (Coleção “Bibliothèque des idées”).
- Foco: Investigação em torno de Vac (a Palavra divina personificada no panteão védico), examinando as relações entre linguagem, feminilidade, desejo e liturgia no pensamento dos brâmanes.
- MALAMOUD, Charles. La Danse des pierres: Études sur la scène sacrificielle dans l'Inde ancienne. Paris: Éditions du Seuil, 2005.
- MALAMOUD, Charles. Ébène bleue: Le monothéisme hindou et autres essais d'histoire des religions. Paris: Éditions du Seuil, 2021.
2. Edições Críticas, Traduções de Fontes Primárias e Comentários
- RENOU, Louis; MALAMOUD, Charles. Le Vocabulaire du rituel védique. Paris: Adrien Maisonneuve, 1954.
- MALAMOUD, Charles (Ed. e Trad.). Svādhyāya: Récitation personnelle du Veda. Taittirīya-Āraṇyaka, livre II. Texte traduit et commenté. Paris: Institut de Civilisation Indienne / De Boccard, 1977.
- Foco: Estudo e tradução exaustiva do ritual da recitação silenciosa e diária do texto védico pelo estudante iniciado, ato compreendido pela teologia brâmane como uma modalidade internalizada de sacrifício.
3. Coletâneas Temáticas, Parcerias e Direção Editorial
- MALAMOUD, Charles; VERNANT, Jean-Pierre (Orgs.). Corps des dieux. Paris: Gallimard, 1986. (Le Temps de la réflexion).
- Foco: Diálogo interdisciplinar entre helenistas e indólogos sobre a materialidade, visibilidade e representação corporal das divindades nos mundos grego e hindu.
- MALAMOUD, Charles (Org.). Lien de vie, nœud de mort: Les représentations de la dette en Chine, au Japon et dans l'Inde ancienne. Paris: Éditions de l'EHESS, 1988.
- Foco: Exame do conceito de dívida existencial e espiritual (Rna) no hinduísmo védico.
4. Traduções Principais em Línguas Ibéricas e Inglesa
- MALAMOUD, Charles. Cocinar el mundo: El rito y el pensamiento en la India antigua. Traducción de Emilio García. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 1999.
- MALAMOUD, Charles. El gemelo solar. Traducción de Joaquín Rovira. Madrid: Alianza Editorial, 2004.
- MALAMOUD, Charles. Cooking the World: Ritual and Thought in Ancient India. Translated by David White. Delhi: Oxford University Press, 1996.
5. Eixos Hermenêuticos e Metodologia Teórica
- A Teoria da Dívida Congênita (Rna): Malamoud demonstrou como a existência no bramanismo védico é estruturada como um sistema de dívidas originárias que todo homem herda ao nascer. O indivíduo nasce endividado em relação aos deuses (paga por meio do sacrifício litúrgico), aos sábios e antepassados (paga pelo estudo do Veda e pela procriação ritual) e à humanidade (paga pela hospitalidade). O ciclo sacrificial não é mera transação comercial de súplica, mas a manutenção da ordem através do resgate dessas dívidas ontológicas.
- O Paradigma do “Cozimento” (Paka) e a Domesticação do Caos: Ao investigar as categorias dos textos bramânicos, estabeleceu que a oposição clássica antropológica entre o cru e o cozido ganha na Índia uma dimensão cósmica: tudo o que não passa pela elaboração cultural e litúrgica do fogo sacrificial (Agni) permanece imperfeito, impuro ou selvagem (Aranya). O sacrifício funciona como a tecnologia metafísica que cozinha e humaniza o espaço habitado (Grama).
- O Resto do Sacrifício (Ucchista) como Origem Contínua: Analisou com precisão cirúrgica a teologia dos Brāhmaṇas a respeito do que sobra após a queima e consumação do rito. Longe de ser lixo ou resíduo desprezível, o “resto” (Ucchista) é o germe a partir do qual todo o ciclo subsequente do mundo pode ser recriado e sustentado, constituindo o operador conceitual da continuidade cósmica.
- Recusa do Olhar Ocidental Reducionista: Afastou-se tanto do exotismo místico quanto da crítica modernista que julgava os textos de rituais védicos como fórmulas mecânicas e desprovidas de filosofia. Demonstrou que os Brāhmaṇas e os manuais litúrgicos contêm um dos sistemas conceituais mais sofisticados da história humana sobre tempo, espaço, linguagem e psicologia do ato.
