Sem tempo, sem mundo
QUINTA-FEIRA, 1º DE DEZEMBRO DE 1977
1. O Brahman, sempre presente, carece até mesmo do sentido de ser, a ponto de em Vishnu não existir sequer o sentimento “eu sou Vishnu”, realidade que não se alcança por penitência, mas apenas pelo viveka, a verdadeira discriminação, de modo que recordar o que se ouve constitui, em si mesmo, a meditação.
2. As ações realizadas ao longo da vida, na infância, na juventude ou na velhice, podem parecer verdadeiras quando tomadas isoladamente, mas a soma total delas deve ser reconhecida como falsa.
3. A libertação consiste em estar livre dos conceitos, inclusive da ideia de que houve ou há alguma escravidão, libertando-se da mente, do intelecto e das concepções, pois o Si, isento de qualquer expectativa de existir, não necessita de libertação, e quem conhece o centro da mente-intelecto não é perturbado por eles, que afetam apenas a identidade com o corpo.
4. No Paramatman não existem seitas nem cultos, pois todos os sistemas de doutrinas religiosas são apenas conceitos, e todo conceito é necessariamente incompleto.
5. A palavra do Guru afirma que não se é o corpo, mas a consciência que nele habita, e conservar essa verdade sem esquecê-la significa não morrer, mas pôr fim à própria morte, compreensão inacessível a quem se identifica com o corpo.
6. Com o saber “eu sou” começam o tempo e a experiência do mundo, que deixa de existir quando esse sentido de ser se ausenta, sendo necessário ir além da dor e da infelicidade até desconhecê-las, já que o próprio sentido de ser é doloroso, e reconhecer que a consciência no corpo, pela qual tudo é visto, é ela mesma o Guru constitui o mandamento do Guru e a verdadeira meditação, tarefa difícil até para o Senhor Brahma e mais árdua que meditar sobre um ídolo.
7. A consciência está sempre presente, com ou sem percepção disso, e sem ela não há tempo nem mundo, assim como a consciência onírica gera um mundo de sonho testemunhado por quem dorme, no qual podem ser presenciadas e relatadas até dissoluções de muitos Universos.
8. Quando a mente silencia, surge tempo para a espiritualidade, e para isso convém concentrá-la na meta, conforme a afirmação de Krishna de ser Aquilo pelo qual o mundo é conhecido, Aquilo que também cada um é.
9. Não há experiência própria de nascimento ou de morte, apenas a aceitação do que outros dizem, e a estranha Maya permite avançar rumo ao Si somente aos devotos do Guru, razão pela qual convém adorar o Guru como o próprio Si, sustentar firmemente a consciência e manter ao menos a repetição incessante de “Guru, Guru”, pois a consciência do discípulo é um grande poder capaz de tudo realizar e a devoção ao Guru torna a vida mundana e a espiritual conformes ao desejo.
10. As gunas não são três, mas apenas uma, a sattva guna, sendo tamas a atitude de se considerar autor de qualquer ação e rajas a agitação de quem não consegue permanecer quieto, qualidades que em si não possuem orgulho, mas permitem julgar alguém por seu comportamento e atividade.
