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Ensinamento de Ramakrishna

HERBERT, Jean. L’enseignement de Ramakrishna. Paris: A. Michel, 1949.

1. Gadadhar Chatlopadhyaya, que seus discípulos mais tarde chamariam de Ramakrishna, nasceu em 17 de fevereiro de 1836, segundo cálculos astrológicos; seus pais, brâmanes piedosos e relativamente abastados, moravam então no pequeno vilarejo de Kamarpukur, no Hooghly, Bengala, e já tinham três filhos, sendo o mais velho com trinta anos de idade; ao contrário da lenda que o quer analfabeto, Gadadhar aprendeu a ler e a escrever, mas não manifestou nenhum pendor para os estudos escolares; atraído desde a infância pela vida religiosa e frequentemente em transes místicos, só se resignou com dificuldade, em 1874, a acolher junto de si, como irmã mais nova, Saradamant Devi, a mulher que lhe fizeram desposar em 1859, quando ela tinha cinco anos; ela se tornou sua discípula mais fiel e, para todos os jovens que progressivamente se agruparam ao seu redor, foi a divina Mãe.

2. Também a contragosto, pois o fato de ganhar o sustento como sacerdote não é tido em alta estima pelos brâmanes mais ortodoxos, Gadadhar aceitou, em 1855, ajudar seu irmão mais velho como servidor de um templo consagrado essencialmente a Kali; foi nesse templo, edificado às margens do Ganges, em Dakshineshwar, por uma mulher de casta shudra, que ele residiu durante os trinta últimos anos de sua vida; ele abandonou seu corpo em 1886.

O ensinamento de Ramakrishna

1. Ao seu redor edificou-se rapidamente toda uma lenda, como é normal para todos os grandes mestres espirituais em todos os países; fala-se já de um nascimento miraculoso, sem a intervenção de um pai; discípulos entusiastas veem nele um dos três maiores Avatares de Vishnu, sendo os dois outros, o que não deixa de ter originalidade, Gautama Buda e Jesus Cristo; alguns, mais modestos, veem nele a metade de um Avatar de Vishnu, Avatar que teria se manifestado com três séculos de distância em Chaitanya, desaparecido em 1527, e nele; mas é preciso lembrar que, segundo as Escrituras sagradas, pode-se dizer que os Avatares de Vishnu têm o número de doze, ou de vinte e quatro, ou de mil, ou mesmo inumeráveis.

2. Shri Ramakrishna jamais pretendeu ter trazido nada de novo, e podem-se reencontrar todos os seus ensinamentos em seus predecessores e nos textos sagrados, aos quais ele constantemente se refere; o que faz o valor de sua mensagem é ter provado de maneira incontestável que esses ensinamentos permanecem válidos e praticamente utilizáveis; Gandhi dizia dele que sua vida permite ver Deus face a face.

3. Uma das palavras de Shri Ramakrishna que mais impressionaram os ocidentais, mas menos surpreenderam os hindus, foi que todos os caminhos levam a Deus; no que concerne ao objetivo que pode almejar a busca espiritual, ele fazia assim eco a todos os grandes místicos que sua religião não impediu de se expressarem livremente; quanto aos meios, aos caminhos, Ramakrishna não leva de modo algum em conta a tentativa de ecumenismo do Imperador Akbar, de 1542 a 1605, que queria fundir numa síntese as diversas religiões, inclusive o cristianismo, existentes em sua época; ele nem mesmo repetia a tentativa mais antiga e mais modesta de Kabir, de 1435 a 1518, que queria apagar as diferenças entre Hinduísmo e Islam; o que ele constantemente insistiu e do que deu um testemunho convincente por sua experiência pessoal é que cada caminho, se seguido isoladamente com suficiente ardor e perseverança, permite chegar ao objetivo último que todas as religiões se propõem.

4. Como era natural, sua busca voltou-se primeiro e sobretudo para as disciplinas hindus; depois de ter praticado, em um ritmo extraordinário, as 64 sadhanas tântricas, algumas das quais são temíveis, ele fez durante seis meses, em 1866, a experiência do monismo absoluto do advaita Vedanta, mas isso não o impediu de se entregar de modo igualmente integral, com a mesma intensidade, e sempre separadamente, ao culto de Rama, ao de Krishna, notadamente em 1864, ao de Kali, e provavelmente a outros ainda.

5. Ao contrário de Chaitanya, Ramakrishna parece nunca ter se identificado à Divindade para a qual se voltava; ele tomava sempre em relação a ela a atitude do perfeito adorador; diante de Rama, identificava-se a Hanuman, o Deus-discípulo de corpo de macaco, a ponto de empoleirar-se em uma árvore e mesmo, diz a lenda, de adquirir um embrião de cauda; diante de Krishna, identificava-se às gopis, as jovens pastoras adoradoras modelos, a ponto de observar o purdah e mesmo, diz a lenda, de ter um fluxo menstrual; diante de Kali, rolava por terra para implorar que a Deusa se revelasse a ele, o que Ela fez.

6. Ramakrishna fez também incursões muito breves, mas conclusivas, no Islam, em 1866, e no Cristianismo, conformando-se cada vez estritamente às regras e ritos dessas religiões, mesmo quando se chocavam com rigorosas prescrições contrárias do Hinduísmo.

7. Cada vez, levando a experiência até seu desfecho último, ele constatou que o caminho seguido, como os outros, leva a Deus.

8. Foi somente em 1879 que chegaram junto a Ramakrishna os primeiros discípulos; eles se tornaram rapidamente cada vez mais numerosos; constituiu-se logo um núcleo de fiéis que formaram uma ordem monástica, a Ordem de Ramakrishna, cujos dois membros mais marcantes foram Swami Brahmananda, primeiro abade da Ordem, e Swami Vivekananda; dessa ordem saiu mais tarde a Missão Ramakrishna, que desempenha um papel sempre crescente na Índia em obras sociais de todas as espécies, e que envia também ao estrangeiro missionários para levar a mensagem de universalidade do Mestre.

9. Essa mensagem exerceu e continua a exercer uma influência considerável, tanto na Índia quanto no Ocidente; se um Henri Bergson nela já detectara um misticismo comparável ao misticismo cristão, Romain Rolland nela via o coroamento de dois mil anos de vida interior de um povo de trezentos milhões de habitantes; e se, para Tagore, Ramakrishna tinha da Verdade uma visão de conjunto, Shri Aurobindo escrevia que não antes de cinco séculos ao menos o mundo estará pronto para receber outro Ramakrishna Paramahamsa, sendo preciso apressar-se em transformar em experiência a massa de pensamentos que ele nos legou e em converter em realização a energia espiritual que ele lançou, pois enquanto não se tiver feito isso, com que direito se pediria mais.

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