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U. G. The Mystique of Enlightenment: The Radical Ideas of U.G.. Edited by Rodney Arms. Goa: Dinesh Vazirani, 1982.

UG: Aquilo que se costuma chamar iluminação, liberdade, moksha ou libertação, palavras carregadas de conotações próprias e por isso evitadas, não pode ser produzido por esforço algum, simplesmente acontece, sem que se saiba por que ocorre com um indivíduo e não com outro.

Q: Isso teria acontecido, então, com quem fala.

UG: Aconteceu, de fato.

Q: Resta saber quando ocorreu.

UG: Ocorreu no quadragésimo nono ano de vida, e tudo o que se faz na direção da busca da verdade ou da realidade afasta do estado natural em que sempre se está, estado que não se adquire, alcança ou realiza por esforço, sendo por isso acausal (acausal), sem causa, embora de algum modo a busca chegue ao fim.

Q: Parece difícil admitir que isso não seja resultado da busca, sobretudo diante de notícias de estudos de filosofia e convivência com pessoas religiosas.

UG: A busca afasta de si mesmo, segue na direção oposta e não tem absolutamente nenhuma relação com o que aconteceu.

Q: Teria acontecido, então, apesar da busca, e não por causa dela.

UG: Aconteceu apesar da busca, pois tudo o que se faz impede que o já existente se expresse, e por isso se fala em estado natural, no qual sempre se está, sendo a busca o obstáculo e tudo o que se considera profundo, sagrado e santo uma contaminação (contamination) dessa consciência.

  • Nada há a fazer, pois isso não está em mãos humanas.
  • A palavra graça é evitada, pois levaria a perguntar de quem seria a graça, e ninguém é um indivíduo especialmente escolhido ou merecedor, sem que se saiba por quê.
  • Se fosse possível, haveria ajuda a alguém, mas não se pode dar o que o outro já possui, sendo ridículo pedir algo que já se tem.

Q: Esse estado, porém, não é sentido por quem pergunta, ao passo que quem responde o sente.

UG: Não se trata de sentir nem de saber, pois jamais se saberá, não havendo modo de conhecê-lo por si mesmo, já que ele apenas começa a se expressar, e nunca surge na consciência o pensamento de ser diferente de quem quer que seja.

Q: Cabe perguntar se sempre foi assim, desde que houve consciência de si.

UG: Não se pode afirmar isso, pois houve uma busca como a de qualquer pessoa criada em ambiente religioso, perseguindo algo, e responder exigiria percorrer todo o histórico pessoal.


Q: Por simples curiosidade, à maneira de Nachiketa, interessa saber como essas coisas aconteceram pessoalmente, na medida em que delas houve consciência.

UG: Trata-se de uma longa história, nada simples.

Q: Há interesse em ouvi-la.

UG: Contar a história exigiria narrar a vida inteira, uma biografia que chega até certo ponto e então para, sem nada mais depois, e o interesse pela causa revela que se continua operando no campo de causa e efeito, preso ao como, quando o histórico pessoal não serve de modelo para ninguém, pois cada vida é única.

  • Um dos biógrafos sustenta que a sadhana (exercícios espirituais), a educação e todo o histórico conduziram ao estado, enquanto a resposta é que ele ocorreu apesar de tudo isso.
  • O outro biógrafo pouco se interessa pela expressão apesar de, porque ela não rende material para um volume extenso, e os editores compartilham desse interesse.
  • Esse interesse é natural no campo em que a relação de causa e efeito sempre opera, de modo que se volta à estaca zero, ainda preocupado com o como.
  • Cada acontecimento da vida é único, assim como as condições, o ambiente e o histórico de cada um.

Q: Não se busca um modelo para oferecer ao mundo nem imitação alguma, mas apenas contemplar algo como se contempla uma estrela, o sol ou a lua, e, à maneira de Nachiketa, não partir sem conhecer a verdade.

UG: Para responder a tais perguntas seria necessário um Yama Dharmaraja.

Q: Que quem responde assuma, então, esse papel.

UG: Não há objeção, mas falta saber por onde começar, embora se saiba bem onde terminar, o que parece exigir a narração da história inteira da vida.

Q: Não há incômodo algum em ouvir.

UG: A narrativa não flui.

Q: Talvez falte inspiração.

UG: Não há inspiração, e quem fala é a última pessoa capaz de inspirar alguém, restando contar, para satisfazer a curiosidade, o outro lado, o lado sórdido (shoddy) da vida.

Nota: O nascimento ocorreu em 9 de julho de 1918, no sul da Índia, numa família brâmane de classe média alta de sobrenome Uppaluri, recebendo o nome Uppaluri Gopala Krishnamurti, e após a morte da mãe, pouco depois do parto, a criação ficou a cargo dos avós maternos na pequena cidade de Gudivada, perto de Masulipatam.

UG: A criação deu-se num ambiente muito religioso, sob um avô advogado, rico, culto e ao mesmo tempo muito ortodoxo, conhecido de Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, de Olcott e das gerações seguintes de teosofistas, e sua incapacidade de equilibrar ortodoxia e tradição de um lado e Teosofia de outro marcou o início do problema.

Nota: Repetia-se que a mãe, pouco antes de morrer, afirmara que o filho nascera para um destino imensamente elevado, e o avô, levando isso muito a sério, abandonou a advocacia para dedicar-se à sua educação, enquanto avós e amigos o consideravam um yoga bhrashta, alguém que chegara a um passo da iluminação na vida anterior.

UG: Uma infância cercada de eruditos e homens santos revelou cedo a hipocrisia de todos, cuja vida contradizia o discurso, o que deu início a uma busca intensa por moksha, levando a sete anos de austeridades com Sivananda Saraswati, à experiência de todos os tipos de samadhi e à constatação de que o pensamento cria qualquer experiência, enquanto o sexo se impunha como realidade natural mais importante que a libertação.

  • Eruditos pagos pelo avô liam diariamente, das quatro às seis da manhã, os Upanishads, o Panchadasi, o Nyshkarmya Siddhi, comentários e comentários de comentários, e aos sete anos a criança já repetia boa parte dessas passagens.
  • A casa estava aberta a todos os homens santos, inclusive da Ordem Ramakrishna, e todos se revelavam hipócritas, de vida rasa e vazia, apesar das belas palavras.
  • O avô, que meditava uma ou duas horas por dia, desceu certa vez da sala de meditação e espancou uma criança de dois anos até ela quase ficar roxa, episódio traumático que levou a suspeitar de algo errado em todo o negócio da meditação e no medo neurótico que governava essas vidas.
  • Daí surgiu a pergunta sobre se havia algo de verdadeiro no que professavam Buda, Jesus e os grandes mestres, e sobre a existência de alguém que fosse encarnação viva daquilo, a ser descoberto por si mesmo.
  • Entre os catorze e os vinte e um anos houve frequentes visitas a Sivananda Saraswati, então o evangelista do hinduísmo, com prática de ioga, meditação, estudo e austeridades, como evitar sal, pimenta e temperos.
  • Experimentaram-se samadhi, super-samadhi e nirvikalpa samadhi, mas percebeu-se que o pensamento pode produzir qualquer experiência, seja êxtase, beatitude ou dissolução no nada, e que a mesma pessoa continuava ali, mecanicamente, de modo que a meditação nada valia.
  • O sexo tornou-se um problema enorme para o jovem, como impulso biológico natural, mais real que moksha, a ponto de pensar em deuses e deusas e ter poluções noturnas, sem razão para culpa por algo incontrolável.
  • Certo dia Sivananda foi surpreendido comendo picles de manga às escondidas, prova de que quem tudo negara a si mesmo na esperança de obter algo não conseguia controlar-se, e de que esse tipo de vida não servia.

Q: Diante do forte impulso sexual entre os catorze e os vinte e um anos, cabe saber se houve casamento naquela época.

UG: Não houve pressa, mas permissão para que o impulso se manifestasse e fosse investigado, pois interessava compreender de onde vinham imagens sexuais sem qualquer conhecimento ou estímulo externo, investigação que constituía a verdadeira meditação, e mais tarde, abandonada a meta de ser asceta, concluiu-se que o casamento era o meio socialmente previsto para a expressão natural do sexo.

  • A pergunta era como se formavam aquelas imagens sem ida ao cinema nem contato com cartazes, o que indicava um estímulo interno, mais importante que o externo, pois este podia ser eliminado, mas aquele não.
  • Havia também interesse em saber o que era a experiência sexual, que de algum modo parecia já conhecida sem ter sido vivida.
  • A meta inicial era tornar-se asceta e monge, mas os acontecimentos levaram a considerar que, se se tratava de satisfazer o impulso sexual, o casamento era mais natural do que procurar outra mulher.

UG: Aos vinte e um anos firmou-se a convicção de que todos os mestres haviam enganado a si mesmos e aos outros, pois a descrição de seus estados não tinha relação com o funcionamento real de quem é colérico, ganancioso e brutal, e uma náusea existencial contra tudo o que é sagrado expulsou a religião do sistema, até que um encontro com Ramana Maharshi, cuja frase sobre poder dar, mas não haver capacidade de receber, cristalizou a pergunta fundamental sobre qual é aquele estado.

  • Todos recomendavam não sentir raiva enquanto a raiva era constante, e a não ganância pregada era antinatural diante de uma ganância real, de modo que o ensinamento falso falsificaria quem o seguisse.
  • A chamada náusea existencial (existentialist nausea) eliminou slokas, religião e práticas, restando apenas o natural, isto é, ser um bruto, um monstro, cheio de violência e desejo, enquanto ausência de desejo, de ganância e de raiva não tinham sentido.
  • Considerado praticamente ateu, embora não praticante, e herege até a raiz, foi convencido por alguém a visitar Ramana Maharshi em Tiruvannamalai como encarnação viva da tradição hindu.
  • Não havia vontade de ver homens santos, pois todos repetem o que está nos livros e recomendam fazer mais do mesmo, o que gera experiências que exigem permanência, e não existe permanência.
  • A experiência religiosa não difere da sexual nem de qualquer outra, e não havia interesse em experimentar Brahman, a realidade ou a verdade, assim como na matemática se descobre que a resposta está no próprio problema.
  • A ida ocorreu com relutância, após a leitura do capítulo sobre Ramana em Search in Secret India, de Paul Brunton, e diante de um homem que lia histórias em quadrinhos e cortava legumes nada aconteceu, as perguntas não desapareceram e as histórias sobre silêncio e transformação pelo olhar mostraram-se fantasia.
  • À pergunta sobre se ele poderia dar o que tinha, a resposta foi que poderia dar, mas restava saber se havia capacidade de receber, e a confiança gerada por sete anos de sadhana levou à certeza de que, se alguém podia receber, seria quem perguntava.
  • Outras respostas, como a de que ou se é livre ou não se é, e a de que não há degraus que conduzam àquilo, foram ignoradas.
  • A aparente arrogância da frase fez surgir a pergunta sobre o estado em que estiveram Buda, Jesus e os demais, pois Ramana era um ser humano nascido de pais como qualquer um, e a decisão foi descobrir por conta própria esse estado, navegando num mar desconhecido sem bússola, barco ou jangada.

Q: Não fica clara essa questão de dar e receber.

UG: Não se pode dizer o que Ramana quis dizer, mas a frase ajudou a formular a própria pergunta, e hoje a resposta a algo semelhante seria que nada há a obter de ninguém, pois todos já têm o mesmo, como quem, estando na Rua Sannidhi número 25, pergunta onde fica a Rua Sannidhi número 25.


Nota: Nunca mais houve visita a Ramana nem a outras pessoas religiosas, e nenhum livro religioso foi tocado novamente, salvo para estudar para exames de filosofia.

UG: Começou então a verdadeira busca, com exploração de psicologia, filosofia oriental e ocidental, misticismo e ciências modernas, sem que nenhum conhecimento satisfizesse a pergunta sobre aquele estado, e quando um professor de psicologia, indagado se conhecia por si mesmo a mente de que tanto falavam Freud, Jung e Adler, recomendou não fazer perguntas inconvenientes e apenas decorar as anotações para o exame, ficou claro que o diploma não interessava, mas sim descobrir a mente.

Nota: Com a morte do avô, a Universidade de Madras foi abandonada sem conclusão do curso, e em 1943 houve o casamento.

UG: A herança do avô incluiu a Sociedade Teosófica, J. Krishnamurti e muito dinheiro, o que permitiu atuar como conferencista da Sociedade e falar em todas as universidades da Índia, mas sem convicção, pois tudo era informação de segunda mão repetida como papagaio, sem constituir sequer um meio de vida, embora persistisse o interesse por aquele estado, até a chegada de J. Krishnamurti, recém-retornado dos Estados Unidos com sua nova abordagem.

Q: Cabe saber se há parentesco com Krishnamurti.

UG: Krishnamurti é apenas um prenome comum, e não sobrenome, sendo o sobrenome dele Jiddu, e após sete anos ouvindo-o à distância, por desconfiança da fabricação de um Instrutor do Mundo, houve anos de conversas diárias em que se buscava o que havia por trás de suas abstrações, até que a resposta de que não havia modo de sabê-lo por si mesmo encerrou definitivamente a relação.

  • Instrutores do Mundo nascem, não são fabricados, e por isso houve sempre distância do círculo íntimo, notando-se ali a mesma hipocrisia e superficialidade de estudiosos e mentores.
  • O ensinamento não interessava, e foi dito a ele que adotara o jargão psicológico da época e uma análise que conclui não ser a análise o caminho, o que apenas paralisa as pessoas.
  • Pela comparação tradicional, ele talvez não tivesse provado o açúcar, mas parecia ao menos tê-lo visto, sem certeza de que o tivesse provado.
  • Diferenças pessoais surgiram porque ele, muito defensivo, não dava respostas diretas e honestas sobre seu passado, quando poderia pendurar o passado numa árvore e deixá-lo ao público.
  • Diante da resposta de que não havia modo de sabê-lo por si mesmo, concluiu-se que, nesse caso, tampouco havia modo de comunicá-lo, que sete anos haviam sido desperdiçados, e veio a despedida definitiva.

Nota: Provavelmente nessa época surgiram certos poderes psíquicos que causaram perplexidade.

UG: Antes dos quarenta e nove anos houve muitos poderes e experiências, como ver todo o passado, presente e futuro de alguém à primeira vista ou dizer coisas que sempre se realizavam, mas sem lhes dar atenção nem usá-los, apenas com perplexidade quanto ao mecanismo, até que produziram consequências desagradáveis e sofrimento para algumas pessoas.


Nota: Seguiram-se viagens pelo mundo e conferências, e em 1955 a família mudou-se para os Estados Unidos em busca de tratamento para a poliomielite do filho mais velho, mas em 1961 o dinheiro acabou e começou uma convulsão interior incontrolável que duraria seis anos até a calamidade, como é chamada a entrada no estado natural, com o fim do casamento, o embarque da família para a Índia e a chegada a Londres sem dinheiro, onde viveu três anos nas ruas, período que pessoas religiosas chamariam de noite escura da alma, mas que consistiu apenas num simples definhar da vontade, sem luta heroica nem clímax poético.

UG: Naquele período parecia não haver cabeça nem vontade, como uma folha levada pelo vento numa vida sórdida de vagabundo (bum) em Londres, até que um pensamento surgido do nada levou à Missão Ramakrishna, onde o Swami ofereceu abrigo e trabalho na edição do número do centenário de Vivekananda, e ali, sentado na sala de meditação com pena dos que meditavam, surgiu pela primeira vez um estranho movimento de energia no corpo.

  • Perambulava-se pelas ruas a noite toda, e policiais ameaçavam levar ao xadrez (nick) quem não tinha onde dormir.
  • De dia, no Museu Britânico, sem interesse por livro algum, fingia-se ler um dicionário de gíria do submundo apenas para passar o tempo.
  • Expulso do Hyde Park com cerca de cinco pence no bolso, seguiu-se o pensamento de ir à Missão Ramakrishna, onde, às dez da noite, foi apresentado ao Swami um álbum de recortes com conferências e comentários do New York Times, como prova de quem se fora e se era.
  • O pedido de passar a noite na sala de meditação foi recusado, mas o Swami pagou um hotel, e no dia seguinte veio a primeira refeição verdadeira em muito tempo, depois de perdidos até a fome e a sede.
  • O Swami, cujo assistente editorial adoecera mentalmente, insistiu em contar com alguém versado em filosofia indiana, e apesar da alegação de ser um homem acabado, capaz apenas de lavar pratos, a edição foi concluída de algum modo.
  • As cinco libras recebidas, como os demais swamis, foram gastas vendo todos os filmes de Londres, até os subúrbios onde se viam três filmes por um xelim, pois perdera-se o senso do valor do dinheiro de quem já assinara cheques de cem mil rúpias.
  • Na sala de meditação, sem nada fazer, em completo vazio, surgiu um movimento de energia que subia do pênis e saía pela cabeça como por um orifício, girando em sentido horário e anti-horário, como o anúncio dos cigarros Wills no aeroporto, sem que se relacionasse isso a coisa alguma.
  • Aquele modo de vida parecia perversidade levada ao extremo, e após três meses veio a partida, com quarenta ou cinquenta libras dadas pelo Swami.

UG: Seguiu-se uma deriva por Paris e Genebra que levou, sem dinheiro e por uma série de acasos, ao encontro com Valentine de Kerven no Consulado da Índia e à vida em Saanen, lugar que em 1953 já parecera destinado a ser a morada definitiva, iniciando-se ali um período de incubação marcado por fenômenos físicos estranhos nunca relacionados à libertação, já completamente expulsa do sistema.

  • Com a devolução da passagem aérea para a Índia, paga em dólares, viveu-se três meses num hotel em Paris, perambulando pelas ruas como antes, mas com algum dinheiro no bolso, e havia forte resistência a voltar à Índia por causa da família e dos filhos.
  • A intenção era ir a Zurique, onde havia uma antiga conta bancária, mas sem saber por quê o táxi foi mandado à Gare de Lyon, e o trem tomado seguiu para Genebra.
  • Sem dinheiro para pagar o hotel, restou pedir ao Consulado da Índia a repatriação, mostrando o álbum que exaltava um dos mais brilhantes oradores da Índia, com opiniões de Norman Cousins e Radhakrishnan, ao que o vice-cônsul respondeu que tal homem não podia ser mandado à custa do governo e ofereceu hospedagem.
  • Valentine, tradutora do consulado que por acaso estava na recepção, tornou-se amiga próxima, deixou o emprego e criou um lar na Suíça vivendo de sua modesta pensão.
  • Em 1953, ao ver Saanen da janela do trem, algo dissera para descer e passar ali o resto da vida, sonho adiado pela recusa da esposa e pela ida à América, e mais tarde J. Krishnamurti passou a realizar ali suas reuniões anuais, sem qualquer interesse da parte de quem já morava no lugar.
  • Valentine pode testemunhar que nunca se falou com ela sobre verdade ou realidade, pois não havia busca alguma, embora algo estranho estivesse em curso.
  • Durante a incubação surgiram dores de cabeça terríveis, distintas da enxaqueca, tratadas com dezenas de milhares de aspirinas e quinze a vinte xícaras de café por dia, a um custo de trezentos ou quatrocentos francos mensais.
  • Ao esfregar o corpo ou virar-se na cama surgiam faíscas como um brilho fosforescente, que Valentine chegou a confundir com faróis de carros, algo atribuído primeiro à eletricidade estática das roupas de náilon, mas que persistiu sem elas, indicando um campo eletromagnético.
  • Tamanho era o ceticismo que nem um milagre diante dos olhos seria aceito, e jamais ocorreu a ideia de se estar mais perto daquilo, pois não há proximidade nem distância em relação a esse estado, nem preparo possível, ele apenas atinge como uma tonelada de tijolos.

UG: Em 1967 uma série de episódios culminou na dissolução da pergunta fundamental, desde uma experiência de ausência de divisão diante de uma dançarina num cabaré de Paris até a sensação, ao ouvir Krishnamurti em Saanen, de que ele descrevia o próprio estado de quem ouvia, transformando a pergunta sobre o que é aquele estado na pergunta sobre como saber estar nele, que, sem resposta, simplesmente desapareceu no dia do quadragésimo nono aniversário.

  • Em abril, em Paris, amigos sugeriram ouvir Krishnamurti, mas diante da cobrança de dois francos preferiu-se gastar vinte no Casino de Paris, onde surgiu a perplexidade de não saber se se era o dançarino ou se havia outro dançarino no palco, sem ninguém olhando, algo hoje natural.
  • A pergunta tinha intensidade não emocional, crescente a cada fracasso em respondê-la, como um monte de palha de arroz que queima por dentro sem chama visível, mas queima quem o toca.
  • Em julho, em Saanen, numa palestra gratuita, ouvir Krishnamurti falar de movimentos, atenção e silêncio em que não há mente, mas ação, deu a sensação de que se descrevia o próprio estado, e trinta ou quarenta anos de esforço para compreender o estado alheio pareceram absurdos, levando a sair da tenda para nunca mais voltar.
  • No dia seguinte, num banco sob uma árvore diante dos sete montes e sete vales de Saanenland, todo o ser era a pergunta sobre como saber estar naquele estado, e percebeu-se que era o próprio conhecimento acumulado, as descrições lidas e ouvidas, que projetava e observava o estado, mantendo tudo na estaca zero após quarenta anos.
  • A pergunta girou como num redemoinho e de repente desapareceu, sem qualquer descoberta de resposta, levando consigo até o estado que se julgava ser o de Buda ou de Jesus, e o que restou não é vazio, branco nem o vácuo, apenas o fim da pergunta.

Nota: O desaparecimento da pergunta fundamental, ao se descobrir que não tinha resposta, foi um fenômeno fisiológico, uma súbita explosão interna que atingiu cada célula, nervo e glândula do corpo, eliminando a ilusão de continuidade do pensamento e de um centro, um eu que liga os pensamentos.

UG: Rompida a ligação entre os pensamentos, ela não se refaz, e cada pensamento que surge explode, de modo que a continuidade termina e o pensamento cai em seu ritmo natural, restando apenas perguntas práticas para funcionar no mundo, enquanto a explosão, comparável a uma explosão nuclear, deixa reações em cadeia que alteram irreversivelmente cada célula, numa espécie de alquimia.

  • As grandes perguntas não têm resposta de ninguém, e por isso não podem mais permanecer.
  • Tudo na cabeça ficou apertado, sem espaço para nada, e as vasanas (impressões passadas) às vezes tentam aparecer, mas as células cerebrais estão tão comprimidas que não há como a divisão se manter, uma impossibilidade física que dispensa qualquer ação.
  • Até as células da medula óssea passam por essa transformação irreversível, sem possibilidade de retorno ou de queda.
  • A explosão despedaça o corpo inteiro e é o fim do homem, causando tortura física terrível, e não pode ser experimentada, sendo sua precipitação radioativa (fall-out) o que altera toda a química corporal.

Q: Certamente terão sido experimentados planos superiores, se cabe a expressão.

UG: Não existem planos nem níveis, e um efeito singular da explosão é que nunca surge na consciência o pensamento de ser diferente do outro, pois não há ali nenhum ponto nem centro, e só a partir de um centro se criam todos os outros pontos.

Q: Em algum sentido, deve haver diferença em relação às outras pessoas.

UG: Talvez fisiologicamente.

Q: Cabe saber como se conhecem as tremendas mudanças químicas mencionadas, se houve exames ou se são apenas inferência.

UG: O que se pode afirmar são os efeitos posteriores, o modo como os sentidos operam sem coordenador ou centro, e a mudança química é afirmada porque sem essa alquimia não haveria como libertar o organismo da continuidade do pensamento, embora não haja modo algum de experimentar o que de fato aconteceu.

Q: Talvez a mente esteja fazendo jogos, e tudo não passe da ilusão de ser um homem explodido.

UG: Nada está sendo vendido, e é impossível simular isso, algo ocorrido fora do campo em que se esperava, sonhava e desejava mudança, razão pela qual nem se usa o termo mudança, restando apenas descrever o modo de funcionamento e tentar compreender a aparente diferença em relação aos outros, embora no fundo não possa haver diferença alguma.


Nota: Na semana seguinte à explosão foram notadas mudanças fundamentais no funcionamento dos sentidos, e no último dia o corpo passou por um processo de morte física (nirvikalpa samadhi), após o qual as mudanças se tornaram permanentes.

UG: Durante sete dias ocorreu uma mudança por dia, alterando sucessivamente pele, mente, olfato e paladar, visão, audição e a percepção do corpo, até que no sétimo dia a energia vital se concentrou num ponto e sobreveio, por quarenta e nove minutos, um processo de morte física do qual o retorno ocorreu sem que se saiba como, pois não havia experimentador.

  • No primeiro dia, a lâmina deslizava ao barbear, e a pele mostrou-se macia como seda e com um brilho dourado peculiar.
  • No segundo dia surgiu o estado desembreado (declutched), em que, diante de uma sopa de tomate preparada por Valentine, não se sabia o que era, reconhecia-se o sabor ao prová-la e esquecia-se em seguida, num estado de não mente que hoje é normal, com a memória no fundo, acionada automaticamente apenas quando necessária.
  • No terceiro dia, ao preparar um jantar, percebeu-se que qualquer odor, do perfume mais caro ao esterco de vaca, irritava o olfato da mesma forma, e que no paladar se sentia primeiro o ingrediente dominante, tornando perfumes e comida condimentada sem sentido.
  • No quarto dia, no restaurante Rialto, surgiu uma visão panorâmica (vistavision) como um espelho côncavo, em que as coisas que se aproximam entram e as que se afastam saem de dentro de quem vê, os olhos funcionando como uma câmera gigante de foco automático, e diante do espelho constatou-se que o piscar instintivo cessara para sempre.
  • No quinto dia, latidos, mugidos e apitos de trem passaram a originar-se dentro, e não fora, como ainda ocorre.
  • No sexto dia, deitado no sofá, o corpo desapareceu, restando apenas os pontos de contato do tato, e nem a confirmação de Valentine trouxe conforto, pois o corpo nunca mais voltou, sendo impossível formar uma imagem completa dele.
  • No sétimo dia, Valentine era reconhecida ao entrar e desaparecia por completo ao sair, sem que se pudesse imaginar sua aparência, revelando sentidos sem coordenador.
  • Ao sentir a energia vital convergir para um ponto, pediu-se a Valentine que doasse o corpo aos médicos, ao que ela respondeu que o governo suíço não aceitaria o corpo de um estrangeiro e que não havia morte alguma à vista.
  • A energia convergia como o diafragma de uma câmera tentando fechar-se, com algo resistindo, até que cessou toda vontade e o diafragma se fechou, seguindo-se o desconhecido.
  • Esse processo ainda se repete, com mãos e pés gelados, corpo rígido, batimentos e respiração lentos e um último arquejo, e ao sair dele, atendendo a um telefonema, havia apenas atordoamento diante de uma morte física sem experimentador.

UG: Não houve sensação de renascimento nem de iluminação, mas as mudanças daquela semana tornaram-se permanentes, e o conjunto recebe o nome de calamidade (calamity) porque, para quem imagina algo fantástico, bem-aventurado e extático, trata-se de tortura física, como quem sonha com Nova York e ao chegar encontra um lugar abandonado até pelos demônios, não havendo imagem que permita dizer-se iluminado, libertado ou libertador da humanidade.

UG: No oitavo dia, sentado no sofá, irrompeu uma energia tremenda que fazia vibrar o corpo, o sofá, o chalé e todo o universo, sem origem localizável, durante horas e por dias seguidos, como um ataque epiléptico, em total impotência.

Nota: Por três dias o corpo ficou contorcido de dor na cama, como se cada célula doesse uma após a outra, e descargas semelhantes de energia repetiram-se intermitentemente durante seis meses sempre que havia repouso ou relaxamento.

UG: A dor é física porque o corpo tem limites e forma própria, enquanto a energia que irrompe, que não pertence a ninguém nem a Deus, age como um rio em cheia indiferente a esses limites, num processo doloroso que nada tem de êxtase ou beatitude e que durante três anos transformou o metabolismo, os movimentos e até os hormônios até que o corpo encontrasse novo ritmo.

  • Também Ramana Maharshi sofreu depois disso, e o sofrimento durou meses, como já ocorrera antes.
  • Milhares de cascatas sucediam-se, e a energia girava como no anúncio do átomo dos cigarros Wills, em sentido horário e anti-horário, pelo corpo inteiro, como uma toalha molhada sendo torcida.
  • Ela não pode ser convidada nem provocada, parece envolver ou descer sobre o corpo de origem desconhecida, chega sempre de modo diferente e às vezes começa como formigas andando, a ponto de fazer procurar insetos na cama, com os pelos eletrizados.
  • O pensamento controlara tanto o corpo que, ao afrouxar, todo o metabolismo se agitou, e o punho doeu por seis meses até girar, mudando os movimentos das mãos, que alguns chamam de mudras (gestos místicos).
  • Houve dores na medula dos ossos, cada célula mudava, e os hormônios sexuais alteraram-se a ponto de surgir um seio do lado esquerdo e não se saber se se era homem ou mulher, tudo registrado em detalhes.

Q: Cabe saber se é possível compreender como isso aconteceu.

UG: Não é possível.

Q: Restaria compreender, ao menos, o que aconteceu.

UG: Pode-se ler uma descrição dos acontecimentos, que não tem valor algum e é até perigosa, pois leva a simular as manifestações exteriores e a crer que algo está acontecendo, quando o comportamento foi normal, sem saber o que ocorria, e o estado é algo natural, sendo inútil deixar registros.


Nota: Ao longo do tronco, do pescoço e da cabeça, nos pontos que os homens santos indianos chamam de chakras, amigos observaram inchaços de formas e cores variadas que surgiam e desapareciam, como faixas horizontais no baixo-ventre, uma saliência em forma de amêndoa acima do umbigo, medalhões azul e castanho-avermelhado no peito e na garganta pendentes de um anel colorido no pescoço, a garganta inchada como se o queixo repousasse sobre a cabeça de uma cobra, como nas imagens de Shiva, um inchaço branco em forma de lótus acima do nariz, vasos na cabeça formando padrões semelhantes às protuberâncias das estátuas de Buda, saliências como os chifres de Moisés e dos místicos taoistas, e artérias do pescoço subindo azuis e serpenteantes até a cabeça.

UG: Sem exibicionismo, cabe mostrar a médicos que há algo no simbolismo indiano da cobra, pois os inchaços assumem essa forma conforme as fases da lua, já que o corpo, despojado da armadura, é afetado por tudo o que ocorre ao redor numa pura resposta física, uma afecção (affection), o que talvez explique imagens como as de Shiva, embora nenhum médico tenha explicado a origem desses inchaços.


UG: As glândulas endócrinas situam-se exatamente nos pontos onde os hindus localizaram os chakras, e o timo, muito ativo na infância e adormecido na puberdade, reativa-se nesse renascimento, trazendo sentimentos que não são pensamentos nem emoções, de modo que a dor alheia é sentida por quem a presencia, porque a consciência não pode ser dividida.

  • Sentir pelo outro significa que, se alguém se fere, o ferimento é sentido não como dor, mas como um sentimento que arranca espontaneamente uma exclamação.
  • Numa plantação de café, uma mãe enfurecida espancou um filho pequeno até ele quase ficar roxo, e indagado por que não interferiu, a resposta foi a perplexidade sobre de quem ter pena, da mãe incapaz de controlar a raiva ou da criança indefesa, enquanto o movimento passava de um a outro e marcas surgiram nas próprias costas.
  • Não se trata de julgar ninguém, mas de ser afetado pela situação, pois tudo o que acontece ali afeta quem está presente.

Q: Isso valeria para o universo inteiro.

UG: O universo é amplo demais, e a afecção vale para o que ocorre no campo de consciência em que se opera em dado momento, embora a consciência não seja limitada, e quando cessa a interferência do pensamento outras glândulas, como a hipófise, chamada terceiro olho ou ajña chakra (ajña significa comando), passam a comandar o corpo, enquanto o pensamento não utilizado como mecanismo de autoproteção sofre combustão ou ionização e cobre o corpo de uma substância semelhante a cinza.

  • A armadura construída pelo pensamento impede que se seja afetado pelas coisas.
  • O pensamento é vibração, e quando não há necessidade dele, queima-se a si mesmo, gerando calor intenso no corpo e cobrindo rosto, pés e pele com essa substância.
  • Por isso tudo é expresso em termos puramente físicos e fisiológicos, sem conteúdo psicológico, místico ou religioso, pouco importando se isso é aceito.

UG: Isso deve ter acontecido a muitas pessoas, talvez uma em um bilhão, sem preparo, purificação ou sadhana, pois a consciência já é tão pura que todo esforço de purificá-la a contamina, e quando as fronteiras se rompem sem vontade alguma ela se esvazia de todo o santo e o profano, assumindo nesse processo as formas daqueles que passaram por esse estado, até retornar ao estado primordial e puro que nada mais pode tocar.

  • Nesse esvaziamento, a própria consciência toma a forma de Buda, Jesus, Mahavira, Maomé ou Sócrates, não de grandes líderes da humanidade, mas apenas daqueles a quem isso aconteceu.
  • Surgiram também formas como a de um homem de pele escura e a de uma mulher nua de cabelos soltos, com seios e órgãos femininos, que se soube corresponder às santas Akkamahadevi e Lalleswari.
  • Ainda permanece uma divisão entre quem observa e a forma assumida, mas ela não dura e desaparece, e centenas de figuras, entre rishis, ocidentais, monges e mulheres, saem da consciência, como os santos marchando para fora (the saints go marching out), por serem contaminação.
  • Por especulação, talvez o impacto das explosões desses sábios na consciência humana gere a insatisfação que impele a esse ponto, e cumprida a tarefa eles se retiram.
  • Por três anos após a calamidade essas visões ocorreram, e hoje a consciência dividida não pode mais funcionar, de modo que qualquer pensamento, bom, mau ou até o telefone de uma prostituta londrina visto nas árvores durante as andanças, vem e vai sem ninguém para julgá-lo.
  • Daí o uso da expressão experiência religiosa em outro sentido, como retorno à fonte, ao estado primordial de consciência ou percepção, semelhante às águas do Ganges, que recebem esgoto e cadáveres semiqueimados e permanecem sempre puras.

UG: O mais desconcertante foi quando os sentidos iniciaram carreiras independentes, sem coordenador, levando a perguntar a cada passo o que era uma flor ou uma vaca, como um bebê, com o conhecimento no fundo sem vir à tona, situação que levou Valentine a consultar um psiquiatra em Genebra, e que permanece como um estado de não saber, um samadhi permanente do qual não se entra nem se sai.

  • Não havia sensação de loucura, mas a conduta sã de quem apenas perguntava o que era cada coisa, sem outras perguntas.
  • Valentine percebia que nada havia de louco e teria partido diante de uma única loucura, mas a situação era demais para ambos, e o psiquiatra exigiu ver o paciente.
  • Havia a certeza de que algo fantástico ocorrera internamente, sem saber o quê e sem preocupação com isso, já que pouco importava se era vaca, burro ou cavalo.
  • Hoje essas perguntas não são mais feitas, mas ao olhar algo não se sabe realmente o que se olha.

UG: Não há retorno possível, pois tudo funciona de outro modo, e a dificuldade com os visitantes é a mútua incompreensão dos modos de funcionamento, que impossibilita o diálogo, sendo a fala semelhante à de um maníaco delirante, separada dela por um fio de cabelo, já que naquele momento ou se enlouquece ou se voa (flip or fly), embora no fundo não haja diferença alguma, apenas um acaso que encerra tudo.


Q: Mesmo aqueles que se realizaram, entre aspas, seriam diferentes entre si.

UG: Sim, porque o histórico é diferente e é a única coisa que pode se expressar, de modo que a expressão consiste no relato da luta, do caminho seguido e da rejeição dos caminhos alheios, que em nada ajudaram.

Q: Alguém nesse estado parece, contudo, diferente dos demais, envolvidos em seus pensamentos.

UG: Ele é diferente não só dos que perguntam, mas de todos os supostamente nesse estado, por causa de seu histórico.

Q: Embora cada um que passou pela explosão seja único ao expressar seu próprio histórico, parecem existir algumas características comuns.

UG: Essa preocupação não pertence a quem responde, que jamais se compara a ninguém.


UG: A biografia termina ali, sem nada mais a escrever, respondendo-se a perguntas apenas quando feitas, sem negócio sagrado de libertar pessoas nem mensagem para a humanidade, salvo a de que todos os sistemas sagrados para alcançar a iluminação são um embuste (bunk), de que falar em mutação psicológica pela atenção é disparate (poppycock), sendo ela impossível, e de que o estado natural só pode ocorrer por mutação biológica.

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