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vedanta:ug:ugmm:2

2 Esperança

U. G. Mind is a Myth: Conversations with U.G.. Edited by Terry Newland. Goa: Dinesh Vazirani, 1988. (Reedição: New Delhi: Penguin Books, 2003).

Q:

A prática da meditação apresenta-se como um meio desejável para alcançar uma paz mental efetiva, capaz de superar a inquietação presente.

UG:

A necessidade de uma disciplina espiritual, sadhana, depende da aceitação prévia de uma meta cuja realidade não foi examinada, tornando necessário questionar se a paz mental pretendida existe ou se constitui uma expectativa falsa.

Q:

A paz mental permanece como finalidade principal, independentemente das dúvidas acerca dos meios necessários para alcançá-la.

UG:

A tranquilidade é continuamente adiada para o futuro, sem que se examine por que não ocorre no presente nem se a própria disciplina empregada para obtê-la produz a perturbação que pretende eliminar.

Q:

A possibilidade de alcançar a paz mental parece indispensável, mesmo quando sua realização permanece incerta.

UG:

O adiamento da paz para amanhã impede o confronto com a situação presente, na qual precisa ser esclarecido aquilo que efetivamente se deseja.

Q:

A ausência de satisfação e o sentimento de que todas as atividades são vazias alimentam a expectativa de uma dimensão superior à existência habitual.

UG:

A insatisfação decorre da comparação da vida com uma finalidade imaginada como superior, pois a exigência de um sentido previamente definido impede reconhecer o significado das atividades cotidianas, que se torna acessível quando essa exigência desaparece.

Q:

A orientação da existência parece exigir uma ideia de vida melhor e mais espiritual, capaz de ultrapassar suas limitações atuais.

UG:

As metas espirituais pertencem ao mesmo movimento material do pensamento que procura conquistas mundanas, e sua projeção no futuro conserva os conflitos presentes ao substituir o confronto com os fatos pela expectativa de seus opostos ideais.

  • O pensamento provém do passado, opera no tempo e produz objetivos igualmente temporais, de modo que a realização espiritual permanece subordinada ao adiamento.
  • A condenação do egoísmo e a idealização do desprendimento não eliminam o comportamento egoísta, mas permitem conservá-lo enquanto sua superação é prometida para amanhã ou para uma vida futura.
  • O esforço destinado a alcançar uma condição desinteressada fortalece o mesmo mecanismo que busca obter uma vantagem para si.
  • A meditação voltada ao desprendimento pode limitar-se à repetição de ideias sobre esse estado, sem modificar a condição efetiva que motivou a prática.
  • O reconhecimento de que não existe uma disposição real para abandonar o egoísmo importa mais do que a construção de um ideal contrário destinado a encobri-lo.

Q:

A compreensão dessas questões parece exigir um esforço deliberado para acompanhar seu alcance.

UG:

O esforço não pode produzir uma condição livre de esforço, pois o eu se constitui mediante luta e realização, fazendo da paz procurada uma extensão do próprio conflito que sustenta a meditação e o controle dos pensamentos.

  • A tentativa de alcançar ausência de esforço por meio da vontade reproduz a contradição de pretender obter paz mediante a guerra.
  • A prática meditativa estabelece uma batalha interior na qual surgem pensamentos violentos que depois se procura conter.
  • O controle desses pensamentos acrescenta nova violência ao processo, intensificando aquilo que deveria desaparecer.

Q:

A sensação de paz que sucede às orações e meditações parece indicar algum benefício real dessas práticas.

UG:

A quietude posterior às práticas resulta do esgotamento provocado pela repressão dos pensamentos, sendo uma fadiga decorrente da luta interior que se confunde com paz, sem corresponder ao encerramento do conflito.

Q:

O benefício percebido na conversa suscita a questão de se compromissos religiosos, caminhos espirituais e disciplinas de realização são inteiramente desnecessários.

UG:

A discordância entre autoridades não resolve o problema, pois a questão fundamental é examinar a meta inventada para sustentar a esperança, cuja perseguição exige esforço sem oferecer qualquer garantia de realização.

  • A esperança projeta a solução para amanhã, enquanto a percepção presente exige uma ação que não depende desse adiamento.
  • A aquisição de conhecimentos, experiências e métodos procura aperfeiçoar os meios de alcançar um objetivo cuja existência permanece presumida.
  • A continuidade da busca decorre da familiaridade com esse procedimento, mesmo quando não existe garantia de que ele conduza ao resultado esperado.

Q:

Permanece a questão de qual realidade se pretende perceber mediante o emprego de técnicas.

UG:

A procura de um propósito superior faz com que as atividades presentes pareçam desprovidas de finalidade, pois a esperança de encontrar um sentido diferente produz a experiência atual de ausência de sentido.

Q:

A busca de significado parece uma resposta compreensível à condição humana e às dificuldades da existência.

UG:

A obsessão por encontrar um sentido espiritual consome a energia necessária à vida, enquanto o abandono dessa busca permite reconhecer o significado próprio da existência cotidiana, sem acrescentar-lhe uma finalidade fictícia.

  • A energia empregada em técnicas e disciplinas deixa de estar disponível para atividades concretas quando é absorvida pela procura incessante.
  • A vida material foi desvalorizada em favor de uma camada imaginária de significado espiritual, convertendo o próprio viver em problema.
  • Os modelos de vida perfeita, pacífica e orientada por um propósito deslocam a atenção para representações sobre a existência, em vez de permitir sua realização plena.
  • A vida continua independentemente das interpretações que se formulam sobre ela, sem exigir uma justificação superior para acontecer.

Q:

A cultura e a educação parecem ter como finalidade ensinar maneiras adequadas de viver.

UG:

A pergunta sobre como viver transforma em problema uma existência que já está acontecendo e conduz à dependência de outras pessoas, às quais se atribui a capacidade de fornecer respostas.

Q:

A impossibilidade de alcançar ou compreender alguma realização parece condenar toda busca ao fracasso.

UG:

A criação de uma meta como o desprendimento mantém o conflito com o egoísmo presente, enquanto samadhi não depende de posturas ou controle respiratório, mas do encerramento do conhecimento que sustenta a continuidade pessoal.

  • Uma preocupação prática com a própria sobrevivência pertence ao funcionamento corporal, mas se converte em problema quando confrontada com um ideal absoluto de ausência de interesse próprio.
  • Samadhi não constitui uma atividade separada da vida cotidiana nem exige a interrupção das ações comuns.
  • O conhecimento acumulado acerca desse estado impede sua ocorrência quando se torna referência para alcançá-lo.
  • O encerramento desse conhecimento envolve a morte e uma condição corporal semelhante à de um cadáver, pois sua continuidade está inscrita no organismo inteiro.

Q:

A exigência de uma ruptura radical com o passado parece contrariada pela existência de pessoas inventivas e inteligentes que não passaram pela morte ou pela calamidade fisiológica associadas a essa transformação.

UG:

A inventividade humana permanece ligada ao pensamento como mecanismo de proteção, capaz de produzir tanto religião quanto instrumentos destrutivos, sem que a pretensão de superioridade espiritual permita separar o indivíduo do mundo do qual participa.

Q:

A possibilidade de colher em outra vida as consequências das ações presentes parece justificar a preocupação com a moralidade e com o destino futuro.

UG:

As doutrinas de vidas passadas, vidas futuras e karma adiam a consequência das ações para amanhã, sem explicar por que a brutalidade e a desonestidade podem prosperar no presente.

Q:

Mesmo diante da violência e da desordem, persiste a esperança de que o amor venha finalmente a governar o mundo.

UG:

A competição por objetivos compartilhados favorece aqueles que agem com maior crueldade, enquanto a experiência de possuir bens e realizações desejáveis não valida um caminho espiritual quando todas essas conquistas revelam sua insuficiência.

Q:

A concordância entre grandes salvadores e dirigentes da humanidade parece oferecer uma objeção à rejeição dessas esperanças.

UG:

A dependência de santos, profetas, gurus e filósofos impede o surgimento de uma certeza própria, cuja irrupção desfaz toda autoridade anterior, inclusive aquilo que poderia ser convertido em um novo ensinamento.

  • A percepção direta da falsidade das autoridades não transmite uma doutrina, mas produz uma ruptura singular que atinge uma dimensão da vida anteriormente intocada.
  • Aquilo que serve como formulação para uma pessoa não pode tornar-se a verdade de outra, pois a descoberta efetiva torna obsoletas as palavras que a precederam.
  • A singularidade exige o desaparecimento da autoridade exercida pela experiência humana acumulada, sem que esse processo possa ser produzido pela vontade ou por auxílio externo.

Q:

A ruptura descrita parece exigir uma forma especial de coragem, diferente das disposições habituais.

UG:

A coragem não é uma qualidade cultivada para superar obstáculos, mas aquilo que permanece naturalmente quando desaparecem o medo e a autoridade, manifestando-se no encerramento do fazer dirigido por metas e da tradição interiorizada.

Q:

Mesmo uma coragem desse tipo não parece garantir que a compreensão da vida esteja livre de erros.

UG:

O problema do erro permanece enquanto a existência é organizada pelos pares de opostos, como certo e errado ou bom e mau, deixando de operar sob essa forma quando essas divisões desaparecem.

Q:

O encerramento das oposições parece envolver consequências suficientemente radicais para despertar medo.

UG:

A ruptura ocorre como o contato acidental com um fio elétrico, pois o medo impede produzi-la voluntariamente, enquanto seu acontecimento imprevisto destrói a estrutura que pretendia controlá-la.

Q:

Essa destruição parece incluir a própria busca de Deus e da liberdade.

UG:

A busca desaparece quando sua fome se extingue, sem ter sido satisfeita, pois os recursos tradicionais não podem saciá-la e o fim dessa exigência encerra a dualidade que a mantinha.

UG:

A escuta permanece comprometida quando procura conservar a continuidade de quem ouve, pois as respostas surgem das perguntas do interlocutor, mas são imediatamente convertidas por ele em conteúdos destinados a sustentar sua própria estrutura.

Q:

A insistência na negação parece dirigida à destruição de tudo aquilo que outros mestres ensinaram.

UG:

A negação dirige-se também às próprias formulações e às interpretações que delas se fazem, impedindo que uma resposta viva seja fixada como doutrina, método ou instituição.

  • Cada afirmação precisa ser contrariada quando sua fixação ameaça convertê-la em uma posição definitiva.
  • A sucessão de negações não pretende estabelecer uma síntese dialética confortável, mas desfazer tudo aquilo que pode ser transformado em conteúdo utilizável.
  • A qualidade viva da conversa não pode ser repetida nem empregada como instrumento de realização.
  • Organizações, escolas, livros sagrados, celebrações e templos substituem essa vitalidade por estruturas que beneficiam aqueles que exploram a credulidade alheia.

Q:

Permanece a questão de como o organismo se libertou da tradição nessa experiência particular.

UG:

A ruptura associa-se a uma irrupção de energia distinta dos estados produzidos pelo pensamento, cujo processo corporal não pode ser transformado em experiência espiritual, explicado como método ou reproduzido por imitação.

  • Os estados místicos conhecidos são induzidos pelo pensamento, enquanto essa energia desfaz os pensamentos à medida que surgem e tende a acumular-se até encontrar uma saída.
  • Os limites físicos do organismo dificultam seu escoamento, que ocorre acompanhado de uma dor incomum e de um alívio corporal comparável ao que sucede à extração de um dente.
  • A descrição dessa energia como atômica não corresponde, nessa explicação, à conversão da matéria em energia, e seu movimento prossegue enquanto a dor aparece e desaparece.
  • Interpretar o alívio como bem-aventurança confunde o processo fisiológico com estados que podem ser produzidos pelo pensamento.
  • Tudo aquilo que pode ser reconhecido como experiência pertence ao conhecido e, portanto, à tradição.
  • A libertação relevante inclui não depender dessas próprias explicações, pois convertê-las em caminho produz outra forma de repetição e conhecimento de segunda mão.
  • A ausência de conhecimento sobre como a ruptura ocorreu impede oferecer instruções para reproduzi-la, tornando necessário desfazer qualquer tentativa de aplicação ou de imitação.

Q:

A tentativa dos mestres orientais de comunicar estados superiores parece contrariar a afirmação de que esses estados são incomunicáveis.

UG:

Não existe um conteúdo espiritual transmissível nem algo que possa ser renunciado deliberadamente, pois até o abandono da busca ocorre sem merecimento, técnica ou vontade, envolvendo o encerramento da continuidade do pensamento e uma transformação corporal semelhante à morte clínica.

  • A confiança nos mestres pressupõe que eles correspondam às próprias declarações, sem que essa correspondência tenha sido estabelecida.
  • A renúncia da renúncia não resulta de práticas, discussões, recursos financeiros ou capacidade intelectual.
  • A formulação da Kathopanishad segundo a qual a revelação ocorre àquele que é escolhido retira das disciplinas a garantia de produzir o acontecimento.
  • A morte incide sobre a continuidade do pensamento, enquanto o corpo participa de uma transformação de formas dentro da vida.
  • O simples desejo de abandonar o egoísmo não encerra sua estrutura, pois o processo descrito envolve rigidez corporal, diminuição dos batimentos cardíacos e uma condição semelhante à de um cadáver.

Q:

A doutrina da reencarnação também parece negar a morte, embora o faça mediante a continuidade de um atma ou de uma alma eterna após o fim do corpo.

UG:

As teorias da reencarnação respondem à insatisfação diante da morte sem esclarecer o que poderia renascer, pois aquilo que existe como identidade durante a vida pode limitar-se ao conhecimento acumulado, e a própria possibilidade de experimentar a morte permanece sem fundamento.

Q:

A posição apresentada parece admitir apenas a existência de um estado natural, sem acrescentar explicações espirituais.

UG:

As ideias sobre o estado natural não correspondem à sua realidade, pois a tentativa de capturá-lo e expressá-lo revela apenas o movimento de apropriação do pensamento, enquanto tudo o que se acrescenta a esse movimento permanece especulação.

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