5 Sociedade
U. G. Mind is a Myth: Conversations with U.G.. Edited by Terry Newland. Goa: Dinesh Vazirani, 1988. (Reedição: New Delhi: Penguin Books, 2003).
Q:
A leitura dessas formulações parece conduzir à inevitabilidade do sofrimento e do desespero humanos, em vez de oferecer esperança para a existência.
UG:
A divisão que organiza a consciência humana contém um movimento destrutivo capaz de atingir toda a espécie, tornando infundada a expectativa de um futuro pacífico.
Q:
A ausência dessa esperança parece decorrer da inevitabilidade da violência.
UG:
A guerra exterior prolonga o conflito interior produzido pela busca de paz, pois os esforços empregados para alcançá-la perturbam a harmonia já presente no organismo e reproduzem a violência que pretendem eliminar.
Q:
A inevitabilidade da luta também é reconhecida por filosofias como o marxismo.
UG:
As explicações filosóficas da luta procuram atribuir direção a uma vida que pode ter surgido acidentalmente, enquanto a sobrevivência humana depende mais do medo da destruição recíproca do que dos discursos sobre amor e compaixão.
- A organização da existência mediante teses e antíteses constitui uma construção destinada a conferir coerência ao movimento da vida.
- A ausência de direção não permite concluir que a destruição esteja imediatamente próxima, pois o impulso de sobrevivência permanece profundamente enraizado.
- O temor da extinção pode conter a violência, mas não oferece garantia de que esse equilíbrio continue.
Q:
A tecnologia amplia o perigo da guerra, pois os instrumentos disponíveis podem destruir outras formas de vida além da humanidade.
UG:
O sentimento de superioridade que acompanhou a autoconsciência humana iniciou uma trajetória de autodestruição, cuja capacidade técnica crescente ameaça levar consigo o restante da vida.
Q:
A origem da pretensão de dominar a si mesmo e o mundo precisa ser esclarecida.
UG:
A concepção religiosa de que o universo foi criado para benefício humano legitimou uma posição central que separou o ser humano da natureza e favoreceu sua exploração, poluição e destruição.
Q:
A necessidade de pertencer ao mundo permanece, e a queda poderia representar o início da condição humana, em vez de seu encerramento.
UG:
A doutrina da queda e do pecado original fornece à tradição cristã um recurso de exploração que, longe de esclarecer a existência, participa de uma história de violência e derramamento de sangue.
Q:
As filosofias orientais oferecem a possibilidade de encontrar, pela meditação, um centro interior imóvel.
UG:
A busca de autoconhecimento pressupõe a existência de um eu, de uma mente ou de uma psique que raramente são questionados, embora constituam conceitos cuja aceitação determina toda a investigação posterior.
Q:
A natureza desse eu precisa ser esclarecida antes de prosseguir.
UG:
O eu permanece uma preocupação central para quem se identifica com ele, mas essa importância não demonstra sua existência nem obriga a torná-lo objeto de investigação.
Q:
A existência pessoal parece poder ser afirmada mediante uma formulação semelhante à de Descartes.
UG:
A certeza da existência pessoal depende do pensamento, que produz o medo, os mundos interior e exterior e uma experiência centrada em si mesma, sobre a qual se estabelecem relações inevitavelmente conflituosas.
- Sem pensamento, não ocorre a identificação de si como vivo ou morto.
- As experiências dependem dessa atividade e assumem um caráter ilusório quando são tomadas como apreensão direta da realidade.
- A sociedade exige relações permanentes, embora a estrutura centrada em si mesma não permita a reciprocidade que essas relações prometem.
Q:
A proximidade com temas como absurdo e desespero parece permitir uma classificação existencialista.
UG:
A classificação existencialista é recusada porque suas elaborações sobre desespero e absurdo permanecem abstratas, sem um confronto efetivo com aquilo que nomeiam.
Q:
A angústia, o naufrágio (naufrage), a náusea e o sofrimento de Raskólnikov parecem expressar algo mais concreto do que uma abstração filosófica.
UG:
As construções filosóficas sobre essas condições não correspondem ao mecanismo automático e autônomo que perpetua a atividade centrada em si mesma.
Q:
A autonomia desse mecanismo poderia significar que o eu sobrevive à mortalidade.
UG:
A ausência de um eu independente elimina a base sobre a qual se formulam questões de imortalidade e sobrevivência após a morte.
Q:
Permanece a questão de se existe algum além.
UG:
O além, a imortalidade, o desconhecido e o intemporal são criados como opostos da mortalidade, do conhecido, do tempo e do pensamento, sem que essa oposição comprove sua realidade.
Q:
A razão pela qual o pensamento produz esses opostos precisa ser esclarecida.
UG:
O pensamento é transitório, mas a exigência de repetir experiências lhe atribui uma continuidade artificial, sustentada pela herança coletiva do conhecimento e pela invenção de um destino independente.
- Cada pensamento nasce e desaparece, enquanto a identidade procura ligar essas ocorrências em uma existência contínua.
- O conhecimento reúne experiências, sentimentos e pensamentos transmitidos entre gerações, formando um campo comum do qual cada pessoa participa.
- O desconhecido, o além e a imortalidade oferecem representações mediante as quais o pensamento procura prolongar-se.
- Tempo, espaço e matéria experimentada pertencem a essa organização do pensamento.
- A tragédia humana consiste em atribuir uma existência autônoma a uma expressão da vida e permitir que ela organize o futuro para conservar-se.
Q:
A afirmação de que o pensamento cria matéria parece oferecer uma explicação para as materializações atribuídas a Sai Baba.
UG:
As supostas materializações são recursos de ilusionismo que produzem prestígio e admiração, sem demonstrar a criação de objetos a partir do pensamento.
Q:
A rejeição desses fenômenos suscita a questão de quais assuntos merecem ser considerados seriamente, incluindo a vida, a morte e a existência extraterrestre.
UG:
As especulações sobre outros mundos frequentemente prolongam a exigência de continuidade em lugares e tempos distantes, enquanto aquilo que pode ser reconhecido como realidade permanece determinado pelo pensamento.
Q:
A crítica da continuidade do conhecimento parece aproximar-se da compreensão de tradição formulada por Jiddu Krishnamurti.
UG:
A consciência passiva, as jornadas de descoberta, as transformações psicológicas e as instituições educativas conservam o movimento do pensamento e da tradição, sem produzir a libertação prometida.
Q:
Permanece a questão de se existe liberdade de pensamento ou alguma liberdade efetiva para o ser humano.
UG:
A liberdade de ação é negada, sem que essa negação pretenda estabelecer uma filosofia determinista de resignação.
Q:
A meditação, o despertar da kundalini ou a superação da ilusão poderiam oferecer alguma saída.
UG:
As práticas destinadas a produzir estados extraordinários podem perturbar o equilíbrio corporal mediante alucinações e alterações metabólicas, sem permitir uma inversão deliberada do movimento que sustenta a busca.
Q:
Uma ruptura temporária com a tradição poderia separar ação e pensamento, permitindo agir criativamente sem culpa ou preocupação com consequências.
UG:
A tentativa de encontrar capacidades ocultas conserva uma finalidade projetada pelo pensamento, cuja realidade produzida não pode simplesmente ser negada.
Q:
A concentração em nada poderia liberar centros sutis de energia, conforme sustentam alguns sábios.
UG:
A concentração exclui outras ocorrências e afasta o indivíduo do fluxo natural da vida, enquanto a separação produzida pelo pensamento o mantém ocupado com sua própria felicidade e infelicidade.
Q:
A subjetividade de cada pessoa parece tornar inevitáveis as diferenças de percepção diante dos mesmos objetos.
UG:
O problema não está nas diferenças individuais de interpretação, mas no reconhecimento que constitui algo como objeto, pois a experiência oferece dados relativos sem estabelecer uma verdade objetiva independente da mente.
Q:
Essa dependência da experiência em relação à mente parece estender-se à existência das outras pessoas.
UG:
A afirmação da existência alheia acompanha a suposição de uma existência pessoal, mas esta não pode ser experimentada diretamente, embora possa ser reconhecida mediante critérios médicos e funcionais.
Q:
O sangue, a dor e outras ocorrências corporais parecem permitir uma experiência imediata de estar vivo.
UG:
A ocorrência corporal da dor distingue-se do conhecimento que a nomeia, sem exigir um sujeito separado que a possua, assim como a fala pode surgir mecanicamente em resposta às perguntas, sem um agente interior que a conduza.
Q:
O amor, os sentimentos duradouros e a resposta à beleza natural parecem ultrapassar esse funcionamento mecânico.
UG:
A experiência estética e sua expressão artística dependem da separação entre observador e observado, enquanto a realidade de um pôr do sol não pode ser capturada por essa estrutura que procura transformá-la em experiência compartilhável.
- A poesia, a música e a pintura expressam aquilo que foi reconhecido e apropriado como experiência.
- O surgimento do observador separado permite a elaboração artística, mas não demonstra uma separação efetiva em relação ao acontecimento.
- A cultura organiza as próprias respostas que posteriormente são consideradas espontâneas ou individuais.
Q:
A resposta de uma pessoa sem contato com a civilização moderna a um pôr do sol parece contrariar a dependência cultural dessa experiência.
UG:
As culturas tradicionais e modernas compartilham o mesmo funcionamento básico, e suas práticas cotidianas não podem ser isoladas das promessas de paz, libertação e felicidade que produzem uma realidade ideal contraposta à existência efetiva.
Q:
Essa compreensão parece implicar que o ser humano não pode estar em paz consigo mesmo.
UG:
A paz já pertence ao funcionamento corporal, e o problema surge quando é projetada para outro lugar ou para o futuro, produzindo uma busca espiritual que perturba aquilo que pretende alcançar.
Q:
A recusa da religião, da esperança e das experiências de compaixão parece deixar a existência sem qualquer apoio.
UG:
A dissolução desses apoios não oferece um substituto, pois o que está em questão é a validade de toda a estrutura da experiência espiritual.
Q:
Os antigos rituais religiosos poderiam conservar alguma relevância para a vida, apesar dessas objeções.
UG:
Os rituais oferecem entretenimento e cumprem uma função comparável à de outras atrações culturais, enquanto a demanda por experiências espirituais sustenta um mercado no qual diferentes fornecedores comercializam suas próprias promessas.
Q:
A ausência de interesse nessas promessas suscita a questão do que motiva a continuidade da vida.
UG:
Aquilo que acontece constitui a totalidade do interesse disponível, sem exigir uma finalidade adicional para continuar vivendo.
Q:
Essa disposição parece corresponder a uma existência concentrada no aqui e agora.
UG:
A expressão aqui e agora é insuficiente para descrever um interesse dirigido ao movimento dos acontecimentos, sem apego ao desfecho nem ao conteúdo emocional das lembranças pessoais.
Q:
A ausência de apego ao passado e de expectativa em relação ao futuro parece deixar pouco espaço para a esperança.
UG:
O reconhecimento e a nomeação operam mediante o passado, enquanto o presente não pode ser capturado sem ser convertido em memória, tornando ilusória a pretensão de compartilhar uma experiência imediata independente do conhecimento.
- O futuro constitui uma continuidade modificada do passado, embora seus acontecimentos não sejam plenamente determináveis.
- O momento reconhecido já pertence à memória, deixando de ser aquilo que se pretendia apreender diretamente.
- A comunicação pode assemelhar-se a gravações antigas reproduzidas reciprocamente, sem um encontro fora das referências acumuladas.
- O reconhecimento desse limite elimina a exigência de comunicar aquilo que não pode ser transmitido.
Q:
A tentativa de antecipar o futuro e compartilhar conhecimentos parece então desprovida da eficácia normalmente atribuída a ela.
UG:
A ausência de liberdade efetiva manifesta-se até nas preferências comuns, que expressam a formação cultural e o passado de cada pessoa.
Q:
Essa ausência de liberdade poderia ser explicada por uma cadeia de causas que remete a uma causa última.
UG:
A necessidade de uma causa primeira é uma suposição, pois os acontecimentos e a própria evolução podem ocorrer sem um criador ou uma origem final que lhes atribua direção.
Q:
A explicação científica do Big Bang parece fornecer uma origem, já que até uma explosão exige condições para acontecer.
UG:
A oposição entre Big Bang e estado estacionário é tratada como uma disputa entre explicações que procuram estabelecer sua plausibilidade, sem que a exigência de uma origem deva ser aceita antecipadamente.
Q:
A comparação e a avaliação racional das hipóteses parecem constituir uma busca legítima de conhecimento.
UG:
O método científico não é recusado em si mesmo, mas a ideia de uma investigação inteiramente desinteressada é questionada, pois o conhecimento oferece poder e o ideal de amor pode substituir outras tentativas frustradas de obtê-lo.
Q:
O amor parece então funcionar como outra forma de disputa por poder.
UG:
O amor idealizado participa do mesmo movimento de procura de poder, sem constituir uma realidade independente dele.
Q:
A atuação de Madre Teresa e a compaixão concreta parecem oferecer uma exceção a essa interpretação.
UG:
A resposta imediata à fome e à dor possui um caráter natural que se perde quando a generosidade é institucionalizada, transformando-se em uma organização ocupada com prestígio, recursos e continuidade.
Q:
A institucionalização permitiria ampliar uma resposta isolada e transformá-la em uma prática estável de cuidado coletivo.
UG:
A ajuda natural ocorre conforme a situação exige e não precisa ser convertida em continuidade institucional, cuja rigidez pode enfraquecer a sensibilidade que originalmente tornou possível a resposta.
Q:
A recusa de propagar essas formulações parece decorrer da mesma oposição à institucionalização.
UG:
Não existe uma mensagem missionária ou um conjunto de posições destinado à humanidade, mas encontros ocasionais em que as pessoas são acolhidas sem promessa de auxílio espiritual.
- A curiosidade e as referências transmitidas entre conhecidos explicam a chegada de visitantes, sem exigir uma finalidade própria para recebê-los.
- As gravações pertencem àqueles que as fazem e não constituem um patrimônio reivindicado por quem responde.
- As únicas perguntas necessárias referem-se ao funcionamento cotidiano, como horários e deslocamentos.
- A convivência não pressupõe a existência de um ensinamento capaz de resolver as questões trazidas pelos interlocutores.
Q:
A sociedade atual parece pouco organizada para corresponder a essa descrição de funcionamento cotidiano.
UG:
A organização social constitui uma selva de propriedade e dependência na qual a sobrevivência exige participação, enquanto o acesso aos seus benefícios pressupõe contribuição e sua estrutura procura preservar a própria continuidade.
Q:
O nascimento parece resultar de um ato de desejo sexual, sem depender diretamente da sociedade.
UG:
A reprodução ocorre em indivíduos constituídos social e biologicamente, enquanto a sociedade exige que participem da manutenção de sua estrutura e tende a eliminar aquilo que ameaça sua continuidade.
- A transmissão genética integra a formação da consciência e acompanha a transmissão cultural.
- As modificações toleradas não implicam uma disposição social para abandonar sua organização fundamental.
- A ausência de contribuição não fundamenta uma exigência de sustento por parte da sociedade.
- A ameaça à ordem pode levar à repressão, mas não existe interesse em transformar essa possibilidade em martírio ou obrigação de continuar falando.
Q:
A confiança no ser humano atribuída a Jiddu Krishnamurti parece ausente dessa posição.
UG:
A disposição para tornar-se mártir não pode ser exigida como recurso para restaurar a confiança alheia, e situações hipotéticas de repressão não permitem determinar antecipadamente qual seria a resposta efetiva.
Q:
A existência de opiniões políticas poderia indicar uma preferência por formas de governo ou posições sobre a sociedade.
UG:
O estudo e a experiência permitem formular opiniões sobre diversos assuntos, mas não conferem a elas uma importância superior à das opiniões de qualquer outra pessoa nem tornam o conhecimento uma autoridade privilegiada.
Q:
A importância atribuída ao conhecimento exige esclarecer sua origem.
UG:
O conhecimento adquire prestígio porque permite estabelecer superioridade e poder, inclusive quando experiências religiosas são empregadas para distinguir quem sabe daqueles que supostamente não sabem.
Q:
A formação teosófica poderia ter contribuído para essa compreensão da vida, apesar das práticas e pretensões que a acompanhavam.
UG:
A ruptura ocorreu apesar da formação recebida, sem que seja possível atribuir-lhe uma explicação causal segura, permanecendo apenas o reconhecimento de uma libertação em relação ao passado.
Q:
A ruptura com Jiddu Krishnamurti suscita a questão de como sua figura e seus ensinamentos são avaliados.
UG:
A recusa de esclarecer diretamente suas próprias pretensões não impede que Jiddu Krishnamurti funcione como autoridade para numerosas pessoas, tornando insuficiente sua justificativa de evitar uma nova dependência.
Q:
Essa condição de autoridade parece ser precisamente aquilo que se procura evitar.
UG:
A transformação em autoridade é inteiramente recusada, pois conserva a mesma estrutura de dependência espiritual.
Q:
A possibilidade de influenciar pessoas e alterar a história poderia justificar uma atuação mais ampla.
UG:
A oportunidade de influência não constitui um objetivo a perseguir nem uma razão para assumir a direção de outras pessoas.
Q:
Essa recusa poderia resultar tanto da decisão de não empregar um poder adquirido quanto da rejeição do próprio domínio sobre os demais.
UG:
A certeza que surgiu não pode ser comunicada ou recomendada como recurso, impedindo sua conversão em instrumento de orientação alheia.
Q:
A atuação fora das disputas por poder parece exigir uma humildade efetiva.
UG:
A humildade cultivada é outra construção ideal, incompatível com a posse reivindicada de conhecimento, enquanto a ausência de exigência de mudança pessoal elimina também o projeto de reformar ou revolucionar a sociedade.
- A humildade não precisa ser estabelecida como oposto da brutalidade, pois essa oposição conserva o mesmo mecanismo.
- A sociedade reflete aquilo que os seres humanos são, sem que uma realização pessoal imponha sua transformação.
- A promessa revolucionária pode tornar-se outra mercadoria oferecida à credulidade coletiva.
Q:
Essa equivalência parece eliminar as diferenças fundamentais entre Gandhi e Ho Chi Minh ou entre Cristo e Lenin.
UG:
As diferenças entre esses modelos não desfazem a estrutura comum de ideais e poder que organiza suas pretensões de transformação.
Q:
O distanciamento defendido por Jiddu Krishnamurti e por outros pensadores parece permitir uma visão mais clara da vida.
UG:
A atribuição dessa posição exige distinguir aquilo que foi efetivamente afirmado por Jiddu Krishnamurti das interpretações produzidas por seus seguidores.
Q:
A existência de seguidores é negada pelo próprio Jiddu Krishnamurti.
UG:
Não existe uma visão de mundo ou uma estrutura de pensamento que possa ser oferecida como auxílio ao interlocutor.
Q:
Uma estrutura pessoal de pensamento poderia ao menos oferecer auxílio àquele que a formulou.
UG:
A certeza presente não funciona como recurso de auxílio, não pode ser transmitida e não possui valor utilizável como instrumento.
Q:
A origem dessa certeza permanece uma questão central.
UG:
A certeza surgiu acidentalmente em uma formação religiosa marcada pela distância entre discursos e condutas, mas a transformação ocorrida foi fisiológica, sem conteúdo místico ou capacidade de alterar a consciência coletiva.
- O contato com autoridades religiosas revelou cedo a discrepância entre seus ensinamentos e suas vidas.
- A interpretação espiritual de um acontecimento corporal cria uma ilusão tanto para quem a formula quanto para aqueles que a aceitam.
- O poder atribuído a um mestre procede de seus seguidores e depois lhes é devolvido como se tivesse uma origem extraordinária.
- A ausência de conflito com a sociedade não implica destruir templos, igrejas ou livros.
- A sociedade manifesta aquilo que os seres humanos são, sem se tornar diferente por uma pretensão individual de salvação.
Q:
A maneira pela qual essa sabedoria surgiu acidentalmente ainda precisa ser esclarecida.
UG:
A pergunta sobre como a certeza surgiu concentra o impasse que a busca tenta resolver.
Q:
A realização dessa certeza não parece depender de uma cena romântica de contemplação.
UG:
Não existe uma aquisição a realizar, tornando inadequada a representação de uma conquista espiritual.
Q:
A diferença entre possuir essa certeza e não possuí-la continua presente, sem que se conheça um modo de alcançá-la.
UG:
A questão fundamental precisa tornar-se efetiva por si mesma, e a investigação pode revelar que não existe nada a descobrir por trás das abstrações religiosas, produzindo uma rejeição que não busca obter outra realização.
Q:
A procura de algo espiritual parece ser justamente uma das formas dessa expectativa de aquisição.
UG:
Não existe um conteúdo espiritual a obter nem um objeto final de descoberta, e até a afirmação de que nada precisa ser compreendido permanece uma formulação inferencial.
Q:
A inexistência de algo a compreender constitui uma certeza para uma pessoa, mas não para aquela que continua buscando.
UG:
A busca não terminou mediante a obtenção de uma resposta satisfatória, mas pelo esgotamento da própria fome de respostas, deixando uma condição viva sem exigência de conhecimento ou de comunicação dessa certeza.
Q:
A ausência de compreensão permanece diante dessa descrição.
UG:
A existência pode ocorrer como a de uma árvore que oferece sombra sem reconhecer a si mesma como útil, dispensando a consciência de prestar um serviço aos demais.
Q:
A afeição, o amor e o desejo sexual parecem disposições simples cuja ausência completa seria difícil de compreender.
UG:
O desejo não se fixa em uma imagem ou em uma finalidade porque o movimento dos acontecimentos exige atenção integral, sem conservar a divisão entre amante e amado ou entre perseguidor e objeto perseguido.
Q:
A presença de uma mulher considerada bela poderia produzir um envolvimento completo sem uma intenção deliberada de envolver-se.
UG:
A percepção não conserva a classificação da outra pessoa nem a expectativa do que poderia ser obtido dela, pois o movimento continua sem adquirir um conteúdo religioso.
Q:
A dificuldade de reduzir a obsessão sexual suscita a procura de uma objetividade semelhante àquela que parece estar sendo descrita.
UG:
A preocupação em administrar essa influência acrescenta uma complicação que não precisa tornar-se objeto de uma nova busca.
Q:
A descoberta de uma verdade parece impor a responsabilidade de compartilhá-la e orientar outras pessoas.
UG:
A impossibilidade de transmitir essa condição corresponde à impossibilidade de recebê-la como conhecimento, eliminando a obrigação de apresentá-la como caminho para os demais.
Q:
A inspiração oferecida ao mundo poderia constituir uma alternativa à transmissão direta.
UG:
A inspiração alimenta um mercado sustentado pelo desespero, e as ações dela derivadas podem prolongar o movimento destrutivo que as promessas inspiradoras procuram superar.
Q:
A própria vida poderia oferecer um meio de impedir essa destruição.
UG:
Amor e ódio pertencem ao mesmo movimento de expectativa, pois a frustração daquilo que se espera do amor manifesta-se como hostilidade, apatia ou indiferença em relação aos demais.
Q:
A alternância anual entre Estados Unidos, Índia e Suíça parece aproximar essas viagens do itinerário de Jiddu Krishnamurti.
UG:
Os deslocamentos respondem às condições climáticas, sem exigir uma finalidade espiritual ou uma comparação com as viagens de Jiddu Krishnamurti.
Q:
A participação anterior nesse ambiente parece permitir uma avaliação cuidadosa de sua transformação.
UG:
A organização inicialmente pequena de Jiddu Krishnamurti tornou-se uma estrutura empresarial com patrimônio, recursos e administração, contrariando o princípio de que a verdade não pode ser organizada.
Q:
O contato com os homens considerados divinos na Índia poderia oferecer outra perspectiva sobre esse comércio espiritual.
UG:
Os encontros ocasionais com gurus não constituíram uma procura de orientação, pois a investigação pessoal não dependeu dessas figuras, cujas atividades também foram exportadas para outros países.
Q:
A presença de figuras como o reverendo Moon e Jim Jones indica que esse fenômeno não se limita à Índia.
UG:
O mercado espiritual recebe figuras de diferentes origens, e o prestígio obtido no Ocidente pode permitir sua reintrodução na Índia como mercadoria valorizada.
Q:
A permanência na Suíça poderia ter proporcionado um encontro com Maharishi Yogi.
UG:
A ausência desse contato acompanha um desinteresse pelos acontecimentos políticos indianos, cuja pretensão de oferecer orientação espiritual ao mundo não encontra correspondência suficiente na vida efetiva do país.
- A proclamação da unidade da vida precisaria manifestar-se nas práticas coletivas e individuais, sem permanecer um discurso.
- A influência internacional exige condições de poder e legitimidade que não são asseguradas pela reivindicação de uma herança espiritual.
- O interesse externo concentra-se no destino de sua população e em seus alinhamentos, em vez de reconhecer uma autoridade religiosa sobre o mundo.
Q:
O marxismo poderia oferecer uma orientação menos arcaica, embora também apresente características religiosas.
UG:
O fracasso do marxismo como religião conduz à procura de novas autoridades, escrituras e promessas de liberdade, reproduzindo a dependência anteriormente organizada por outros sistemas.
Q:
A diversidade do hinduísmo parece distingui-lo de religiões e ideologias mais conservadoras.
UG:
A multiplicidade hindu constitui um conjunto heterogêneo de práticas e fornecedores individuais, comparável a uma rua de estabelecimentos religiosos, cuja variedade sustenta a atração de sua herança.
- A religião como atividade individual permite que cada figura ofereça sua própria modalidade de ensinamento.
- O hinduísmo é apresentado como combinação de elementos diversos, sem a unidade de uma religião organizada segundo um único sistema.
- O termo hindu recebe uma interpretação histórica vinculada às distinções estabelecidas pelos invasores arianos e pela organização social bramânica.
Q:
Essa diversidade poderia ser descrita como a proximidade entre o comércio sexual de Rajneesh, a consciência de Jiddu Krishnamurti, a meditação de Maharishi e a magia de Sai Baba.
UG:
As diferenças entre os produtos espirituais não alteram sua estrutura comercial, e a permanência de uma oferta no mercado não demonstra sua superioridade ou validade.
Q:
A presença de pessoas ligadas ao entretenimento entre os visitantes suscita a questão de como essa indústria é avaliada.
UG:
O entretenimento estende-se à política e à religião quando ambas dependem da credulidade coletiva, tornando a exploração dessa disposição uma característica comum de suas atividades.
Q:
Essa compreensão parece excluir expectativas elevadas para o futuro da humanidade.
UG:
Não existe a expectativa de que uma condição melhor venha necessariamente a ocorrer para a espécie humana.
Q:
O desenvolvimento tecnológico recente parece oferecer motivos para uma avaliação mais favorável.
UG:
A Revolução Industrial permitiu a diversas nações impulsionar a tecnologia, produzindo avanços efetivos nesse campo.
Q:
A intensidade das transformações recentes parece superar amplamente a dos períodos anteriores.
UG:
As mudanças decorrentes da Revolução Industrial possuem grande alcance, mas sua eficácia futura permanece incerta, enquanto o domínio da ciência e da tecnologia também apresenta limites.
Q:
A direção dessas transformações continua sendo uma questão decisiva.
UG:
A ideia de progresso não garante um destino favorável nem uma solução para os problemas humanos, e a expectativa de prever o futuro mediante cálculos não elimina essa incerteza.
Q:
A determinação da identidade pelo passado parece tornar possível uma previsão precisa.
UG:
O conhecimento do passado não oferece garantia sobre a direção que os acontecimentos futuros tomarão.
Q:
A possibilidade de controlar o futuro parece contrariar essa ausência de garantias.
UG:
A ocorrência de acontecimentos imprevisíveis pode alterar inteiramente o curso esperado, pois a organização dos fatos em padrões e finalidades pertence ao pensamento e não demonstra que a vida seja controlável ou predeterminada.
Q:
A esperança parece indispensável à continuidade da existência humana.
UG:
A humanidade conserva a esperança apesar de sua capacidade crescente de destruição, mas essa expectativa não permite redirecionar a história nem justifica a dependência de salvadores que prometem uma transformação iminente.
Q:
Permanece a questão de como essa situação poderia ser modificada.
UG:
A procura de um procedimento para modificar a condição humana estabelece a possibilidade de uma nova autoridade salvadora.
Q:
A espiritualidade poderia constituir o único caminho disponível para uma mudança de direção.
UG:
A separação entre vida material e espiritual depende da suposição de um espírito com existência independente, cuja validade não pode ser estabelecida.
Q:
A sobrevivência do espírito após a destruição corporal parece oferecer fundamento para essa distinção.
UG:
A continuidade de um espírito após a morte é uma crença sem conteúdo verificável, e a certeza de que não existe algo destinado a ressuscitar ou reencarnar não pode ser transmitida como conhecimento.
Q:
A reprodução parece constituir uma procura corporal de imortalidade.
UG:
A sobrevivência e a reprodução pertencem à própria natureza da vida, prolongando-se na sexualidade, na descendência e nas estruturas familiares.
Q:
A morte parece então encerrar definitivamente a existência pessoal.
UG:
O encerramento da presença pessoal seria completo se as lembranças mantidas pelos demais desaparecessem juntamente com o corpo.
Q:
O desejo de espalhar as cinzas poderia constituir uma forma de preservar essa presença.
UG:
O destino do cadáver não exige instruções pessoais, pois sua decomposição torna-se uma questão prática para a sociedade, sem que a morte precise acrescentar uma condição diferente à existência já vivida.
Q:
A existência de uma família parece indicar vínculos pessoais que permanecem fora dessas conversas.
UG:
Os contatos familiares continuam de maneira ocasional, mas não são acompanhados de uma ligação emocional que estabeleça dependência ou exclusividade, inclusive nas relações de longa duração.
Q:
A ausência atual desses vínculos suscita a questão de se eles existiram anteriormente.
UG:
Não existe uma certeza retrospectiva sobre a presença de vínculos emocionais, nem uma definição de quais ligações deveriam ter sido estabelecidas.
Q:
A possibilidade de sentimentos intensos por outra pessoa parece relevante para compreender essa ausência.
UG:
A preocupação dominante foi verificar se existia algo por trás das abstrações religiosas, mas a pergunta desapareceu por esgotamento, sem produzir uma resposta, uma iluminação ou uma posse da verdade.
- A possibilidade de enganar a si mesmo e aos demais tornou insuficientes as afirmações dos mestres.
- O desaparecimento da pergunta não legitimou uma pretensão de superioridade pessoal.
- A certeza limita-se à ausência de fundamento das reivindicações espirituais, sem exigir confronto com estruturas de poder ou retirada de algo que outros possuam.
Q:
A distância emocional percebida parece incompatível com ser arrebatado pela beleza de uma pessoa, de uma paisagem ou de uma música.
UG:
O arrebatamento romântico não constitui essa realidade, mas sua ausência também não estabelece um domínio da razão, pois o próprio elemento racional se voltou contra si e deixou de fornecer um princípio organizador.
- A distinção entre racional, antirracional e não racional é insuficiente para fixar essa condição, designada como alheia à racionalidade (unrational).
- O sentido racional atribuído às palavras ou às ações pertence à interpretação de quem as observa.
- A busca de felicidade, romance ou fuga não constitui um interesse que precise ser compartilhado.
Q:
Uma experiência de abandono de si poderia ultrapassar o romantismo e assumir uma intensidade espiritual ou sexual.
UG:
A ausência de separação entre indivíduo e acontecimento impede sua conservação como experiência extraordinária, enquanto a sexualidade é compreendida como descarga de tensão, sem a idealização do amor ou da intimidade.
Q:
A existência de uma relação sexual com outra mulher parece exigir uma explicação adicional.
UG:
A responsabilidade pelo acontecimento não pode ser atribuída à sedução exercida por outra pessoa, pois a participação pessoal permaneceu decisiva em uma situação caracterizada por uma forma particular de autoerotismo.
Q:
A caracterização dessa relação como autoerotismo parece difícil de compreender.
UG:
A procura de prazer mediante outra pessoa revelou uma utilização que provocou rejeição, sem que essa experiência pessoal deva ser transformada em ensinamento, patrimônio ou orientação para a humanidade.
- O prazer exige a utilização de algum recurso, seja uma pessoa, uma ideia, um conceito ou uma substância.
- A recusa de utilizar, influenciar ou transformar os demais não estabelece uma doutrina destinada à posteridade.
- As formulações pronunciadas não constituem um ensinamento organizado, mas frases cuja continuidade é produzida pela interpretação alheia.
- As respostas pertencem àqueles que as recebem e interpretam, sem reivindicação de propriedade ou direitos autorais por parte de quem fala.
Q:
A infância poderia esclarecer o contexto em que essa investigação se desenvolveu.
UG:
A morte materna logo após o nascimento levou à criação pelos avós maternos em um ambiente intensamente religioso e teosófico, no qual Jiddu Krishnamurti já integrava a formação recebida e se tornou parte do passado do qual era necessário libertar-se.
Q:
O lugar dessa formação precisa ser esclarecido.
UG:
A infância e os anos formativos transcorreram principalmente em Madras, junto à Sociedade Teosófica, seguidos pelos estudos na universidade da cidade.
Q:
A rejeição desse ambiente poderia ter estado presente desde o início.
UG:
O afastamento começou cedo, mas coexistiu com tentativas persistentes de libertação do passado, culminando na ruptura com a Sociedade Teosófica depois do afastamento de Jiddu Krishnamurti.
Q:
As lembranças de Annie Besant poderiam oferecer uma perspectiva sobre essa formação.
UG:
Annie Besant deixou a lembrança de uma presença e de uma capacidade oratória extraordinárias, ligadas à proximidade com o avô, embora a memória de sua atuação e da de Gandhi tenha enfraquecido entre as gerações posteriores.
Q:
A avaliação das crenças de Gandhi permanece uma questão distinta de sua importância histórica.
UG:
Gandhi reuniu as funções de santo e político e tentou viver segundo os ideais que defendia, mas esse esforço não garantiu seu sucesso nem eliminou a violência presente em sua atuação.
- A tentativa de aproximar vida e convicção tornou sua figura singular, apesar do fracasso atribuído ao projeto.
- A independência indiana resultou da participação de numerosas pessoas, sem poder ser reduzida a uma única liderança.
- As homenagens periódicas podem conservar um vínculo sentimental sem demonstrar a eficácia de seu legado.
Q:
A violência decorrente dos ensinamentos de Cristo, Buda e Maomé poderia ser atribuída aos seguidores que os interpretaram equivocadamente.
UG:
Os fundadores religiosos não podem ser inteiramente separados dos efeitos violentos de seus ensinamentos, e a distância entre palavras e ações revelou uma falha que experiências espirituais posteriores não conseguiram resolver.
- A proclamação de paz e amor coexistiu com práticas violentas entre os seguidores.
- A percepção dessa discrepância produziu desconfiança antes de existir certeza suficiente para abandonar as autoridades.
- As experiências identificadas como consciência de Cristo ou de Buda não encerraram a insatisfação nem esclareceram o problema fundamental.
Q:
A rejeição de fundamentos sentimentais e racionais parece deixar em aberto aquilo que permanece após essa ruptura.
UG:
A ruptura assemelha-se a ser lançado para fora de um tigre que continua seu movimento, pois a sociedade conserva seu impulso enquanto a tentativa de intervir pode ser absorvida por ele e ampliar aquilo que pretende modificar.
Q:
O contato com Leadbeater durante a formação teosófica poderia esclarecer a avaliação dessas figuras e de sua conduta.
UG:
Leadbeater integrou o ambiente formativo sem produzir grande impressão, e os julgamentos sobre sexualidade ou pecado são recusados em favor do reconhecimento de que a sociedade cria categorias morais para regular aquilo que ela mesma produz.
- As diferentes formas de sexualidade pertencem à vida e não exigem uma condenação moral.
- As categorias de santo e pecador são construções sociais que não correspondem a distinções aceitas como absolutas.
- Erros, fraquezas e equívocos podem ocorrer sem que precisem receber a classificação de pecado.
- Os códigos civis e criminais oferecem instrumentos de regulação social, tornando desnecessária a dependência de escrituras como fundamento dessa função.
