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2 Fundamentos
ZIMMER, Heinrich. Philosophies of India. Edited by Joseph Campbell. New York: Pantheon Books, 1951.
1 Filosofia como modo de vida
- Na Índia antiga, cada ramo do saber estava associado a uma arte altamente especializada e a uma forma de vida correspondente, de modo que o conhecimento não se recolhia primordialmente de livros, conferências ou conversas, mas era dominado por meio de um aprendizado prolongado ao lado de um mestre competente.
- A entrega sincera do discípulo maleável à autoridade do guru tinha como requisitos essenciais a obediência (śuśrūṣā), entendida como desejo fervoroso de ouvir, obedecer e reter o que se ouve, com respeito, reverência e espírito de serviço, e a fé absoluta (śraddhā), entendida como confiança e serenidade da mente que exige a total ausência de pensamento crítico independente e inclui um veemente desejo de aprender, palavra que significa também o desejo de uma mulher grávida.
- O discípulo reverencia o guru como personificação do saber divino a ser transmitido e como devoto da divindade que preside a arte escolhida, compartilhando a casa do mestre durante anos, servindo-o e ajudando-o em seu ofício, seja ele sacerdote, mago, asceta, médico ou oleiro.
- As técnicas são aprendidas pela prática constante e a teoria pela instrução oral complementada pelo estudo dos manuais básicos, mas o mais importante é a ocorrência de uma transferência entre mestre e discípulo, pela qual este último é moldado como metal maleável não só no saber e na arte, mas em toda a sua atitude pessoal.
- Do guru exige-se uma correspondência absoluta e pontual entre seus ensinamentos e sua forma de vida, identidade que no Ocidente só se esperaria de um monge ou de um sacerdote.
- Não se exige atitude crítica, mas uma formação gradual no molde da disciplina, em que a instrução é aceita inicialmente às cegas e a compreensão intuitiva da verdade surge por si mesma à medida que cresce a capacidade do discípulo.
- Na Europa esse procedimento é conhecido sobretudo pela prática da Igreja católica, como ilustra o episódio de Bouvard et Pécuchet, de Flaubert, em que o padre responde às dúvidas de dois livres-pensadores desiludidos apenas com o conselho de praticar primeiro os deveres rituais, para que a compreensão venha depois pela ação da graça.
- A filosofia oriental é acompanhada e auxiliada pela prática de uma forma de vida que inclui reclusão monástica, ascetismo, meditação, prece, exercícios de ioga e horas diárias de culto, cuja função é imbuir o devoto da essência divina da verdade, manifesta tanto nos símbolos das divindades quanto no próprio mestre como verdade encarnada.
- A filosofia da Índia guarda com a religião, os sacramentos, as iniciações e a prática litúrgica uma relação tão estreita quanto a da filosofia ocidental moderna com as ciências naturais e seus métodos de investigação.
- A verdadeira aquisição de saber é apenas aquela confirmada na própria vida, e o valor dos escritos de um homem depende do grau em que sua vida exemplifica seu ensinamento.
2 O discípulo qualificado
- A pergunta preliminar sobre quem é competente para estudar o Vedānta com o fim de realizar a verdade exclui de imediato os ocidentais e os intelectuais.
- O estudante competente (adhikārin) deve abordar o Vedānta não com crítica ou curiosidade, mas com fé completa (śraddhā) de que, pelas fórmulas comunicadas, descobrirá a verdade, além de desejar ardentemente libertar-se das cargas da vida mundana, desejo chamado mumukṣutva ou mokṣa-icchā.
- Assim como o homem que carrega na cabeça um feixe de lenha em chamas corre para um charco para apagar o fogo, o adhikārin, queimado pelas dores da vida mundana, voa até o guru versado nos Vedas, que já alcançou o ideal do Vedānta e vive sereno, chegando a ele com presentes nas mãos, pronto para servir e obedecer.
- O estudante competente deve ter estudado os quatro Vedas e seus membros (Vedāṅga) segundo o método prescrito, ter-se purificado de todos os pecados desta vida e de vidas anteriores, ter-se abstido de ritos voltados a desejos mundanos ou a causar dano a outros, ter realizado fielmente as devoções diárias e os ritos obrigatórios especiais, e ter praticado as austeridades expiatórias e as meditações ortodoxas.
- Os ritos penitenciais têm por finalidade purificar a mente, enquanto as meditações visam levá-la a um estado de concentração em um único ponto.
- Os resultados prazerosos desses ritos, como o céu dos antepassados (pitṛ-loka) ou a esfera da verdade (satya-loka), não interessam ao adepto do Vedānta, pois ainda pertencem aos mundos do nascimento e à roda da existência (saṁsāra), ainda que constituam um episódio feliz de incontáveis milênios.
- O vedantino deseja ver através e além do caráter ilusório da existência em todas as suas formas, sacrifica toda ideia de gozar os frutos de suas boas obras, entrega toda recompensa à divindade pessoal a que serve e sabe que quem age não é ele, mas a Pessoa Espiritual onipresente que habita nele e em todas as coisas, o Deus que é o Si (ātman) em seu coração.
- O primeiro meio para transcender a ilusão é a discriminação entre as coisas permanentes e as transitórias (nitya-anitya-vastu-viveka), segundo a qual só o Brahman é substância permanente, enquanto todos os objetos agradáveis deste mundo e também os prazeres do outro mundo, resultantes das ações (karman), são transitórios.
- O segundo requisito é um resoluto desdém por tudo o que é ilusório, isto é, a renúncia sincera e eficaz a todo fruto possível dos atos virtuosos, chamada indiferença ao gozo dos frutos da ação tanto aqui quanto no além (ihāmutrārthaphalabhogavirāgaḥ).
- O terceiro meio é a concentração, exposta nos seis tesouros: śama, a quietude mental que mantém a mente livre das perturbações dos objetos sensíveis, permitindo como única atividade sensorial escutar o guru; dama, a submissão dos sentidos; uparati, a cessação completa das faculdades de percepção e ação; titikṣā, a paciência para suportar sem inquietação os pares de opostos (dvandva); samādhāna, a concentração constante da mente em absorção perfeita no único objeto; e, por fim, a fé perfeita.
- Segundo a psicologia clássica hindu, o homem possui cinco faculdades de percepção, cinco faculdades de ação e um órgão interno de controle (antaḥkaraṇa), que se manifesta como eu (ahaṅkāra), memória (citta), entendimento (buddhi) e pensamento (manas), e dama consiste em afastar todo esse sistema do mundo externo.
- Discriminação, renúncia, os seis tesouros e o desejo de libertação são os meios pelos quais o filósofo hindu chega à meta do entendimento, e somente o aspirante cujo coração e mente já foram purificados pelos ritos ortodoxos e que está suficientemente instruído nas escrituras pode conquistá-los, sendo então um estudante qualificado.
3 A filosofia como poder
- No Oriente, a filosofia não pertence ao domínio da informação geral, mas é um saber especializado voltado a alcançar uma forma mais alta de ser, e o filósofo é um homem cuja natureza foi transformada segundo um modelo sobre-humano por ter sido preenchido pelo poder mágico da verdade, razão pela qual o futuro discípulo deve ser cuidadosamente provado.
- A palavra adhikārin significa, como adjetivo, alguém com título, direito, autoridade, poder e qualificação para algo, e, como substantivo, funcionário, chefe, proprietário ou pessoa qualificada para realizar um sacrifício ou obra piedosa.
- A filosofia é apenas uma das muitas espécies de sabedoria (vidyā), cada uma conduzindo a um fim prático e conferindo a seu possuidor um poder específico: o médico domina doenças e drogas, o carpinteiro domina a madeira, o sacerdote domina demônios e até deuses, e o filósofo iogue domina sua mente, seu corpo, suas paixões e meditações, ficando além do alcance do destino.
- Toda sabedoria deve ser guardada zelosamente e comunicada com cautela apenas a quem possa ser seu receptáculo perfeito, pois cada ramo do saber traz consigo um poder quase mágico, e comunicá-lo a alguém incapaz de manejá-lo seria desastroso.
- A posse da sabedoria era considerada uma das partes mais valiosas da herança familiar, transmitida pela linha paterna para conservar o prestígio da família, de modo que fórmulas de encantamento, técnicas de ofícios e a própria filosofia passavam de pai para filho.
- Os hinos védicos pertenciam originalmente a grandes linhagens, e os livros do segundo em diante do Ṛg-veda, o mais antigo documento das tradições indo-europeias, são chamados livros de família, cujos versos revelados em comunicação extática com os deuses eram marcados por seus proprietários, frequentemente com uma estrofe final característica, assim como o gado das famílias arianas era marcado na orelha ou no flanco.
- Quanto mais altos os poderes envolvidos, mais cuidadosamente a sabedoria precisa ser guardada, e na antiguidade védica, como na homérica, os ritos destinados a conjurar os deuses ocupavam o lugar das ciências modernas, de modo que um hino poderoso era tão precioso quanto hoje o segredo de um superbombardeiro ou os planos de um submarino.
- Em meio às guerras quase ininterruptas da história indiana, as fórmulas religiosas dos brâmanes eram usadas como arma secreta, à semelhança das trombetas mágicas com que as tribos de Israel, conduzidas por Josué, derrubaram as muralhas de Jericó.
- Por sua sabedoria superior, os arianos derrotaram os povos pré-arianos, que passaram a formar a quarta casta, a dos śūdra, excluídos dos direitos e da sabedoria fonte de poder, a ponto de os primeiros Dharmaśāstra prescreverem que o śūdra que ouvisse acidentalmente um hino védico tivesse os ouvidos preenchidos com chumbo derretido.
- Esse sistema arcaico de segredo e exclusividade persistiu em todos os períodos da vida indiana, e mesmo as tradições não védicas, como budismo, jainismo, sāṅkhya e ioga, que não têm restrições de casta e família, exigem uma entrega tão completa ao mestre que se torna impossível o retorno à vida anterior, devendo o aspirante desprender-se da família herdada e renascer como membro da ordem.
- As ideias principais da doutrina secreta bramânica, formuladas ao final do período védico, conservam-se nas Upaniṣad, instrução altamente especializada que o mestre podia conceder ou negar, destinada apenas ao verdadeiro adhikārin, chegando-se a prescrever sua transmissão somente ao filho mais velho, ou ao filho e discípulo que tenha alcançado a tranquilidade.
- O termo equivalente a upaniṣad é sempre rahasyam, que significa segredo ou mistério, pois se trata de uma doutrina oculta que revela a verdade da verdade (satyasya satyam).
- O mesmo caráter de reserva e exclusividade mantém-se no período tântrico, cuja literatura pertence sobretudo aos séculos posteriores ao III d.C. e se apresenta como conversas secretas entre Śiva e sua śakti, que se ensinam mutuamente a romper o feitiço do erro, textos que não devem ser ensinados a descrentes nem a crentes não iniciados.
- No Ocidente, ao contrário, a filosofia se orgulha de estar aberta à compreensão e à crítica de todos, é exotérica, não possui doutrina secreta e exige apenas inteligência e imparcialidade, tendo por isso alcançado mais influência que o ensinamento da Igreja, baseado na Revelação e na autoridade dos Padres, Papas e concílios.
- A filosofia ocidental moderna e popular, seguindo as ciências naturais, não reconhece outra autoridade senão a prova experimental e pretende basear-se apenas em dados críticos e metodicamente organizados, derivados da experiência sensível e controlados pela mente e pelos aparelhos de laboratório.
- Na civilização ocidental, os homens de negócios que controlam a economia e a política costumam desconfiar dos filósofos, vistos como professores que complicam as coisas com abstrações e pouco se destacam como homens de empresa.
- Platão tentou estabelecer um governo modelo na corte do tirano da Sicília, mas, após a desavença, foi preso e posto à venda no mercado de escravos, sendo comprado e libertado por um amigo, e, de volta a Atenas, encontrou o único consolo do intelectual escrevendo a República e as Leis, obras que deixaram marca imensa sobre os séculos e milênios.
- Após a morte repentina de Hegel em 1831, sua filosofia perdeu prestígio e foi ridicularizada durante oitenta anos nas universidades alemãs, a ponto de, em 1911, em Berlim, seu quarto sucessor, Alois Riehl, expô-la entre gracejos, até que a geração seguinte, sob a inspiração de Wilhelm Dilthey, a redescobrisse e originasse os neo-hegelianos.
- Fora das universidades, as ideias de Hegel continuaram a influir no curso do mundo, não só no hegelianismo de Bolland na Holanda e na tradição que culminou em Benedetto Croce na Itália, mas sobretudo ao inspirarem Karl Marx, a estratégia dialética de Lênin e Pareto, pai intelectual do fascismo, numa influência comparável à de Confúcio na China e à de Aristóteles na Idade Média e Moderna.
- Embora os filósofos pareçam mestres acadêmicos inofensivos, mansos e até fracassados, por vezes conduzem, como fantasmas invisíveis, exércitos e nações futuras pelos campos de batalha revolucionários.
- A Índia, sonhadora e pouco prática, sempre sustentou que a sabedoria pode ser poder desde que impregne, transforme, domine e modele toda a personalidade, de modo que o sábio não seja uma biblioteca filosófica com pernas, mas alguém em quem o pensamento se torna vida, carne e habilidade em ato.
- O poder mágico de Gandhi deve ser compreendido desse modo, pois nele se identificam a sabedoria ascética como estilo de existência e a política como atitude efetiva diante dos problemas mundanos, e seu título de Mahātma designa aquele em quem a essência divina e suprapessoal (ātman) cresceu a ponto de dissolver toda traça do eu, das limitações individuais e dos atos motivados pelo eu (karman).
4 “Morrer em torno do poder sagrado”
- O sábio é venerado e temido pela força anímica milagrosa que irradia, assemelhando-se mais a um xamã primitivo, a um sacerdote védico ou a um mago do que ao doutor em filosofia comum, ou ainda ao asceta que, por suas austeridades, adquire poderes capazes de submeter os próprios deuses.
- Os textos védicos indicam com precisão os resultados milagrosos obtidos por cada tipo de saber, e a fórmula frequente “aquele que sabe isto” (yo evaṁ veda) designa quem assimila os poderes sobre-humanos cuja eficácia secreta compreendeu pelo estudo e pela prática.
- O texto chamado “O morrer em torno do Poder sagrado” (brahmaṇaḥ parimaraḥ), conservado no Aitareya-brāhmaṇa, é ao mesmo tempo um documento de metafísica e uma receita de poder, uma terrível arma secreta da sabedoria política (arthaśāstra), proveniente da era de cavalaria refletida na guerra do Mahābhārata.
- Quem conhece esse rito vê morrer em torno de si os rivais que o odeiam, pois aquele que sopra, isto é, o vento ou alento vital (prāṇa) que penetra e move o macrocosmo, é o Poder sagrado (brahman), e em torno dele morrem cinco divindades: o relâmpago, a chuva, a lua, o sol e o fogo.
- O relâmpago, após brilhar, desaparece na chuva e fica oculto aos homens, assim como o homem que morre fica oculto, e nesse momento o operador deve pronunciar a maldição para que seu inimigo morra, fique oculto e não seja mais visto, constituindo um feitiço de destruição por analogia que atua à distância.
- A chuva entra na lua, receptáculo e fonte das águas vitais cósmicas, a lua em conjunção entra no sol, o sol ao se pôr entra no fogo do sacrifício e do lar, Agni, mensageiro dos deuses e considerado mais poderoso que o sol, e o fogo entra no vento, o mais alto dos poderes sagrados, que continua a soprar quando os demais deixam de se manifestar, repetindo-se em cada desaparecimento a maldição de morte.
- Quem adora um dos poderes menores como se fosse o supremo partilha sua fraqueza e sucumbe diante daquele cujo conhecimento do poder maior lhe confere força inigualável.
- Na fase inversa, as divindades renascem: do vento nasce o fogo, aceso pela fricção de um bastão em uma tábua, em que o alento vital unido à força física humana (bala) produz a chama, e do fogo nasce o sol, do sol a lua e da lua a chuva, devendo o operador, a cada nascimento, pedir que a divindade nasça, que o inimigo não nasça e que se vá depressa.
- A eficácia do rito é garantida por sua origem e êxito, pois o sacerdote Maitreya Kauṣārava o ensinou ao rei Sutvan Kairiśi Bhārgāyaṇa, em torno de quem morreram cinco reis, tornando-se ele mahārāja ao submeter os demais rāja.
- O rito exige um voto (vrata): o operador não deve sentar-se, deitar-se nem dormir antes do inimigo, mas permanecer de pé, sentado ou acordado conforme imagine estar o rival, e assim, ainda que o inimigo tenha a cabeça de pedra, logo o abate.
- Na medida em que depende do conhecimento de brahman, esse exemplo pertence ao caminho do conhecimento (jñāna-mārga), e na medida em que exige o voto pertence ao caminho da ação ritual (karma-mārga), devendo ser praticado sem erro nas cinco ocasiões de nascimento e morte dos poderes cósmicos.
- A tarefa de quem pratica essa magia contra chefes rivais, primos ou meio-irmãos é extremamente complexa, obrigando-o a vigiar constantemente o fogo, o sol, a lua, as tempestades e o rival, a ponto de parecer um neurótico vítima de estranha obsessão, embora tudo valesse a pena se a arma secreta lhe abrisse o domínio do poder real supremo.
- Essa magia provém de um dos mais terríveis períodos de guerras civis, que terminou com a matança recíproca e o autoextermínio de toda a cavalaria indiana e com o fim da antiga realeza feudal védico-ariana.
- No período seguinte, o das Upaniṣad, o termo sânscrito para herói (vīra) passou a designar não principalmente o homem de ação, mas o santo, o sábio que se tornou senhor não dos outros nem de reinos vizinhos, mas de si mesmo.
5 Brahman
- Brahman é o conceito mais importante da religião e da filosofia indianas desde os tempos védicos, não podendo ser traduzido de modo simples, e uma investigação etimológica, técnica muito estimada na teologia védica e nas ciências hindus para descobrir tanto o sentido do termo (nāman) quanto a natureza essencial do objeto (rūpa), prepara sua compreensão.
- Em parimaraḥ, a raiz mṛ- significa morrer, o prefixo pari- corresponde ao grego περι-, em torno, e a terminação -aḥ forma um substantivo verbal, resultando em “o morrer em torno”.
- A tradução de brahman por “Poder sagrado”, proposta pelo professor Keith, é adequada ao contexto do texto mágico, e a terminação -man, presente também em ātman, karman e nāman, forma substantivos que denotam ação: ātman, da raiz an-, respirar, ou at-, ir, é o princípio da respiração ou da marcha, isto é, da vida; karman, da raiz kṛ-, fazer, é obra, ação ou rito; e nāman, da raiz jñā-, conhecer, significa nome.
- O tema brah- aparece na forma mais breve bṛh- nos dois nomes da divindade védica Bṛhaspati ou Brahmaṇaspati, sacerdote doméstico e guru de Indra, que, como o brâmane conselheiro e mago da corte de todo rei humano, defendia seu senhor e permitiu-lhe, com sua sabedoria poderosa, vencer os antideuses (asura) e mantê-los em suas moradas subterrâneas.
- Bṛhaspati é o arquétipo celeste da casta brâmane e o primeiro ancestral divino dos Aṅgiras, uma das duas famílias sacerdotais mais antigas, cujos membros contemplaram os deuses em êxtase e expressaram essas visões nas estrofes do Ṛg-veda, capazes por isso de conjurar os deuses em favor da família proprietária do hino.
- A terminação -pati significa senhor, aparentada ao grego πόσις e πότνια, de modo que Bṛhaspati é o potente, aquele que tem poder sobre bṛh ou brah, algo muito distinto de intelecto.
- Bṛh subsiste no particípio bṛhant, grande, e na forma nasalizada bṛṁhayati, fazer crescer ou tornar grande, pois bṛh- significa crescer, aumentar e, quanto aos sons, rugir, sendo bṛṁhita o bramido do elefante, o maior dos ruídos animais.
- Na medicina clássica hindu, bṛṁhayati designa a arte de aumentar a força vital dos fracos, de engordar os magros, assim como as divindades se tornam engrandecidas pelos hinos e louvores e os homens pelas bênçãos, como na prece dirigida ao viajante, fortalecido pela força anímica e pela visão interior de quem o abençoa.
- O substantivo védico barhaṇā, da mesma raiz, significa poder ou força, de modo que brahman corresponde exatamente ao que o hinduísmo posterior chama śakti, energia, força ou potência, termo aparentado a śakta, quem tem poder para fazer algo, a Śakra, o poderoso, epíteto de Indra, e a Śacī, a poderosa, nome de sua rainha Indrāṇī.
- O Poder, fim e instrumento supremo da magia, era o grande elemento determinante de toda a arte sacerdotal védica, encontrando-se em toda parte e residindo no núcleo mais íntimo do homem, de onde flui para o corpo e o cérebro e pode crescer até irromper na mente como visão ou na língua como encantamento, razão pela qual, nos hinos védicos, brahman significa muitas vezes simplesmente esta estrofe ou este verso.
- Brahman é a fórmula mágica sagrada, a forma cristalizada da mais alta energia divina, que pulsa adormecida no homem e pode ser ativada pela concentração mental, e, antes de cristalizar, constitui o poderoso impulso que surge do subconsciente, a espontaneidade fundamental da natureza humana, capaz de assumir, como Proteu, a forma de qualquer emoção, visão, impulso ou pensamento.
- Sua fonte se oculta além da experiência sensível e do processo mental, sendo por isso transcendente, aquilo que a psicologia moderna chama inconsciente, situado além do alcance da consciência intelectual.
- Brahman transcende tanto o corpo grosseiro (sthūla-śarīra) quanto o corpo sutil (sūkṣma-śarīra) com suas noções, ideias, emoções e fantasias, e, como poder que anima o microcosmo e o mundo exterior, é o hóspede divino do corpo mortal, identificando-se com o Si (ātman), aspecto superior do que no Ocidente se chama indiscriminadamente alma.
- O conceito ocidental de alma mistura elementos da esfera mutável da psique com o fundamento indestrutível da existência, o Si, distante das tribulações da personalidade, que não deve ser confundido nem com a matéria e os órgãos do corpo grosseiro nem com as faculdades e estados anímicos do corpo sutil, envoltórios perecíveis que o recobrem.
- Brahman, poder cósmico supremo, é a essência de tudo o que se é e se sabe, e embora todas as coisas o manifestem, só a santa sabedoria do sábio mago merece seu nome, pois ele é o único ser dedicado a tornar consciente em si e manifesto na ação o que em tudo o mais permanece oculto, papel que o sacerdote sustenta graças à técnica do ioga.
- Todo ser vive à margem do oceano infinito da força vital, que se esconde na cripta mais profunda do ser, e a ideia dominante da filosofia indiana é redescobrir essa fonte e beber dela sem cessar, o que faz dos exercícios espirituais indianos um dos sistemas de pensamento mais realistas, práticos e positivos já erguidos, voltados a alcançar o Brahman, identificar-se com ele e tornar-se divino ainda na terra.
- Essa busca não é exclusivamente indiana, mas aparece em mitos de todo o mundo, como Gilgamesh em busca da planta da imortalidade, Owein e a Fonte da Vida, Parsifal e o Santo Graal, Hércules, Jasão e o Velocino de Ouro, Orfeu e Eurídice, a expedição do imperador chinês Shih Huang, os alquimistas medievais e a pedra filosofal, e o herói polinésio Maui, prosseguindo no Ocidente por meio dos médicos.
- O traço característico da busca indiana é sua formulação e execução em termos de pensamento, de modo que a filosofia indiana não contradiz, mas esclarece e corrobora os símbolos mitológicos universais, como disciplina prática, física e mental, que os realiza na vida despertando e ordenando a mente.
- Antes do estudo das técnicas dessa aventura, impõe-se conhecer as condições gerais da vida na Índia por meio das três filosofias da vida mundana (trivarga): a doutrina política do arthaśāstra, a psicológica do kāmaśāstra e a ética do dharmaśāstra, pois são justamente as posses (artha), os prazeres (kāma) e as virtudes (dharma) que devem ser convertidos em essência divina, e a libertação significa ir além do conhecido.
- A Índia dificilmente se teria lançado a especulações tão sublimes se as condições de vida tivessem sido menos desesperadas, pois a libertação (mokṣa) só se torna a principal preocupação do pensamento quando aquilo que prende os homens à existência secular não oferece esperança nem fins promissores, de modo que a impiedosa filosofia política e as proezas metafísicas sobre-humanas são o anverso e o reverso de uma mesma experiência da vida.
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