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4 A filosofia do prazer

ZIMMER, Heinrich. Philosophies of India. Edited by Joseph Campbell. New York: Pantheon Books, 1951.

  • Kāma-deva, o deus hindu do amor, não é a pequena criatura rechonchuda de Vênus, mas um jovem hábil e brilhante, cuja encantadora companheira é Ratī, o prazer sensual e a luxúria, e que, como o divino Eros celebrado por Fedro no diálogo de Platão, foi o primogênito entre os deuses, vindo depois do Caos e da Terra.
  • Vasanta, a Primavera, é o comandante supremo do exército do perigoso rapaz, e com uma brisa perfumada do sul faz florescer a paisagem e amolece todas as criaturas, facilitando o ataque doce, penetrante e irresistível do deus do amor.
  • Kāma porta um arco entrelaçado de flores e cinco flechas com pontas de botões perfumados, armas levadas a sério na Índia, onde o arco e a flecha foram a arma clássica de guerra desde o período védico até as invasões muçulmanas, que introduziram a pólvora, o canhão e os mosquetes inventados por chineses e ocidentais.
  • Kāma é chamado Puṣpa-bāṇa, aquele cujas flechas são flores, e Pañca-sāyaka, dotado de cinco flechas, e carrega ainda um laço (pāśa) para capturar e imobilizar as vítimas à distância e um gancho para atraí-las.
  • Nos ritos e diagramas mágicos das escolas tântricas medievais, os quatro instrumentos do deus associam-se às quatro fórmulas de encantamento que produzem amor e entrega: as flechas a “Abre!” (jambha), o arco a “Confunde, enlouquece!” (moha), o laço a “Paralisa, detém, imobiliza!” (stambha) e o gancho a “Humilha, cativa, submete!” (vaśa).
  • Por ordem de Indra, Kāma tentou atingir Śiva, o mestre iogue e arquétipo do asceta solitário, para interromper sua meditação e enchê-lo de amor por Pārvatī, filha de Himālaya e encarnação da deusa suprema Kālī-Durgā-Satī, eterna contraparte feminina e energia projetada de Śiva, que o deus devia conhecer para o bem do universo.
  • Quando a primeira flecha florida atingiu o alvo e arrancou Śiva da contemplação intemporal de sua luminosidade mais íntima, um relâmpago de cólera brotou de seu terceiro olho e reduziu a cinzas o corpo de Kāma; a pedido da desolada Ratī, Śiva resgatou o espírito do consorte, mas não seu corpo, e por isso Kāma é Anaṅga, o sem corpo, que se move sutil e invisível entre os amantes, obrigando-os a se abraçar.
  • O Kāma-loka, mundo dos desejos e de suas realizações, é o paraíso de gozos do deus do amor, onde homens e animais vivem enfeitiçados pelos objetos dos sentidos e, esquecidos de seu Si, ficam presos à roda do tempo, condenados a renascer na terra, nos céus ou nos purgatórios segundo o caráter de seus pensamentos e desejos.
  • O fruto do desejo é o destino, e o indivíduo, acorrentado à ronda causal pelos fios delicados mas resistentes de seu próprio desejo, passa de existência em existência, como homem, animal ou deus, incapaz de se desligar e alcançar a paz do além.
  • Nos níveis inferiores, o Kāma-loka abrange os infernos, a região dos espectros (preta), dos monstros devoradores (rākṣasa), dos antideuses (asura), dos duendes (kumbhāṇḍa), dos deuses aquáticos serpentinos (nāga) e das divindades domésticas da fertilidade (yakṣa), remanescentes da civilização pré-ariana.
  • O reino intermediário de homens e animais situa-se apenas no plano terrestre, enquanto acima dele, ainda sob o domínio de Kāma, estão os deuses atmosféricos alados (garuḍa) e o paraíso dos músicos celestes (gandharva), homens renascidos para gozar os prazeres dos céus inferiores na companhia de donzelas celestiais (apsaras).
  • Essas esferas progressivamente rarefeitas sobrepõem-se nos terraços do monte Sumeru, montanha central do mundo, que, como um gigantesco zigurate babilônico ou uma torre de Babel cósmica, eleva o cume até o reino do ser sem forma e da felicidade puramente espiritual, aonde também chega o poder de Kāma.
  • O universo é efeito da vontade divina (icchā) ou do desejo (kāma), o desejo do Uno de ser muitos, impulso criador primeiro que engendra e sustenta todas as esferas da existência, atuando no plano carnal pelo mistério do sexo e no plano mais alto como vontade do Criador.
  • Kāma é o primeiro dos deuses e também o mais jovem, pois nasce a cada dia do encontro e do acasalamento das criaturas, sendo o poder e o processo pelo qual o Uno se engendra como homem, animal ou planta, a conjunção da eternidade e do tempo pela qual o não manifesto se manifesta em todos os seres, de Brahmā à folha de grama.
  • Na iconografia budista, diferentemente da hindu, há três mundos criados ou zonas de trânsito (avacara) em que os seres renascem: o Kāma-loka, mundo dos desejos; o Rūpa-loka, mundo das formas puras além do desejo; e o Arūpa-loka, mundo sem formas, concepções baseadas nas experiências do Ioga, em que, à medida que se aprofunda a absorção interior, alcançam-se esferas cada vez mais altas, subdivididas em estratos habitados por sutis seres celestiais.
  • Segundo as antigas lendas budistas, quando Gautama Śākyamuni se sentou sob a árvore Bo, prestes a transcender todas as formas e mundos rumo à infinitude intemporal do Vazio, Kāma apareceu-lhe como um jovem com um alaúde e tentou desviá-lo de sua tarefa.
  • Nesses textos budistas, Kāma recebe o nome de um antigo demônio védico, Namuci, aquele que não deixa ir, pois, concedendo a cada criatura alguns gozos da vida, mantém todos enfeitiçados para que caiam repetidamente presa da morte, sendo também chamado o maligno (pāpīyān) ou simplesmente a Morte (māra).
  • Kāma e Māra, o gozo da vida e a garra da morte, são respectivamente a isca e o anzol, os prazeres da mesa farta e o preço a pagar por ela, que é a mortalidade, o sofrimento e as lágrimas, e assim o supremo sedutor e sustentáculo do mundo possui duplo aspecto, como todos os deuses e forças da vida, ao mesmo tempo atraentes e destruidores, misericordiosos e impiedosos.
  • A vida no mundo é representada como paradoxo angustiante, tanto menos suportável quanto mais viva, um mar de sofrimentos, prazeres ilusórios e promessas enganosas, o mar da loucura dos peixes, de uma fecundidade que se nutre de si mesma e a si mesma se devora.
  • O Buddha quebrou o poder do deus da morte e do desejo, cujo estandarte ostenta o emblema do peixe, e passou ao além, desaparecendo para ele a ilusão da dualidade e unindo-se sua consciência libertada à realidade do Vazio, fim transcendental a que todos os homens estão destinados.
  • A maior parte da filosofia hindu ocupa-se apenas do modo de obter a libertação (mokṣa) do poder que envolve e prende o mundo, exercido pelo mago cósmico Namuci, e o primeiro passo para essa meta é rejeitar o anzol de Kāma e a abundância do mundo, o que não impede que a grande maioria se dedique exclusivamente a perseguir esse engano agridoce.
  • Os manuais hindus sobre a arte do amor, compostos para quem ainda se dedica a continuar a criação, ignoram as prescrições ascéticas dos libertados, salvo na medida em que as reflexões sobre a fugacidade do prazer acrescentam ao amor um estremecimento requintado, assim como os manuais de ciência política só consideram a virtude quando uma máscara de moralidade serve ao especialista em poder.
  • A doutrina e a técnica do kāma remontam à antiguidade primitiva e pertencem à ciência e arte da magia amorosa, com seus encantamentos, feitiços e filtros, sendo decididamente pré-budistas e pré-vedantinas e mais alheias do que antagônicas ao ideal monástico e às técnicas de renúncia.
  • O substantivo sânscrito kāma designa toda a gama de experiências possíveis no âmbito do amor, do sexo, do prazer sensual e do gozo, significando desejo, apetite, satisfação carnal, luxúria, amor e afeto, e os primeiros documentos indianos sobre o tema aparecem nos estratos mais antigos da feitiçaria e da religião popular, como os encantamentos de amor do Atharva-veda.
  • A vida amorosa significava em primeiro lugar a vida familiar e conjugal, e a finalidade principal da doutrina era produzir uma família feliz e harmoniosa, com marido e esposa felizes e muitos filhos sadios, de preferência varões, indispensáveis à continuidade da linhagem e ao culto ininterrupto das oferendas que alimentam os Pais falecidos no mundo dos Pais (Pitṛ-loka).
  • As filhas eram consideradas cargas delicadas e custosas, pois exigiam casamentos adequados à casta e à posição social, com genros de comportamento incerto, enquanto a casa prosperava com os filhos varões, razão pela qual a tradição mais antiga do kāma inclui receitas e ritos para gerar varões, manter-se jovem e forte, tornar-se atraente e ter êxito na vida erótica.
  • O antigo material védico sobre o kāma nunca foi estudado em comparação com as fórmulas muito posteriores do Kāmasūtra de Vātsyāyana, embora revele o caráter originalmente sagrado e a autoridade de uma doutrina que nas obras posteriores aparece secularizada, como uma espécie de ars amandi para cortesãs e mulherengos.
  • Cerca de um treze avos do Atharva-veda, 41 dos 536 hinos, preces e encantamentos, dedica-se à magia amorosa, abrangendo fórmulas para o êxito do parto, da concepção e da gravidez, para o nascimento de varões, para conquistar e reter o amor de uma mulher ou de um homem, para obter esposa ou marido, para a felicidade conjugal, para recuperar ou destruir a potência viril, contra rivais e ciúmes, para fazer adormecer os da casa e permitir a visita noturna do amante, além de estrofes para cerimônias de casamento e hinos ao próprio Kāma.
  • As dificuldades da vida conjugal nos tempos védicos eram muito semelhantes às atuais, e os remédios oferecidos são os clássicos de todas as épocas: tratamento com ervas, plantas e filtros, sugestões reforçadas por amuletos, eugenia e higiene mental e emocional, tudo envolto em termos mágicos e administrado pelo sacerdote mago e curandeiro, tipo arcaico do psicanalista e do médico de família, embora alguns encantamentos fossem medicina caseira usada pelos próprios cônjuges.
  • O kāma pertence à essência da magia e a magia à essência do amor, pois entre os encantamentos da própria natureza os do amor e do sexo têm preeminência, obrigando a vida a progredir de geração em geração e prendendo todas as criaturas ao ciclo das existências, de modo que nenhum compêndio de saber mágico seria concebível sem encantamentos amorosos.
  • O latim carmen, canto sacerdotal mágico que conjura potências, o inglês charm, originalmente estrofe mágica que produz o feitiço, e termos como encantamento, encantador, enchanté, désenchanté e charme revelam o sentido original do canto mágico, e a cantora ou o tenor que fascinam o público são encantadores, pois amor, canto e bebida divina embriagadora estão associados há milênios tanto nos sonhos juvenis quanto nos ritos sombrios da feitiçaria.
  • O primitivo saber mágico do amor parece ter sido conservado em doutrinas esotéricas pelos clãs guerreiros, fora das famílias sacerdotais, e tratado com toda a unção devida ao mistério sagrado da vida, ao contrário dos manuais posteriores, altamente técnicos e relativamente secos.
  • O célebre brâmane Śvetaketu, que segundo o sexto livro da Chāndogya Upaniṣad recebeu de seu pai Uddālaka Āruṇi a chave de todo o saber na grande fórmula védica (mahā-vākya) “Tu és isso” (tat tvam asi), foi um dos primeiros redatores desses manuais e modelo do brâmane clássico, mestre do saber sagrado, mas menos versado na filosofia secular.
  • Homens como Śvetaketu afastaram a arcaica sabedoria do kāma de sua finalidade e profundidade primitivas, e a riqueza que o tema possuía nas épocas védicas posteriores, como ramo da sabedoria doméstica, secou por força de sucessivas abreviações e resumos, restando pouca metafísica ou filosofia na literatura posterior sobre a arte de amar.
  • O texto mais importante é o Kāmasūtra do brâmane Vātsyāyana, composto entre os séculos II e IV da era cristã, versão magistral, mas muito condensada e abreviada, dos materiais da tradição antiga.
  • Alguns tratados menores e posteriores em verso, que em parte conservam traços mais arcaicos que o Kāmasūtra, comunicam com maior grandeza a amplitude original da doutrina, como o Pañcasāyaka, o deus das cinco flechas, posterior ao século XI, o Ratirahasya, a doutrina secreta do prazer do amor, anterior ao século XIII, e o Anaṅgaraṅga, o cenário do deus sem corpo, provavelmente do século XVI.
  • Fragmentos conservados nas Upaniṣad revelam a riqueza, a profundidade e o temor reverencial com que se considerava o ato sagrado pelo qual o Deus dos deuses prosseguia sua criação através das gerações das grandes famílias bramânicas e reais, e o conhecimento dessa filosofia erótica prática está ainda muito longe de ter se perdido.
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