1.3 Ser cósmico
DANIÉLOU, Alain. The Myths and Gods of India: The Classic Work on Hindu Polytheism from the Princeton Bollingen Series. Rochester: Inner Traditions International, Limited, 1991.
A Teoria do Politeísmo
O ser cósmico
Macrocosmo e microcosmo
1. A identificação do universo com o ser cósmico abrange não apenas sua realidade física, mas também a mente, as energias orientadoras, as leis de desenvolvimento e a consciência anterior à manifestação, pois as formas perceptíveis constituem somente uma dimensão do cosmos.
2. O conhecimento que considera apenas os aspectos inanimados das coisas permanece incompleto, porque a compreensão do Sol, do céu e da terra exige reconhecer a vida interior e a consciência que presidem suas manifestações.
3. Cada forma da natureza é governada por uma consciência interior vinculada à consciência cósmica, cuja investigação encontra no Yoga um instrumento privilegiado, embora a expressão verbal das experiências obtidas constitua um obstáculo distinto da própria percepção.
4. A identificação suprassensorial permite testemunhar mundos que ultrapassam a experiência habitual, mas sua compreensão e descrição dependem de referências humanas limitadas, fazendo do conhecimento articulado de si mesmo a condição para representar analogicamente aquilo que excede os sentidos.
5. A correspondência entre o conhecimento de si e a compreensão do universo fundamenta a representação do cosmos como um homem ampliado e do homem como um universo reduzido, estabelecendo uma reflexão recíproca entre estruturas corporais, faculdades sutis e princípios cósmicos.
6. O homem constitui um universo fragmentário ou microcosmo, denominado pequeno ovo da imensidão, enquanto o ser cósmico corresponde à totalidade universal ou macrocosmo.
7. O indivíduo e o universo apresentam-se como existências paralelas e semelhantes, simbolizadas na tradição védica por duas aves que compartilham uma mesma morada.
8. As duas aves na mesma árvore representam o ser individual que experimenta os frutos da ação e o ser universal que contempla sem participar desse consumo, distinguindo envolvimento e testemunho dentro de uma unidade inseparável.
9. A condição essencial do ser vivo é concebida como eterna e não nascida, permanecendo indestrutível apesar da morte do corpo em que se manifesta.
10. O corpo humano é representado como uma cidade de onze portas habitada pela consciência não nascida, cujo domínio permite superar o sofrimento e cuja saída pode conduzir à libertação.
11. A responsabilidade moral atribuída ao homem confere à sua condição o caráter de matriz da ação, aproximando seu poder criador de pensamento e comportamento daquele do divino e fundamentando uma correspondência entre identidade individual e universal.
12. A presença potencial da totalidade em cada fragmento estabelece uma relação de interioridade recíproca entre o ser individual e o universal.
13. Os estados superiores de existência podem ser alcançados tanto pela investigação do macrocosmo quanto pela exploração do microcosmo, concebidos como caminhos paralelos de manifestação.
14. A unidade entre o que se encontra no indivíduo e no universo exclui uma separação essencial entre ambos, enquanto a percepção de diferença mantém o ser preso à sucessão das mortes.
15. O ser cósmico constitui uma totalidade viva que possui faculdades, nasce e morre, criando e destruindo por sua própria natureza, sem corresponder a uma divindade pessoal que produz o universo a partir do nada.
16. A manifestação universal procede do imperecível como o fio emitido pela aranha, as plantas que brotam da terra e os pelos que crescem no organismo, exprimindo uma produção interna à própria realidade de origem.
17. A manifestação do ser cósmico apresenta-se segundo três ordens correlacionadas, compreendendo a sucessão temporal, a localização espacial e os graus de percepção ou consciência que estruturam os diferentes estados de existência.
A duração cósmica
1. A pessoa cósmica corresponde ao aspecto masculino e inativo de uma dualidade cuja manifestação depende da natureza feminina e ativa, fazendo dessa complementaridade uma característica de todas as formas criadas.
2. A pessoa é uma entidade que permanece através de diferentes etapas de desenvolvimento, dependendo, por isso, de um substrato de duração que permita sua continuidade.
3. A consideração temporal do ser total distingue três dimensões, denominadas impermanente, permanente e imutável, sendo a última situada além das condições do tempo.
4. O impermanente compreende os mundos perceptível e sutil, o permanente corresponde às leis que regulam sua manifestação e desaparecimento, e o imutável constitui o substrato anterior à mudança e à existência particularizada.
5. Essas três dimensões recebem as denominações de pessoa destrutível, pessoa indestrutível e pessoa imutável, distinguindo a manifestação transitória, sua estrutura permanente e seu fundamento transcendente.
6. As três pessoas cósmicas relacionam-se aos componentes fundamentais da existência, definidos como substância, atividade e percepção.
7. A pessoa imutável sustenta tudo sem pertencer à atividade ou à substância, constituindo a origem comum do mundo e de seu criador e o fundamento das causas eficientes e imanentes da manifestação.
8. A imutabilidade do princípio transcendente impede identificá-lo diretamente à criação, pois sua relação com os seres ultrapassa as categorias habituais de inclusão, localização e produção.
9. O princípio transcendente não pode ser definido como causa ou efeito dos seres, permanecendo além da relação causal que organiza a manifestação.
10. A pessoa indestrutível constitui o conjunto permanente de leis universais que orienta previamente os acontecimentos e corresponde à energia primordial ou divindade manifestada, representada como natureza transcendente e sopro vital do princípio imutável.
11. A compreensão do universo exige investigar suas leis permanentes, pois a observação isolada de formas mutáveis não constitui conhecimento de seus fundamentos.
12. A atenção limitada ao que se transforma impede reconhecer a natureza superior das coisas, enquanto uma visão mais profunda apreende os princípios que sustentam sua evolução.
13. A pessoa indestrutível surge como uma potência formada pela ligação das energias latentes do imutável, constituindo a primeira individualidade, embora a percepção humana inverta essa relação e a represente como um si mesmo dotado de poder.
14. A potência causal do universo manifesta-se como energia, vida e ação, correspondendo respectivamente ao sono profundo, ao sonho e à vigília, nos quais se distinguem existência potencial, atividade interior e atuação efetiva.
15. A pessoa indestrutível compreende cinco aspectos constitutivos, denominados impulso interior, habitante interior, coração, impulso exterior e si mesmo transmigrante.
16. O impulso interior exprime a tendência à manifestação e à expressão de si, correspondendo ao movimento rotativo e à função criadora de Brahma.
17. O habitante interior representa a potência cósmica latente em todas as existências, relacionando-se à coesão centrípeta e à presença universal de Vishnu.
18. O coração constitui o centro de emanação das leis naturais que governam os seres e corresponde à função soberana de Indra.
19. O impulso exterior manifesta a atividade perceptível dos corpos individuais como combustão, sendo identificado ao fogo de Agni.
20. O si mesmo transmigrante corresponde à substância consumida pela atividade e é associado a Soma como oferenda e semente.
21. A consideração conjunta do coração, do impulso exterior e do si mesmo transmigrante configura Maheshvara ou Shiva, relacionando esses aspectos à tendência centrífuga e desintegradora.
22. A pessoa destrutível constitui a forma exterior e transitória do universo, apresentando-se como natureza manifestada em cinco aspectos que exprimem os componentes da pessoa indestrutível: sopro vital, águas primordiais, palavra, devorador e devorado.
23. O sopro vital manifesta o impulso interior e traduz, no mundo transitório, a potência criadora associada a Brahma.
24. As águas primordiais presentes em toda substância manifestam o habitante interior e correspondem à ação penetrante de Vishnu.
25. A palavra exprime o coração em que reside a lei, vinculando sua manifestação à soberania de Indra.
26. O devorador manifesta o impulso exterior e corresponde ao fogo que consome a substância.
27. O devorado manifesta o si mesmo transmigrante ou mônada vital, sendo identificado a Soma como vítima, oferenda e semente da vida.
A localização cósmica
1. A manifestação espacial do ser cósmico organiza-se em três planos correspondentes a diferentes modos de percepção, denominados celeste ou divino, individual ou sutil, e elemental ou sensorial.
2. Os três planos coexistem e interpenetram-se, sendo cada um organizado em cinco esferas concêntricas que estruturam sua manifestação.
3. O plano espiritual compreende cinco esferas que distribuem as funções cósmicas desde o princípio criador até a substância terrestre.
4. O nascido de si mesmo constitui o aspecto criador da pessoa imutável, representando a origem da manifestação nesse plano.
5. O soberano supremo corresponde à natureza do nascido de si mesmo, exprimindo sua contraparte ativa.
6. A união do nascido de si mesmo com o soberano supremo constitui Prajapati, senhor da descendência, equivalente ao pastor Pashupati na tradição xivaíta.
7. O Sol representa o princípio ígneo que origina a evolução e fornece a fonte de existência de um universo determinado.
8. A Lua representa o termo da evolução e a substância oferecida ao princípio solar, correspondendo ao devorado que alimenta o fogo.
9. A relação entre Sol e Lua constitui o sacrifício cósmico e estrutura as formas de vida, correspondendo espacialmente à pessoa indestrutível e às rédeas que regulam a existência na filosofia xivaíta.
10. A Terra representa a substância e o animal conduzido, constituindo o aspecto espacial da pessoa destrutível.
11. As esferas cósmicas alternam funções de fogo e alimento, organizando uma sucessão de princípios que consomem e são consumidos.
12. Cada esfera recebe a denominação de morada do aspecto da pessoa indestrutível que nela predomina, relacionando localização e função cósmica.
13. Brahma, Vishnu, Indra, Agni e Soma ocupam respectivamente as esferas do nascido de si mesmo, do soberano supremo, do Sol, da Terra e da Lua.
14. As esferas emanam sucessivamente umas das outras, embora a ordem de criação e a perspectiva humana de reintegração situem a esfera lunar de maneiras diferentes.
15. O plano individual também compreende cinco esferas, que exprimem na constituição humana as relações presentes na totalidade cósmica.
16. O não desenvolvido corresponde à consciência, constituindo uma dimensão anterior à diferenciação das faculdades.
17. O princípio transcendente corresponde ao intelecto, estabelecendo uma segunda dimensão da estrutura individual.
18. Consciência e intelecto formam o pastor que governa os seres manifestados, correspondendo a aspectos da pessoa imutável.
19. O conhecimento mental constitui uma das esferas intermediárias pelas quais a experiência individual é organizada.
20. O conhecimento intuitivo constitui a outra esfera intermediária, complementando a atividade mental na orientação da vida.
21. Os conhecimentos mental e intuitivo formam as rédeas que governam a existência e correspondem aos aspectos da pessoa indestrutível.
22. O corpo constitui o animal conduzido e representa a manifestação individual da pessoa destrutível.
23. O plano elemental organiza suas cinco esferas segundo correspondências entre elementos, sentidos e princípios de existência.
24. A caverna corresponde ao espaço de manifestação associado ao éter, constituindo simultaneamente a morada interior da consciência, o domínio da audição e o centro do conhecimento revelado.
25. As águas primordiais representam uma substância causal de natureza intelectual, associada a Varuna, ao ar e ao tato, distinguindo-se das águas terrestres percebidas no mundo material.
26. A caverna e as águas primordiais constituem formas do princípio imutável e correspondem à função orientadora do pastor.
27. A luz representa a visão e a percepção mental, estabelecendo sua correspondência com o fogo.
28. O sentir representa a percepção emocional e o princípio do paladar, relacionando-se ao elemento água.
29. A percepção mental e o sentir constituem as rédeas pelas quais a vida física é orientada.
30. A semente da vida exprime a continuidade corporal mediante morte e renascimento, relacionando a pessoa destrutível à terra, ao olfato e à sensação física.
A natureza da manifestação
1. A manifestação surge quando um plano inicialmente contido na consciência encontra um centro independente de percepção, estabelecendo um ponto de contato entre macrocosmo e microcosmo denominado bindu, no qual todas as formas futuras estão potencialmente presentes.
2. Do ponto-limite procede o intelecto universal, seguido pelo princípio de individualidade que permite a formação de uma consciência diferenciada, da mente e dos sucessivos elementos ou domínios de percepção.
3. A hierarquia do conhecimento ultrapassa os sentidos e seus objetos em direção à mente, ao intelecto, ao si mesmo transcendente, ao não manifestado e à pessoa suprema, que constitui o limite último da realização possível.
O aparecimento do universo
1. O nascimento do universo pode ser compreendido por analogia com o crescimento de uma planta, cuja passagem da semente ao desenvolvimento visível reproduz a hierarquia da manifestação.
2. A semente adormecida corresponde à potencialidade de maya, o não desenvolvido representa a preparação germinativa e o broto inaugura o estágio dos efeitos, reunindo todos os desdobramentos posteriores ao ponto-limite.
3. No ser humano, o sono corresponde à condição de semente e a consciência anterior à análise ao princípio universal da manifestação, do qual emerge a individualidade e, com ela, a multiplicidade perceptível.
4. O não desenvolvido, o princípio universal da manifestação e o princípio da individualidade formam conjuntamente o corpo sutil do homem universal.
5. A individualidade constitui um nó temporário de princípios universais, formando um universo quando os reúne integralmente ou um ser particular quando os reúne parcialmente, enquanto sua dissolução devolve cada componente à fonte da qual nunca esteve realmente separado.
6. A dissolução gradual da individualidade pode conservar elementos sutis unidos após a morte, formando um corpo transmigrante capaz de renascer ou de continuar sua desagregação até a libertação final e o desaparecimento da existência individual.
7. A integração do indivíduo à pessoa cósmica elimina nome, forma e divisão, assim como os rios perdem sua identidade no mar, fazendo do conhecimento do princípio que reúne todos os componentes uma superação do temor da morte.
A consciência cósmica
1. O ser cósmico apresenta formas causal, sutil e grosseira correspondentes às três qualidades fundamentais, sendo o corpo causal não manifestado associado à tendência centrífuga e à consciência experimentada no sono profundo.
2. O corpo sutil corresponde à atividade intelectual, origina-se da tendência coesiva ou centrípeta e manifesta-se no estado de sonho.
3. O corpo grosseiro inclui a mente e possui natureza substancial, relacionando-se à tendência rotativa e ao estado de vigília.
4. A totalidade dos corpos grosseiros constitui Virat, a forma gloriosa e perceptível do universo, governada por Brahma.
5. A totalidade dos corpos sutis constitui o embrião dourado, governado por Vishnu como princípio que penetra a existência.
6. O corpo causal é denominado onisciente e vincula-se a Shiva como senhor do sono.
7. As divisões cósmicas encontram equivalentes individuais nos corpos experimentados em vigília, sonho e sono profundo, distinguindo a existência corporal, a manifestação sutil e a condição causal não manifestada.
8. O sono sem sonhos dissolve a distinção entre indivíduo e universo em uma experiência de alegria pura, condição que o Yoga procura realizar pela suspensão da atividade mental, embora certas classificações distingam dessa experiência um quarto estado de consciência universal.
9. A ordem da criação e a da libertação apresentam sentidos inversos na hierarquia das qualidades, mantendo Vishnu como termo intermediário, enquanto a duração atravessa as dimensões de localização e consciência como condição de ambos os processos.
10. As classificações temporais e espaciais não coincidem necessariamente, permitindo que o sopro vital pertença ao impermanente segundo a duração e se relacione ao imutável segundo sua localização cósmica.
11. A ambivalência dos aspectos da existência permite estabelecer contatos entre diferentes ordens, alcançando duração pelo rito, consciência pela introspecção e localização pela evolução da vida, de modo que manifestações sensíveis podem abrir acesso a realidades mais sutis.
A personificação e a descrição do ser cósmico
1. A forma perceptível do ser cósmico constitui o fundamento das representações da divindade, sendo descrita nas Upanishads como um microcosmo gigantesco que reúne a totalidade da manifestação.
2. A multiplicidade de olhos, bocas, braços e pés representa a presença universal do único senhor que gera e sustenta o céu e a terra.
3. O corpo do homem universal reúne mundos, astros, divindades e qualidades em correspondências orgânicas, fazendo da terra seus pés, do céu sua cabeça e dos diferentes componentes do cosmos manifestações de suas funções corporais e mentais.
4. As divindades védicas governam regiões do corpo cósmico e suas correspondências humanas, estabelecendo uma articulação entre funções orgânicas e potências universais.
5. Mitra corresponde ao sopro interior e personifica o dia, vinculando a respiração à organização cósmica da luz.
6. Varuna corresponde ao sopro exterior e personifica a noite, complementando a função respiratória associada a Mitra.
7. Aryaman representa o Sol e corresponde ao olho, relacionando visão e luminosidade celeste.
8. Indra corresponde à potência dos braços, exprimindo a capacidade de ação do ser cósmico.
9. Brihaspati corresponde ao intelecto e à palavra, articulando conhecimento e expressão na estrutura universal.
10. Vishnu corresponde às direções e aos pés, manifestando sua presença penetrante e a amplitude de seu movimento.
11. A respiração, a visão, o sorriso e o sono do ser cósmico originam simbolicamente os Vedas, os elementos, o universo e sua destruição, integrando criação e dissolução às funções de um único organismo.
12. A visão de Arjuna na Bhagavadgita manifesta Vishnu como a totalidade personificada da existência, reunindo em uma mesma presença a vida e a morte.
13. A forma universal aparece a Arjuna como uma multiplicidade resplandecente de seres, membros e potências cuja beleza se transforma em terror diante da destruição inevitável, pois deuses, guerreiros e mundos convergem para as bocas flamejantes que os devoram, revelando uma realidade divina superior à compreensão humana.
