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1 Ciclos

DANIÉLOU, Alain. La Fantaisie des dieux et l'aventure humaine. Monaco: Éditions du Rocher, 1985.

I – A DURAÇÃO DO UNIVERSO

  • Segundo a teoria que a filosofia shivaíta chama de Determinismo (niyati), o desenvolvimento do mundo, das galáxias, das espécies e dos indivíduos é regido por ciclos, de modo que as civilizações nascem e morrem segundo ritmos inelutáveis e a história humana só se compreende em relação à duração desses ciclos.
  • O primeiro estágio da criação é o espaço, sem limites nem dimensão, no qual o tempo existe apenas em forma latente, como eternidade sem medida, sem antes nem depois.
  • A energia, ao produzir ondas vibratórias dotadas de direção e comprimento, gera ritmos cuja percepção cria a dimensão do tempo, a medida do espaço e as estruturas da matéria, razão pela qual a formação do mundo é simbolizada pelo ritmo do tambor e da dança de Shiva.
  • O tempo percebido pelo homem, determinado por seus ritmos vitais e pelos movimentos do sol, da lua e da terra, é puramente relativo a um centro de percepção e não constitui um valor absoluto, ainda que seja a única unidade de medida compreensível ao ser humano.
  • As leis que regem o desenvolvimento e o declínio do universo são as mesmas que governam cada uma de suas partes, o que permite estabelecer um paralelo entre a duração do Homem-Universal (Purusha), a do ser humano, a de uma árvore, de um animal ou de uma espécie, já que a vida de um homem não é em si mais curta que a de um deus ou de um universo.
  • O dia de Brahma, chamado Kalpa, corresponde à duração do mundo manifesto, que surge, se desenvolve, se retrai e desaparece, sendo seguido de uma noite de igual duração na qual o mundo deixa de existir, e durante esse dia as galáxias e os sistemas solares se formam, se destroem e se renovam como as partículas que compõem o corpo humano.
  • Os Puranas fornecem cálculos precisos dos ciclos do tempo, desde o piscar de olhos (Kashta, cerca de um quinto de segundo) até a duração do universo, cuja vida se divide em mil Maha-Yugas ou Grandes Anos, correspondentes no mundo terrestre aos ciclos de precessão dos equinócios.
  • O número de pouco mais de 71 ciclos multiplicado pelos 14 Manvantaras, períodos de cada Manu progenitor de uma humanidade, exprime na realidade o número simbólico mil.
  • Antes das espécies vivas surgem seres sutis que presidem aos diversos aspectos do criado: os Deuses dos elementos (Vishvadeva), que organizam a matéria, os Senhores das espécies (Prajapati), que presidem à vida das espécies, e os Videntes (Rishi), testemunhas da natureza secreta do mundo, todos desaparecendo na noite cósmica e renascendo na aurora seguinte.
  • Pelos cálculos dos Puranas, o universo dura 34 bilhões e 560 milhões de anos e o Maha-Yuga dura 4.320.000 anos, o que, confrontado com as estimativas modernas de 15 bilhões de anos para o universo, indica um universo ainda jovem, na metade de sua existência e ainda em expansão antes do período de retração.
  • A interpretação desses dados apresenta dificuldades, pois ora se trata de anos lunares ou humanos, ora de anos dos ancestrais, ora de anos dos deuses, adotando-se aqui a interpretação dos astrólogos, que atribuem grande importância à duração dos ciclos.
  • Cada Manvantara divide-se em quatro idades ou Yugas, de durações relativas 4, 3, 2 e 1, que apresentam um declínio gradual dos valores espirituais acompanhado de progresso material, cada uma precedida de uma aurora e seguida de um crepúsculo equivalentes a um décimo de sua duração.
  • A duração do tempo nos diferentes níveis da hierarquia da criação guarda uma relação harmônica: um ano humano equivale a um dia e uma noite dos ancestrais, 360 anos humanos formam um ano dos deuses, 3.030 anos humanos um ano dos Rishi, 9.090 anos humanos um ano do ciclo da estrela polar (Dhruva) e 30 anos humanos um ano dos ancestrais, isto é, uma geração.
  • A linhagem dos ancestrais corresponde à evolução e predominância de uma raça particular, e cento e vinte anos dos ancestrais equivalem a cerca de quatro mil anos humanos.
  • O número de 360 dias por ano é uma média baseada na divisão do círculo em 360 graus, imagem simplificada dos ciclos, pois o círculo é uma ilusão e a mecânica cósmica é sempre formada de espirais em que nada retorna ao ponto de partida, o que gera uma margem de cerca de cinquenta anos nos cálculos relativos ao Kali Yuga.
  • O limite da vida humana é de cento e vinte anos e o dos deuses de doze mil anos divinos, o que corresponde a 4.320.000 anos humanos, de modo que cada ciclo dos quatro Yugas dura 60.487 anos, assim como a vida normal do homem dura 43.200 dias.
  • Segundo esses cálculos, o crepúsculo do Kali Yuga teria começado em maio de 1939, a catástrofe final ocorrerá durante esse crepúsculo e os últimos vestígios da humanidade atual desaparecerão em 2442.
  • As humanidades anteriores teriam começado respectivamente em 419.964, 359.477, 298.990, 238.503, 178.016 e 118.529 antes da era cristã, e a sétima, a atual, em 58.042 antes de Cristo, o que parece corresponder ao surgimento do homo sapiens ou homem de Cro-Magnon, precedido talvez pelo Neandertal, cuja capacidade craniana era superior.
  • O Krita Yuga, idade de realização e sabedoria comparável à idade de ouro de Hesíodo, dura 24.194 anos com sua aurora e seu crepúsculo.
  • O Treta Yuga, idade dos três fogos rituais, dos ritos e do lar, isto é, da civilização sedentária, agrícola e urbana, dura ao todo 18.145 anos.
  • O Dvapara Yuga, idade da dúvida, vê nascer as religiões e filosofias contestatárias, com o afastamento do homem da realidade divina do mundo e da lei natural, e dura ao todo 12.097 anos.
  • O Kali Yuga, idade dos conflitos, dura ao todo 6.048 anos e conduzirá à destruição quase total da humanidade atual, não havendo relação entre a palavra Kali, que significa querela, e Kâlî, nome da deusa do tempo e da morte.
  • O ciclo atual da humanidade começa após um grande dilúvio, cuja lembrança todas as civilizações conservaram, ocorrido cerca de 60.200 anos antes da era cristã, enquanto um dilúvio menor, datado nos textos sumérios por volta de 3000 antes de Cristo, anuncia o início do Kali Yuga.
  • Vaivasvata Manu, equivalente ao Noé bíblico e sobrevivente de uma humanidade anterior, foi salvo por Vishnu em forma de peixe, que puxou a arca até a terra firme, e os descendentes de seus companheiros, misturados a espécies novas ainda em estágio semianimal, formam a humanidade presente.
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