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1.2 Cidades
DANIÉLOU, Alain. La Fantaisie des dieux et l'aventure humaine. Monaco: Éditions du Rocher, 1985.
II – AS TRÊS CIDADES
- Segundo a tradição shivaíta, desde que a terra se tornou habitável várias humanidades já existiram, cada uma com seu período de glória, de desenvolvimento técnico e de saber, seguido de declínio e de um fim cataclísmico.
- A humanidade atual é a sétima, e após seu fim a terra conhecerá ainda sete espécies humanas ou semelhantes antes de se tornar inabitável, pois todas as espécies evoluem como entidades individuais, com gestação, infância, adolescência, maturidade e declínio.
- O relato purânico do fim de uma humanidade anterior mistura a lembrança de duas catástrofes: a destruição da civilização dos Assuras, há mais de sessenta mil anos, e a destruição das cidades do Indo pelos invasores arianos, que marca o início do Kali Yuga.
- A história dos Assuras é ao mesmo tempo um relato do passado e uma predição do futuro, pois há um paralelismo evidente entre as concepções religiosas, ideologias e teorias sociais e morais que os destruíram e aquelas que caracterizam a humanidade atual desde o início do Kali Yuga e parecem conduzir à catástrofe provocada (naimittika pralaya).
- Essa história ensina também como, pelos atos e sobretudo pelas concepções morais e religiosas, é possível retardar o desfecho para a humanidade ou parte dela, permitindo a alguns atravessar o cataclismo e participar da idade de ouro futura.
- Os Assuras, que haviam atingido um prodigioso nível de civilização, eram fervorosos adoradores de Shiva e praticavam o culto do Linga, o falo divino, e com a ajuda de Maya, o arquiteto dos gênios, construíram três cidades inexpugnáveis: uma de cobre sobre a terra, outra de prata flutuando acima do solo e uma terceira dourada no alto do céu.
- Segundo o Shiva Purana, os príncipes assuras eram comedidos, disciplinados, honestos e corajosos, inimigos dos deuses arianos, sabiam controlar a energia solar, distribuíam alimento aos famintos, podiam viver sob as águas e dispunham de árvores da abundância, carros voadores luminosos, máquinas de medir o tempo, jardins, reservatórios, locais de estudo e cidades povoadas por gente de toda espécie.
- Os deuses dos arianos, invasores bárbaros que cobiçavam os territórios dos povos civilizados, buscaram o favor de Shiva para destruir as fortalezas assuras, mas Shiva, deus da justiça e de todos os seres vivos, recusou-se, declarando que os Assuras eram sem falta e seus devotos, e que só poderia destruí-los se eles se afastassem dele.
- Vishnu, deus que preside às virtudes cívicas, aconselhou um grande sacrifício em honra de Shiva, do qual surgiram milhares de espíritos malfazejos armados, inclusive com mísseis de fogo semelhantes à energia solar, mas seus ataques foram inúteis, pois o culto do falo garantia aos Assuras a realização de todos os desejos, sendo necessário fazê-los renegar seu deus protetor.
- Vishnu criou então um personagem estranho e perverso, de cabeça raspada, roupa suja, mãos frágeis e rosto pálido, chamado Arihat, destruidor dos piedosos, encarregado de compor um pseudolivro sagrado de 1.600 versos em linguagem popular condenando as castas e os deveres das idades da vida, e de ensinar que o céu e o inferno só existem nesta vida.
- Arihat recrutou quatro discípulos de cabeça raspada, que cobriam a boca com um pano para não engolir insetos, varriam o chão diante de si para não esmagar criaturas vivas, repetiam que sua lei era a única verdade e se faziam chamar Veneráveis.
- A doutrina pregada proibia matar qualquer criatura e prescrevia alimentar-se apenas de vegetais, como se as plantas não fossem também seres vivos, num mundo nascido do Sacrifício em que nada sobrevive senão devorando a vida; recusava os prazeres que aproximam dos deuses, condenava o culto do falo e afirmava a transmigração, de modo que o filho deixava de ser continuação do pai e o respeito entre pai e filho desaparecia.
- O pérfido sábio Narada, instruído por Vishnu, iniciou-se no novo culto, conduziu os monges até a cidade dos Assuras e persuadiu o rei a converter-se à nova religião, renunciando aos ritos antigos e aos sacrifícios, sendo seguido pela maioria dos Assuras.
- Os ensinamentos de Arihat ao rei afirmavam que o universo é eterno, sem criador e sem finalidade, que cada ser vivo é para si mesmo um deus, que Brahma, Vishnu e Shiva eram apenas homens divinizados, que todos os seres são iguais, que a não violência é a virtude principal, que o prazer é o céu e o sofrimento o inferno, que se deve gozar a vida enquanto o corpo é vigoroso e depois destruí-lo pelo suicídio, que não há castas nem diferença entre as virtudes femininas e viris, e que os deuses não devem ser venerados.
- Abandonados os ritos nas três cidades, o poder dos Assuras declinou, e Shiva consentiu em destruí-los, mas exigiu antes que os deuses arianos reconhecessem sua suserania como Senhor dos Animais (Pashupati), pastor de todos os seres, o que fez o mundo ariano herdar em parte a sabedoria assura.
- Shiva esperou que as três cidades se alinhassem, como faziam periodicamente, e no momento marcado pelo destino lançou sua arma mais terrível, uma arma de fogo resplandecente como mil sóis, que reduziu as cidades a cinzas e as fez desabar no meio dos quatro oceanos.
- O extermínio foi total: os Assuras caíam como moscas, uns no meio da refeição, outros abraçados às esposas, mulheres buscavam proteger filhos já mortos, todos clamavam pelo abandono de Shiva, e nenhuma parcela animada ou inanimada escapou ao fogo, cuja visão aterrorizou até os próprios deuses.
- Salvaram-se apenas alguns fiéis de Shiva refugiados na região dos Ganas, companheiros de Shiva, isto é, o mundo de Mahar ou mundo extraplanetário, e esses sobreviventes preservaram em segredo elementos do saber assura para as humanidades futuras.
- Vishnu ordenou ao falso sábio, que reconhecia ter cometido um ato abominável, que se retirasse ao deserto e aguardasse o Kali Yuga para espalhar de novo sua mensagem entre os homens vaidosos e estúpidos desse tempo, conduzindo-os ao declínio até a explosão final, e Shiva confirmou aos Tonsurados que, na idade final de cada raça humana, os seguidores de seu ensinamento chegariam ao desastre.
- A prática da nova religião privou os Assuras de suas virtudes, de sua virilidade, de sua coragem e de sua força: o puritanismo tornou-os mentirosos e neuróticos, o vegetarianismo enfraqueceu seu vigor e a não violência tornou-os pusilânimes, além de terem renegado o culto de Shiva, do falo e o Dharma, lei que atribui a cada um deveres segundo sua natureza.
- Os novos deuses aceitaram com relutância a primazia de Shiva e a herança do saber assura, e Shiva permaneceu entre os arianos da Índia, como Dioniso entre os arianos gregos, o deus supremo e ao mesmo tempo maldito.
- Os povos arianos adotaram por toda parte religiões moralistas derivadas de Arihat, que marcam o fim do Kali Yuga, enquanto a sabedoria assura ligada ao shivaísmo sobreviveu em segredo numa tradição esotérica e iniciática.
- A lição essencial é que o declínio dos Assuras resultou de uma mudança nas concepções religiosas, sociais e morais, quando o culto do falo, as práticas do yoga tântrico e a busca da compreensão das leis naturais foram substituídos por noções sentimentais e negativas como abstinência, puritanismo, não violência e igualitarismo.
- A época atual oferece uma imagem inquietante dessa substituição, pois o homem, por estranho orgulho, procura trocar a ordem divina e natural por uma ordem humana que opõe pretensas virtudes morais à magia dos ritos e dos sacrifícios, atitude que só pode conduzir ao desastre e que leva a sociedade, e até as obras científicas, a evitar encarar as realidades contrárias às ideologias derivadas de Arihat.
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