xivaismo:danielou:fdah:2.3
2.3 Tradição
DANIÉLOU, Alain. La Fantaisie des dieux et l'aventure humaine. Monaco: Éditions du Rocher, 1985.
III – A TRADIÇÃO REENCONTRADA
- Muitos elementos da antiga cultura pré-ariana, que sobreviviam apenas na tradição oral ou em textos dravidianos hoje perdidos, foram recuperados, reconstruídos, transcritos e traduzidos em diversas línguas populares e sobretudo em sânscrito, então língua universal da cultura, surgindo numerosas obras históricas, filosóficas e científicas mescladas de lendas, crenças populares e mitos, algumas versões tâmeis dos Puranas sendo mais antigas que as sânscritas.
- A partir desse material reconstituído, monges shivaítas e letrados tradicionais revalorizaram o que restava da antiga herança pré-ariana, buscando reencontrar as bases de uma sabedoria, de uma arte de viver e de uma via de conhecimento provenientes de uma idade de ouro e longamente preservadas numa tradição oculta.
- Esse retorno ao saber e à sabedoria antiga, preconizado por Lakulisha, é considerado pelos adeptos do shivaísmo o último esforço para frear a evolução de uma humanidade que corre para sua perda.
- A partir do início da era cristã, os textos fundamentais da tradição filosófica e religiosa pré-ariana foram reconstituídos e traduzidos num sânscrito bastante rude, a fim de formar um conjunto de textos sagrados a ser oficialmente oposto aos Vedas, eles próprios recentemente transcritos.
- Os principais desses textos são os Agamas (tradições) e os Tantras (regras e ritos), aos quais se juntam os Puranas (antigas crônicas), de mitologia e história, e as obras filosóficas e técnicas sobre cosmologia (Samkhya), Yoga, linguística (Vyakarana), astronomia (Jyotisha), medicina (Ayurveda) e matemática (Ganita), uma vasta literatura de transcrição relativamente recente mas de fontes muito antigas, cuja redescoberta provocou um prodigioso renascimento cultural, filosófico, religioso e artístico.
- Quase tudo o que chegou do pensamento religioso e filosófico da Índia, inclusive os textos e comentários dos Vedas, dos Brahma Sutras e dos Upanishads, bem como os do budismo e do jainismo, só foi transcrito durante a grande época de liberalismo e civilização que caracteriza o renascimento shivaíta.
- A religião hindu tal como praticada hoje é de caráter tântrico, baseada quase exclusivamente nos Agamas, e praticamente nada resta da religião védica, o mesmo valendo para a religião tibetana, de modo que é errôneo considerar a filosofia hindu de origem védica, pois foi por artifícios exegéticos que se tentou vincular aos textos védicos concepções provenientes de uma cultura mais antiga e mais evoluída.
- Para compreender o pensamento da Índia é preciso remontar às suas fontes, isto é, à grande civilização anterior à chegada dos arianos, que se prolongou até os dias atuais e da qual fazem parte a religião shivaíta, a cosmologia do Samkhya, as práticas do Yoga e as bases do que se considera filosofia hindu.
- Embora os textos dos Agamas e dos Puranas sejam de redação relativamente tardia, sua marca está presente em todas as concepções filosóficas e religiosas dos arianos a partir do Atharva Veda, e o desprezo dos orientalistas modernos por esses textos, ao querer reduzir tudo aos Vedas, como ao mundo grego no caso do Ocidente, levou a monumentais erros de datação e de evolução dos conceitos.
- Numerosas passagens dos textos mais conhecidos da literatura bramânica em sânscrito derivam dos Agamas, como a Bhagavad Gita, da qual mais da metade dos versos provém do Parameshvara Agama e três passagens são citações do Shvetashvatara Upanishad, ele próprio baseado nos Agamas.
- Já durante a dominação védica, cinco autores considerados santos shivaítas, os Arrivar, registraram provavelmente em antiga escrita dravidiana elementos da tradição pré-ariana em vinte e oito obras, das quais os Agamas posteriores são traduções num sânscrito grosseiro, e foi a um desses Arrivar que os quatro brâmanes mencionados no Chandogya Upanishad recorreram para obter ensinamentos.
- O conjunto dos Agamas constitui uma literatura independente, sem relação com os Vedas, cujos originais em antigo dravidiano se perderam, e nas versões posteriores foram inseridos elementos doutrinários e vocabulares para criar concordâncias aparentes com a religião védica, embora suas práticas rituais conflitem com os ritos védicos, apesar de um certo amálgama realizado ao longo dos séculos.
- Na prática atual do hinduísmo, os brâmanes utilizam, conforme as circunstâncias, o rito védico ou o rito tântrico estabelecido nos Agamas.
- Existem vinte e oito Agamas shivaítas e numerosos Agamas secundários (Upagamas), como os três que seguem o Kamikagama e os cinco que completam o Yogagama, e Agamas e Tantras fazem parte de um mesmo sistema, chamando-se em geral Agamas os textos que dão primazia ao culto de Shiva e Tantras os relativos ao culto da deusa, o shaktismo.
- Quem venera o princípio consciente do mundo sob forma masculina é shivaíta, e quem venera a potência divina sob aspecto feminino é shakta.
- Os Tantras classificam-se em quatro grupos, Shaiva, Pashupata, Saumya e Laguda, correspondentes a quatro seitas shivaítas, Shaiva, Pashupata, Kapalika e Kalamukha.
- O Mahabharata, que relata as lutas entre os invasores arianos e as populações autóctones do segundo milênio mas só foi redigido em sua forma atual durante o renascimento shivaíta, enumera como grandes tradições filosóficas e religiosas da Índia o Samkhya, o Yoga, o Pancharatra, o Veda e o Pashupata, de modo que a tradição védica já não ocupa lugar predominante e as demais estão ligadas ao shivaísmo, excluindo-se as seitas tidas como ateias, como o materialismo de Charvaka e o jainismo, e incluindo-se em princípio entre os Pashupata as numerosas seitas oriundas do shivaísmo.
- Restam poucos textos em antigas línguas dravidianas, sendo os principais as obras de uma espécie de clube de poetas tâmeis, o Sangam, que não são filosóficas nem religiosas mas contêm alusões à mitologia shivaíta, e cuja fase antiga, o Puram, menciona a destruição das três cidades, o pescoço azul de Shiva, seu terceiro olho e o crescente lunar que lhe orna a fronte.
- Mais tarde, quatro Nayanar, santos shivaítas medievais, Tirumular (cerca de 400-600), Sambandar e Appar (cerca de 650) e Sundarar (cerca de 800), deixaram obras em tâmil que fazem autoridade sobre o shivaísmo, sendo a mais importante o Tirumandiram de Tirumular, base do sistema filosófico chamado Shaiva-Siddhanta.
- A antiguidade dos textos reconstituídos dos Puranas, Tantras e Agamas foi contestada pelos partidários das origens arianas da civilização, mas a descoberta de paralelos sumérios e cretenses confirma sua autenticidade, chegando-se mesmo a constatar a identidade entre as plantas dos templos sumérios e as definidas nos Agamas para a construção dos templos shivaítas.
- Os Puranas contêm observações astronômicas que permitem datar o desenvolvimento da grande civilização proto-histórica da Índia, como a substituição de Sírius pelo sol na constelação do Caçador por volta de 5500 antes de Cristo, de Órion na constelação do Antílope por volta de 4500, dos Gêmeos entre 4500 e 3400, de Aldebarã no Touro por volta de 4000 e das Plêiades por volta de 2500, segundo a precessão dos equinócios, ciclo de 26.000 anos.
- A euforia shivaíta provocada por Lakulisha durou quase um milênio e foi depois interrompida, quando a Índia entrou de novo num período de conflitos provocados pelas invasões dos hunos e, em seguida, dos árabes islamizados.
- Os brâmanes arianos, que durante séculos haviam sido a classe intelectual dominante, procuraram apropriar-se das concepções filosóficas e científicas herdadas do shivaísmo, opondo-se a ele no plano religioso e vinculando seus conceitos, por hábil exegese, a uma pretensa tradição védica, e a partir do século VI célebres brâmanes apresentaram versões adaptadas do Samkhya, do Vaisheshika e dos demais sistemas.
- Retomando a linha jaino-budista, moralista e antirritualista, esses brâmanes criaram um movimento filosófico e religioso de tendência monista que pretendia vincular-se ao vedismo original, mas era profundamente influenciado pelo budismo e pelo islã, e Shankaracharya, Ramanuja e Madhava reinterpretaram os textos antigos e produziram os grandes comentários dos Vedas, Brahmanas e Upanishads, combatendo-se entre si, a ponto de Madhava chamar Shankaracharya de demônio enganador que falseara os Brahma Sutras para extraviar as almas.
- Paralelamente ao que ocorreu no Ocidente com o mitraísmo ou com o ensinamento de Simão, o Mago, discípulo de João Batista e rival de Jesus, os letrados arianos procuraram apagar os vestígios do ensinamento de Lakulisha e minimizar a importância dos textos recuperados, no que foram seguidos pelos indólogos modernos, indianos ou estrangeiros, de modo que a maioria dos Agamas e Tantras continua inédita, apenas fragmentos foram traduzidos e os ensinamentos de Lakulisha são conhecidos muitas vezes pelos escritos de seus adversários.
- A partir da época de Shankaracharya desenvolveu-se na Índia uma nova religião inspirada principalmente no jainismo e ligada ao culto de Vishnu, o vaishnavismo ou vishnuísmo, religião devocional, sentimental e puritana adequada a uma época perturbada pelo colapso dos valores provocado pelas invasões islâmicas, e os Vaishnava substituíram os jainistas em popularidade e influência, absorvendo muitas de suas crenças e práticas, inclusive a hostilidade ao shivaísmo e ao tantrismo.
- O que hoje passa pelo essencial das concepções filosóficas, religiosas e morais da Índia, em particular o Vedanta e a teoria do karma e da reencarnação, provém de um movimento filosófico situado entre os séculos VIII e XII, correspondente no Ocidente ao período posterior à queda do Império Romano, inspirado no jainismo, no budismo e depois em influências cristãs e islâmicas, e esse novo hinduísmo tem relação apenas teórica com o vedismo ao qual pretende ligar-se.
- O vishnuísmo foi profundamente influenciado pelo cristianismo, sobretudo pelo protestantismo, durante o período britânico, e os movimentos reformistas que buscaram apresentar o hinduísmo de forma adaptada aos preconceitos ocidentais, como o Brahmo Samaj de Ram Mohan Roy e Debendranath Tagore, o Arya Samaj de Dayananda Saraswati e as doutrinas de Vivekananda, Aurobindo e Tilak, pretendendo voltar à pureza de um vedismo mítico, apenas retomaram as concepções negativas do jaino-budismo, cuja forma popular se ligara ao vishnuísmo, religião da classe comerciante e do novo poder político, em particular de Gandhi.
- São essas ideias que supostos gurus ensinam hoje sob o nome de hinduísmo em ashrams onde se perpetua a tradição de Arihat, e o exemplo mais evidente da influência jainista sobre o vishnuísmo tardio é a filosofia de Gandhi, cuja fé na ahimsa, no ascetismo, na limpeza e no vegetarianismo provém de seu meio vishnuíta do Guzerate, antigo centro de influência jainista, muito mais que do hinduísmo.
- Na Índia, como em outros lugares, as preocupações sociais e econômicas e o puritanismo substituem na religião oficial a busca de comunicação com as potências celestes por meio dos ritos e da experiência mística, e uma moral do trabalho, da abstinência, da produtividade e do conformismo cívico tende a tomar o lugar de uma moral do amor, do êxtase, da felicidade e da liberdade.
- A predominância das concepções moralistas marca o declínio de uma humanidade entregue ao materialismo e conduz ao desespero, ao isolamento, à miséria e à droga aqueles que não têm força para se opor a ela.
- Ao longo de toda a história do Kali Yuga trava-se o conflito entre o dionisismo místico, erótico, violento, criativo, orgiástico, ecológico e protetor da natureza e dos animais e o moralismo urbano, explorador, coercitivo e puritano, estando as grandes épocas de criatividade artística e exaltação mística ligadas à predominância das tendências shivaítas ou dionisíacas, e o progresso econômico, a ordem social e o poder nefasto dos Estados e tiranos sendo de caráter vishnuíta-apolíneo.
- No momento em que Lakulisha provocava o renascimento shivaíta, nasciam em outros lugares movimentos semelhantes, como o mitraísmo no Ocidente e, no Oriente Médio, Simão, o Mago, e Isha, Jesus, cuja mensagem anticonvencional e libertadora se aproxima da do shivaísmo.
- Jesus opõe-se à mentalidade mercantil e à casta sacerdotal dos fariseus, expulsa os mercadores do templo, despreza os bens materiais, rejeita o puritanismo, defende a prostituta e a mulher adúltera, nunca condenou o amor físico e provavelmente não ignorou sua forma platônica, cercou-se de homens do povo e evoca na Ceia o rito do sacrifício e o consumo da vítima, enquanto sua transfiguração e a transubstanciação da Virgem são conceitos shivaítas.
- Jesus nasceu num estábulo, como Gosala, junto ao boi, animal sagrado, e ao asno, animal impuro, e seu ensinamento, mal conhecido, foi desviado logo após seu desaparecimento por Paulo de Tarso, verdadeiro anticristo, que desnaturou sua mensagem até torná-la o exato oposto, dando origem a uma religião de Estado puritana e tirânica que se opôs aos primeiros gnósticos e se apoderou pouco a pouco do poder político.
- No judaísmo e no islã, a herança dionisíaca manteve-se por muito tempo nas tradições ocultas da Cabala e do sufismo, mas degenerou progressivamente até tornar-se um mero jogo intelectual.
- Do ponto de vista exterior, no topo da hierarquia social e cultural da Índia atual estão os brâmanes arianos, alguns grandes letrados, muitos funcionários ou políticos e alguns artistas, seguidos das famílias principescas e dos guerreiros empregados no exército e em ofícios que excluem o artesanato e o comércio, enquanto o poder real pertence à poderosa casta dos mercadores, industriais e comerciantes, a burguesia da Índia moderna.
- Duas classes intermediárias de origem estrangeira consideram-se superiores ao conjunto da população, os muçulmanos de um lado e os europeus e cristãos assimilados de outro, e todos esses invasores tratam os pré-arianos, que constituem a grande maioria da população, como nativos no sentido colonialista, destinados aos ofícios manuais, artesanais e industriais e ao trabalho agrícola.
- Os pré-arianos formam na realidade uma civilização paralela, embora não oficial, na qual se mantiveram dinastias de sacerdotes, príncipes e mercadores, e os príncipes frequentemente falsificaram suas genealogias para se atribuir origens arianas, sem contudo se casarem fora de seu clã.
- As corporações de arquitetos, escultores, pintores e músicos fazem parte das castas artesanais, e é entre essas populações pretensamente inferiores que se recruta a maioria dos iniciados das ordens monásticas que transmitem a tradição oculta do antigo saber, às vezes assimilando membros de outras origens.
- O mundo dos ascetas, dos Sadhus e dos Sannyasis desempenha um papel importante, porém secreto, no hinduísmo atual, e a tradição do shivaísmo e do tantrismo ocupa nas práticas religiosas dos indianos de todas as castas um lugar muito mais importante que a tradição védica, embora na maioria das vezes finjam ignorá-lo.
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