3 Xivaísmo
DANIÉLOU, Alain. La Fantaisie des dieux et l'aventure humaine. Monaco: Éditions du Rocher, 1985.
A tradição xivaíta
I Os meios do conhecimento
Os Darshanas ou abordagens
1. O renascimento xivaíta, situado no início da era cristã, acompanha o reaparecimento de concepções filosóficas, cosmológicas e científicas que, ao lado dos textos históricos e religiosos, recuperam um patrimônio de conhecimentos do mundo antigo mantido em segredo por longo tempo.
2. Além dos tratados especializados em astronomia, matemática, medicina e arquitetura, o pensamento filosófico e cosmológico organiza-se em seis grandes sistemas denominados Darshanas, entendidos como pontos de vista ou abordagens distintas da realidade.
3. A diversidade de abordagens permite avaliar criticamente a observação por meio de contrastes e contradições, organizando os sistemas em pares de investigação experimental e elaboração racional, dos quais o Vaisheshika e o Nyaya examinam o mundo aparente e impermanente mediante o estudo do particular e a lógica.
4. O Samkhya e o Yoga investigam os aspectos permanentes da realidade e as leis universais que regem o cosmos e a vida, dedicando-se respectivamente ao macrocosmo, como natureza do universo, e ao microcosmo, como mundo interior do ser vivo.
5. A coordenação e a interdependência entre Samkhya e Yoga constituem instrumentos de um conhecimento superior que distingue o ser humano dos demais seres vivos, sendo o Yoga uma exploração de si mesmo e do corpo particular em que reside a consciência.
6. O Yoga analisa as estruturas interiores e desenvolve suas potências latentes para ultrapassar eventualmente os limites sensoriais e as condições relativas de espaço e tempo, enquanto o Samkhya transpõe esses conhecimentos ao plano universal e estabelece correspondências entre o ser individual e o Homem Universal.
7. Os dois últimos Darshanas, reunidos sob a denominação Mimamsa, investigam a hierarquia da criação e as relações entre seres humanos, espíritos e deuses, cabendo à Purva Mimamsa examinar experimentalmente a eficácia dos ritos, das invocações e das preces pelos resultados de seu contato com o mundo celeste.
8. A Uttara Mimamsa abrange a cosmogonia, a teologia e o conhecimento das hierarquias celestes e do mundo invisível, integrando à investigação do sobrenatural as intuições místicas, as percepções mediúnicas e as diversas formas de relação entre o ser humano e os espíritos ou deuses.
9. A articulação entre observações sensíveis e percepções extrassensoriais obtidas pelo Yoga permite elaborar uma compreensão geral do mundo, do ser humano e do destino do universo, cuja realidade transcendente se deixa entrever justamente pelas divergências entre abordagens e pela coexistência dos contrários.
10. A teoria pré-ariana dos Darshanas, cujas concepções atravessam diferentes etapas da civilização indiana, recebeu uma reconstituição em sânscrito somente durante o renascimento xivaíta, após o declínio do budismo e do vedismo.
11. O Manimekhalai, romance do século IV escrito em tâmil antigo, conserva um primeiro resumo dessas concepções e apresenta também o materialismo ateu do Lokayata, associado a Brihaspati e Charvaka, juntamente com as filosofias jainista e budista, considerando o budismo uma derivação do jainismo.
12. A classificação filosófica do Manimekhalai reúne o materialismo de Brihaspati, o budismo derivado do jainismo, a cosmologia de Kapila, a lógica de Akshapada ou Gautama, a física de Kanada e a metafísica de Jaimini, vinculando esses sistemas a mestres anteriores à fixação escrita do sânscrito.
