3.2 Vaisheshika e Nyaya
DANIÉLOU, Alain. La Fantaisie des dieux et l'aventure humaine. Monaco: Éditions du Rocher, 1985.
A tradição xivaíta
Vaisheshika e Nyaya
Ciência e lógica
1. As concepções do Vaisheshika e do Nyaya foram transmitidas por seitas monásticas, especialmente os Pashupatas e os Kalamukhas, cuja mediação lhes conferiu, em certos casos, uma interpretação religiosa.
2. A transformação da teoria materialista do Vaisheshika em uma espécie de religião demonstra que a crença absoluta na realidade científica e a quase divinização da ciência não constituem fenômenos exclusivamente contemporâneos.
3. O Vaisheshika e o Nyaya integram a filosofia xivaíta, conforme a classificação preservada no comentário de Gunaratna à exposição dos seis sistemas filosóficos de Haribhadra.
4. A ligação entre lógica e tradição xivaíta manifesta-se também em Bhasarvajna, responsável tanto por uma exposição do Nyaya quanto por uma obra dedicada à doutrina dos Pashupatas.
5. A veneração de dezoito encarnações de Shiva, culminando em Lakulisha, constitui uma expressão da vinculação religiosa dos adeptos do Nyaya.
6. A origem xivaíta dos Darshanas era reconhecida por filósofos medievais como Shankaracharya, que atribuía aos seguidores de Shiva as doutrinas do Vaisheshika e do Nyaya ao discutir a concepção do princípio divino como causa operante do mundo.
O Vaisheshika, o método experimental
1. O Vaisheshika investiga as particularidades do mundo manifestado e impermanente mediante observação sensorial, articulando-se à lógica para empregar raciocínio, dedução, hipótese e experimentação na análise de uma realidade caracterizada pelo movimento, pela energia e por fenômenos de gravitação e pulsação.
2. A análise das observações e de suas regularidades permite deduzir princípios gerais, enquanto instrumentos ampliam o alcance dos sentidos sem eliminar suas limitações fundamentais, pois o conhecimento assim obtido permanece relativo às condições humanas de percepção e não alcança a realidade em si.
3. O desenvolvimento de capacidades psíquicas pelo Yoga pode acrescentar elementos à observação e permitir percepções além das limitações relativas de dimensão e tempo, sendo essas faculdades consideradas possibilidades do organismo físico, e não manifestações ocultas.
4. A impossibilidade de demonstrar uma divindade pela observação do mundo perceptível exige que a investigação científica permaneça ateia em seu método, distinguindo conhecimento e crença e recusando a interferência de convicções religiosas ou morais na análise dos fenômenos.
5. O materialismo do Lokayata, associado ao Vaisheshika e defendido por Charvaka, admite como evidência apenas a percepção direta, considera eterna somente a matéria e entende pensamento e consciência como efeitos de suas combinações.
6. A negação dos deuses e da sobrevivência após a morte integra a doutrina materialista atribuída aos Ajivikas e a Makkhali Gosala, cujos ensinamentos encontram uma exposição resumida no Manimekhalai.
7. A consciência e a sensação resultam da combinação de elementos e desaparecem com sua desagregação, enquanto os corpos e objetos são constituídos por átomos permanentes, indivisíveis e indestrutíveis, cujos diferentes agrupamentos produzem as propriedades perceptíveis da matéria sem alterar a identidade de seus componentes.
8. Os átomos isolados escapam à percepção comum, mas tornam-se visíveis quando reunidos em elementos, assim como um único fio de cabelo pode permanecer imperceptível ao entardecer enquanto uma mecha é facilmente distinguida.
9. As combinações atômicas são ordenadas em seis formas cromáticas associadas a graus de excelência, culminando no branco puro como condição de libertação e término do sofrimento, enquanto a exposição sânscrita do Vaisheshika atribuída a Kanada chegou por meio de uma versão posteriormente adaptada a concepções bramânicas.
10. A teoria de Kanada situa no princípio do universo uma energia invisível e distingue nove substâncias fundamentais, compreendendo espaço, tempo, consciência, pensamento e os cinco elementos, dos quais terra, água, ar e fogo possuem constituição atômica.
11. O jainismo e o budismo originário receberam influência significativa do Vaisheshika e das concepções materialistas de Gosala, Charvaka e outros filósofos dessa tradição.
O Nyaya (lógica)
1. O Nyaya constitui o método intelectual correspondente ao Vaisheshika, coordenando os dados da observação por analogias e deduções para tornar possível a formulação de conclusões.
2. A análise lógica atribuída a Gautama distingue uma proposição, a investigação de uma causa, um exemplo, uma relação e precedentes, organizando os componentes do raciocínio e os procedimentos de demonstração.
3. Os meios de prova reconhecidos pelo Nyaya constituem procedimentos distintos pelos quais os dados podem adquirir validade para o conhecimento.
4. A percepção direta, denominada Pratyaksha, fundamenta o conhecimento na evidência imediatamente acessível à observação.
5. A inferência dedutiva, denominada Anumana, permite alcançar conclusões mediante relações estabelecidas entre aquilo que é observado e aquilo que dele pode ser deduzido.
6. A analogia, denominada Upamana, estabelece conhecimento pela semelhança entre coisas que apresentam características comparáveis.
7. A palavra, denominada Shabda, reconhece como meio de conhecimento a autoridade dos ensinamentos transmitidos pelos predecessores.
8. O progresso científico depende da acumulação de conhecimentos ao longo das gerações, tornando indispensável a continuidade da transmissão do saber.
9. O Samkhya admite percepção direta, inferência e testemunho como meios de prova, acrescentando a experiência como elemento de sua investigação.
10. A Mimamsa reconhece também a ausência de provas contrárias e a presunção, enquanto exemplos como a corda confundida com uma serpente mostram que uma causa imaginária pode produzir efeitos reais e exigem distinguir meios válidos de conhecimento de suas aparências enganosas.
11. A experiência direta, denominada Katchi ou Pratyaksha, compreende as percepções dos cinco sentidos, cujos contatos são transmitidos por energias vitais ao pensamento e permitem apreender com clareza localização, forma, espécie, qualidade e efeitos.
12. A inferência, denominada Karudal ou Anumana, possibilita conhecer aquilo que não é diretamente percebido mediante conclusões extraídas de indícios visíveis, distinguindo-se em três modalidades.
13. A dedução fundada na relação habitual entre fenômenos permite inferir a presença de um deles pela percepção do outro, como ocorre ao reconhecer um elefante pelo som de seu barrito.
14. A inferência que parte do efeito para a causa permite concluir a ocorrência de chuva pela observação de cursos de água que alimentam um rio.
15. A inferência que parte da causa para o efeito permite antecipar um acontecimento, como a previsão de chuva a partir da presença de nuvens.
16. A comparação, denominada Upama, aproxima coisas por qualidades semelhantes e torna uma característica compreensível por referência a outra, como na associação entre rapidez e vento.
17. O ensinamento dos antigos, denominado Agama, fundamenta a aceitação de realidades não diretamente observadas, como a existência do céu e do inferno.
18. A indicação indireta, denominada Arthapatti, permite completar o sentido de uma afirmação ou deduzir uma condição necessária, compreendendo que um povoado no Ganges fica em sua margem ou que alguém corpulento que não come durante o dia se alimenta à noite.
19. O bom senso, denominado Iyalbu ou Svabhava, interpreta as palavras segundo o contexto prático, reconhecendo, por exemplo, que o bastão solicitado por um condutor de elefantes corresponde ao instrumento empregado para guiar o animal.
20. A tradição, denominada Aitiham, transmite afirmações recebidas coletivamente, como a presença de um espírito em determinada árvore.
21. A não existência, denominada Abhava, exige distinguir uma ausência localizada de uma negação universal, podendo referir-se à ausência de algo em outra coisa, ao desaparecimento por destruição ou à inexistência absoluta.
22. A implicação, denominada Mitchi ou Parishesha, permite deduzir uma consequência complementar, como a derrota de Ravana a partir da afirmação de que Rama venceu a batalha.
23. A probabilidade, denominada Ullaneri ou Sambhava, permite inferir uma condição explicativa a partir de um fenômeno, como a presença de um ímã diante do movimento de um fragmento de ferro.
24. As aparências de prova compreendem oito formas de conhecimento aparentemente válido cuja aceitação exige cautela para evitar conclusões enganosas.
25. A experiência sensorial pode induzir ao erro, de modo que a percepção imediata da existência de uma coisa não assegura, por si só, a correção do conhecimento.
26. A falsa aparência consiste em atribuir a um objeto a identidade de outro, como na confusão entre madrepérola e prata.
27. A incerteza manifesta-se quando as condições perceptivas não permitem decidir entre interpretações, como distinguir uma pessoa de um tronco de árvore na penumbra.
28. A afirmação arbitrária transforma uma percepção duvidosa em certeza injustificada, como decidir sem fundamento que um tronco de árvore é uma pessoa.
29. O erro de avaliação impede reconhecer adequadamente a natureza e o perigo de uma situação, como não perceber que o animal que se aproxima é um tigre.
30. A expressão composta pode produzir uma entidade inexistente a partir de elementos reais, como ocorre com os chifres de uma lebre, cuja associação verbal não corresponde a uma realidade.
31. A demonstração do evidente apresenta como resultado de prova aquilo que já se encontra diretamente estabelecido, como a capacidade do fogo de dissipar a névoa.
32. A fé apoia a aceitação de uma afirmação no testemunho alheio, como no reconhecimento de determinadas pessoas como pai e mãe sem comprovação independente.
Os aforismos do Nyaya
1. A exposição do Vaisheshika atribuída a Kanada inclui aforismos do Nyaya que condensam relações lógicas e limitações do julgamento por meio de situações concretas.
2. O cego e o pardal representam a incapacidade de realizar uma tarefa sem os recursos necessários, indicando que um insensato não pode executar aquilo que exige esforço até de uma pessoa esclarecida.
3. O cego que conduz outros cegos exprime a disposição de seguir uma autoridade incapaz de orientar, permitindo compreender a submissão a líderes que encaminham seus seguidores ao desastre.
4. A busca da estrela polar por referência a uma estrela mais brilhante ilustra o percurso que parte de uma evidência aproximativa para alcançar uma verdade mais sutil.
5. O bosque de ashoka mostra que uma escolha entre possibilidades de interesse equivalente não comprova uma preferência particular, assim como o local escolhido por Ravana para aprisionar Sita não demonstra predileção por aquelas árvores.
6. A comparação entre a pedra e o torrão de terra evidencia a relatividade das avaliações, pois algo pode parecer duro ou macio conforme a referência, assim como uma pessoa pode ser importante para seus inferiores e insignificante para seus superiores.
7. O desabrochar dos brotos de uma árvore permite inferir um acontecimento semelhante em outras da mesma espécie, expressando a correspondência entre fenômenos locais e processos mais amplos.
8. A morte de um corvo pela queda de um coco no instante de sua passagem ilustra a possibilidade de coincidências improváveis, sem que sua ocorrência implique uma conexão necessária entre os acontecimentos.
9. A procura do dente de um corvo representa o desperdício de tempo em uma investigação cujo objeto é impossível e cuja realização não pode produzir o resultado esperado.
10. A crença de que o corvo desloca um único olho entre os lados da cabeça fornece uma imagem para a ambiguidade de palavras que, em um mesmo documento, comportam duas interpretações.
11. O movimento da roda de água, cujos recipientes alternadamente se enchem e se esvaziam, representa as vicissitudes da existência e a alternância das condições da vida.
12. O desvio noturno que termina diante da alfândega ao amanhecer ilustra o fracasso de estratégias de evasão, pelas quais se acaba encontrando justamente aquilo que se pretendia evitar.
13. A forma de uma letra produzida casualmente por um verme em uma página demonstra que uma aparência significativa pode resultar do acaso, advertindo contra evidências enganosas em julgamentos.
14. A destruição pelos ratos de um bastão ao qual estava preso um pão permite inferir a destruição deste último, expressando a probabilidade de que acontecimentos relativos a uma pessoa atinjam outra estreitamente ligada a ela.
15. A lâmpada colocada na soleira ilumina simultaneamente o interior e o exterior, mostrando que uma mesma coisa pode cumprir duas finalidades ao mesmo tempo.
16. A escolha do próprio filho pelo barbeiro incumbido de encontrar o rapaz mais belo do reino ilustra a tendência de superestimar aquilo que se possui e de subordinar o julgamento ao apego pessoal.
17. A preferência por evitar a lama em vez de limpar-se depois de nela entrar indica que prevenir um comprometimento é mais prudente do que confiar na possibilidade de justificá-lo posteriormente.
18. A tentativa de moer uma farinha já preparada representa o esforço inútil de realizar novamente aquilo que se encontra concluído.
19. A relação entre semente e broto exprime uma causalidade recíproca, na qual duas coisas se produzem sucessivamente e assumem uma diante da outra as funções de causa e efeito.
20. A relação entre o ferro e o ímã exemplifica a capacidade de uma coisa atrair outra, estabelecendo uma ligação pela ação exercida entre elas.
21. A relação entre fogo e fumaça exprime a dependência do efeito em relação à causa, permitindo inferir um princípio produtor a partir de sua manifestação.
22. O verme criado no veneno e insensível a seus efeitos representa a adaptação ao meio de origem, pela qual pessoas formadas em ambientes criminosos podem sentir-se à vontade nessas condições.
23. A impossibilidade de controlar posteriormente a árvore venenosa que se plantou ilustra a propagação de ideias nocivas, cujos efeitos escapam ao domínio de quem as lançou.
24. A sucessão das ondas representa a substituição inevitável de indivíduos e movimentos sociais, mostrando que nenhuma posição permanece indefinidamente ocupada pelo mesmo agente.
25. O pedido que reúne marido, filhos, riquezas e abundância em um único desejo exemplifica uma exigência excessiva que compromete sua própria realização e termina sem obter resultado.
26. A tentativa de alcançar a Lua subindo em uma árvore próxima representa a ambição que confunde a aparência de proximidade com a possibilidade efetiva de atingir um objetivo.
27. O leão que avança na caça e olha para trás representa aqueles que, ao iniciar uma nova empreitada, permanecem atentos às oportunidades ou aos interesses deixados no caminho.
28. A comparação entre fabricar uma agulha e uma chaleira recomenda iniciar pela tarefa mais simples quando há várias atividades a realizar, organizando o esforço segundo a dificuldade relativa.
29. A avaliação do cozimento do arroz por um único grão ilustra a possibilidade de conhecer o conjunto mediante um exemplar representativo, princípio também aplicado às pesquisas de opinião.
30. A estabilidade de um pilar obtida por golpes sucessivos representa a força da repetição na imposição de uma ideia, cuja aceitação pode aumentar independentemente de sua verdade.
31. A relação entre senhor e servidor exprime a dependência recíproca entre pessoas e coisas, pois aquele que sustenta o outro recebe dele os meios que também asseguram sua própria manutenção.
