3.4 Homem
DANIÉLOU, Alain. La Fantaisie des dieux et l'aventure humaine. Monaco: Éditions du Rocher, 1985.
A tradição xivaíta
A exploração do universo interior do homem
O ser de carne e o ser de saber
1. O ser humano participa da criação como ator e espectador, transmitindo as características de sua espécie pelo corpo sexual ou transmigrante e acumulando, pela consciência e pela linguagem, um patrimônio de conhecimentos que permite compreender progressivamente o espetáculo do mundo e desempenhar uma função coletiva.
2. A impermanência individual não impede a continuidade de duas formas paralelas de transmissão, pois a cadeia genética conserva características físicas e mentais, enquanto a cadeia iniciática transmite a compreensão do cosmos e de suas leis, sustentando respectivamente a evolução corporal e cultural.
3. O desenvolvimento da espécie humana e a ampliação do conhecimento resultam de processos prolongados, nos quais a evolução do organismo acompanha, em um percurso paralelo, o progresso do saber.
4. A recepção e a transmissão do conhecimento exigem uma qualificação que reúne harmonia física, aptidões intelectuais e virtudes morais vinculadas à herança genética, fazendo o destino depender tanto de uma linhagem corporal que oferece um receptáculo adequado quanto de uma linhagem iniciática que o utiliza.
5. O progresso e a transmissão do conhecimento predominam na determinação do destino humano, conferindo à continuidade do saber uma importância decisiva na realização de sua função na criação.
O corpo sexual (Linga-sharira) ou corpo transmissível
1. O corpo sexual designa o conjunto das características transmissíveis do ser vivo, contidas na semente como um programa de desenvolvimento realizado na matéria feminina, correspondendo à imagem cosmológica do falo divino que fecunda Prakriti, a substância do universo.
2. A coluna envolvida por uma serpente simboliza a articulação dos princípios da vida, representando o falo ou Purusha como plano masculino e a espiral ou Prakriti como substância feminina que permite sua realização.
3. As características morais, intelectuais e espirituais do ser humano mantêm uma ligação profunda com sua constituição física, impedindo que sejam compreendidas como dimensões inteiramente separadas do organismo.
4. O corpo sexual, entendido como plano ou modelo de uma espécie, precede o desenvolvimento físico de seu portador e conserva uma continuidade que lhe permite migrar e evoluir.
5. O funcionamento do corpo sexual depende de sua encarnação, embora ele permaneça distinto do organismo particular, sendo orientado por um dharma ou finalidade que persiste na passagem de um corpo a outro.
6. A continuidade do corpo sexual exige suportes materiais sucessivos e impermanentes, assim como uma imagem necessita de uma superfície e uma sombra depende de um objeto que a produza.
7. A constituição do corpo sexual é predominantemente inata, mas admite a incorporação limitada de novos elementos que podem participar de sua transformação.
8. As capacidades, tendências e formas de inteligência são consideradas inatas, embora possam ser modificadas pelo conhecimento e pela conformidade ao papel da espécie, enquanto o organismo físico e mental desenvolvido pela alimentação constitui um suporte perecível dessa herança.
9. A realização do programa transmissível depende das condições materiais que alimentam a semente, primeiro no ventre materno e depois pela terra, concebida como princípio feminino e mãe nutridora cuja potência determina a qualidade do desenvolvimento corporal.
10. O corpo sexual ou transmigrante realiza sua finalidade na criação por encarnações possibilitadas pela natureza, assumindo sucessivamente diferentes papéis como um ator que passa de uma representação a outra.
A natureza do corpo transmigrante
1. O corpo transmigrante reúne treze componentes, compreendendo o pensamento discursivo, a inteligência, a noção de eu, os cinco modos de percepção e os cinco princípios dos elementos ou estados da matéria.
2. O conjunto dessas faculdades constitui o órgão interno, denominado antahkarana, que reúne as funções pelas quais o ser vivo organiza sua atividade interior.
3. A discussão, a decisão, a memória e o orgulho ou sentido de identidade constituem atividades do órgão interno, articulando elaboração mental, escolha, conservação de experiências e afirmação do eu.
4. Buddhi designa a inteligência responsável por registrar, selecionar e conservar os dados perceptivos, incluindo a memória entre suas funções.
5. Manas designa a faculdade mental que discute, combina e emprega os dados acumulados pela inteligência, tornando possível o pensamento discursivo e a formulação de ideias.
6. A inteligência e a faculdade mental pertencem à organização física do corpo e possuem estruturas transmissíveis geneticamente, embora seus conteúdos, especialmente a memória, sejam em geral destruídos com a morte do organismo.
7. A condição corporal de Buddhi e Manas implica que essas faculdades deixam de existir com o corpo físico do qual fazem parte.
8. A consciência participa da atividade do órgão interno sem pertencer propriamente ao corpo transmigrante, pois permanece inseparável da consciência universal, assim como o espaço contido em uma urna nunca se distingue realmente do espaço exterior e volta a manifestar essa unidade quando o recipiente se rompe.
9. A consciência individual não governa os processos celulares autônomos do organismo, limitando-se principalmente à orientação de sua vida social, enquanto o eu constitui uma associação temporária de faculdades que se dissolve com a morte, podendo alguns conteúdos adquiridos marcar excepcionalmente a memória genética e produzir impressões de vidas anteriores.
10. A interrupção da descendência impede a continuidade da linhagem ancestral e acompanha o desaparecimento do eu na morte, embora uma associação temporária com elementos sutis possa conservar manifestações identificadas como fantasmas.
11. O término de uma linhagem devolve os componentes sutis às suas fontes universais, assim como a matéria corporal retorna à terra, enquanto a possibilidade, a duração e o destino da sobrevivência das faculdades pessoais constituem pontos de divergência profunda entre religiões e sistemas filosóficos.
