4 Homem social
DANIÉLOU, Alain. La Fantaisie des dieux et l'aventure humaine. Monaco: Éditions du Rocher, 1985.
O homem social
O indivíduo e a espécie
O indivíduo e a espécie
1. A vida depende da destruição de outros seres vivos e da transformação posterior do próprio organismo em alimento, fazendo do eu vivente simultaneamente aquele que devora e aquele que é devorado.
2. O indivíduo é um portador impermanente de um programa transmissível cuja continuidade pertence à espécie, participando do jogo divino como elo entre gerações e adquirindo importância pela conservação e pelo desenvolvimento da herança que recebe e transmite.
3. A duração da espécie depende da maneira como seus integrantes cumprem a função que lhes corresponde, em conformidade com uma lei de existência que pode assumir formas físicas, sociais ou morais.
4. O progresso humano corresponde ao aperfeiçoamento funcional dos diferentes elementos e variedades que compõem a espécie, tornando mais eficaz sua participação no conjunto.
5. A realização individual consiste em desempenhar plenamente o papel atribuído pela natureza, de modo que harmonia, utilidade e perfeição dependem da adequação entre as aptidões do ser e sua função.
O clã (Jati)
1. A organização em clãs é concebida como expressão de modelos hereditários associados a comportamentos e funções específicos, estabelecendo uma analogia entre a sociedade e o organismo na qual o abandono da função atribuída ameaça a integração do conjunto.
2. A transmissão da vida é investida de caráter ritual por conservar uma linhagem vinculada a arquétipos divinos, exigindo uma escolha dos parceiros e das circunstâncias da concepção que asseguraria a adequação do descendente à continuidade ancestral.
3. A criança é concebida como receptáculo da herança paterna e deveria reproduzir, tanto quanto possível, as características do pai para continuar sua posição na evolução da linhagem.
4. A mistura entre castas ou grupos raciais é interpretada como uma inadequação entre herança e receptáculo que comprometeria as qualidades necessárias à transmissão cultural e conduziria ao desaparecimento das civilizações.
5. O aperfeiçoamento das linhagens é associado à preservação e ao aprofundamento de diferenças hereditárias, enquanto a mistura genética é apresentada como uma possível ruptura da harmonia entre constituição física, capacidades intelectuais e características morais.
6. A dissolução dos vínculos familiares e a desorganização das funções sociais são atribuídas à mistura das linhagens, que produziria um desencontro entre aptidões e ocupações característico da decadência prevista para o fim do Kali Yuga.
7. As doenças físicas podem interromper a continuidade genealógica, enquanto as deformações do pensamento e o emprego inadequado do patrimônio de conhecimentos comprometem a função essencial do ser humano como transmissor do saber.
8. A sexualidade animal é associada a períodos reprodutivos determinados e à continuidade de cada espécie, sendo a ausência de cruzamentos apresentada como característica da ordem natural.
9. A dupla condição humana permite empregar a energia sexual tanto na reprodução quanto no desenvolvimento intelectual, mágico e espiritual, distinguindo a diversidade das experiências eróticas do controle exigido quando a emissão da semente se destina à procriação.
10. O casamento é definido como uma responsabilidade ritual de continuidade da linhagem, e não como simples autorização sexual, fundamentando restrições à reprodução entre grupos distintos e estendendo essa lógica de preservação hereditária a medidas extremas, inclusive ao infanticídio.
A procriação
1. Os ritos de procriação distinguem a experiência individual do prazer da união destinada à continuidade da espécie, venerando os órgãos como imagens de princípios divinos e atribuindo funções diferentes à contribuição masculina e à realização feminina.
2. A procriação constitui o rito fundamental de participação na criação cósmica, do qual os demais sacrifícios seriam representações simbólicas, como a manifestação do fogo masculino no receptáculo do altar associado ao princípio feminino.
3. A união sexual é representada como um sacrifício no qual corpo, órgãos, carícias e prazer correspondem aos componentes do fogo ritual, culminando na oferta da semente e no nascimento de uma criança.
4. As etapas do encontro amoroso são relacionadas à sequência dos hinos e da consagração ritual, fazendo da compreensão dessa correspondência uma forma de renovação do participante, associada à longevidade, à prosperidade e à continuidade da descendência.
5. A concepção é vinculada a purificações, preparados vegetais e combinações de influxos lunares, solares e elementares, aos quais se atribuem diferentes resultados gestacionais e características da criança.
6. A recitação mental de um mantra durante a união identifica o ato à relação entre Shiva e Shakti, transformando simbolicamente o orgasmo em uma operação sacrificial.
7. As fórmulas rituais representam a união como oferta de elementos no fogo sagrado, podendo variar conforme a tradição e exigir dos seguidores da deusa a recitação de seu mantra específico.
As castas (Varna)
1. A sociedade humana é concebida como um organismo cujas partes exercem funções distintas, atribuindo às linhagens o desenvolvimento de aptidões que permitiriam uma organização harmoniosa e adequada à finalidade da espécie na criação.
2. A diferenciação funcional das linhagens é comparada à especialização dos órgãos, supondo que aptidões cultivadas se tornem hereditárias e fundamentem a preservação de identidades sociais e de patrimônios culturais particulares.
3. As virtudes são consideradas parcialmente transmissíveis por sua ligação com características hereditárias, exigindo cultivo e aperfeiçoamento durante a existência individual.
4. O dharma consiste em empregar e desenvolver as condições físicas e mentais recebidas ao nascer para realizar plenamente a função correspondente à evolução da linhagem.
5. O culto dos ancestrais manifesta-se sobretudo no respeito e na transmissão do patrimônio genético e cultural recebido das gerações anteriores.
6. A singularidade de cada indivíduo exige reconhecer suas características e sua posição social para desenvolver suas possibilidades, embora a realização exterior e a interior possam divergir profundamente, permitindo que pessoas de profissões humildes alcancem autoridade espiritual superior à de reis e sacerdotes.
7. As circunstâncias do nascimento são relacionadas ao estágio de desenvolvimento da linhagem e às condições de seu progresso, concebendo os diferentes grupos humanos como participantes de momentos distintos da evolução da espécie.
8. A permanência na condição de nascimento é apresentada como favorável à realização da própria função, restringindo mudanças de estado e a tentativa de assumir deveres atribuídos a outros.
9. A hierarquia espiritual pode inverter a hierarquia social, pois, no Kali Yuga, a humildade e a dedicação ao trabalho favoreceriam mulheres e trabalhadores, enquanto as exigências associadas a príncipes e brâmanes tornariam sua realização especialmente difícil.
10. A origem humilde de numerosos poetas místicos e santos é associada à maior facilidade de afastar-se de responsabilidades sociais e rituais para dedicar-se à vida interior.
11. A existência de uma sociedade orgânica depende da divisão de poderes e funções, pela qual suas diferentes partes se articulam sem concentrar todas as atividades em um único grupo.
12. O surgimento das cidades teria exigido um sistema de cooperação entre grupos que preservasse suas identidades, tradições e conhecimentos enquanto participavam de uma civilização comum.
13. A divisão das antigas cidades em quatro setores separados por avenidas em cruz correspondia à distribuição espacial das funções dos letrados, soldados, comerciantes e artesãos.
14. A noção de bairro ou quartier conserva a lembrança dessa organização urbana em partes vinculadas à distribuição das funções sociais.
A linhagem (Gotra)
1. As linhagens funcionais são relacionadas aos quatro períodos da humanidade, abrangendo populações coletoras, guerreiros, agricultores, comerciantes e artesãos, cuja transmissão hereditária compõe o organismo social responsável pela conservação da cultura e do conhecimento.
2. A transmissão hierarquizada do saber e dos ritos permaneceu nas tradições xivaítas e tântricas entre populações não arianas, apesar de sua redução coletiva à condição subordinada pelos conquistadores.
3. A existência de sacerdotes não brâmanes nos templos do linga e a alternância de serviços entre grupos sacerdotais demonstram a preservação de funções religiosas fora do monopólio bramânico ariano.
4. A realeza é vinculada ao segundo período da humanidade e a uma tradição iniciática guerreira distinta da sacerdotal, cuja destruição na Índia é atribuída a Parashurama e associada à ascensão de populações sedentárias.
5. O terceiro período acompanha a formação de linhagens agrícolas e comerciais que sustentam instituições culturais, religiosas e políticas, favorecendo a urbanização e uma religião normativa da cidade contraposta à liberdade dionisíaca.
6. O jainismo é associado à classe comerciante e ao período do Dvapara Yuga, enquanto religiosidade sentimental e puritanismo são apresentados como tendências persistentes desse grupo e de formas modernas do vixnuísmo.
O meio popular
1. As classes populares e artesanais preservam a tradição oculta por sua ligação com espíritos, magia, festas e lugares sagrados, constituindo uma proteção contra o intelectualismo e a dominação das religiões urbanas.
2. A continuidade da tradição manifesta-se em festas, objetos e espaços sagrados que permanecem apesar das mudanças de nome ou interpretação, assim como em práticas extáticas e místicas conservadas pela religião popular.
3. Os meios artesanais e camponeses ofereceram abrigo às tradições iniciáticas durante crises históricas, permitindo que ascetas errantes preservassem formas superiores de conhecimento ligadas ao xivaísmo, ao tantrismo e ao Yoga.
4. A associação entre paganismo e vida camponesa exprime a conservação popular de crenças e práticas milenares, abandonadas pelas classes urbanas à medida que estas se afastavam do saber antigo.
A coexistência
1. A integração de conquistadores e migrantes exige reconhecer seus grupos linguísticos, religiosos e profissionais, associando-os às funções sociais existentes sem destruir sua identidade, solidariedade e capacidade de preservar a própria cultura.
2. A liberdade e o respeito à ordem da criação são concebidos principalmente como condições coletivas, embora indivíduos excepcionais possam formar comunidades paralelas às estruturas habituais.
3. Cada agrupamento social tende a estabelecer regras e códigos de conduta próprios, cuja validade não pode ser automaticamente estendida a todos os demais.
4. A preservação dos códigos de honra sustenta a continuidade dos grupos, enquanto a assimilação imposta aos migrantes compromete sua autonomia e perturba a organização social.
5. A hierarquia das castas é apresentada como um meio de articular grupos considerados pertencentes a diferentes estágios de evolução, permitindo sua coexistência e colaboração.
6. A coexistência exige reconhecer diferenças, direitos e autonomias coletivas, contrapondo-se à assimilação que destrói culturas minoritárias e atribuindo ao sistema de castas a função de preservar papéis distintos mediante regras igualmente diferenciadas.
7. A recuperação de uma sociedade desorganizada é associada à reconstrução de funções segundo aptidões e à existência de comunidades profissionais protetoras, enquanto a imposição ocidental de línguas, crenças e valores exprime uma pretensão de superioridade cultural.
8. A aproximação ocidental à Índia concentra-se frequentemente na identificação com os brâmanes arianos, na adoção de seus ritos e no cumprimento de suas normas.
9. A preferência pela tradição bramânica restringe o acesso a outras formas de conhecimento preservadas no universo indiano.
10. A negligência do xivaísmo obscurece linhagens de saber exteriores ao vedismo, embora essas tradições possam corresponder melhor às necessidades de muitos interessados ocidentais.
11. O acesso a conhecimentos como arquitetura, medicina, música, alquimia e magia exige aproximação às confrarias que preservam suas técnicas, iniciações e fundamentos religiosos ou filosóficos.
12. A participação nas comunidades artesanais e nas tradições tântricas permitiu a alguns ocidentais uma integração efetiva no mundo hindu, por meio de práticas concretas e vínculos com grupos que conservam saberes específicos.
13. O xivaísmo e o tantrismo são apresentados como tradições abertas à participação nas práticas religiosas e rituais, sem as interdições de acesso associadas a outros meios.
14. A igualdade humana é conciliada com a diversidade das ocupações, fazendo das diferenças profissionais, e não da dignidade essencial, o fundamento das distinções entre pessoas.
15. A iniciação xivaíta pode conferir a alguém socialmente marginalizado a autoridade de iniciar um brâmane e tornar-se seu mestre, demonstrando que a hierarquia espiritual ultrapassa a classificação social.
16. As aptidões e qualidades morais são relacionadas à herança das linhagens e às profissões familiares, concebendo a especialização social como uma adaptação hereditária a determinadas funções.
A mulher
1. A diferenciação sexual é concebida como uma distinção simultânea de natureza e de funções, estabelecendo papéis específicos para os dois sexos.
2. Homens e mulheres constituem uma estrutura dupla de interdependência e complementaridade, cuja diferenciação pode ser atenuada conforme a presença de características andróginas.
3. A realização e a igualdade entre as duas partes da humanidade são vinculadas ao exercício de comportamentos distintos, considerados correspondentes às respectivas naturezas.
4. A associação simbólica do masculino aos números ímpares e do feminino aos pares fundamenta uma concepção dupla da mulher, reunindo submissão e soberania, humildade e exaltação.
5. A mulher como amante manifesta a potência criadora sem a qual o princípio masculino permanece estéril, correspondendo à Shakti que torna efetiva a atuação das divindades.
6. O ventre materno constitui o lugar de passagem à existência e de encontro entre o divino e o humano, fazendo da maternidade um santuário da manifestação criadora.
7. A veneração da mulher como mãe associa sua condição à nutrição, ao acolhimento, ao perdão e à compaixão, reconhecendo nela uma imagem de Prakriti como fundamento material da vida.
8. A mulher ocupa o centro do lar e da estabilidade social como guardiã do fogo doméstico, enquanto sua bênção é necessária à entrada na renúncia, distinguindo sua autoridade interior das iniciações sociais realizadas pelo pai.
9. A transformação das antigas instituições é atribuída a conquistadores patriarcais, enquanto tradições artesanais xivaítas preservam a predominância feminina no esoterismo e destacam o princípio masculino nos ritos públicos.
A família, Kula
1. A organização familiar indiana é caracterizada por um grupo amplo que reúne várias gerações, ultrapassando os limites de uma unidade conjugal isolada.
2. Mulheres e crianças constituem o núcleo doméstico fechado, enquanto os homens após a puberdade formam uma estrutura complementar ligada ao mundo exterior.
3. A exclusividade atribuída à reprodução não implica uma vida conjugal centrada no casal, cuja transformação em fundamento único da estabilidade social é rejeitada como restrição da organização familiar.
4. A família corresponde ao grupo ampliado de irmãos, tios e esposas, organizado em espaços distintos para homens e mulheres.
5. O casamento é planejado desde a infância segundo critérios de casta, clã e linhagem, concebidos como regras de continuidade hereditária.
6. A seleção matrimonial é aproximada dos procedimentos empregados na reprodução de plantas e animais, reforçando sua interpretação como organização de características transmissíveis.
7. Relações extraconjugais dentro da linhagem podem receber tolerância quando não alteram a continuidade hereditária, fazendo da preservação do grupo o critério predominante de avaliação.
As servidoras dos deuses
1. As mulheres excluídas da função de continuidade familiar são associadas à categoria das devadasis, cuja dedicação ao amor, à música e à dança lhes confere uma função importante na transmissão do patrimônio cultural.
2. A atividade das cortesãs é apresentada como meio de conciliar realização sensual e estabilidade familiar, enquanto a dedicação feminina às artes ou à busca espiritual exige uma condição distinta da função reprodutiva e permite aproximar experiência erótica e êxtase místico.
3. As devadasis possuem obrigações de hospitalidade para com ascetas e preservam artes ligadas aos templos, cuja continuidade foi prejudicada pela proibição da instituição em nome de uma moralidade puritana.
4. A ligação histórica entre atividades teatrais, dança e condição de cortesã não se limita à Índia, aparecendo também em outros contextos culturais.
5. A renúncia à procriação é apresentada como condição para a dedicação feminina plena tanto à ascese quanto à busca do prazer corporal.
6. A procura de conhecimento, Yoga e realização interior pode levar mulheres à vida monástica ou errante, na qual austeridades e devoção substituem as responsabilidades de mãe, esposa e administradora do lar.
7. Mirabai exemplifica a renúncia aos privilégios aristocráticos em favor de uma existência itinerante dedicada à poesia mística, ao canto e à mendicância.
8. A trajetória de Ananda Mai é associada ao abandono de obrigações profissionais e familiares para seguir uma vocação espiritual que reuniu discípulos e exerceu influência benéfica.
9. A atuação feminina pode alcançar posições excepcionais tanto pela sabedoria e pelo conhecimento quanto por realizações de caráter guerreiro.
10. A Rani de Jhansi representa a capacidade feminina de exercer liderança militar e desempenhar uma função heroica.
11. A acumulação moderna de funções eróticas, maternas e públicas é interpretada como ameaça à centralidade do lar, cuja perda retiraria da vida masculina o espaço doméstico de acolhimento e proteção.
12. A ausência de um lar protetor é relacionada à delinquência, à violência e à desordem social, atribuindo à autoridade doméstica feminina uma função estabilizadora.
A terceira natureza (Tritiya Prakriti)
1. A terceira natureza corresponde à manifestação de características andróginas nos seres vivos e é vinculada ao princípio neutro resultante da articulação entre impulso masculino e substância feminina, representado por Brahma ou pelo Shiva primordialmente andrógino.
2. Masculinidade e feminilidade constituem qualidades relativas presentes em diferentes proporções nos seres, sendo empregadas para interpretar relações hierárquicas e funções sociais segundo a posição de cada elemento diante dos demais.
3. A formação da identidade masculina do adolescente é relacionada à identificação com o homem adulto, perante o qual sua condição é simbolicamente classificada como feminina.
4. A realização das potencialidades exige reconhecer a própria posição nas relações e conformar-se à natureza correspondente, fazendo do autoconhecimento e do cumprimento do dharma etapas anteriores à libertação das condições da existência.
5. A transformação dos sábios em pastoras amantes de Krishna exprime uma passagem entre condições masculinas e femininas orientada pelo desejo de união amorosa com o divino.
6. As pessoas marcadas por ambiguidade sexual são associadas a funções diferentes da transmissão genealógica, ocupando posições específicas na organização social.
7. A condição designada como intersexual é vinculada à atuação de xamãs, magos, ascetas, iniciados, sacerdotisas e artistas, reunindo funções de mediação espiritual e criação.
8. A adoção ritual de atributos do outro sexo manifesta a identificação com o princípio andrógino, podendo envolver vestimentas, relações conjugais ou modificações corporais destinadas à aproximação com uma divindade.
9. O uso de roupas femininas por Ramakrishna é apresentado como parte de sua prática espiritual e de sua aproximação devocional à deusa Durga.
10. A adoção de vestimentas femininas por sacerdotes e xamãs masculinos é concebida como um fenômeno amplamente difundido nas tradições religiosas.
11. As práticas de xamãs e sacerdotes que assumem uma condição feminina encontram correspondência no tantrismo da mão esquerda, no qual essa transformação é associada à obtenção do favor da potência divina feminina.
12. A união de características masculinas e femininas confere caráter sagrado às pessoas assim definidas, por sua correspondência simbólica com o andrógino primordial e a unidade dos princípios.
13. A associação ao princípio neutro de Brahma fundamenta uma afinidade com a criação artística e artesanal, atribuindo a essas pessoas participação importante na literatura, na poesia e nas artes.
14. As classificações tradicionais dos não reprodutores reúnem condições distintas de interrupção genealógica, cuja ausência de descendência afeta a função do indivíduo como elo ancestral, embora também seja reconhecida como parte do plano da criação.
15. A interpretação do termo grego correspondente a não reprodutor distingue a função de guardião do leito conjugal da castração e aproxima a passagem evangélica sobre os eunucos de condições inatas, adquiridas ou escolhidas de afastamento do casamento.
16. A rejeição gnóstica da procriação podia assumir formas de continência ou de sexualidade deliberadamente infecunda, fazendo das práticas eróticas rituais uma expressão coletiva da recusa de transmitir a vida.
17. O relato de Epifânio sobre experiências em celebrações gnósticas constitui um testemunho antigo das práticas orgiásticas associadas a essas comunidades.
18. A ausência de função reprodutiva coloca essas pessoas fora da continuidade das castas e favorece uma atuação mediadora entre grupos sociais e entre seres humanos, espíritos e deuses.
19. As práticas homossexuais são compreendidas como experiências eróticas e afetivas sem consequências genealógicas, integradas às descrições tradicionais da arte de amar.
20. Prostitutos e travestis possuem um lugar reconhecido na organização tradicional, formando comunidades dirigidas por um guru e dotadas de prerrogativas em manifestações e espetáculos sagrados.
21. A presença de um travesti em cerimônias matrimoniais é considerada auspiciosa e preserva um vestígio da antiga função religiosa do xamã andrógino.
22. A influência do puritanismo anglo-saxão favorece o apagamento do caráter sagrado atribuído à terceira natureza e às práticas homossexuais em ambientes indianos ocidentalizados.
23. A ausência de um gênero gramatical neutro é interpretada como uma limitação na representação da complementaridade entre masculino e feminino, com possíveis efeitos sobre a compreensão psicológica e social dessas relações.
