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xivaismo:danielou:fdah:5.2

5.2 Pashupatas

DANIÉLOU, Alain. La Fantaisie des dieux et l'aventure humaine. Monaco: Éditions du Rocher, 1985.

A MÎMÂNSÂ. A Abordagem religiosa, ritual e mística

A doutrina dos Pashupatas

O ensinamento de Lakulisha

1. Lakulisha representa a renovação da sabedoria primordial em uma fase crítica do Kali Yuga, cujo ensinamento, apesar das deformações posteriores, conservaria meios de contrariar a destruição humana, prolongar a sobrevivência e permitir a passagem de alguns seres ao início de um novo ciclo.

2. A doutrina de Lakulisha retoma os princípios dos Darshanas em uma linguagem figurada e acessível, estabelecendo formas de conduta adequadas à fase final do Kali Yuga.

Os textos

1. A tradição doutrinária de Lakulisha reúne-se no Lakulagama Samaya e é conservada por comunidades chamadas Lakulas, Pashupatas ou Kalamukhas, articulando os ritos e a moral do antigo xivaísmo ao materialismo do Vaisheshika e à lógica do Nyaya.

2. A ausência de textos pashupatas anteriores a Lakulisha torna fundamentais as compilações posteriores, entre as quais se destacam o Pashupata Sutra, seu comentário Panch artha-Bhashya, a Gana Karika e a Ratna Tika, que preservam exposições dos ensinamentos antigos.

3. O Ishvara-Kartri-Vada de Bonteya Muni transmite a doutrina do poder criador divino associada à pregação dos ensinamentos de Lakulisha na região de Andhra durante o século XI.

4. O Shaddarshana Samuccaya de Rajashekhara apresenta, no século XIV, uma síntese das seis abordagens filosóficas e integra o conjunto de fontes relevantes para a tradição.

5. A exposição dos seis sistemas atribuída a Haribhadra, acompanhada pelo comentário jainista de Gunaratna, constitui outro testemunho importante da transmissão dessas concepções.

6. O capítulo dedicado à filosofia de Nakulisha-Pashupata no Sarva Darshana Samgraha oferece uma das exposições mais completas da doutrina no conjunto das descrições medievais dos sistemas filosóficos.

Pashupati (o senhor dos animais)

1. O princípio criador é venerado como Pashupati, distinguindo-se Pati, o senhor e pastor do universo, Pashu, o conjunto dos seres criados, e Pasha, o mundo aparente que os mantém aprisionados em condições materiais e ilusórias.

2. O culto de Pashupati corresponde à investigação das relações entre a vida terrestre e os mundos natural e sobrenatural, permitindo ao ser humano desempenhar harmonicamente sua função entre as demais espécies.

Pati, o pastor

1. O senhor do rebanho possui presença universal e não está submetido a limites temporais ou a uma localização particular no espaço.

2. A energia de ação pertence à natureza material, mas sua atividade depende da consciência na qual o pastor se manifesta, excluindo a existência de um funcionamento inteiramente independente ou governado pelo acaso.

3. A semelhança entre o ser humano e o divino não implica igualdade de condições, pois o princípio divino permanece livre dos limites impostos pelas cinco fórmulas fundamentais que estruturam os modos de interação da matéria e os elementos.

Pashu, o animal

1. O rebanho da criação compreende seres sutis, divindades, espíritos e todas as espécies animais, incluindo a humanidade, enquanto algumas dessas potências acompanham o desenvolvimento das espécies e podem ser contatadas pela percepção animista e pelos ritos.

2. Os diferentes níveis da criação apresentam uma separação apenas aparente, pois integram uma continuidade indivisível apesar de suas formas distintas de manifestação.

3. Cada ser vivo testemunha uma dimensão particular do jogo divino e funciona como um espelho da criação, permanecendo limitado ao campo perceptivo que corresponde à sua natureza e à sua função.

4. O ser individual corresponde a uma manifestação parcial da consciência universal confinada em uma morada corporal que delimita sua experiência.

Pasha, a armadilha

1. O mundo aparente constitui a armadilha que restringe a consciência dos seres vivos, distinguindo sua percepção limitada da consciência ilimitada presente no princípio soberano.

2. A estrutura da armadilha reúne quatro condições fundamentais que determinam o confinamento dos seres na existência individual.

3. As tendências inatas condicionam a experiência e o comportamento do indivíduo, constituindo um dos fatores que delimitam sua participação no mundo.

4. As restrições estabelecidas pelo plano divino fixam possibilidades e limites que enquadram a existência dos seres criados.

5. Os resultados das ações acrescentam condições decorrentes do comportamento, participando da configuração da experiência individual.

6. A natureza ilusória do mundo integra a armadilha ao fazer da manifestação aparente uma condição de limitação da consciência.

7. A armadilha compreende os limites do conhecimento, a possibilidade de destruição dos seres vivos e a multiplicidade dos planos da criação, distinguindo diferentes aspectos da existência condicionada.

8. A separação entre consciência individual e universal produz a pessoa humana, enquanto a remoção dos obstáculos que sustentam essa separação permite a dissolução da consciência particular em sua dimensão universal.

Ishvara-Kartri-Vada: o poder criador do ser soberano

1. A filosofia pashupata transmitida por Lakulisha recebe a denominação Ishvara-Kartri-Vada por investigar o poder criador do princípio soberano.

2. A presença dessa doutrina no comentário de Shankaracharya aos Brahma Sutras constitui um testemunho de seu reconhecimento no debate filosófico do século IX.

3. A análise da doutrina encontra-se em exposições e comentários pashupatas, enquanto sua associação aos Kalamukhas vincula os ensinamentos à comunidade religiosa à qual Lakulisha pertencia.

4. A organização doutrinária distingue causa, obra, divisibilidade, método, união e fim do sofrimento, abrangendo tanto a constituição do universo quanto os caminhos da realização humana.

Karana (a causa)

1. A causa corresponde ao princípio soberano que cria, sustenta e destrói o universo, denominado Shiva ou Pati em sua condição de origem e senhor do mundo, e Bhairava em sua manifestação destruidora.

2. A independência absoluta do criador implica uma atuação que não depende das ações humanas, aproximando essa concepção do determinismo associado a Gosala.

3. O princípio criador não se subordina a leis cósmicas ou morais nem recebe determinação das ações dos seres, de modo que a recompensa dos méritos depende de uma graça divina e não de uma retribuição automática.

Karya (a obra)

1. A obra compreende o mundo, a matéria e a vida, articulando conhecimento, multiplicidade e seres vivos, enquanto a consciência permanece presente em toda a criação por sua condição de emanação inseparável do criador.

2. Os princípios da matéria e da vida possuem também uma dimensão de permanência, sendo considerados eternos em um sentido específico da doutrina.

Kala (divisibilidade)

1. O princípio soberano apresenta uma dimensão manifestada e composta, pela qual permanece em todas as coisas sob múltiplos aspectos, e outra dimensão transcendente e indivisível.

2. A condição indivisível do divino não possui forma e permanece inacessível ao conhecimento discursivo, ultrapassando o alcance do pensamento e das palavras.

3. Os aspectos manifestado e transcendente compartilham poderes ilimitados de conhecimento e ação, expressando a plenitude do princípio soberano.

4. A dimensão composta, correspondente ao Purusha do Samkhya, reúne soberania, existência e condição de princípio originário não derivado, constituindo a fonte dos elementos que formam o mundo aparente.

Vidhi, o método

1. A investigação do comportamento humano organiza o método em quatro partes, compreendendo ações meritórias, práticas, união e conhecimento como dimensões complementares da realização.

Kriya (os atos meritórios)

1. A ação meritória envolve principalmente a construção de santuários e a produção de imagens, atribuindo ao trabalho artístico e arquitetônico uma função religiosa fundamental.

2. Os Agamas dedicam uma parte importante de seus ensinamentos à escolha dos lugares, aos projetos arquitetônicos, à escultura e à instalação das imagens nos espaços sagrados.

O templo

1. O templo constitui um mandala que representa geometricamente os arquétipos e estruturas fundamentais compartilhados pelo universo e pelo ser humano.

2. A arquitetura sagrada articula números, diagramas simbólicos, orientações celestes e dados astrológicos para estabelecer comunicação entre diferentes condições de existência e aproximar seres humanos e divindades.

3. A imagem central do santuário funciona como lugar de evocação da presença divina, cuja manifestação é possibilitada pela potência ritual dos mantras.

4. O culto das imagens caracteriza o Kali Yuga e estabelece contato com o sobrenatural por meio da arquitetura e das artes sagradas, cuja origem é vinculada ao xivaísmo, apesar da oposição de tradições iconoclastas que posteriormente incorporaram formas semelhantes de veneração.

5. A ausência de templos e imagens nos ritos védicos corresponde ao emprego de estruturas temporárias destinadas aos sacrifícios, que são desmontadas após a realização das cerimônias.

6. A construção de templos e a veneração das imagens constituem, em contraste, componentes fundamentais da prática religiosa xivaíta.

7. A maçonaria e o companheirismo artesanal preservam elementos das antigas corporações de construtores de templos, permitindo reconhecer formas de solidariedade e valores morais vinculados às tradições de ofício.

8. A destruição das cidades do Indo teria interrompido a arquitetura sagrada monumental, preservando pequenos santuários isolados até a retomada de construções funerárias pelos budistas, relacionadas aos antigos modelos dos dólmens.

9. O renascimento xivaíta permitiu restabelecer a construção de templos mediante conhecimentos e técnicas conservados pelas corporações artesanais.

10. A expansão dos templos pashupatas durante os períodos Gupta e de Harsha alcançou grande parte da Índia e regiões vizinhas, encontrando testemunho nos registros do peregrino chinês Xuanzang.

11. A influência de Lakulisha favoreceu uma extraordinária produção de templos em diferentes regiões indianas, exprimindo uma exaltação religiosa comparável à construção das catedrais ocidentais e admitindo uma possível transmissão de técnicas por artesãos deslocados pelas invasões.

O Yoga (a união)

1. O Yoga estabelece uma relação entre o ser individual e o universal mediante a consciência, que constitui a passagem pela qual essa aproximação se realiza.

2. A realização do Yoga consiste na identificação do ser vivo com o princípio soberano ou ser total, ultrapassando as limitações de sua condição individual.

3. A repetição de mantras prepara a aproximação aos arquétipos divinos e é seguida pela concentração mental e por práticas que permitem dominar as faculdades e energias constitutivas da pessoa.

Dukhanta (o fim do sofrimento)

1. O fim do sofrimento concerne ao destino dos seres além da vida e distingue uma realização pessoal de outra impessoal, conforme a permanência ou a dissolução da individualidade.

2. A realização pessoal depende dos poderes desenvolvidos pelo Yoga, pelos quais o ser humano ultrapassa a condição animal, assume uma existência sutil e alcança a união com Shiva.

3. A realização impessoal implica o desaparecimento do eu e a dissolução dos componentes do ser vivo nos princípios universais dos quais se originaram.

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