5.4 Práticas
DANIÉLOU, Alain. La Fantaisie des dieux et l'aventure humaine. Monaco: Éditions du Rocher, 1985.
A MÎMÂNSÂ. A Abordagem religiosa, ritual e mística
PRÁTICAS PRELIMINARES
1. As regras da iniciação monástica dizem respeito sobretudo aos que se destinam à vida ascética dos monges errantes, sendo para os demais os ritos de iniciação shivaíta muito simples e praticados na floresta ou à margem de um rio, embora a preparação exija do aspirante a observância de certas regras de conduta, especialmente importantes para um Mlécchä, isto é, alguém nascido fora do território sagrado constituído pelo continente indiano.
2. A pedido de um discípulo estrangeiro, Sâdhu Shambhudâsä indicou algumas regras de comportamento que preparam o indivíduo para uma reintegração na tradição shivaíta.
Conselhos a um Mlécchä (por Sâdhu Shambhudâsä)
1. Somente pelo retorno aos valores e às práticas representados pela tradição shivaíta pode a humanidade esperar retardar o desfecho, mas a reintegração na tradição exige uma preparação na qual importa observar certas regras de vida, ainda que contrariem os modos habituais de pensar.
1. O Yogä.
1. A prática do Hathä Yogä, como disciplina física e meio de explorar o universo interior do homem, permite controlar as energias vitais sem desviar-se para vagas aspirações negativas de meditação transcendental ou de outro tipo.
2. O respeito pela criação.
1. O homem respeitoso do plano da criação deve opor-se à destruição das espécies vegetais e animais para fins comerciais.
2. Cumpre venerar as árvores e os espíritos que as habitam, escolhendo cada um uma árvore particular junto a cujas raízes pratica diariamente um rito de veneração (pujah), como fazem os aldeões indianos, e, sendo o touro o veículo e símbolo de Shivä, cuidar e venerar todos os bovinos e procurar viver numa atmosfera de confiança e amizade com os animais.
3. O sacrifício
1. O sacrifício do touro ou de outros animais deveria realizar-se segundo os ritos locais, talvez mitraicos, com o consumo da carne das vítimas numa refeição sagrada comunitária, sendo essencial sacralizar o sacrifício, pois o homem só vive sacrificando a vida e, vegetariano ou carnívoro, mata, devendo considerar esse ato sagrado, participar em princípio ele próprio da morte do animal de que se alimenta, evitar a hipocrisia de fingir ignorar o horror dos matadouros, opor-se às torturas da criação em massa e jamais alimentar-se de carne torturada.
2. O homem sábio pede desculpas ao espírito da árvore da qual precisa cortar um galho e oferece aos deuses as primícias de todo alimento.
4. Os espíritos
1. Cumpre permanecer atento às presenças sobrenaturais, honrar os espíritos que residem nas fontes e nas florestas e conjurar com gestos apropriados a má sorte diante de sinais maléficos, sendo de mau agouro os monges budistas e os padres cristãos, como todos os que pretendem renunciar à experiência divina do prazer em nome de duvidosos valores morais.
5. A dança
1. Deve-se praticar a dança coletiva, cujo ritmo provoca um estado de transe que aproxima o ser humano de Shivä, o dançarino cósmico.
6. O Erotismo
1. A percepção do estado divino, existência-consciência-volúpia (sat-chit-ânandä), é possível em três planos, a união (Yogä), o conhecimento (Sâmkhyä) e o orgasmo (Maïthunä), sendo a volúpia a única experiência imediatamente acessível, razão pela qual se deve praticar o erotismo com a consciência de que a volúpia é uma aproximação do divino, invocar Shivä no momento do orgasmo e não admitir tabus nem interdições quanto às variantes do erotismo.
7. A Procriação
1. É imperativo respeitar a linhagem dos ancestrais e evitar na procriação a mistura das raças, que altera a ordem divina e provoca a regressão da espécie, devendo os ritos do casamento e da procriação realizar-se com a consciência da responsabilidade pela transmissão da vida, visando unicamente à qualidade do produto, a criança, segundo as regras de seleção genética definidas pelos textos dos Âgamä.
8. O casal
1. As regras de vida diferem para homens e mulheres, cumprindo evitar a vida de casal e buscar a família coletiva.
9. A Intocabilidade
1. Devem-se evitar contatos físicos acidentais com pessoas de outra raça ou de outro clã.
2. O homem deve evitar o contato com as mulheres durante a menstruação, e as mulheres devem isolar-se durante todo o período em que a deusa, a Shakti, se manifesta sob a forma do sangue menstrual e purificar-se depois, cabendo também ao homem purificar-se após uma emissão de esperma e a todos após um contato com a morte.
10. Purificações
1. As purificações consistem num banho em água corrente, num rio, sob um chuveiro ou uma torneira, jamais numa banheira, seguido da veneração da imagem de uma divindade e da aplicação na fronte da pasta de sândalo usada no rito.
2. Após as funções naturais, deve-se lavar cuidadosamente as mãos sete vezes.
11. Abluções
1. Antes de comer, falar ou realizar ritos, cada um deve praticar abluções matinais diárias invocando o sol, fonte de vida e de luz, e vestir em seguida uma roupa limpa.
12. Veneração dos Mestres.
1. Cada um deve respeitar o trabalho que lhe cabe, realizá-lo com amor e venerar suas ferramentas e seus mestres, honrando o mestre uma vez por ano no Guru Pujah e venerando os instrumentos de trabalho no dia da festa de Sarasvatî, deusa das ciências e das artes, data em que não devem ser utilizados.
13. Alimentar os Errantes.
1. Os errantes são os bem-amados de Shivä, e cada um deveria praticar um período de errância, se possível visitando lugares sagrados, prática difícil no mundo moderno embora a tendência seja evidente na juventude atual, cabendo a todo homem de bem honrar e alimentar os errantes, sejam caronistas ou mendigos, monges ou fugitivos.
2. O mérito está na doação, sendo indiferente a qualidade do receptáculo, seja ele um sábio ou um vagabundo.
14. Beberagens sagradas.
1. O uso de certas beberagens hipnóticas, como o Bhang, infusão de cânhamo indiano, é aconselhado para facilitar a percepção do mundo sutil e a concentração mental, sendo nocivas a maioria das outras drogas, em particular os opiáceos, e devendo o Bhang ser tomado de preferência em companhia de alguns amigos, em lugar tranquilo, seguido de um período de discussões, reflexão e jogos, jamais durante atividades físicas nem sem a observância das demais regras de conduta.
2. Também não se deve fumar haxixe.
15. A Veneração do Lingä.
1. Cada um, homem ou mulher, deve venerar o falo, imagem de Shivä, ter um Lingä instalado em casa e praticar diariamente um Pujah com flores, incenso, oferendas e Manträ, trazer consigo um Lingä e um rosário de cento e oito sementes de Rudrâkshä para a recitação dos Manträ, podendo alternativamente venerar o Yoni, órgão feminino, ou o Shâlagrâmä em forma de ovo, e invocar a deusa, a Shakti, sob a forma do Shrî Yanträ, embora os ritos shaktä, dirigidos a Prakriti, princípio da matéria, exijam sacrifícios e uma iniciação particular.
2. A deusa está presente sob numerosas formas, sendo seu aspecto principal Kâlî, princípio do tempo e da morte, e é como mãe, e não como parceira, que ela é invocada.
16. Ritos fúnebres
1. Devem-se observar os ritos fúnebres, sem procurar aprisionar o espírito dos mortos, sem retirar órgãos nem congelar os corpos, dispondo do cadáver o mais tarde possível, enterrando-o diretamente na terra ou incinerando-o, e evitando caixões e sepulcros.
2. Observando essas regras de vida, o ser de carne reencontra seu lugar na criação, pode viver em harmonia com o mundo e qualifica-se pouco a pouco para tornar-se receptáculo dos ensinamentos dos detentores do saber, momento em que a iniciação (dikshâ) se torna possível.
3. Não é no Vishnuísmo devoto e puritano das classes comerciantes e políticas, nem nos ashrams, nem junto aos brâmanes que se encontra a atmosfera de alegria de viver e de descontração do povo shivaíta, alegre e tolerante, mas entre os ascetas cobertos de cinzas que vivem em fraternidade com as árvores e os animais, permanecem próximos do mundo misterioso dos espíritos e dos deuses e conhecem as regras de vida capazes de retardar o desfecho do Kali Yugä.
