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SIMBÓLICA E ENERGIA DA PALAVRA

Recherches sur la symbolique et l'énergie de la parole dans certains textes tantriques

Introdução

  • O presente trabalho é consagrado ao estudo de certas especulações tais como aparecem nos textos de uma escola filosófica ou seita xivaíta da Idade Média indiana — o Xivaísmo da Caxemira ou Trika —, cujas doutrinas se vinculam ao que se convencionou chamar de tantrismo, e dessas especulações serão estudadas aqui apenas as que dizem respeito à palavra — vak — e mais especialmente ao poder, à energia — sakti — própria à palavra.
    • Estudar uma escola tântrica e tratar da palavra é, no primeiro caso, seguir uma corrente fundamental da especulação metafísica ou do comportamento religioso indiano e, no outro, tocar em um dos problemas mais centrais dentre os que foram abordados pelo pensamento da Índia.
    • O Trika, seita xivaíta e tântrica, participa de uma corrente religiosa e espiritual que invadiu toda a Índia a partir de uma certa época e a marcou profundamente; o que é tântrico no Trika se encontra alhures, mas muito do que forma o tantrismo remonta à mais alta Antiguidade.
    • O Xivaísmo foi com frequência a religião dos gramáticos ou dos filósofos da gramática, e muitas noções que esses utilizam são tomadas de empréstimo ao tantrismo; há uma interpenetração profunda do tantrismo e das especulações sobre a palavra, ambos remontando a um fundo indiano muito antigo.
  • Pareceu necessário recordar, primeiramente (cap. I), a antiguidade das especulações indianas sobre a palavra — a Palavra — vak — concebida desde o início como potência criadora, “mãe dos Deuses”, e que, sob certas de suas formas, foi muito rapidamente concebida como simbolizando — revelando uma presença e ao mesmo tempo representando e sendo — a divindade, a força que anima e sustenta o cosmos.
    • Essas noções antigas foram extraordinariamente desenvolvidas no tantrismo e exigem ser situadas e definidas (cap. II), em particular do ponto de vista das especulações sobre a Palavra, ao mesmo tempo que se precisa a situação do Trika como forma particular do tantrismo.
    • Nesses dois capítulos, marca-se a continuidade, a persistência e o desenvolvimento de um pensamento imbuído desde a origem da ideia de que a Palavra é uma força, uma energia, e que essa energia pode ser captada e utilizada pelo homem que conhece seus arcanos.
    • A Palavra é meio de ação; sem dúvida, para a Índia, a Palavra estava no começo, mas essa palavra é uma força, é ação.
  • É à descrição dos diversos aspectos que essa energia da Palavra — essa Energia-Palavra — toma no Trika, e por extensão em outras seitas tântricas, que são consagrados os capítulos III a VII, que formam o essencial do estudo, marcados por uma contínua ambivalência onde se passa sem cessar do humano ao cósmico — o que é conforme não apenas ao pensamento tântrico, mas mais geralmente ao pensamento indiano, para o qual, desde o vedismo, o conhecimento da Realidade repousava sobre o das correlações antropocósmicas.
    • A energia — sakti — é ao mesmo tempo Palavra — vak —, Consciência — cit, samvid —, sopro e energia vital — prana — ou espiritual; não há distinções absolutas nem soluções de continuidade entre o humano e o cósmico, o vital, o psíquico ou o espiritual.
    • Todos os processos da Palavra que serão descritos podem se desenrolar de modo homologável no homem ou no cosmos — assim quando se segue a evolução da vibração sonora primordial e o movimento da kundalini enquanto energia fônica (cap. III).
    • O sistema se representa o ato criador à maneira de um ato de palavra que é um ato humano, mas que, invertendo a ordem, não vê neste último senão a reprodução, ao nível do homem, de um ato ou processo arquetípico e divino.
    • Assim se verá (cap. IV) o nascimento do universo na consciência divina operar-se, pelos níveis da Palavra, à maneira do do da linguagem ou do pensamento explicitado na consciência do homem.
    • De modo análogo (cap. V), o aparecimento das categorias — tattva — da manifestação se produz segundo aparecem os fonemas — varna — do sânscrito dispostos na ordem da gramática, e a fonética tradicional serve a justificar a cosmogonia.
  • O sânscrito, língua da revelação, é divino, e quanto à gramática, “porta da salvação”, “próxima do brahman e ascese das asceses” — segundo Bhartrhari —, ela fornece uma das bases principais do pensamento de todo aquele que se exprime em sânscrito.
    • A Palavra utilizada como meio de libertação — sempre ligada à ambivalência assinalada — aparece na última parte do estudo não tanto como a energia que traz os deuses e os mundos à existência, mas como a substância em que eles se reabsorvem e, mais especialmente, como o meio para o homem de caminhar em direção à libertação (cap. VI).
    • Através dos mantra (cap. VII), é possível apoderar-se da energia primeira que é Palavra e, por isso, não apenas utilizá-la, mas remontar até sua própria fonte e assim obter a libertação das cadeias do devir.
  • Uma das características essenciais da Palavra suprema enquanto energia espiritual, enquanto idêntica ao primeiro princípio, é precisamente a liberdade ou, mais exatamente, a total autonomia — svatantrya —, noção que retorna muito frequentemente nos autores estudados e que Abhinavagupta considerava tão essencial que designava às vezes o Trika pela denominação de svatantryavada: doutrina da liberdade ou da autonomia.
    • O primeiro princípio é pura espontaneidade criadora, fulgurância do livre poder e da generosidade divinos; a total autonomia caracteriza o aspecto mais elevado da divindade.
    • Com a emanação, essa liberdade se restringe pouco a pouco até que, em nosso mundo, os seres estejam acorrentados ao devir.
    • A Palavra, ao mesmo tempo, de totalmente autônoma, ato puro e livre, torna-se a linguagem humana submetida a “convenções” e geradora do assujeitamento dos homens.
    • Se a livre fonte, o puro substrato dessa linguagem, é “reconhecida” sob as aparências e se o homem consegue penetrar e utilizar certos aspectos que escapam à servidão da linguagem — os mantra —, ele retoma contato com essa fonte e, liberto vivente, identifica-se à espontaneidade, à autonomia criadora, à fonte da Palavra.
  • Esse retorno à fonte da Palavra aparece não apenas como uma identificação com a Palavra em estado nascente, mas também como uma fusão com aquilo mesmo de onde ela nasce — com um além da Palavra, zona imóvel e silenciosa, pura transcendência —, cuja concepção mantém no tantrismo uma subordinação da Palavra ao Silêncio, do expresso ao inexpresso, que se encontra igualmente desde as origens do pensamento indiano.
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