xivaismo:ratie:irsa:estrategias-argumentativas-de-utpaladeva-e-abhinavagupta
ESTRATÉGIAS ARGUMENTATIVAS DE UTPALADEVA E ABHINAVAGUPTA
IRSA
- A karika e seus comentários exibem uma estratégia complexa em relação aos oponentes budistas e bramânicos, empregando alternadamente os argumentos de um contra os do outro em um jogo dialético sutil — Utpaladeva e Abhinavagupta estão do lado das escolas bramânicas contra os budistas na disputa sobre a permanência do Si, mas exploram a crítica budista da concepção bramânica do Si como substrato passivo e estático para estabelecer sua própria definição do sujeito como consciência livre.
- A Pratyabhijna explora a noção budista da automanifestação da cognição para refutar a concepção bramânica de um Si inerte, usando essa mesma noção para derrubar a doutrina budista da inexistência do Si
- Na estratégia para estabelecer seu idealismo, a Pratyabhijna primeiro se opõe aos externalistas budistas e bramânicos com o idealismo do Vijnanavada, deixa um sautrântika arruinar o edifício dos budistas idealistas antes de atacar o externalismo inferencial do sautrântika e estabelecer seu próprio idealismo
- Acusa o idealismo do vijnanavadin de ser solipsismo sob a máscara de um sautrântika externalista, antes de mostrar que seu próprio idealismo abre espaço para o Outro e não é incompatível com a intersubjetividade
- Descarta a ontologia monista do Advaita Vedanta e a doutrina da diferença absoluta defendida pelos budistas, revelando seu pressuposto comum — o caráter contraditório da diferença e da identidade — e as contrasta com uma ontologia dinâmica extraída de Bhartrhari
- Bhartrhari: gramático e filósofo indiano do século V, cuja ontologia dinâmica da linguagem e do significado a Pratyabhijna mobiliza para elaborar sua própria definição de não-dualidade — advaya — como inclusão e não exclusão da diferença
- Ao destacar sistematicamente os jogos estratégicos da Pratyabhijna em relação a seus oponentes, afasta-se a suspeita de que ela se reduziria a um sincretismo metafísico vago — pois a absorção de conceitos estrangeiros não resulta em uma coleção de conceitos díspares, mas em uma síntese brilhante em que os dois shivaítas transfiguram os conceitos de que se apropriam, elaborando um sistema extremamente original.
- A Pratyabhijna não se reduz a um mero jogo especulativo, nem usa a noção de liberdade como um deus ex machina conceitual que empregaria toda vez que fosse encurralado pela contradição — pois embora a liberdade, como faculdade de realizar o impossível ou o que parece impossível — atidurghaṭa — às vezes pareça cumprir esse papel, especialmente ao explicar o prodígio pelo qual a consciência chega a se velar para si mesma, Utpaladeva e Abhinavagupta não invocam a liberdade transcendente de um deus inacessível por natureza, mas apelam para a experiência do sujeito empírico de sua própria liberdade.
- Atidurghaṭa: o ato mais difícil de realizar — qualificativo do poder de maya como façanha paradoxal da consciência autoluminosa que consegue ocultar-se a si mesma
- Deus ex machina: recurso artificial de resolução de contradições — suspeita que os autores afastam ao mostrar que a liberdade não é um conceito ad hoc mas a experiência mais imediata do sujeito
- É a experiência — anubhava — que, em todas as circunstâncias, é “o meio mais forte de conhecimento” — drḍhatamam pramanam — e a razão pode certamente explicar ou analisar a experiência, mas não contradizê-la, caso contrário não é mais razão, mas mera divagação — sendo a abordagem racional da Pratyabhijna inteiramente voltada para a experiência.
- Anubhava: experiência imediata — o fundamento último ao qual a abordagem racional da Pratyabhijna sempre retorna
- Drḍhatamam pramanam: o meio mais forte de conhecimento — qualificativo da experiência imediata como instância epistêmica superior à razão discursiva
xivaismo/ratie/irsa/estrategias-argumentativas-de-utpaladeva-e-abhinavagupta.txt · Last modified: by 127.0.0.1
