User Tools

Site Tools


xivaismo:ratie:irsa:ilusao-intramundana

A ILUSÃO INTRAMUNDANA

IRSA

  • Abhinavagupta alude à ideia de que a totalidade do universo diferenciado é uma ilusão — bhranti — ao discutir a ilusão vivenciada na existência mundana, como quando se confunde um pedaço de madrepérola com prata, no contexto de explicar uma karika que responde a uma objeção dirigida a Utpaladeva.
    • Abhinavagupta: filósofo e místico do Cachemira, um dos maiores expoentes do Shaivismo da Recognição — Pratyabhijna
    • Utpaladeva: filósofo do Cachemira, predecessor de Abhinavagupta e autor das karikas comentadas
    • Karika: aforismo ou verso filosófico conciso, forma típica da literatura filosófica indiana
    • Bhranti: ilusão ou erro de percepção, termo sânscrito central na discussão epistemológica
    • A objeção dirigida a Utpaladeva afirma que, ao sustentar que o objeto é constituído apenas por sua apreensão consciente — vimarsa —, ele renuncia a distinguir o real do ilusório, pois o idealismo que professa implicaria que tudo apreendido como fenômeno pela consciência deve ser real
    • Vimarsa: apreensão consciente ou autoconsciência reflexiva, conceito central na epistemologia do Shaivismo da Recognição
  • A karika de Utpaladeva responde que mesmo havendo uma apreensão consciente única da prata, a existência da prata não está estabelecida na madrepérola, devido à falta de congruência — asanvada — quanto ao lugar, que é uma particularidade adventícia — upadhi — e que no caso da ilusão das duas luas o mesmo raciocínio se aplica ao céu.
    • Asanvada: falta de congruência ou concordância entre cognições, critério para identificar o erro
    • Upadhi: particularidade ou condição adventícia que modifica externamente a aparência de um objeto sem alterar sua natureza intrínseca
    • Nas karikas anteriores, Utpaladeva havia afirmado que não há diferença fundamental entre um fogo percebido de longe e um fogo percebido de perto, ou entre um fogo imaginado ou inferido e um fogo efetivamente percebido, porque em todos esses casos o objeto fogo é apreendido em uma apreensão consciente única — ekavimarsa ou ekapratyavamarsa
    • Arthakriya: eficácia causal do objeto — como a capacidade de o fogo percebido queimar — que mesmo assim não distingue fundamentalmente o fogo percebido do fogo imaginado segundo Utpaladeva
  • O sistema da Pratyabhijna permite distinguir as cognições errôneas das cognições válidas, sendo perfeitamente compatível com a ideia de que o erro é revelado pela contradição — badha — entre duas cognições que visam o mesmo objeto.
    • Pratyabhijna: escola filosófica do Shaivismo do Cachemira cujo nome significa recognição ou reencontro com a própria natureza divina
    • Badha: contradição ou anulação de uma cognição por outra, mecanismo pelo qual o erro é revelado
    • No caso da madrepérola tomada por prata, após a cognição “isto é prata” visando um objeto X, surge a cognição “isto é madrepérola” visando esse mesmo objeto — esta última é incompatível com a primeira, pois o conceito madrepérola exclui tudo o que não é madrepérola, incluindo a prata
    • A segunda cognição revela o erro e anula retrospectivamente a validade da cognição passada
  • A contradição entre cognições é possível apesar de que, segundo Utpaladeva, todo objeto do qual se tem consciência é real — porque o próprio da apreensão consciente é durar, ter uma certa permanência — sthairya — ou continuidade — anuvṛtti — de modo que uma apreensão consciente cuja continuidade é quebrada ou erradicada — unmulita — por outra cognição contraditória revela-se não ser uma apreensão consciente completa — purna — e portanto válida como meio de conhecimento.
    • Sthairya: permanência ou estabilidade da apreensão consciente, critério de sua validade
    • Anuvṛtti: continuidade da apreensão consciente ao longo do tempo
    • Unmulita: erradicada ou arrancada pela raiz, termo que descreve a anulação de uma cognição por outra contraditória
    • Purna: completo ou pleno — qualidade que define a apreensão consciente válida como meio de conhecimento
    • Abhinavagupta rebate a objeção de que todo vimarsa deveria ser válido argumentando que uma apreensão consciente só o é na medida em que permanece continuamente ela mesma — atmanam anuvartayan — ou dura — sthira — porque não é contraditada por nenhuma outra cognição
    • A cognição que corrige o erro tem um poder retrospectivo que se estende ao tempo da cognição passada que corrige — não como um relâmpago que desaparece assim que aparece — uditapratyastamitayam satahradayam iva — mas como reconhecimento de que o objeto sempre foi madrepérola, inclusive no momento em que era tomado por prata
  • O erro não reside em tal ou qual dos elementos manifestados pela cognição errônea, mas na síntese desses elementos — síntese incorreta apenas na medida em que é incompleta — apurna — pois a forma completa do objeto manifestado pela cognição errônea só se manifesta a posteriori, quando deveria ter-se manifestado desde o início.
    • A primeira cognição é errônea no sentido de que não se completa como deveria em uma apreensão consciente plena de seu objeto
    • O erro é, portanto, akhyati — não como simples ausência de manifestação — khyati — pois a ilusão é de fato uma manifestação — mas como manifestação incompleta — apurna-khyati
    • Akhyati: teoria do erro como não-manifestação ou manifestação incompleta, distinguida aqui da ausência total de manifestação
xivaismo/ratie/irsa/ilusao-intramundana.txt · Last modified: by 127.0.0.1