(Abellio1987)
Percebe-se que as vinte e duas letras hebraicas — e é por isso que afirmei, sustento e pretendo que o alfabeto hebraico é nosso alfabeto sagrado, que a língua hebraica é a língua sagrada de nosso ciclo civilizatório, e não o grego —, as vinte e duas letras hebraicas, segundo o Sepher Yetzirah, organizam-se palavra por palavra sobre o modelo da Estrutura Absoluta, um modelo esférico. As três letras-mães estão no plano equatorial, no hemisfério inferior e no hemisfério superior. Isso está dito explicitamente — só que, quando falo de hemisfério, eles dizem “o alto” e “o baixo”.
As sete letras duplas são os quatro polos equatoriais, o polo do zênite, o polo do nadir e o centro. Isso faz sete. E quanto às doze letras simples — três mais sete mais doze, completam as vinte e duas letras hebraicas —, elas correspondem aos planos meridianos, aos doze quadrantes dos dois planos meridianos da dupla contradição, e aos quatro quadrantes do plano equatorial. Se lerem, repito, palavra por palavra o Sepher Yetzirah, encontrarão as vinte e duas letras dispostas assim: entre elas, estabelecem-se correspondências genéticas. Atenção a essa palavra, porque, nesse ponto, não pode mais haver distinção escolástica entre estrutura e gênese. Essas são invenções das universidades, que separavam estrutura e gênese, ou estrutura e funções — essas classificações de palavras não significam nada, são puro sofisma. Na realidade, tudo isso se dava num único ato vivido — e é exatamente por isso que os acadêmicos não entendem Husserl, e por isso Husserl se torna, como dizem, “ultrapassado”. Eles não os vivem — não se pode traduzi-los em conceitos, em meras palavras, e o ensino enfrenta problemas pedagógicos terríveis, quase insolúveis.
Não se pode ensinar esse tipo de filosofia — esses não são temas para conversas mundanas, são temas de conversão. É bem diferente! A filosofia no Collège de France, diante de damas da alta sociedade, é uma coisa, é respeitável, tudo bem. Nada é inútil, repito. Mas não é suficiente! Não era assim que Sócrates fazia — e tampouco Jesus. Jesus e seus doze discípulos. Apenas doze. (Aliás, como ME disse um mestre espiritual há vinte anos: “E ainda assim, um deles o traiu.”) Com doze discípulos, Jesus ainda assim mudou o mundo…
Agora, com esses ideogramas, estamos diante de um curto-circuito entre as origens mais remotas e as realidades mais modernas. Diante de um modelo dialético — pois se trata de uma nova dialética, e a dialética de Hegel foi suficiente para criar o marxismo — e vocês sabem os resultados que isso trouxe, em termos de revolução mundial…
Ao aplicarmos esse modelo de uma nova dialética, estamos hoje diante de uma nova gnose, de um instrumento conceitual cujo poder não podemos sequer avaliar. O que resultará disso? Não sei, e não ME importa. Mas, no plano da evolução da consciência, é fundamental. Em qualquer domínio onde (215) essas concepções forem aplicadas, “além” e “aquém”, “antes” e “depois” significam a mesma coisa. E, consequentemente, as noções de “pró” (progressão) e “ré” (regressão) desaparecem. De acordo, aliás, com os ensinamentos da Tradição. Não há “pró” e “ré” no plano da consciência individual, no plano da edificação do homem interior, como diz São Paulo. No plano prático, nos domínios de aplicação — cada um tem os seus —, na política, é evidente que imediatamente se chega à noção de castas. E aí é preciso dar uma explicação para a situação histórica, muito simples: homens de conhecimento, homens de poder, homens de gestão, homens de execução. Isso corresponde, aliás, às tradições hindus, não é? Os brâmanes, os xátrias, os vaixás e os sudras. E percebe-se, então, que os problemas políticos são problemas de poder, não de conhecimento. Portanto, não se deve misturar os dois. Ou, mais precisamente, se alguém pretende formar uma casta de homens de conhecimento que sejam também homens de poder — ou seja, instaurar uma Teocracia —, acaba não entendendo mais nada e misturando tudo. Como consequência, é a confusão das línguas, é Babel.
Do ponto de vista biológico, do ponto de vista fisiológico das funções do homem, é certo que há domínios que pertencem ao homem interior e não ao exterior. Todos aqueles ligados ao conhecimento, não ao poder. Há necessariamente domínios no homem que escapam a qualquer ação, a qualquer instrumentalização e, sobretudo, a qualquer repressão social. E esses domínios podem ser enumerados facilmente quando se vive essa experiência, pois se trata de uma experiência viva, vivida. O acesso a essa noção de interdependência universal, ou de intersubjetividade absoluta, quando vivida, provoca imediatamente uma mudança radical nos modos de existência. É inevitável: no plano da avaliação de valores, não se pode mais ter as mesmas noções de antes, especialmente na política, isso é óbvio. E percebe-se que certos domínios são irredutíveis a qualquer ação social, a qualquer repressão social.