NOÇÕES CHAVES NOS MISTÉRIOS
As iniciações constituem um fenômeno muito conhecido, frequentemente discutido pelos antropólogos. Elas se encontram numa ampla variedade de contextos, desde as mais primitivas tribos australianas até as universidades americanas. Existem muitas formas diferentes de iniciação, incluindo os ritos de puberdade, a consagração de sacerdotes ou reis e a admissão em sociedades secretas. De um ponto de vista sociológico, a iniciação em geral tem sido definida como uma “teatralização da condição social” ou uma mudança ritual dessa condição. Vistos deste ângulo, os mistérios antigos ainda parecem formar uma categoria especial: não são ritos de puberdade num nível tribal, não constituem sociedades secretas com fortes vínculos mútuos (exceto no caso de Mitra), em larga medida a admissão não depende do sexo ou da idade, e não há nenhuma mudança visível na condição externa dos que passam por tais iniciações. Da perspectiva do participante, a mudança de condição afeta sua relação com uma divindade; o agnóstico, de um ponto de vista exterior, tem de reconhecer uma mudança pessoal, e não tanto social, um novo estado de espírito através da experiência do sagrado. A experiência se mantém fluida; em contraposição às iniciações típicas que promovem uma mudança irrevogável, os mistérios antigos, ou pelo menos partes de seus rituais, podiam se repetir.
A etimologia não contribui para a compreensão dos termos gregos. A raiz verbal my(s)- parece estar documentada no grego micênico, possivelmente para a iniciação de um funcionário, mas o contexto e a interpretação não são absolutamente claros. É mais importante notar que a palavra mysteria condiz com um tipo de formação terminológica para a designação de festas, bem estabelecido não só no grego posterior, mas também no micênico. Para os atenienses, os Mysteria eram, e continuaram a ser, uma das grandes festas anuais. Existem poucas indicações arqueológicas e um grande entusiasmo entre os estudiosos em relação aos antecedentes micênicos do culto eleusino. A palavra mystes, utilizada para designar o iniciado, pertence a um tipo que se viu desenvolver no grego micênico. O verbo myeo, “iniciar” (no passivo, “receber iniciação”), é secundário e, na verdade, muito menos usado do que mystes e Mysteria. O papel primordial de Elêusis na instituição e designação dos mistérios, portanto, confirma-se mesmo do ponto de vista linguístico.
Uma família terminológica que se sobrepõe largamente a mysteria se compõe de telein, “realizar”, “celebrar”, “iniciar”; telete, “festa”, “ritual”, “iniciação”; telestes, “sacerdote da iniciação”; telesterion, “salão de iniciação”, e assim por diante. Sua etimologia, que parecia clara, perdeu-se novamente devido à documentação micênica. É evidente que essa família de palavras tem um significado muito mais abrangente; via de regra, não basta para identificar os mistérios propriamente ditos, podendo ser utilizada para qualquer tipo de culto ou ritual. Os termos se tomam específicos, porém, quando empregados com um objeto pessoal e com o nome de um deus no dativo: realizar um ritual sobre alguém para um deus específico é o mesmo que “iniciar” essa pessoa; Dionysoi telesthenai significa ser iniciado nos mistérios de Dioniso.
Uma outra palavra genérica para “ritual”, de grande circulação no contexto dos mistérios, é orgia. Tanto teletai quanto orgia se tomam mais específicas nesse sentido quando se acrescenta a cláusula referente a seu caráter secreto. Dois adjetivos, aporrheta (“proibido”) e arrheta (“indizível”), parecem ser praticamente sinônimos nessa acepção, insinuando um problema básico inerente ao “segredo' ' dos mistérios: não se deve trair um mistério, mas nem poderia ser realmente traído, porque, dito em público, pareceria sem sentido; assim, as violações do segredo que de fato ocorriam não prejudicavam as instituições, mas a preservação do segredo contribuía largamente para o prestígio dos cultos mais sagrados. Essa terminologia era, de fato, utilizada constantemente para designar e caracterizar os mistérios que constituem o tema deste livro. A festa de Elêusis é ta Mysteria enquanto tal, mas seria igualmente adequado chamá-la de arrhetos telete, sendo o Telesterion o aposento principal do santuário. Há uma certa preferência no uso de teletai em relação a Dioniso, mas mystai, mysteria e myeo também surgem já na época de Heráclito; mystai e bakchoi se encontram na tabuinha de Hipônio. Analogamente, existem vários teletai no culto a Meter, mas também desde cedo existem referências documentais aos mysteria; o taurobóleo é um telete para um mystipolos. Em seu livro sobre Ísis, Apuleio geralmente fala em mysteria, mas também emprega o termo teletae49. No tocante a Mitra, a designação normal parece ser”os mistérios de Mitra“, mas estes também eram teletai50.
É de se notar que, na maioria dos casos, existem formas de um culto “normal” ao lado dos mistérios, ou seja, o culto para os não-iniciados, independente de uma possível pretensão à myesis ou telete. Havia festas anuais em datas fixas; solicitavam-se e aceitavam-se oferendas privadas sem restrições — apenas Mitra constitui um caso especial. As relações entre as iniciações privadas e as festas oficiais são complexas e muito heterogêneas. Em Elêusis, a iniciação (myesis) usualmente culminava na festa de outono chamada Mysteria; a iniciação de Apuleio, por outro lado, não estava ligada a um festejo de data fixa, mas era determinada por ordens divinas através dos sonhos; todavia, os initiati, enquanto grupo, participavam na procissão anual de Ploiafésia em Corinto. Nos santuários de Ísis, os sacerdotes residentes procediam a laboriosos ofícios diários, da manhã à noite, para os deuses egípcios. Em Roma, Mater Magna tinha sua grande festa na primavera, mas as datas registradas dos taurobóleos não guardam relação com os dias marcados do calendário anual. Em todo caso, os mistérios devem ser vistos como uma forma especial de culto prestado no contexto mais amplo da prática religiosa. Portanto, não é apropriado o uso da designação “religiões de mistério”, como nome geral e exclusivo para um sistema fechado. As iniciações aos mistérios constituíam uma atividade opcional dentro de uma religião politeísta, comparável, digamos, a uma peregrinação a Santiago de Compostela dentro do sistema cristão.
No mundo antigo, pois, os mistérios não eram absolutamente obrigatórios e inevitáveis; havia um elemento de escolha pessoal, uma decisão individual em cada caso. A iniciação não era inelutavelmente prescrita pela pertença tribal ou familiar. Embora existisse, evidentemente, uma certa pressão da tradição familiar, os jovens podiam resistir a seus pais, como ilustra a exposição romanceada das bacanais romanas. Heródoto escreve a propósito de Elêusis: “Qualquer ateniense ou outro grego que queira, é iniciado”, e a propósito do rei cita Skyles em Ólbia: “Ele teve o desejo de ser iniciado a Dioniso Bakcheios”. Era ele, pessoalmente, que queria ser iniciado; tinha sido advertido por sinais, e podia ter desistido. É claro que também havia propostas diretas, havia uma propaganda dos sacerdotes de iniciação: “É valioso adquirir este conhecimento”. Mas muitos hesitariam. Daí a pintura de Oknos, a Hesitação personificada, trançando uma corda que é mastigada por seu asno; o não-iniciado nunca atinge a consumação, telos. Alguns levavam a sério, outros ficavam indiferentes; não existia uma autoridade inquestionável a respeito dos teletai. “Os que desejam ser iniciados costumam, creio eu, recorrer primeiramente ao 'pai' dos ritos sagrados, para planejar os preparativos que devem ser feitos” — tal é a descrição dos procedimentos em Tertuliano56. Naturalmente, também havia como recusar os candidatos pouco promissores. Os sacerdotes de Ísis podiam recorrer a oráculos oníricos, como mostra o caso de Lúcio-Apuleio.
Este papel da iniciativa pessoal está nitidamente ligado às condições sociais que tinham se desenvolvido no século VI a.C., com ênfase sobre a descoberta do indivíduo; dificilmente seria uma coincidência que as primeiras indicações claras dos mistérios propriamente ditos pertençam a esta época -sem importar quais fossem as festas a que correspondiam os Mysteria no período micênico. Também é típico que os defensores de um controle tribal ou estatal rigoroso geralmente alimentassem suspeitas contra mistérios privados. Enquanto Platão, nas Leis, se dispunha a permitir uma certa tolerância, Cícero romano e Filo judeu defendiam a repressão aos cultos privados. Mas, para os que participavam dos riscos e oportunidades da liberdade individual que surgira no mundo helênico, os mistérios podiam constituir uma “invenção” decisiva: cultos que não eram prescritos nem restritos pela família, pelo clã ou pela classe, mas que podiam ser escolhidos à vontade, além de prometer uma certa segurança pessoal pela integração numa festividade e pela correspondente proximidade pessoal com alguma grande divindade. Os mistérios eram rituais de iniciação de caráter voluntário, pessoal e secreto, que visavam a uma transformação do espírito por meio da experiência do sagrado.
