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ENNOEA – ANSELMO CAETANO
CAETANO, Anselmo. ENNOEA OU APLICAÇÃO DO ENTENDIMENTO SOBRE A PEDRA FILOSOFAL. Ed. Yvette Centeno. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1985
Tópicos da Apresentação de Yvette Centeno
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A Ennoea, de Anselmo Caetano Munhos de Abreu Gusmão e Castello Branco, concluída em 1730 e publicada em duas partes em 1732 e 1733, é o primeiro tratado português de alquimia explicitamente apresentado como tal.
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O título significa “aplicação do entendimento”, conforme esclarece o próprio autor no “Suplemento”, corrigindo a gralha que substituiu Ennoea por Ennaea.
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Os interlocutores do diálogo, Enodato e Enodio, significam respectivamente “coisa declarada” e “coisa encontrada”.
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A obra interessa por múltiplos títulos, sendo seu autor um português ilustre – Doutor da Universidade de Coimbra, Familiar do Santo Ofício e Médico de obra reconhecida – e constituindo uma fonte valiosa para o estudo da circulação da alquimia no meio português.
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Enodato pretende demonstrar a existência da pedra filosofal à luz das doutrinas de numerosos hermetistas.
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Já no “Prólogo”, uma primeira enumeração revela que o autor conheceu e meditou os tratados a que se refere, entre os quais figuram Santo Alberto Magno, Arnaldo de Villanova, Raimundo Lúlio, Avicena, Paracelso, Roberto de Fluctibus, Sendivogio, Mangetus, Rogério Bacon, Basílio Valentino e Hermes Trismegisto.
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A Tabula Smaragdina de Hermes é valorizada pela doutrina da unificação do mundo superior com o inferior.
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A Bibliotheca Chemica de Mangetus contém inúmeros tratados.
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Anselmo Caetano distingue cuidadosamente a alquimia da magia, recusando que os sábios sejam chamados de mágicos pelos ignorantes, e afirmando que o segredo da filosofia hermética reside no estudo devotado, no trabalho paciente e na revelação concedida pela graça de Deus.
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Santo Alberto Magno e Paracelso concordam, segundo o autor, que o segredo da Pedra Filosofal se alcança não pela própria sabedoria, mas pela graça do Espírito Santo.
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O autor cita a fórmula latina: “Non ex mea Scientia… Ex Spiritus Sancti gratia.”
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Para demonstrar que o misterioso da natureza existe e é provado, o autor enumera longamente prodígios naturais e artificiais, concluindo que a raridade e o mistério da Pedra Filosofal não podem ser argumentos contra a sua existência.
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Entre os prodígios naturais figuram a Fênix, o Unicórnio, a Salamandra, o Basilisco, o Ímã, a Nepenthes, a Rêmora, a Baaras, a Heliotropia, a Turquesa, a Helites e o Carbúnculo.
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Entre os prodígios artificiais destacam-se a cabeça parlante fabricada por Santo Alberto Magno, a estátua de Vênus inventada por Dédalo e a Cabeça de Metal de Tavora.
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A argumentação abandona progressivamente a crença no prodígio para fundamentar-se no progresso do entendimento expresso em metáforas e alegorias, linguagem própria dos alquimistas, com nova e extensa lista de referências alemãs, inglesas, holandesas, francesas, italianas, escocesas, dinamarquesas e espanholas.
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Entre os alemães destacam-se Lambsprinck e Michael Maier; entre os ingleses, Chaucer e Gower; entre os italianos, Ficino recebe importância especial.
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O Padre Raphael Bluteau, o mais insigne português citado, fornece a etimologia da palavra alquimia, fundamentando a sua antiguidade.
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A doutrina exposta na Ennoea é sobretudo inspirada na Turba dos Filósofos, e a Pedra Filosofal recebe inúmeros nomes que encobrem sua realidade múltipla: a sublimação misteriosa dos elementos e princípios que transforma a Matéria Prima num corpo espiritual incorruptível.
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Os nomes da Pedra incluem, entre muitos outros, Céo, Chrysosperma, Semente de Ouro, Água da Vida, Sigilo de Salomão, Fogo da Natureza, Leite de Virgem, Mercúrio dos Filósofos, Dragão, Águia, Corvo e Elixir.
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Os elementos são Fogo, Ar, Água e Terra; os princípios são Enxofre, Mercúrio e Sal.
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A Matéria Prima é tão complexa e multiforme quanto a própria Pedra Filosofal, sendo buscada pelos herméticos em substâncias tão diversas quanto ouro, mercúrio, antimônio, sal, enxofre, sangue, urina, ovos e vinho, com igual discordância quanto à forma de preparação da Tintura.
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A solução para a multiplicidade de nomes é dada na segunda parte da Ennoea: a linguagem dos alquimistas é simbólica e seu significado está muito além do que literalmente dizem.
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Quando Lúlio fala em vinho vermelho ou branco, quer que se entendam por eles coisas totalmente diversas do que esses nomes significam.
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A Arte alquímica é fundamentada na Tabula Smaragdina de Hermes, considerada a pedra de toque de todas as opiniões e dogmas químicos, sendo falsos todos os ditames que com ela não concordam.
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Hermes é descrito como a raiz donde brotou a Química, e sua Pedra Filosofal é a base sólida do edifício da Filosofia Hermética.
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O Conde da Ericeira, D. Francisco Xavier de Menezes, chamara à pedra filosofal “Sebastianismo da Filosofia”, expressão que Anselmo Caetano acolhe para afirmar que a alquimia é uma filosofia e uma arte de viver tanto quanto de transmutar.
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A Tabula Smaragdina, frequentemente citada, resume a visão hermética do mundo na afirmação de que o que está em baixo é como o que está em cima, para realizar as maravilhas da Coisa Única, cujo significado Dom Pernety, no Dictionnaire Mytho-Hermétique, explica como a matéria dos filósofos após a conjunção do espírito e do corpo.
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A Coisa Única contém as propriedades e virtudes das coisas superiores e inferiores do Universo, razão pela qual recebe os nomes de todos os indivíduos.
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Basílio Valentino afirma que ela contém todas as coisas porque é todas as coisas; Morieno, que ela existe para o rico e para o pobre, para velhos e jovens.
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A doutrina da Tabula Smaragdina afirma a unidade de todas as coisas, a origem comum de todas as formas da matéria e a crença de que todas as substâncias resultam de um processo de desenvolvimento e são suscetíveis de transformação.
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O Sol, a Lua, o Vento e a Terra – identificados com ouro, prata, enxofre e mercúrio – são considerados origem da Pedra.
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Para Hermes, como para Raphael Bluteau – chamado por Anselmo Caetano de “Hermes Católico” – o universo é o livro da Divindade, e entendê-lo é entender a Deus.
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A produção da Pedra dos Filósofos é comparada à criação do Mundo, com seu caos e sua matéria prima, a separação dos elementos pelo espírito ígneo e o surgimento sucessivo dos dois grandes Luminares.
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Enodio responde que a maior operação da Arte se assemelha à maior obra da Onipotência, pois Deus criou do Nada e a Arte, imitadora da natureza, produz do que nada vai.
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Enodato acrescenta que a criação da Pedra Filosofal é semelhante à de Adão, razão pela qual a Pedra é por vezes chamada de “Infante Filosófico”.
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Paracelso resume a doutrina alquímica no Paragranum comparando o alquimista ao padeiro, ao vinhateiro e ao tecelão, pois a alquimia permite a todas as coisas naturais atingir o ponto que a natureza lhes destinou.
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O objetivo da Arte não é apenas o ouro da saúde e da vida, mas igualmente a salvação da alma.
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O tratado conclui com texto de Bluteau afirmando que a verdadeira Pedra Filosofal é a graça de Deus, que comunica à alma a virtude de purificar os metais dos cinco sentidos.
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O Mutus Liber, que Anselmo Caetano demonstra conhecer, faz a apologia da virtude, da fé e do trabalho paciente até à revelação, com a fórmula “ora, lege, lege, relege, labora et invenies”, e o autor chega a fazer da Pedra Filosofal o símbolo da Santíssima Trindade e da unidade de Deus.
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A oração é a base do trabalho e a revelação surge como sua recompensa.
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O filósofo hermético deve reunir qualidades intelectuais – claro entendimento, profundo juízo, domínio do latim, da filosofia, da matemática e dos livros químicos – e virtudes práticas como indústria, constância, riqueza, prudência, sossego, paciência e, sobretudo, segredo.
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Santo Alberto Magno adverte que em nenhuma coisa devem os Adeptos ser mais cautelosos do que em ocultar os segredos com que operam.
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O “Casamento Hermético” ou Conjunção dos Opostos – o leão com a águia, o fixo com o volátil, a terra com o ar – é descrito nos moldes dos tratados anteriores como o Rosarium Philosophorum e a Turba Philosophorum, visando sublimar a matéria até atingir a quinta-essência do Espírito Universal, o Rebis dos alquimistas.
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O Rebis, infante filosófico de duplo sexo, simboliza a coincidentia oppositorum que Nicolau de Cusa assimilara à Unidade.
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Jung analisa o Rosarium Philosophorum e afirma que a conjunção da mulher branca com o esposo vermelho simboliza o nascimento do Uno e do Todo, o reaparecimento do homem de glória desaparecido, idêntico ao Logos na simbólica gnóstica e cristã.
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A Ennoea revela a enorme erudição de Anselmo Caetano que, à maneira de Paracelso e como ele médico, põe a alquimia ao serviço da saúde da alma, concluindo com um “Sonho Enigmático” e um “Testamento Hermético” que são a chave de sua obra.
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É tradição alquímica revelar visões por meio de sonhos, como fez Zosimo no século III, cujas visões descrevem uma mutação que consiste em recuperar um estado primordial não diferenciado.
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No Poimandro de Hermes Trismegisto, traduzido por Marsílio Ficino em 1471, a revelação também ocorre num estado de semissono, com o narrador recebendo a iluminação do Verbo.
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No “Sonho Enigmático” da Ennoea, o arquétipo feminino do Uno primordial é representado pela Cidade Morgana, um centro simbólico situado no alto de uma montanha, para onde o adepto, após um naufrágio simbólico, chega como Peregrino.
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A Cidade Morgana é descrita como um jardim com plantas de cores simbólicas e árvores de frutos alusivos ao processo alquímico, culminando em duas árvores prodigiosas: uma de prata com frutos como açucenas e outra de ouro com frutos de púrpura, representando a albedo e a rubedo da Pedra Filosofal.
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Um venerável ancião junto à árvore de ouro bebe uma gota do suco do fruto e transforma-se em jovem mancebo, tornando-se guia e iniciador do Peregrino.
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Morgana é a natureza, a Grande Mãe primordial e dadivosa, a quem obedecem todas as criaturas como a uma mãe, ligada à lenda da fada que reina na ilha de Avalon e que, segundo a tradição céltica, devolveu a saúde e a vida ao rei Artur.
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As fadas são originariamente imagens da Terra-Mãe, associadas à vida da vegetação e ao ciclo das estações.
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O número de Morgana é o nove, o mesmo de Afrodite e de outras divindades primordiais hermafrodíticas.
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O “Sonho Enigmático” de Anselmo Caetano apresenta paralelo notável com a “Parábola ou Enigma Filosófico” do Novum Lumen Chemicum de Michael Sendivogius (1604), utilizando os mesmos símbolos: árvore de ouro, árvore de prata, elixir resultante do fruto da árvore de ouro e revelação feita em sonhos ao adepto por uma entidade iniciadora.
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Sendivogius, nascido em 1556 ou 1566 e morto em 1634 ou 1644, tornou-se célebre pelas transmutações operadas na Polônia e em Praga e pela publicação do Novum Lumen Chemicum.
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A coincidência dos símbolos confirma que Anselmo Caetano estava familiarizado com as fontes que pode ter consultado diretamente ou nas antologias herméticas que circulavam à época.
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O “Testamento Hermético”, escrito em verso e em castelhano, insere-se na tradição de revelar o mistério da Obra em testamentos versificados, abordando as etapas do processo alquímico: o Rebis, a nigredo, a cauda pavonis e a chegada ao Mercúrio, tendo como essência “unir Tierra, y Cielo”.
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O número simbólico de nove estrofes remete ao tempo de gestação, à matriz e à integração do Espírito na matéria criada.
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O preceito de Ostanes – “a natureza rejubila na natureza, a natureza subjuga a natureza, a natureza rege a natureza” – é apresentado como fundamento da Obra.
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A Cidade Morgana difere da Jerusalém Celeste por ser uma cidade terrena e humana, ainda que transmutada, aberta à contemplação de uma nova forma de vida integral e natural centrada na alma, e seu nome tem origem num fenômeno óptico descrito no Vocabulário do Padre Raphael Bluteau, observado na cidade de Régio, na Calábria.
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Bluteau descreve a Morgana como uma representação admirável de castelos, palácios, bosques e campos que aparecem nos vapores do ar sobre o Estreito da Sicília no verão.
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O Padre Kircher, no livro Ars Magna lucis et umbrae, explica o fenômeno por razões naturais fundadas na catóptrica.
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A originalidade de Anselmo Caetano está na ampliação simbólica e alquímica da Cidade Morgana, com fontes artúrias explícitas: Wolfram von Eschenbach no Parzival chama “Feimurgan” à terra para onde um ancestral de Gamuret é levado, e a versão portuguesa da Demanda do Santo Graal dedica um capítulo a “Galvam e seus irmãos em casa de Morgaim”.
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O talo branco com que o Peregrino do sonho se desloca é guia e expressão da energia vital, relacionado com a Árvore da Vida que, na Queste del Saint Graal, Eva leva consigo ao ser expulsa do Paraíso.
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O florescimento do talo diante da Imperatriz Morgana prenuncia a união que permite o acesso ao fruto da árvore de Ouro, identificado com a Pedra e o Elixir como quinta-essência da Vida.
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Anselmo Caetano escreveu outras obras além da Ennoea, entre as quais o Systema Medico Galeno-Chymico do Morbo Hungarico (1729, manuscrito inédito na Biblioteca Nacional de Lisboa), a Polymathia Medica Hermetico-Galenica (ainda não localizada) e, no domínio do maravilhoso e do profético, o Oraculo Prophetico, o Vieira abbreviado e outras obras publicadas em Lisboa em 1733.
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O Systema Medico é dedicado ao “Misterioso e Real numero quinario” de D. João V, chamando ao Templo de Mafra “quinta essência de todas as Maravilhas do Mundo” e comparando-o ao Templo de Salomão.
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No Oraculo Prophetico, Anselmo Caetano identifica a cidade de Mafra com a Jerusalém Celeste profetizada por Ezequiel e D. João V como o monarca do Quinto Império do mundo, revelando-se, como o Padre Antônio Vieira, profeta do Quinto Império.
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O futuro está contido no passado como num espelho: a memória é arquivo do passado e a experiência é profecia do futuro.
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O autor situa-se entre os continuadores das doutrinas joaquimitas, segundo as quais a Idade do Espírito Santo está contida na história e à beira de realizar-se.
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A flexibilidade intelectual deste Doutor de Coimbra e Familiar do Santo Ofício é surpreendente num país onde os heterodoxos eram forçados ao silêncio, como demonstra o caso de Frei Vicente Nogueira, cuja biblioteca de tratados alquímicos foi apreendida e mandada destruir pelo fogo pela Inquisição.
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Anselmo Caetano não só disserta sobre a existência da Pedra Filosofal como argumenta contra os que a negam, apresentando e analisando detalhadamente os alquimistas que conhece.
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O conhecimento da alquimia em Portugal não foi reduzido, remontando ao menos ao século XIII com Pedro Hispano, Papa João XXI, a quem é atribuído o Tractatus mirabilis aquarum, e tendo cultores no século XVI como o Padre Antônio de Gouveia, perseguido pela Inquisição por se declarar alquimista.
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Duarte Madeira Arrais, médico de D. João IV, é celebrado por um método curativo baseado em especulação profunda, e seu Novae Philosophiae et Medicinae de Qualitatibus Occultis (1650) inclui tratados sobre qualidades ocultas.
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Um manuscrito inédito de Duarte Madeira Arrais de 1648, intitulado Tratado dos oleos de enxofre, vitriòlo, philosophorum, cita Arnaldo de Villanova e Paracelso e refere explicitamente os minerais dos Herméticos.
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Anselmo Caetano narra o caso de Manoel da Rocha, relojoeiro do rei D. João V, que ao tentar fixar o mercúrio por força física provocou a explosão de uma espingarda, sendo em seguida orientado por um estrangeiro que, com um pó branco, transformou mercúrio em prata diante de várias testemunhas.
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O estrangeiro deixou o conselho de que não é a força, mas o engenho, que permite o sucesso.
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O processo de fixação do mercúrio é descrito como mais interior do que exterior, dependendo da disposição da alma mais do que da vontade de obter ouro.
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O final do tratado tem tom moralizador e oferece uma dupla leitura, citando Bluteau para afirmar que a verdadeira Pedra Filosofal é a graça de Deus que purifica a alma – para os que não admitem a alquimia – sem abandonar a leitura voltada para a Alma e para os frutos da Árvore da Vida que Morgana protege.
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A Árvore da Vida simboliza a sabedoria que acima de tudo se deve procurar.
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O Emblema XXVI da Atalanta Fugiens conclui o texto afirmando que não há entre os humanos sabedoria maior do que aquela que mostra, de certo modo, o caminho que conduz à salvação – um caminho e não um estado adquirido, uma esperança redentora que devolve o homem a Deus e a si mesmo.
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