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O OUTRO TEXTO
CENTENO, Yvette. A Alquimia do Amor. Lisboa: Regra do Jogo, 1982.
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O texto literário distingue-se de qualquer escrito meramente utilitário pela sua capacidade de significar em níveis que transcendem a consciência racional, operando na esfera do simbólico.
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A literariedade fundamenta-se na comunicação dirigida ao inconsciente e ao Eu universal, o qual abarca a totalidade da personalidade.
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O ego ou eu individual limita-se à consciência, relacionando-se com o Eu universal como a parte com o todo.
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A participação nos arquétipos reintegra o indivíduo na totalidade universal do inconsciente coletivo, superando o isolamento pessoal.
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Carl Gustav Jung postula que o mito e o mistério são revelações involuntárias de pré-condições psíquicas inconscientes.
O inconsciente coletivo constitui um sistema psíquico de natureza impessoal, universal e herdado, cujos conteúdos são formas preexistentes denominadas arquétipos.-
Diferentemente do inconsciente pessoal, formado por experiências esquecidas ou reprimidas, o coletivo deve sua existência exclusivamente à hereditariedade.
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Os arquétipos são formas definidas na psique presentes em toda parte, correspondendo aos pensamentos primordiais de Adolf Bastian ou às categorias da imaginação de Hubert e Mauss.
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A imaginação, a percepção e o pensamento humano são influenciados por esses elementos formais inatos, de modo análogo aos instintos.
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A qualidade estética e literária de uma obra está em relação direta com a sua capacidade de projetar conteúdos do inconsciente coletivo, conferindo-lhe uma dimensão mítica e universal.
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O texto atua como mediador entre o ego e o Eu universal, tornando os dados do inconsciente significativos para o leitor.
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A eficácia literária aumenta conforme a matéria arquetípica comum se torna explícita e acessível a uma psique idêntica à que se expressa no texto.
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Fernando Pessoa define literatura como a arte que vive do que a palavra contém nos seus sentidos indiretos, em oposição à prosa utilitária.
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A mensagem literária funciona como pretexto para significações latentes e profundas que residem no domínio do inconsciente.
O surrealismo propõe o resgate da imaginação e das forças estranhas do espírito contra o império da lógica absoluta e do racionalismo restrito.-
André Breton defende a captação das forças irracionais para que o sonho e a realidade se resolvam em uma Realidade Absoluta ou Sobre-realidade.
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A definição de surrealismo como automatismo psíquico puro visa exprimir o funcionamento real do pensamento na ausência de controle racional.
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O movimento baseia-se na crença no poder absoluto do sonho e no jogo desinteressado do pensamento como meios de resolução dos problemas da vida.
A busca surrealista pela libertação da imaginação apresenta analogias profundas com a procura alquímica pela pedra filosofal.-
O desregramento de todos os sentidos objetiva a abolição do domínio da consciência em favor das manifestações do inconsciente.
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O surrealismo atua na região de origem dos mitos e do desejo sem repressão, transportando o significante ao seu ponto de nascimento.
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André Breton descreve o processo como uma germinação da palavra, furando o tambor da razão raciocinante.
A proposição de Rimbaud sobre a alteridade do eu exemplifica a transposição do ego limitado para uma realidade arquetípica e coletiva.-
O enunciado je est un autre revela a consciência de uma forma preexistente que ultrapassa a individualidade pessoal.
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Essa forma superior do eu constitui uma entidade supra-ordenada do espírito que integra tanto a consciência quanto o inconsciente.
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A literariedade da frase decorre da sua vasta capacidade de significação baseada no mundo do inconsciente que a dita.
O processo de criação poética exige que o autor se torne vidente através de um desregramento sistemático dos sentidos para atingir o desconhecido.-
Arthur Rimbaud afirma que a subjetividade criadora é atravessada por uma força externa, expressa na ideia de que o pensamento é pensado no sujeito.
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A missão do poeta envolve a exploração exaustiva de todas as formas de amor, sofrimento e loucura para extrair as suas quintessences.
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Ao cultivar a própria alma e atingir o inominável, o poeta torna-se o supremo cientista e o ladrão do fogo divino.
A função primordial do poeta consiste em desvendar a alma universal e formalizar os conteúdos do além através de uma linguagem universal.-
Arthur Rimbaud distingue os autores egoístas, presos ao ego, daqueles que percorrem os limites profundos da imensidade da alma.
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O desvendamento do mistério da alma universal justifica qualquer preço, incluindo o risco da loucura ou do crime.
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A história e o progresso da poesia são determinados pela descoberta e atualização dos conteúdos do inconsciente coletivo.
A mensagem poética e a alquímica são adaptadas à linguagem do inconsciente e do simbólico, opondo-se frontalmente à análise crítica racionalista.-
René Alleau observa que os prolongamentos do ser não se manifestam na duração consciente nem no realismo racionalista.
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A experiência poética opera uma transmutação que não se separa das forças do imaginário e da analogia universal.
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Nicolas Flamel e os alquimistas antigos servem de exemplo para a projeção dinâmica de conteúdos universais humanos antes da modernidade.
A estrutura dos processos alquímicos e míticos obedece a uma lógica não-aristotélica, operando por saltos e bivalências construtivas.-
Antoine Faivre assinala que a obra alquímica não possui sequência linear, assemelhando-se às leis da física moderna.
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Os princípios de potencialização e atualização de Stéphane Lupasco permitem substituir o caráter estático da lógica clássica.
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O solve et coagula alquímico funde dualidades aparentes, onde a morte é simultaneamente nascimento e passagem de estado.
As substâncias alquímicas enxofre, mercúrio e sal expressam leis de forças centrífugas e centrípetas que se conjugam no sal como local de metamorfose.-
O sal reúne o fixo e o volátil, sendo a zona ativa onde as virtudes dos outros princípios se aliam.
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O texto literário atua como o sal, promovendo a fusão entre a consciência do eu e o inconsciente do outro.
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Essa união dinâmica de princípios resulta numa realidade superior equivalente à pedra filosofal dos alquimistas.
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Henri Michaux descreve a busca poética como uma relação dinâmica com o outro polo da alma no alargamento do inconsciente.
A narração alquímica de Zósimo o Panopolitano exemplifica o sistema de despojamento e fixação do espírito sobre o corpo através da transformação da natureza.-
O sacrifício ritual do sacerdote Íon no altar em forma de taça descreve o desmembramento e a queima necessários para a transmutação em espírito.
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A visão do pequeno homem e do homem de cobre vomitando carnes simboliza o local da maceração onde se obtém a virtude.
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A interligação e dissociação de todas as coisas no altar demonstram que a natureza regressa sobre si própria para se transformar.
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A construção de um templo sem fim, a imolação da serpente guardiã e a mutação do sacerdote de cobre em prata e ouro representam o método da sabedoria universal. ```
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