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esoterismo:hanegraaff:2022:2

2 Coração das Trevas

HANEGRAAFF, Wouter Jacobus. Hermetic spirituality and the historical imagination: altered states of knowledge in late antiquity. Cambridge New York (N.Y.): Cambridge University Press, 2022.

1. A epígrafe de Joseph Conrad evoca um grande rio que, no mapa, se assemelha a uma imensa serpente desenrolada, com a cabeça no mar, o corpo repousando sobre um vasto país e a cauda perdida nas profundezas da terra.

2. O viajante greco-romano que chegasse ao delta do Nilo encontraria em Alexandria uma grande metrópole cosmopolita de língua grega, onde os egípcios nativos eram minoria diante de gregos e judeus, cidade concebida como grega em solo estrangeiro, “Alexandria junto ao Egito”, a maior capital provincial do Império, tradicionalmente considerada o cadinho do hermetismo.

3. Essa origem alexandrina torna-se duvidosa para o viajante que subisse o Nilo rumo ao Alto Egito, pois já em Mênfis encontraria uma atmosfera diferente e a hostilidade dos “verdadeiros egípcios” para com os alexandrinos helenizados, sendo a capital e a província quase dois países de civilizações distintas e Alexandria e Mênfis cidades culturalmente antitéticas, aprofundando-se a sensação de deixar para trás a civilização helênica à medida que se avançava para o sul.

4. Pelo canal que liga o vale do Nilo ao oásis do Fayyum, cuja principal cidade era Shedet, a Cidade dos Crocodilos, onde a devoção ao faraó divinizado Amenemhat III talvez tenha semeado as primeiras sementes da tradição hermética, o viajante chegaria a Hermópolis Magna, centro do culto de Thoth, deus identificado a Hermes pelos gregos, cujos sacerdotes ainda no século IV veneravam Hermes Trismegisto como deus ancestral e protetor.

5. Mais ao sul, em Panópolis, terra natal do alquimista Zósimo, que com Teosebeia participava de um meio de devotos herméticos e onde se ergueu no século III uma inscrição votiva ao grande deus Hermes Trismegisto, e perto de Chenoboskion, onde ascetas cristãos em busca de visões traduziram para o copta manuscritos herméticos gregos, descobertos em 1945 em Nag Hammadi com outros textos cristãos heréticos, que revolucionariam a compreensão da espiritualidade hermética.

6. O viajante alcançaria por fim Tebas, a antiquíssima Waset, residência dos faraós do Novo Império e cidade de Amon, coração do Egito antigo e centro de resistência ao domínio grego e romano, o ponto mais distante do helenismo alexandrino e a pátria da religião egípcia, onde deve começar a busca da tradição hermética.

Tessalo em Tebas

1. Na primeira metade do século II, Tessalo, jovem ambicioso e jactancioso vindo da Ásia Menor para estudar medicina em Alexandria, como tantos estudantes móveis do mundo greco-romano, deparou com um livro sobre as virtudes medicinais de pedras e plantas atribuído ao lendário rei e astrólogo Nequepso, supostamente inspirado por visões de Hermes e Asclépio, e vangloriou-se de uma descoberta médica antes mesmo de experimentá-la.

2. As prescrições revelaram-se inúteis, expondo-o ao escárnio dos colegas, e Tessalo, humilhado demais para voltar para casa, vagou pelo Egito movido por um aguilhão na alma, preferindo o suicídio a regressar como fracassado.

3. Tessalo pressentia que falaria com os deuses e erguia as mãos ao céu pedindo-lhes um favor por meio de um sonho ou do espírito de um deus, para voltar feliz e orgulhoso a Alexandria e à sua pátria.

4. Em Tebas, Tessalo passou a frequentar os anciãos e sacerdotes dos templos, cuja situação só se compreende à luz das profundas mudanças sofridas pelos funcionários religiosos do Alto Egito sob o Império Romano.

5. Após três séculos de domínio ptolemaico, em que a cultura grega penetrou as elites egípcias e os sacerdotes desfrutaram de grande riqueza e poder, a conquista romana de 30 a.C. impôs um regime de severidade inédita, motivado pela animosidade de Otávio contra o Egito e por sua importância como celeiro imperial, privando os sacerdotes de poder, prestígio e rendimentos, como descreve Robert K. Ritner.

6. Sob os romanos, os assuntos dos templos foram submetidos à conta privada imperial e a um burocrata equestre, os sacerdócios e bens foram reduzidos, a burocracia passou a controlar hierarquia, funções, vestes e finanças, os sacerdotes foram proibidos de atividades econômicas e obrigados a vestir linho, ser circuncidados e raspar a cabeça, e, em troca desse isolamento, receberam um subsídio e isenções, origem da imagem estereotipada de sacerdotes egípcios enclausurados, ascéticos e contemplativos.

7. Os sacerdotes encontrados por Tessalo em Tebas eram velhos empobrecidos, isolados, humilhados pela decadência de suas tradições e ressentidos com os estrangeiros que as destruíram, praticando os ritos antigos em templos arruinados, com sua autoridade reduzida ao domínio espiritual.

8. Os sacerdotes, amáveis com Tessalo, afastaram-se indignados quando ele perguntou sobre magia, exceto um que conhecia o procedimento de visões numa tigela de água, a cujos pés Tessalo se lançou em lágrimas ameaçando matar-se se não visse um deus, e que, após três dias de jejum e abstinência, o conduziu a uma câmara pura, talvez em Deir el-Bahri, onde, apesar de contrariado, atendeu ao desejo de falar a sós com Asclépio, pronunciando os nomes inefáveis e deixando-o diante do trono em que o deus apareceria.

9. Num ritual de aparição, Asclépio surgiu diante de Tessalo com um rosto e um ambiente de beleza indescritível que o libertaram do corpo e da alma, estendeu-lhe a mão, elogiou-o e respondeu a suas perguntas sobre o fracasso de Nequepso, instruindo-o sobre o verdadeiro uso das plantas num tratado técnico de medicina astrológica, após o qual subiu, e, segundo alguns manuscritos latinos, Tessalo e o sacerdote foram a Alexandria, onde as novas prescrições convenceram os céticos.

10. Os rituais de aparição, em que um deus responde às perguntas, concede favores ou estabelece uma relação duradoura, abundam na chamada Biblioteca Mágica Tebana e exigiam purificação, oferenda queimada, geralmente de incenso, e fórmulas faladas, materiais incompreensíveis se tomados como meras ficções literárias e não como reflexo de práticas reais nos templos egípcios capazes de produzir visões espetaculares, o que exige examinar o contexto ritual e visionário egípcio da época romana.

A Luz da Divindade

1. A narrativa de Tessalo situa-se entre a ficção e a autobiografia, pois, precisando de um novo tratado de astrologia vegetal com os momentos exatos de colheita e de uma autoridade superior a Nequepso para restaurar sua reputação, nada melhor que o deus da cura num templo de Tebas, podendo o autor ter copiado as descrições de epifanias, descrito um ritual fracassado ou realmente visto o deus, possibilidade que exige explicação.

2. O sacerdote, arriscando-se diante dos colegas ao admitir um estrangeiro nos ritos secretos, provavelmente esperava generosa remuneração do rico Tessalo, mercantilizando os ritos para complementar seus parcos rendimentos e explorando o estereótipo do mago sábio diante de um consumidor num mercado turístico de rituais exóticos, transações frequentes na época romana, como atesta um autor anônimo do século III.

3. Esse autor anônimo planeja ir ao Egito, cultivar a amizade dos hierofantes e profetas dos santuários e comprar com dinheiro um mago que, pela arte necromântica, lhe traga uma alma do inferno para consultá-la.

4. Tendo pago, Tessalo esperava algo impressionante, e seu estado era altamente receptivo, fraco após três dias de jejum, ansioso e convicto da realidade terrível dos deuses, sozinho numa câmara escura diante de um trono vazio, inalando a fumaça do kuphi, incenso de propriedades narcóticas que, segundo Plutarco, faz brilhar como um espelho a faculdade imaginativa sujeita aos sonhos.

5. Tessalo provavelmente contemplou Asclépio num estado alterado de consciência, sob a forma de uma luz brilhante, a phōtagōgia mencionada frequentemente na Biblioteca Tebana, que anunciava a chegada do deus e na qual, como num espelho, o sonolento Tessalo via o que esperava, uma forma luminosa indescritível que só podia ser o corpo do deus.

6. A luz provinha provavelmente de algum procedimento do sacerdote para produzir um clarão sobre o trono, necessário para impressionar o cliente, sem que isso implique necessariamente fraude consciente, pois Jâmblico reconhece que efeitos luminosos de epifania podiam ser produzidos por artifício técnico.

7. Segundo Jâmblico, os sacerdotes egípcios conduziam a luz através da água ou a faziam brilhar numa parede preparada com inscrições sagradas, fixando-a para não se dispersar, reduzindo-se todos os meios a um só, o brilho da luz por quaisquer instrumentos.

8. Essa passagem não deve ser lida como engano sacerdotal, pois, para Jâmblico, a chave das epifanias luminosas está na imaginação, já que a luz externa atua sobre o veículo luminoso da alma e permite aos deuses, por sua própria vontade, apoderar-se da faculdade imaginativa, sendo a imaginação não agente de ilusão, mas faculdade de percepção dos deuses, cuja aparição os sacerdotes apenas facilitavam por técnicas comprovadas.

Rumo à Luz

1. As experiências visionárias descritas nos meios greco-romanos de onde surgiram os tratados herméticos inscrevem-se no que Jâmblico chamava teurgia, obra divina em que, embora os ritos fossem realizados por homens, eram os deuses que dirigiam a obra, devendo-se vê-la não como tentativa de magos de dominar entidades invisíveis, mas como procedimento ritual para criar condições favoráveis à manifestação divina, baseado em tradições antigas e praticantes treinados, de modo que descartar essas experiências como ficções supersticiosas, como fez a pesquisa até os anos 1990, é ele próprio irracional por não oferecer explicação realista do que acontecia.

2. Além dos rituais de aparição, há rituais de ascensão, como a “Liturgia de Mitra”, em que um praticante guia sua “filha” até o céu dos deuses após sete dias de pureza e uma invocação a Hélio Mitra, fazendo-a inalar três vezes o sopro dos raios, isto é, o pneuma emanado da fonte de luz, que ilumina o veículo da alma, do qual os deuses se apoderam para elevá-la ao ar, em silêncio, contemplando os planetas como divindades vivas.

3. A questão de saber o que fazia a praticante sentir-se flutuar, entrar no silêncio e ver os astros como seres vivos é ignorada pelos especialistas, embora a “Liturgia de Mitra” ofereça chaves plausíveis, pois Pselo relata, segundo Proclo, que o veículo da alma é fortalecido ou purificado por pedras, ervas e encantamentos.

4. Segundo Pselo, o Caldeu afirma que não se pode subir até Deus sem fortalecer o veículo da alma por sacramentos materiais, purificando-a por pedras, ervas e conjurações para torná-la mais ágil para a ascensão.

5. O autor da “Liturgia de Mitra” confirma explicitamente o uso de sucos de ervas e drogas, de modo que uma preparação vegetal permitia à discípula inalar o pneuma no veículo da alma e aos deuses fortalecer sua imaginação, efeito reforçado pela inalação simultânea do kuphi.

6. A receita anexa à “Liturgia de Mitra” prescreve alimentar um escaravelho com bolo de mel e polpa de lótus, colocá-lo em óleo de rosas, consagrá-lo por sete dias e enterrá-lo com mirra e vinho mendesiano para obter um unguento ritual, sendo o lírio-d'água egípcio narcótico e alucinógeno e a mirra componente de colírios visionários, além de um suco de kentritis, ainda não identificado, aplicado nos olhos para ver com espantosa clareza e usado com mel e mirra para escrever letras numa folha que se lambia, efeito que o autor diz tê-lo maravilhado.

7. Os efeitos exatos da combinação de mirra, lírio-d'água, kentritis e outros ingredientes com o kuphi permanecem especulativos, mas certamente alteravam fortemente a consciência, tornando os praticantes sugestionáveis e induzindo alucinações visuais e talvez auditivas, cujo conteúdo dependia crucialmente das expectativas e do contexto ritual, pois a praticante, preparada para ver os deuses e guiada por instruções precisas, viveria uma experiência moldada por suas crenças, histórias e temores em interação com o efeito psicoativo.

8. Relido sob essa luz, o texto mostra que o guia recita a invocação enquanto unge o rosto da discípula com o unguento alucinógeno e só depois a faz inalar três vezes, seguindo-se a sensação de subir e flutuar, o silêncio e o temor diante das potências divinas ameaçadoras, que ela apazigua com o dedo nos lábios, a fórmula do Silêncio, assobios, estalos e palavras incompreensíveis, repetidos diante de um trovão, afirmando ser ela uma estrela que vagueia com eles.

9. Diante da expansão do sol, das estrelas de cinco pontas e da abertura do sol revelando grandes portas fechadas, a praticante recorre às mesmas fórmulas e sons, que, do ponto de vista psicológico, a ajudam a recuperar equilíbrio e controle em seu estado frágil, e recita sete vezes uma longa prece até que as portas se abram com estrondo e revelem o mundo dos deuses, enchendo-a de alegria.

10. Inalando mais pneuma e fixando o olhar no interior do sol, a praticante vê surgir um belo deus jovem a quem pede que a anuncie ao pai, por ter renascido imortal, seguindo-se mugidos, expirações, beijos nos amuletos, a aparição de sete virgens com rostos de áspide e sete deuses com rostos de touros negros e, por fim, Hélio, gigante jovem de cabelos dourados, a quem pede que habite sua alma e de quem recebe um oráculo em versos, após o qual fica fraca, fora de si e sem palavras, assegurando-lhe o guia que depois recordará tudo.

Práticas Experienciais Privadas

1. Muitos estudiosos distanciam-se desses textos com qualificativos depreciativos como obscuros, bizarros ou subfilosóficos, quase fórmulas apotropaicas, ou enfatizam seu caráter “mágico” para negar-lhes a legitimidade religiosa ou sacerdotal, como Preisendanz, que em suas traduções acrescentava arbitrariamente o prefixo “mágico” a atos, plantas, sinais, cantos e nomes, criando a magia em vez de encontrá-la, quando os autores egípcios não partilhavam a visão romana da mageia como algo negativo, mas a descreviam como santa e divina, de modo que a erudição moderna, seguindo Roma e não o Egito, continua a falar a linguagem da suspeita e do desprezo.

2. A questão da magia e da religião resume-se ao dilema do tradutor entre manter os termos originais, apesar de seu sentido atual, ou buscar palavras que tornem o sentido compreensível, opção esta preferida, razão pela qual a “Biblioteca Mágica Tebana” deveria chamar-se “Biblioteca Sacerdotal Tebana”, pois documenta atividades de sacerdotes egípcios, e insistir nas categorias pejorativas de seus adversários, chamando-os de magos enquanto se pretende levá-los a sério, equivale a insultá-los sob pretensa imparcialidade.

3. Uma lógica inversa governa o tabu sobre as substâncias psicoativas, evitadas pelos classicistas justamente por suas conotações pejorativas, pois a geração que a partir dos anos 1980 restituiu a teurgia à agenda acadêmica como dotada de racionalidade própria temia que a menção às drogas confirmasse os velhos preconceitos e expusesse os estudiosos ao sensacionalismo midiático que arruinou reputações, embora as referências abundem nas fontes e sejam importantes para compreender a eficácia desses rituais, cabendo aos estudiosos superar seus próprios preconceitos culturais.

4. Deixando de imaginar o Egito romano como coração das trevas cheio de magia e superstição, vê-se uma das maiores culturas antigas lutando para sobreviver sob domínio estrangeiro, com templos decadentes reduzidos a empresas privadas e sacerdotes obrigados a competir num mercado religioso pluralista, crescendo a tensão entre modos “locativos” de religião, ligados aos templos onde os deuses habitavam, e modos “utópicos” praticáveis em qualquer lugar, próprios de um mundo helenístico de mobilidade e intercâmbio.

5. Alguns centros de culto continuaram a atrair peregrinos, mas a crença em deuses nacionais ligados a lugares específicos enfraqueceu-se, e a diáspora desenvolveu técnicas complexas para obter visões, epifanias ou viagens celestes, modos de acesso à divindade independentes de qualquer lugar.

6. Esse desenvolvimento, típico de situações cosmopolitas como a globalização atual, faz surgir, ao lado da religião como formação social ligada às comunidades tradicionais, formas mais fluidas, praticáveis em qualquer parte por indivíduos móveis e centradas no cultivo de experiências privadas, o que corresponde exatamente à definição atual de espiritualidade e torna enganosa a designação de magos para os praticantes espirituais.

7. O mercado espiritual nascente ofereceu oportunidades aos sacerdotes egípcios, idealizados por estrangeiros como iniciados em mistérios antigos, estereótipo que lhes convinha apropriar ao redefinirem seu papel como mestres espirituais, e a consequente mercantilização de serviços rituais e experiências visionárias não precisa ser vista como comercialismo cínico, pois os sacerdotes também precisavam comer e era natural esperar algo em troca de ensinamentos e iniciações, como ainda ocorre no mercado espiritual global contemporâneo.

8. A atenção às substâncias psicoativas visa corrigir sua negligência e compreender os mecanismos de marginalização discursiva, sem torná-las centrais na espiritualidade hermética, mas situando-as num repertório muito mais amplo de técnicas da Antiguidade tardia, bem descrito pelo conceito foucaultiano de tecnologias do eu.

9. Segundo Foucault, as tecnologias do eu permitem aos indivíduos realizar, por seus próprios meios ou com ajuda, operações sobre seus corpos, almas, pensamentos, condutas e modos de ser para transformar-se e alcançar felicidade, pureza, sabedoria, perfeição ou imortalidade.

10. Essa definição resume perfeitamente a espiritualidade hermética, cujas técnicas produziam desde mudanças perceptivas sutis até estados alterados intensos, efeitos psicológicos centrais em tratados como o CH I, o CH XIII e o NH VI6 e pressupostos mesmo nas discussões teóricas, sem os quais as dimensões mais importantes da literatura hermética permanecem incompreensíveis, devendo-se, porém, começar pela visão de mundo hermética exposta num tratado comparativamente não experiencial, o “Logos teleios”, conhecido em latim como “Asclépio”.

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