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DURAND

Gilbert Durand (1921-2012)

Introduction à la mythodologie Mythes et sociétés (La Pensée et le Sacré)

  • Constatações indicam que a cultura ocidental contemporânea experimenta um retorno expressivo ao tema do mito e das visões de mundo centradas no símbolo.
    • Gilbert Durand descreve esse fenômeno como uma Galáxia do Imaginário que atrai o pensamento profundo atual.
    • A civilização ocidental encontra-se em uma zona de alta pressão imaginária.
  • O clima de saturação do imaginário teve início no século XIX como reação à revolução industrial e expandiu-se com o avanço dos meios audiovisuais no século XX.
    • Dom Basile é citado para ilustrar o crescimento desse movimento desde o início do século.
    • O racionalismo matemático, antes excomungador de imagens, acabou produzindo tecnicamente o advento da rainha das faculdades.
  • A invenção da fotografia e as técnicas de reprodução infinita permitiram uma democratização e ampliação do conhecimento artístico sem precedentes.
    • André Malraux observa em seu Museu Imaginário que os meios de compreender uma obra centuplicaram-se com o clichê e o tiragem ilimitada.
    • Van Gogh e Cézanne dispunham apenas de raras gravuras, enquanto a geração atual convive com uma invasão geométrica de imagens via satélite e radiografia.
    • Os manuais escolares de Malet e Isaac ou o de História de Uby, antes despojados, deram lugar a obras como as de Lagarde e Michard, ricas em fotografias que orientam a leitura.
  • A vulgarização da psicanálise contribuiu para a revalorização do símbolo e da imagem nos níveis médico e cotidiano.
    • Freud é apontado como contemporâneo dos irmãos Lumière, de Cartier—Bresson e de Malraux.
    • Termos como o mito de Édipo e de Jocasta penetraram o horizonte de comportamento comum através da televisão e de publicações ilustradas.
  • A crítica literária e artística migrou de uma explicação histórica extrínseca para uma abordagem intrínseca focada na temática das obras.
    • Hippolyte Taine e Gustave Lanson representam a crítica preocupada com explicações históricas que foi superada pela Nova Crítica dos anos 50.
    • Herbert Marcuse critica a unidimensionalidade da explicação histórica pura.
    • O interesse pelo exotismo manifesta-se em seitas budistas em Montparnasse, sufis em Ménilmontant ou seguidores de Krishna em Alfama.
    • Marilyn Ferguson é identificada como a grande sacerdotisa do New Age, descrito como um patchwork que tenta transcender a angústia do nada.
    • Joachim de Fiore é mencionado como o precursor de visões que projetam um futuro espiritualizado, influenciando o New Age.
  • A vida política e cívica do século XX não permaneceu imune ao maremoto mitológico reforçado pelo poder mediático.
    • Georges Sorel e Alfred Rosenberg são citados como figuras ligadas às pressões do imaginário político e à nova teogonia do culto à personalidade.
    • J.—P. Sironneau analisa em sua tese as religiões seculares que se cristalizam em torno de ideologias com eficácia terrível.
  • A atual ressurgência do imaginário representa uma revolução contra séculos de repressão pedagógica e epistemológica.
    • O autor propõe investigar as motivações dessa volta ao mito, evitando a noção de causa em favor das motivações de G. Gurvitch.
  • A tradição pedagógica ocidental manteve uma postura iconoclasta, autorizando imagens apenas em esferas marginais da sociedade.
    • Henry Corbin demonstra que, diferentemente do Islã que proíbe a figuração de Allah mas interioriza o imaginário, o Ocidente permite a imagem visual mas a desvaloriza intelectualmente.
    • Corbin assinala essa diferença em sua obra sobre a imaginação criadora no sufismo de Ibn Arabi.
    • A lei francesa que reserva apenas um por cento do orçamento de monumentos para ornamentação exemplifica essa marginalização.
    • A Denkpsychologie é citada como exemplo do ideal de um pensamento sem imagens.
  • A desvalorização da imagem remonta à Antiguidade e consolidou-se com o domínio da lógica aristotélica e do racionalismo cartesiano.
    • Aristóteles, Platão e Sócrates parquearam a imagem no domínio inferior da fantasia.
    • Malebranche nomeou a imaginação como a louca da casa, termo repetido por Voltaire em seu Dicionário Filosófico.
  • O divórcio entre o pensamento visionário e o racional acentuou-se com a tradução de Aristóteles para a Europa.
    • No encontro de Córdoba em 1979, relembrou-se que Henry Corbin situava esse divórcio na partida de Ibn Arabi após o funeral de Averróis.
    • Pensadores como Guilherme de Auvergne, Santo Tomás de Aquino e Descartes consolidaram a via da percepção e do conceito em detrimento da imaginação criadora.
    • A figura do filisteu ou do burguês de Daumier opõe-se à do poeta sonhador, o Pierrot lunar, profeta incompreendido.
  • O positivismo do século XIX, embora pretendesse destruir o obscurantismo, instaurou-se como um novo mito progressista.
    • Saint—Simon, Fourier e Auguste Comte transformaram o social em refúgio para o sonho utópico sob a máscara da física social.
    • Henri de Lubac estuda a posteridade de Joachim de Flore em figuras como Bossuet, Vico, Condorcet, Hegel e Marx.
    • O mito de Prometeu triunfa na ideologia do progresso, como se vê no projeto de lei de Pierre Leroux em 1848, que via na Santíssima Trindade a figura do progresso natural.
  • A laicização do teológico reforçou o mito em vez de enfraquecê-lo, dotando o modernismo de uma estrutura religiosa.
    • Auguste Comte fundou uma religião da humanidade com liturgia própria, presente até hoje no Rio de Janeiro.
    • Karl Marx cultivou sua barba à semelhança de um busto de Júpiter, sonhando-se como o Olimpiano de uma nova era de ordem.
    • A Fenomenologia do Espírito de Hegel e o materialismo de Marx são descritos como epopeias onde a história termina no Estado prussiano ou na sociedade sem classes.
  • A saturação das visões de mundo é uma motivação fundamental para a transição entre etapas civilizatórias.
    • Alain afirmava que o cansaço de ser platônico explica Aristóteles.
    • Pitirim Sorokin destaca o balanço entre estados imaginários quando temas inspiradores sofrem anemia.
    • R. Trousson e Jean Tulard analisaram como o mito de Prometeu e a biografia de Napoleão dominaram o imaginário do século XIX.
  • O surgimento dos decantes no final do século XIX marcou a desilusão com o triunfismo industrial e o progresso insolente.
    • Thomas Mann utilizou o mito de José em sua tetralogia para combater o mito nazista de Rosenberg.
    • Mann observou que Richard Wagner e Émile Zola, apesar de parecerem opostos, restauraram conscientemente o mito como estrutura narrativa.
    • Nietzsche, o pai de Zaratustra, anunciou a morte de um Deus antigo e a ressurreição de Dioniso ou Hermes.
    • Michel Foucault sugeriu que os novos mitos são, no fundo, sempre os mesmos.
    • A pintura simbolista de Gustave Moreau, Redon, Arnold Böcklin e outros reagiu contra o progressismo científico do neo—impressionismo.
  • A teoria das gerações literárias e a revolta dos filhos contra os pères são insuficientes para explicar mudanças culturais profundas.
    • Henri Peyre e Guy Michaud mapearam esses balanços de sensibilidade, mas a demografia constante dilui tal eficácia.
  • A subversão da razão clássica e da epistemologia tradicional abriu espaço para o retorno do imaginário.
    • Gaston Bachelard refere-se a uma filosofia do não que questiona as bases da física e da geometria clássicas.
    • Max Planck, Einstein, Niels Bohr, Werner Heisenberg e Wolfgang Pauli alteraram as categorias de Kant e Aristóteles.
    • Edgar Morin, Stéphane Lupasco e Hannah Arendt refletiram sobre essa subversão lógica.
    • Riemann e Lobatchevski são citados como precursores dessa mudança através de geometrias não euclidianas.
  • O enfraquecimento do racionalismo permite que o imaginário ocupe o espaço vacante por um efeito de vasos comunicantes.
    • O encontro de Córdoba em 1979 simbolizou a união entre a física moderna, antropólogos e poetas.
  • O desenvolvimento da antropologia e o contato com a alteridade revelaram a permanência do pensamento simbólico em todas as culturas.
    • Claude Lévi—Strauss afirma em O Pensamento Selvagem que o homem sempre pensou igualmente bem.
    • A escola africanista de Marcel Griaule, Germaine Diéterlen e Jean Servier — autor de L Homem e o Invisível — explorou dimensões além do racional.
    • Frobenius, Frazer, Mircea Eliade e Roger Bastide abriram o olhar ocidental para sonhos e transes antes desprezados.
    • As Reuniões de Eranos em Ascona tornaram-se o centro de uma nova ciência antropológica unificada.
    • George Steiner discute a real presença dos símbolos no contexto contemporâneo.
  • O próprio marxismo sofreu subversões internas que reabilitaram o poder das superestruturas e do mito sobre a base tecnológica.
    • Gramsci, Walter Benjamin, Ernst Bloch, Karl Mannheim e Herbert Marcuse reconheceram o impacto de estruturas míticas nos comportamentos sociais.
    • A descoberta de dissimultaneidades no progresso histórico abalou o materialismo dogmático.
  • A história linear e progressista é colocada em dúvida em favor de uma visão que admite retornos e declínios.
    • Giambattista Vico antecipou a noção de ricorso ou retorno histórico.
    • Oswald Spengler e Georges Sorel perceberam que as civilizações são mortais e o relato histórico é subjetivo.
    • Guy Bourdé, Hervé Martin, Paul Veyne e Raymond Aron questionam a objetividade da narrativa histórica em relação ao romance.
  • Georges Dumézil demonstrou que relatos considerados históricos eram, na verdade, modelos míticos indo—europeus.
    • Tite—Líve narrou a fundação de Roma com figuras como Rômulo e Horatius Cocles que Dumézil vinculou a mitos da Escandinávia e da Índia.
    • Pierre Solié, Philippe Walter e André Reszler aplicam essa perspectiva aos mitos cristãos e políticos modernos.
  • O sucesso de regimes totalitários como o nazismo deveu-se à oferta de ritos e mitos que as instituições modernas haviam suprimido.
    • Joseph de Maistre meditou sobre a facilidade da Revolução Francesa, assim como C. G. Jung alertou em 1936 que o deus Wotan estava reprimido no inconsciente germânico.
    • Jean Tulard demonstrou como o mito de Napoleão absorveu a personalidade histórica em um arquétipo solar.
    • Joël Thomas analisa a persistência do mito sebastianista e do imperador escondido na história de Portugal.
  • O descompasso entre o avanço das visões de mundo e o conservadorismo das instituições gera acelerações e bifurcações históricas.
    • Abraham Moles descreve explosões míticas que ocorrem quando as instituições não acompanham a sensibilidade coletiva.
  • As igrejas e o Estado ocidental perderam seu carisma mitológico ao buscarem a secularização e o conformismo com a ciência histórica.
    • Teólogos como Teilhard de Chardin, Loisy e Bultmann tentaram adaptar a fé a verdades científicas flutuantes.
    • Georges Gusdorf ironiza a desventura das igrejas e estados que laicizaram os saberes.
  • A necessidade vital de sonhar e simbolizar é comprovada por experimentos clínicos e biológicos.
    • O professor Jouvet demonstrou que a privação do sonho em gatos e humanos leva a alucinações e distúrbios neuróticos.
    • Gaston Bachelard defendeu o direito de sonhar como constitutivo da vitalidade humana.
  • A tentativa de reduzir a educação a um treinamento tecnocrático provoca um transferência do poder imaginário para seitas e misticismos selvagens.
    • Bruno Duborgel e Roger Sperry criticam um sistema educacional considerado hemiplégico por ignorar um dos hemisférios cerebrais.
  • A proteção contra mitos totalitários reside no ensino de uma ciência do mito ou mitodologia.
    • Durand defende um mito fraternalmente aberto em oposição à supremacia de raças ou ideologias monocéfalas.
  • A sociedade ocidental atual é composta por três estratificações ideológicas que coabitam com mitos fundadores distintos.
    • A escola mantém a pedagogia positivista e a ideologia prometeica do século XIX focada no crescimento tecnológico.
    • Os meios de comunicação de massa, guiados pelo audimat, promovem mitos órficos ou dionísicos de forma anárquica.
    • A elite dos cientistas, como Niels Bohr e Schrödinger, redescobre modelos milenares como o Taoísmo e o Vedantismo.
    • Olivier Costa de Beauregard e Françoise Bonardel apontam que a física quântica e o hermetismo compartilham estruturas de pensamento não aristotélicas.
    • Ferdinand Alquié escreveu sobre a solidão da razão, que no caso dos cientistas modernos, encontra eco em gnoses contemporâneas.
  • O potencial psíquico humano permanece constante, fazendo com que o homem reencontre mitos antigos em vez de criar novos.
    • Homo sapiens sapiens mantém as mesmas funções cerebrais há milênios, garantindo a perenidade do jogo mitológico.
    • O mito deixa de ser um fantasma gratuito para ser reconhecido como uma realidade fundamental da existência.
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