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ASNO DE OURO
VON FRANZ, Marie-Louise. The Golden Ass of Apuleius: The Liberation of the Feminine in Man. Boston: Shambhala, 2017.
- O Asno de Ouro, de Apuleio de Madaura, tem sido objeto de avaliações contraditórias por razões inerentes tanto à composição e às fontes da obra quanto à personalidade do autor.
- O texto latino do século II d.C. desconcertou os comentadores por parecer escrito segundo dois planos — narra a história principal de Lúcio e suas transformações, entremeada de contos que, do ponto de vista racional e superficial, pouco parecem ter em comum com as aventuras do herói.
- A obra não é uma criação inteiramente pessoal — o autor se inspirou em um texto perdido atribuído a Lúcio de Patras, derivado de um original grego destruído que também serviu de modelo para O Asno, romance de um pseudo-Luciano.
- Existia assim uma coleção de romances de vários autores — pensada no estilo do Decameron de Boccaccio ou dos Contos de Cantuária de Chaucer — que mais tarde desapareceu; nenhuma dessas coleções anteriores continha nem o conto de Eros e Psique nem a iniciação nos mistérios de Ísis.
- Apesar de se servir de histórias mais antigas, Apuleio criou um livro completamente novo com uma mensagem interior completamente nova.
- Do ponto de vista literário, a obra é complicada por seu estilo afetado e seus numerosos jogos de palavras — o que corresponde ao chamado estilo milesiano, provavelmente adquirido por Apuleio no curso de seus estudos.
- O conteúdo apresenta certas características quixotescas, com uma mistura de ocultismo.
- A composição é frequentemente criticada porque o autor, em vez de introduzir logicamente uma história incidental, geralmente se contenta com algo como: isso me lembra uma história suculenta.
- Esse tipo de composição solta dá a impressão de um certo abaissement du niveau mental — rebaixamento do nível mental.
- É possível que Apuleio, sendo um escritor e conferencista bem-sucedido, tenha composto o romance com grande pressa, de modo que seu inconsciente teria tido participação na elaboração da história — seguindo um encadeamento de associações e fantasias criativas cujo significado vai muito além do que ele próprio sabia.
- O romance recebeu comentários que vão da admiração extrema ao escárnio completo — alguns autores consideram que Apuleio pouco mais fez do que compilar uma pobre coleção de anedotas já conhecidas, e a obra toda parece mera sátira ou entretenimento frívolo.
- Karl Kerényi, que dedicou a maior parte de seu estudo ao conto de Eros e Psique, reconheceu seu valor e sua profundidade religiosa.
- Após Kerényi, Reinhold Merkelbach percebeu pela primeira vez que o livro como um todo possui um profundo significado religioso que se revela crescentemente ao final — embora Merkelbach não tenha analisado o livro em sua totalidade.
- É necessária a chave da psicologia junguiana e o conhecimento do inconsciente para acompanhar o processo interior de desenvolvimento psíquico que o autor descreve — revelando-se então como um todo completamente coerente.
- Algumas traduções antigas suprimem boa parte das anedotas eróticas; versões modernas preservam as passagens sexuais mas suprimem os mistérios de iniciação, considerando-os uma adição inútil que não corresponde ao espírito do restante da obra.
- Autores eruditos chegaram a tentar provar que o último livro — o décimo primeiro, a iniciação nos mistérios de Ísis — havia sido acrescentado por outro autor ou pelo próprio Apuleio numa fase posterior de sua vida.
- Toca-se aqui no problema mais difícil: a proximidade da paixão sexual e da experiência espiritual e religiosa que a acompanha.
- Muitas religiões diferenciadas acentuam o contraste entre sexualidade e espiritualidade — como provam as instituições ascéticas e monásticas —, mas o caráter orgiástico de numerosos rituais religiosos demonstra que a raiz mais profunda da sexualidade e do êxtase religioso parece ser uma só.
- A obra de Apuleio contém ambos os polos desses opostos e lança nova luz sobre esse problema fundamental.
- A maior dificuldade para a maioria dos comentadores reside no fato de, ignorando a psicologia do inconsciente, suporem que Apuleio introduziu conscientemente todas as alusões simbólicas presentes no romance.
- Apuleio certamente deslizou intencionalmente muitas ideias simbólicas em sua história, mas outras fluíram inconscientemente de sua pena.
- Onde colocou conscientemente certos motivos simbólicos, poder-se-ia tratá-los alegoricamente no sentido platônico — como um profundo significado filosófico oculto sob a imagem simbólica.
- Merkelbach observou que Apuleio atribuiu nomes significativos a quase todos os seus personagens e que certamente foi por intenção que escolheu transformar Lúcio em asno — pois Seth, inimigo de Ísis e Osíris, era frequentemente representado nessa forma animal; viver a vida de um asno significa, como sublinha Merkelbach, suportar uma vida sem Ísis.
- A contribuição do inconsciente é tanto mais provável porque Apuleio vivenciou uma profunda conversão religiosa — como indicam os exemplos de são Paulo e de santo Agostinho, a conversão corresponde ao momento em que as duas vidas, a consciente e a inconscientemente desenvolvida em nível mais profundo, se unem.
- Jung tinha O Asno de Ouro em alta estima e várias vezes sugeriu que a obra fosse examinada mais de perto — e o desafio inicial foi justamente não saber como abordá-la.
- A descoberta foi possível por meio de um recurso simples: escrever separadamente o que o herói Lúcio experimenta na primeira pessoa — sua transformação em asno e todas as suas aventuras infelizes até a redenção — e as histórias inseridas, traçando uma linha divisória entre os dois planos e uma linha em zigue-zague representando o fio real da narrativa.
- O segundo passo foi tratar as histórias inseridas como sonhos de Lúcio — da mesma forma que temos uma vida diurna e à noite nos é narrada uma história, cabendo ver como os dois planos se conectam.
- Do ponto de vista da psicologia pessoal, Lúcio é o tipo de homem que sofre de um complexo materno negativo — embora o aspecto positivo do complexo também apareça na história, pois os opostos estão sempre juntos.
- O próprio Apuleio tinha uma relação positiva com sua mãe — na vida real casou-se com uma mulher cerca de vinte anos mais velha, com quem viveu feliz até a morte, enquanto o romance expressa ao longo de toda a sua extensão a outra face do problema: o lado sombrio do complexo materno.
- Como Jung mostrou, a mãe simboliza por vezes, num nível mais profundo, o inconsciente inteiro do homem; ao aparecer no final do romance na forma arquetípica da grande deusa-mãe Ísis, ela é a personificação de um cosmos interior que ultrapassa os limites da personalidade consciente — o que Jung chamou de a realidade da psique.
- Num nível mais profundo, Apuleio dá forma a um processo profundo de evolução de dimensão histórica: o retorno do princípio feminino ao mundo ocidental patriarcal.
- Esse lento retorno do princípio feminino aflorou intermitentemente na Idade Média — o amor cortês ofereceu uma oportunidade, e com ele o simbolismo do Graal —, mas trouxe um problema tremendo, pois os cavaleiros não eram capazes de manter apenas um amor platônico cortês por suas damas.
- Como não havia contraceptivos na época e isso ocorria em famílias aristocráticas, surgiu o enorme problema do bastardo, criando uma situação sociológica impossível; a Igreja aproveitou a oportunidade, condenou o amor cortês sexual e estimulou a veneração à Virgem Maria — que não envolvia perigo algum.
- Como Jung aponta claramente, foi exatamente nesse momento que começaram as perseguições às bruxas — pois o problema da anima não pode ser resolvido num nível apenas impessoal nem por um princípio; qualquer decisão sociológica e coletiva só pode estar errada, e se há uma solução ela só pode ser única, de indivíduo para indivíduo, de uma mulher a um homem.
- O Asno de Ouro é a descrição moderna do desenvolvimento da anima de um homem — de sua personalidade inconsciente feminina; a libertação das mulheres só pode ter êxito se houver também uma mudança nos homens, pois assim como as mulheres precisam superar o tirano patriarcal em suas próprias almas, os homens precisam libertar e diferenciar sua feminilidade interior.
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