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REDENÇÃO

FRANZ, Marie-Louise von. Significado Psicológico dos Motivos de Redenção nos Contos de Fadas: Um Estudo Arquetípico Sobre Conflitos e Problemas de Relacionamentos. Tradução: Álvaro Cabral. 2. ed. São Paulo, SP: Editora Cultrix, 2021.

  • Redenção, nos contos de fadas, não deve ser associada ao dogma e à teologia cristã — refere-se especificamente a uma condição em que alguém foi amaldiçoado ou enfeitiçado e é redimido por meio de certos acontecimentos ou eventos da história.
    • O tipo de maldição pode variar — um ser é condenado a assumir forma animal ou a ser um horrendo velho ou velha que, pelo processo de redenção, se converte em príncipe ou princesa.
    • As formas animais incluem animais de sangue frio ou quente — frequentemente o urso, o lobo ou o leão, ou aves como o pato, o corvo, a pomba ou a coruja — ou uma serpente.
    • Em outros casos, alguém é amaldiçoado e forçado a cometer maldades e a ser destrutivo sem o desejar — como a princesa que tem de matar todos os seus admiradores, mas que ao ser redimida declara que a maldição a forçou a tal comportamento.
  • A opção é examinar temas de várias histórias que mostram diferentes tipos de maldição, em vez de discorrer sobre um único conto de fadas, pois esses temas têm importante significado psicológico e são frequentemente o tema principal.
    • Um ser humano em estado neurótico pode muito bem ser comparado a uma pessoa enfeitiçada — as pessoas colhidas por uma neurose comportam-se de maneira destoante e destrutiva em relação a si mesmas e aos outros, forçadas a um nível excessivamente baixo de conduta.
    • Os contos de fadas que descrevem tais seres não lidam muito com o problema da maldição em si, mas com o método de redenção — e nisso há muito a aprender para os procedimentos terapêuticos e o processo de cura.
  • Os tipos de redenção variam — há seres enfeitiçados que precisam banhar-se em água ou leite, às vezes recebendo pancadas ao mesmo tempo; outros pedem para ser degolados; outros ainda precisam ser amados ou beijados, ou devem comer flores; certas peles precisam ser lançadas sobre a pessoa ou vestidas, ou certas perguntas precisam ser feitas ou evitadas.
    • Em terapia, os médicos frequentemente esperam encontrar receitas e fórmulas, mas os junguianos afirmam que não existe receita para tipos de doenças — cada caso é um processo único cercando um indivíduo único.
    • Nessa situação difícil, em que o analista não dispõe de regras orientadoras, há a interpretação de sonhos — e acredita-se que, se os sonhos do paciente forem interpretados de forma cuidadosa e objetiva, sem a interposição de teorias próprias, será possível obter indicações sobre como proceder.
  • A única orientação teórica disponível é a capacidade de interpretar objetiva e precisamente os temas oníricos, para discernir como o inconsciente se propõe a efetuar a cura.
    • O processo de cura é sempre único, mas os contos de fadas e as lendas fornecem representações de processos instintivos da psique que possuem validade geral — assim como todos os seres humanos caminham sobre duas pernas e têm uma boca e dois olhos, a psique humana possui certas características estruturais básicas encontráveis em toda parte.
    • No nível do inconsciente coletivo, encontram-se representações de processos de cura típicos para doenças típicas — se um tema onírico apresenta um banho para uma pessoa enfeitiçada, obtém-se uma ideia intuitiva do tipo de cura proposto; se o tema é cortar um ser em pedaços, obtém-se igualmente uma indicação da direção dos processos de cura.
  • Ao ler um conto de fadas sem ideias preconcebidas e com sentimento, parte-se sempre da ideia de que a pessoa no centro da história é um ser humano com quem nos identificamos — geralmente mulheres com mulheres e homens com homens — e de cujo sofrimento participamos.
    • Nas obras centradas em figuras míticas — como A Odisseia ou A Epopeia de Gilgamesh — a identificação é facilitada porque o herói se comporta como um ser humano: tem medo, está triste, está alegre, pergunta o que fará.
    • Os heróis das lendas estão mais vinculados a uma nação do que os dos contos de fadas.
  • O herói ou a heroína dos contos de fadas é muito diferente dos das lendas — nos contos de fadas são muito menos humanos, não possuem a vida interior da psique, não falam consigo mesmos, não têm dúvidas nem vacilam.
    • O dr. Max Lüthi chega a dizer que os heróis folclóricos são formas do tipo preto no branco — clichês com tendências muito características como argúcia, capacidade de sofrimento e lealdade — e nunca se encontrará algo como uma conversão psicológica num herói de conto de fadas, ao passo que uma mudança de atitude é frequentemente encontrada num mito.
    • Esses heróis não são apenas tipos de seres humanos, mas arquétipos — e por isso não podem ser diretamente comparados com o ego humano; não se pode aceitar o herói como um homem, nem a heroína como uma mulher.
  • Quem aspira uma pitada de psicologia junguiana pode ficar pior do que se não soubesse nada — escolhe um conto de fadas e alguns conceitos junguianos e os aplica às figuras como ego, anima e Si-mesmo, o que é pior do que nenhuma interpretação, por ser não científico, não objetivo, infantil e até desonesto.
    • Para aplicar um conceito junguiano a semelhante ser, é necessário distorcer a história — e quando o conceito não funciona ao longo de toda a narrativa, o intérprete descuidado atribuirá o erro a si mesmo ou à história, ou simplesmente passará por alto a parte embaraçosa.
    • Um conto de fadas não é produzido pela psique do indivíduo e não constitui material individual — os conceitos da psicologia junguiana foram construídos a partir da observação de indivíduos, e é sumamente discutível se podem ser aplicados a um material provavelmente produzido por muitas pessoas ou por um grupo.
  • Entre os povos simples — camponeses, madeireiros — em cujo círculo os contos de fadas se situam hoje em dia, existem dois tipos particulares: a saga local e o conto de fadas genuíno.
    • A saga local refere-se geralmente a uma história fantástica atribuída a determinado lugar ou castelo, onde pessoas da aldeia teriam testemunhado algum evento — a história é apurada e atribuída a um local concreto, o herói torna-se um ser humano definido e o conto é narrado como se referisse a um evento que realmente aconteceu.
    • Nos contos de fadas, depara-se repetidas vezes com fenômenos parapsicológicos; elementos fantasmagóricos são mais frequentes em sagas locais; as lendas possuem usualmente uma base histórica ou parcialmente histórica.
    • Na Suíça, a história de Guilherme Tell é discutida pelos historiadores — se é história verídica, conto de fadas ou motivo de saga, pois figura semelhante ocorre em contos nórdicos — mas tem a pretensão de ser histórica e situa os eventos num determinado tempo e lugar.
  • Por vezes acontece que, numa vida humana comum, ocorrem eventos tão fantásticos que, sem possibilidade de comprovação, poderiam ser tomados por conto de fadas — e aqui se encontra o problema da sincronicidade.
    • É espantoso ver com que frequência eventos semelhantes aos de um conto de fadas realmente acontecem quando uma situação arquetípica é constelada — e é muito possível que tal motivo mitológico seja então retocado, desenvolvido e acrescido de detalhes que não ocorreram de fato.
    • Tanto a saga local quanto a lenda histórica baseiam-se em eventos reais que foram vivenciados e depois fiados e ampliados até se converterem em história — e existe prova concreta dessa teoria: numa aldeia das montanhas suíças perto de Chur, uma família de moleiros possuía um livro com crônicas familiares, um deles descrevendo o encontro com uma raposa fantasmagórica que fala, seguido da morte do moleiro; em 1937 um estudioso do folclore interrogou anciãos da aldeia e ouviu a mesma história, parcialmente empobrecida e parcialmente enriquecida, com a adição de uma crença popular de que a raposa representa uma alma penada e pode produzir inflamação cutânea.
  • Quando uma saga local tem caráter muito genérico, ela emigra para aldeias vizinhas e, ao emigrar, perde seu interesse local — o moleiro original tinha nome e lugar certos, mas ao mudarem estes, a saga migratória perde as características locais que a fixavam num tempo e lugar e torna-se mais geral.
    • Estudar um tema de conto de fadas é semelhante a uma anatomia comparada da psique humana — tudo o que é individual ou local é em grande parte apagado por não ter interesse; estudar uma lenda é como estudar o corpo todo de uma nação; estudar um conto de fadas é como estudar um esqueleto.
    • O conto de fadas mostra os tipos básicos de forma mais pura — para estudar as estruturas básicas da psique humana é preferível o conto de fadas à lenda.
    • Se aplicada essa hipótese, retorna-se à conclusão de que o herói e a heroína não são indivíduos humanos, mas figuras arquetípicas.
  • Ao tentar desenvolver essa teoria pela primeira vez e ensiná-la a outras pessoas, encontraram-se grandes dificuldades de percepção — pois não se consegue suprimir a ideia sugestiva de tratar a personagem do conto como um ser humano.
    • A conclusão a que se chegou é que deve existir uma base instintiva geral para o ego e que se deve pressupor a existência de uma tendência inata da psique humana — o fator de construção do ego — que parece ser uma das características típicas do ser humano.
    • No estudo da psicologia das crianças — com referência aos ensaios de Michael Fordham — vê-se que o ego pode aparecer projetado como se não fosse o próprio ego: muitas crianças se referem a si mesmas pelo nome em vez de dizer eu.
    • A fase seguinte da personalidade do ego é projetada num ser tremendamente admirado — pode ser um colega de escola imitado como um escravo — e as qualidades que mais tarde pertencerão ao ego ainda não estão identificadas, mas projetadas num outro ser.
    • Nas sociedades primitivas, o mesmo fenômeno aparece sob outra forma — apenas o rei, o chefe ou o feiticeiro tem a qualidade de ser individual; um crime cometido na tribo pode ser punido em qualquer membro escolhido, não necessariamente o culpado, e isso está em perfeita ordem; por outro lado, se um homem branco fere os sentimentos de um de seus criados negros, este é capaz de se enforcar pensando que causará grande choque ao patrão — o ego é tão fraco que o indivíduo não é importante, o ponto principal é a vingança.
  • O complexo do ego é um fenômeno muito complicado sobre o qual se sabe pouquíssimo, mas pode-se formular a hipótese de trabalho de que o herói nos contos de fadas demonstra essa tendência para a construção do ego e serve como modelo para ele.
    • O estudo comparado de heróis e heroínas mostra que eles têm muitas das mesmas características típicas que identificam a imagem com o que Jung chama de arquétipo do Si-mesmo — muito diferente do ego, que é apenas uma parte da personalidade humana como um todo.
    • Em Mysterium Coniunctionis, Jung sublinha que o fator desconhecido que constrói o complexo do ego e o mantém funcionando é, na realidade, o arquétipo do Si-mesmo.
    • A continuidade de pensamento é típica de um complexo do ego bem desenvolvido e pode ser exercitada — essa forte qualidade de continuidade que o complexo do ego de um ser humano parece desenvolver é sustentada pelo arquétipo do Si-mesmo.
    • A saúde do indivíduo é melhor quando o complexo do ego funciona afinado com o Si-mesmo, pois nesse caso existe um mínimo relativo de perturbações neuróticas.
  • Nos contos de fadas, o herói ou a heroína foi amaldiçoado e tem de comportar-se de maneira destrutiva e negativa — e é tarefa do herói redimir a pessoa enfeitiçada.
    • Qualquer complexo arquetípico, qualquer unidade estrutural da psique inconsciente coletiva, pode ser alvo de maldição ou feitiço — não precisa ser o herói, podendo ser qualquer outro complexo.
    • De acordo com os contos, uma maldição é frequentemente infringida sem causa aparente — a pessoa entra nesse estado de modo involuntário, em geral inocentemente, ou quando existe culpa ela é de pouca monta, como na história da maçã no Jardim do Éden.
    • No conto dos Irmãos Grimm Os Sete Corvos, o pai, irritado por os filhos terem quebrado o cântaro, deseja que se transformem em corvos — e eles se transformam, cabendo à irmã redimi-los; culpa desse gênero é por vezes mencionada, mas geralmente não há qualquer explicação da maldição.
    • As sociedades primitivas vivem no medo constante de enfeitiçamento — algo que pode acontecer a qualquer pessoa, a qualquer momento, sem culpa; as vacas podem não dar leite, e isso pode acontecer com as vacas de qualquer um.
  • Em termos psicológicos, uma pessoa que num conto de fadas está enfeitiçada é comparável a alguém cuja entidade estrutural da psique humana foi danificada em seu funcionamento, tornando-se incapaz de funcionar normalmente.
    • Todos os complexos se influenciam mutuamente — se a anima de um homem é neurótica, embora o próprio homem não o seja, ele se sentirá parcialmente enfeitiçado, e isso pode ser visto na vida onírica.
    • É citada a experiência de acordar certa manhã sentindo que se ia morrer — um estado de espírito estranho e romântico que durou o dia inteiro e que na noite seguinte foi elucidado por um sonho: um rapaz muito romântico tinha realmente morrido — ou seja, morreu uma espécie de animus infantil, e seu agônico adeus afetou toda a psique.
    • Um complexo é afetado e tem efeito neurótico sobre o restante da pessoa — e isso explica os diferentes graus de neuroses; quando certos complexos são afetados, uma pessoa que em outros aspectos é normal pode estar completamente louca.
    • Estar enfeitiçado significa que certa estrutura da psique está mutilada ou danificada em seu funcionamento e o todo é por conseguinte afetado — pois todos os complexos vivem dentro de uma ordem social dada pela totalidade da psique.
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