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FUSUS AL-HIKAM

Gilis, Ibn Arabi, IACS LIVRO EM PDF

(…) Ibn Arabi apresenta uma lista completa dos capítulos que compõem sua obra, não no início, nem no final, mas após o primeiro capítulo, que trata da Sabedoria “divina” na Palavra de Adão. O autor estabelece uma clara separação entre esse capítulo inicial e todos os que o seguem. Essa maneira de proceder enfatiza que as diferentes manifestações do Verbo durante o atual ciclo da humanidade terrena são todas derivadas do “pai dos homens” em termos de sua modalidade corpórea. No entanto, essa interpretação cobre apenas o aspecto externo, já que a indicação dada por esse meio também alude a uma tradição esotérica altamente misteriosa relacionada ao “Tesouro de Adão” “possui a doutrina”; e é precisamente essa doutrina que foi formulada, com incomparável maestria, no tratado cuja tradução estamos apresentando aqui. (GiliFusus)


Prefácio de Gilis

A FUNÇÃO EXCEPCIONAL DO LIVRO DOS ENGASTES DAS SABEDORIAS (KITÂB FUSÛS AL-HIKAM) NO ESOTERISMO ISLÂMICO E NO UNIVERSO TRADICIONAL

A obra possui uma função excepcional no esoterismo islâmico e em todo o universo tradicional, sendo transmitida pelo próprio Profeta ao “maior dos Mestres” e contendo uma doutrina universal de elevação metafísica e amplitude existencial e cíclica sem equivalentes.

  • O favor que ela desfruta no Tasawwuf não é usurpado, tendo dado origem a várias dezenas de comentários por parte da elite intelectual.
  • A reputação que goza no Ocidente também não é usurpada, embora tenha sido apresentada até aqui de maneira pouco satisfatória.
  • Os ensinamentos são expressos em um estilo conciso, alusivo até a elipse, o que exige constantemente uma interpretação.
  • A presença de segre显现s é indicada de forma tão discreta que poderia passar despercebida, aparecendo apenas através de um ou outro detalhe significativo.

A SIGNIFICAÇÃO DO LIVRO À LUZ DO CONTEXTO TRADICIONAL ATUAL, SEGUNDO RENÉ GUÉNON E MICHEL VÂLSAN

A significação do livro deve ser considerada à luz do contexto tradicional atual, isto é, na perspectiva doutrinal aberta por René Guénon e continuada por Michel Valsan.

  • O ensinamento desses dois Mestres contém elementos decisivos que esclarecem o sentido escatológico do tratado de uma maneira que os comentadores não puderam fazer.
  • Segundo Michel Valsan, o Profeta Daniel foi o autor das cópias das figuras primordiais dos profetas que constavam no “Tesouro de Adão”.
  • A tradição do “Tesouro de Adão” não é própria do esoterismo islâmico, mas é este que “possui a doutrina” sobre o signo da cruz.

O TÁBÛT (ARCA) COMO DEPÓSITO SACROSSANTO REAL, CONSTITUINDO O PRINCÍPIO E O CENTRO DE UMA TRADIÇÃO

O Tâbût mencionado no Alcorão não é uma simples questão de tradição simbólica e doutrinal, mas sim um “depósito” sacrossanto real, de virtude oracular e operativa divina, constituindo o princípio e o centro de uma tradição em toda a sua realidade espiritual e institucional.

  • A mãe de Moisés recebeu a ordem divina de “deslizá-lo no Tâbût”, com o termo articulado, referindo-se a uma coisa preexistente e previamente “conhecida”.
  • A mãe de Moisés o remetia assim “ao Tâbût absoluto enquanto Arca permanente dos tesouros tradicionais a salvaguardar durante os períodos de perigo exterior”.

O ISLÃO COMO RESTAURAÇÃO DO CULTO AXIAL E HERDEIRO DAS VERDADES METAFÍSICAS ANTERIORES

O Islão apresenta-se como uma restauração do Culto axial e o suporte providencial de uma manifestação última da Tradição imutável, sendo também o herdeiro da totalidade das verdades metafísicas e das modalidades típicas da realização iniciática reveladas nas formas tradicionais anteriores.

  • A lista dos capítulos coloca os diferentes profetas sob a dependência de Adão porque todos são seus filhos segundo a carne, mas isso deve ser compreendido como uma marca de respeito da parte do Mestre real da obra, que é o Profeta.
  • O Profeta se descreve como um simples intérprete que “respeita os limites traçados para ele pelo Enviado de Allah sem nada acrescentar nem retirar” e que “transmite unicamente o que lhe foi transmitido”.
  • O Profeta, o Selo dos profetas, realiza a Totalidade principial que expressa, no grau das verdades transcendentais, a “perfeição passiva” e, analogicamente, o acabamento do nosso estado de existência.
  • A Sabedoria do Profeta é qualificada pela Incomparabilidade principial (fardiyya) pelo fato de que ele é o único a deter o Todo.
  • O Profeta, prestando testemunho ao seu próprio grau, disse que havia recebido “a Ciência dos primeiros e dos últimos”.
  • O número simbólico dos capítulos do Livro das Séforas é, na realidade, vinte e sete, devendo-se incluir o capítulo sobre Adão, apesar do lugar privilegiado que ocupa no início da obra.

O SENTIDO DO DEPÓSITO SAGRADO DO TESOURO DE ADÃO NA PERSPECTIVA DA HERANÇA TRADICIONAL MUHAMMADIANA

O sentido do depósito sagrado que é o Tesouro de Adão, quando se o considera na perspectiva da herança tradicional muhammadiana, é esclarecido pela ciência incomparável de Michel Valsan.

  • Os comentadores fazem derivar o termo tâbût da raiz t-w-b, que exprime a ideia de “retorno” (donde as de “arrependimento” e “reconciliação”), em relação com a ideia de um certo retorno da graça divina para com Israel.
  • Foi citada a passagem da surata da Novilha sobre Adão: “Ora Adão recebeu de seu Senhor umas Palavras (Kalimât) e o Senhor voltou a ele (tâba 'alay-hi); em verdade, Ele é Aquele que ama voltar e perdoar (at-Tawwâb), o Misericordiosíssimo (ar-Rahîm)” (Cor.,2,36-37).
  • É assinalado o primeiro momento na história sagrada onde intervém a noção de tawba, à qual está ligada a significação árabe do tabut e que concerne tanto o servo quanto o Senhor.
  • É enunciado o nome divino at-Tawwab (ao qual o de ar-Rahim serve de qualificativo), o que é o indício de uma teofania adequada, logicamente a primeira sob a relação deste nome.
  • No fato desta reconciliação, há um aspecto de “aliança”, no sentido bíblico da palavra, que evoca um dos qualificativos da Arca entre os israelitas.

A RELAÇÃO ENTRE O LIVRO DAS SÉFORAS, A DOUTRINA ESOTÉRICA DO TABUT ADÂMICO E O CALIFADO MUHAMMADIANO

Existe uma relação entre o Livro das Séforas e a doutrina esotérica do Tabut adâmico, sendo o ponto de vista especial da “herança muhammadiana” evocado pela presença do Nome ar-Rahim (o Misericordiosíssimo) no versículo corânico citado.

  • O termo kalimat, presente nos versículos, é o mesmo utilizado nos capítulos dos Fusûs para designar as diferentes manifestações do Verbo universal.
  • É pelas “Palavras de Allah” que se opera cada vez o Retorno divino para com um povo ou uma comunidade em um momento determinado do ciclo histórico.
  • O nome ar-Rahim, diferentemente de ar-Rahmân, é não somente um Nome divino mas também um nome do Profeta, qualificando-o enquanto manifestação perfeita da Forma de Allah, ou seja, do Homem Universal considerado como Califa Supremo.
  • Michel Valsan indica que as alianças divinas sucessivas se operam sob a autoridade e a égide do “Califado muhammadiano”, expressão que designa a permanência da Presença e da Ciência divinas no coração do estado humano.

A FUNÇÃO DO LIVRO DAS SÉFORAS DOS SABEDORIAS NO ENSINAMENTO ESOTÉRICO DO ISLÃO E A RECONCILIAÇÃO DIVINA UNIVERSAL

A função do Livro das Séforas das Sabedorias no ensinamento esotérico do Islão implica no mais alto grau o princípio de uma Reconciliação divina universal, onde cada capítulo expressa um aspecto fundamental da Sabedoria eterna identificado ao “séfora”, isto é, ao coração de um profeta.

  • Todas as verdades fundadoras das formas tradicionais são reunidas aqui em uma síntese final que revela sua unidade essencial.
  • Em um momento cíclico onde estas formas são pela primeira vez confrontadas e seu antagonismo aparente favorece a subversão, a afirmação explícita de seu princípio comum aparece como uma Graça e como uma Bênção últimas dirigidas ao conjunto dos homens.
  • A formulação islâmica da doutrina do Tesouro de Adão comporta virtualidades que não são da mesma ordem que as alianças anteriores.
  • A Lei transmitida pelo Selo dos profetas, embora incompatível com as legislações sagradas anteriores que ela ab-roga, tem por razão de ser trazer o suporte providencial e misericordioso de uma reconciliação final e total do conjunto das forças tradicionais que subsistem e atuam presentemente no mundo.
  • O Islão instaura uma comunidade fraterna que se identifica virtualmente à humanidade inteira, onde as Sabedorias e as Vias iniciáticas anteriores são reunidas segundo uma formulação nova ligada diretamente à luz e à guia muhammadianas.

O ENSINAMENTO DO LIVRO DIRIGIDO À ELITE INTELECTUAL, SENDO PUIRAMENTE MUHAMMADIANO QUANTO À SUA FONTE E EXCLUSIVAMENTE ISLÂMICO NA SUA EXPRESSÃO

O ensinamento esotérico contido neste livro dirige-se à Elite intelectual dos homens, qualquer que seja a religião ou a forma revelada à qual pertençam, sendo, no entanto, puramente muhammadiano quanto à sua fonte e exclusivamente islâmico na sua expressão e nas suas referências tradicionais.

  • A unidade metafísica do conjunto pode ser relacionada ao Profeta enquanto Homem Perfeito (al-insân al-kâmil), que possui a Ciência e a Profecia universais e reúne em si as Sabedorias representadas pelas diferentes manifestações do Verbo divino.
  • A unidade pode também ser relacionada a Ibn Arabî, pois, enquanto Selo da Santidade muhammadiana, ele sintetiza todos os modos e todos os graus da realização metafísica.
  • O nono capítulo trata da realização iniciática e da excelência do “Yûsuf muhammadiano” após ter explicado a Sabedoria do Yûsuf (José) “histórico”.
  • Ibn Arabî indica que o Livro das Fusûs se dirige “aos Gentes de Allah que são os Mestres dos corações”, ou seja, os modelos e os guias na Via da realização espiritual.
  • A unidade metafísica pode ser relacionada a 'Isâ ibn Maryam “Jesus filho de Maria”, que, segundo o Alcorão, é “Seu Verbo que Ele projetou em Maria” (Cor.,4,171), sendo ele o Verbo do qual procedem todos os Verbes como de sua única essência.

A DOUTRINA DOS “TRÊS SELOS” DO ESOTERISMO ISLÂMICO E A FUNÇÃO ESCATOLÓGICA DO LIVRO

A relação dos Fusûs com a doutrina dos “três Selos” do esoterismo islâmico (Muhammad, o Selo dos profetas; Ibn Arabî, o Selo da Santidade muhammadiana; o Cristo da Segunda Vinda, o Selo da Santidade universal) põe em luz a função escatológica da obra, evocada no último capítulo pela Sabedoria muhammadiana propriamente dita.

  • Estes Selos não dependem da forma islâmica no sentido restritivo e limitativo desta expressão, mas sim do Centro iniciático Supremo.
  • Eles são “independentes” em relação ao Islão na medida em que este depende deles do ponto de vista de sua definição formal e de suas readaptações cíclicas.
  • A fardiyya encerra uma significação que se relaciona ao número 3, do qual 27 representa, em correspondência com cada um dos Selos, as três potências visíveis.
  • A revelação do Cofre adâmico e de seu conteúdo, na medida autorizada por Deus, aparece como uma “apocalipse”, isto é, como um desvelamento dos mistérios escondidos.
  • O Tâbût absoluto e primordial pode ser identificado à Lei universal proclamada pelo Profeta, e os tesouros, eminentemente representados pelas Sabedorias dos Verbes, permanecem inafetados pela decadência do nosso mundo.

A PARTICULARIDADE DO TÍTULO DOS CAPÍTULOS E A INDETERMINAÇÃO COMO SÍMBOLO DA UNIVERSALIDADE TOTAL

A unidade principial dos Verbes se reflete em uma particularidade do título dos capítulos, onde tanto as Sabedorias qualificadas por meio dos termos indicativos das Estações iniciáticas quanto os Verbes correspondentes são gramaticalmente do gênero indeterminado, o que é um símbolo da universalidade total.

  • No primeiro capítulo, é preciso compreender que se trata não de “a Sabedoria divina no Verbo de Adão”, mas sim de uma Sabedoria absoluta e indeterminada qualificada de “divina” quando considerada como sendo a do Verbo universal em sua expressão adâmica.
  • Os capítulos não são numerados, diferentemente dos das Futuhât, aparecendo a numeração unicamente por comodidade nos comentadores.
  • Os nomes corânicos dos profetas foram preferidos, na tradução do texto, a seus equivalentes franceses para preservar a unidade formal do conjunto.

A INSPIRAÇÃO, O ESTILO E A COMPREENSÃO DO LIVRO DAS SÉFORAS DAS SABEDORIAS

A inspiração da qual procede a obra confere ao seu estilo uma grande espontaneidade, embora ele apareça muito construído, com uma lógica tanto racional nos seus arranjos quanto tradicional nas suas referências, exigindo uma vasta compreensão da tradição islâmica e dos ensinamentos do Cheikh al-Akbar.

  • O texto é seguro e comporta poucas variantes, mas inúmeros trechos são tornados equívocos pela extrema concisão do estilo.
  • A tradução obriga a escolher entre várias interpretações, sendo evidente que a indeterminação implicando sentidos múltiplos foi desejada pelo autor.
  • A dificuldade é aumentada pelo fato de que a doutrina suprema exposta nos Fusûs al-Hikam leva o Cheikh al-Akbar a comentar certos dados tradicionais de uma maneira que difere de suas interpretações anteriores.

A JUSTIFICATIVA DOS NUMEROSOS COMENTÁRIOS TRADICIONAIS E O MÉTODO ADOTADO PARA A TRADUÇÃO E AS NOTAS

O grande número de comentários tradicionais aos quais a obra deu origem (mais de uma centena segundo Osman Yahya) explica-se pela dificuldade do texto, sendo impossível resumir todas as explicações propostas.

  • O método escolhido consiste em apresentar a tradução em cabeçalho para cada capítulo, com uma distinção fundamental entre as notas relativas à compreensão do texto e aquelas concernentes ao ensinamento doutrinal.
  • As notas relativas ao texto figuram no rodapé, onde são dadas as variantes, as interpretações divergentes, as referências, o sentido literal e os termos árabes em transcrição.
  • As notas de doutrina são precedidas por uma apresentação sintética da qualificação própria à Sabedoria estudada e do Verbo nominal correspondente a essa Sabedoria.
  • A apresentação das diferentes Sabedorias e o conjunto das notas doutrinais constituem o comentário, que figura sempre após o texto de Ibn Arabî.
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