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APOLO
GORDON, Pierre. Le Mythe d’Hermès. Paris: Arma Artis, 1984.
O significado da disputa entre Hermes e Apolo
- Ao se pesquisar o sentido da querela que opõe os dois irmãos divinos, percebe-se que está em causa uma daquelas rivalidades iniciáticas tão frequentes entre grupos: são os iniciados de Apolo que se enfrentam com os iniciados de Hermes.
- É certo que os primeiros (especialmente na Arcádia, onde se situam o roubo das vacas e a invenção da lira) eram invasores, enquanto os segundos tinham a seu favor a qualidade de autóctones.
- O autor do hino complica as coisas ao fazer intervir adicionalmente a Beócia (é nessa região que se encontra o oráculo das Thrias, concedido por Apolo a seu irmão mais novo, e é em Onchestos que um ancião avista Hermès conduzindo as vacas).
- O fundo da rivalidade é traduzido pelo texto homérico quando Hermes diz a Maia (sua mãe): “Não sofreremos ficar aqui, nós dois, sozinhos entre os Imortais, sem receber oferendas nem preces, como tu me recomendas. É melhor viver todo o tempo com os Imortais, rico, opulento, próspero, do que apodrecer em casa numa gruta obscura; quanto às honras, terei eu – e vou começar – os mesmos privilégios sagrados que Apolo.” (versos 167 e seguintes).
- As iniciações tradicionais ligadas a Hermes eram menos brilhantes que as iniciações apolínias: comportavam menos sacrifícios e menos pompa, ignoravam provavelmente a manducação das carnes sacrificiais.
- Isso explica que Hermes, assim que nasce, seja tomado por “uma vontade de carne” (Kreiôn eratizôn: verso 164); no entanto, depois de imolar duas das vacas, “não pôde se resolver, em seu coração generoso, a fazê-las passar por sua garganta sagrada”.
- Percebe-se aí que os bovídeos eram sacrificados, e sua pele era utilizada para sacralizar o homem, antes que se consumisse comunitariamente sua carne.
- O Hermes do hino se insurge contra a simplicidade neolítica dos ritos de que é patrono e pede a paridade com a liturgia dos recém-chegados, sem perceber que isso será, no final das contas, uma decadência para ele.
O acordo entre os dois iniciadores e seu valor histórico
- O acordo que acaba por se estabelecer entre os dois iniciadores significa, incontestavelmente, que uma espécie de osmose se instituiu entre os dois grupos religiosos.
- Não se podem considerar as indicações de detalhe fornecidas pelo texto sobre esse assunto como possuindo valor histórico: são acréscimos de aedo, e não verdadeiros elementos míticos.
- Não se pode admitir como seguro que as cerimônias iniciáticas presididas pela entidade Apolo (hipóstase da Ilha Santa) tenham tomado emprestado às iniciações arcádias de Hermes a lira de sete cordas descrita no hino: a tradição antiga atribuía a descoberta desse instrumento a Terpandro (meados do século VII a.C.); anteriormente, as liras tinham apenas três ou quatro cordas.
- Inversamente, não se pode crer que os iniciados da Arcádia tivessem ignorado o uso religioso da varinha e do chicote antes da chegada de Apolo, ou que as faculdades de vidência lhes fossem desconhecidas antes das iniciações apolínias.
- O profetismo, mostrado muitas vezes, era inerente desde o início às disciplinas iniciáticas antigas, que tinham por objetivo subtrair o pensamento humano ao domínio do tempo tanto quanto à tirania do espaço.
Por que Apolo acorrenta Hermes e os ramos que voltam a enraizar
- Apolo, após constatar que o jovem Hermes era fértil em “malabarismos” e “truques” (chegando a se transformar em bruma para passar pelo buraco das fechaduras), “amarrou-lhe os braços com laços sólidos – ramos de agnocasto: estes, sob seus pés, enraizaram-se imediatamente na terra, no mesmo lugar, enlaçando-se uns nos outros, e ganharam facilmente, segundo o desígnio do subtil Hermes, todas as vacas agrestes; Apolo considerava o prodígio com espanto” (versos 410-414).
- Esse prodígio (o bastão cortado que reverdece ou refloresce) tem análogos em todos os países e está em toda parte relacionado com a posse do mana transcendente (princípio e substrato das forças físicas de fertilidade), atestando a impregnação de um ser ou objeto pela energia sobrenatural e constituindo uma das provas da iniciação.
- Ele se ligava aos ritos anuais que comportavam a substituição de uma árvore sagrada por uma árvore nova – idêntica à anterior por conter a mesma substância divina, sendo a mesma árvore que continuava, assim como a fênix ou as aves sacrossantas do mesmo gênero eram um único e mesmo pássaro renascendo periodicamente na celebração dos ritos.
- Os ramos sagrados provenientes de Hermes envolvem subitamente todas as vacas, sinalizando a identidade de essência entre elas e o deus – a total comunhão entre os iniciados. Para todos, esse reverdecimento atestava o renascimento no seio da vida imortal.
O acorrentamento como rito iniciático
- O rito do acorcentamento (aqui colocado de forma arbitrária em conexão com o reverdecimento) foi um dos grandes usos iniciáticos da antiguidade arcaica, intervindo primeiramente nas provas a que os neófitos deviam se submeter.
- O iniciador a transformações (frequente na civilização urano-posidônia ou civilização da Ilha Santa) revestia, aos olhos do neófito (graças a processos hipnóticos), aparências múltiplas que assustavam ou desorientavam.
- O neófito devia ser capaz de contra-atacar o iniciador por meio de prestígios similares, ou conseguir imobilizá-lo e amarrá-lo – administrando assim a prova de sua própria potência mental e qualificando-se como iniciado.
- Os mais conhecidos iniciadores gregos a transformações são Nereu e Proteu; no matriarcado, Tétis teve renome igual ao deles. Em Roma, Fauno (acorrentado pelo rei iniciado Numa) foi uma alta personalidade da mesma ordem. Entre os escandinavos, Fenris (o grande Homem-Lobo, acorrentado pelos deuses Ases) foi um iniciador de mesma envergadura.
- Mais tarde, quando os ritos iniciativos caíram em desuso, continuou-se a acorrentar pedras, árvores, estátuas etc. nos quais se integrava o mana dos antigos iniciadores a transformações (considerados ontologicamente idênticos a eles). Em Roma, a estátua de Saturno (grande mestre dos ritos iniciáticos) foi por muito tempo acorrentada.
- Compreende-se então o sentido profundo do acorrentamento de Hermes por Apolo: não há aí nenhuma fantasia, mas a afirmação, por uma nova via, da qualidade de iniciador e iniciado inerente aos seres que se tornam pedras sacrossantas.
- Está-se em presença de um documento histórico e sociológico cujo alcance o autor do hino provavelmente já não suspeitava, mas que o método comparativo permite recolocar em seu devido lugar.
Por que Maia se tornou uma das Plêiades e filha de Atlas
- O parentesco de Hermes com os iniciadores marinhos a transformações fornece a chave para explicar por que a Mãe neolítica Maia, ao ser rebaixada ao posto de “ninfa”, foi assimilada a uma das Plêiades e tida como filha de Atlas.
- O motivo é que se exerceu pouco a pouco na Grécia pré-helênica a influência das práticas iniciáticas difundidas pela Ilha Santa – influência propagada por mar antes de seguir (por volta da metade da idade do bronze) a via continental chamada “rota do âmbar”.
- Os arcádios só foram cortados do mar na idade do ferro (pelos dórios); em épocas anteriores não eram, portanto, a povolação exclusivamente continental que seriam na idade clássica.
- Um velho nome helênico do mar (destacado como designação divina pela Teogonia de Hesíodo) é Ponto, que se aproxima (segundo Meillet) do vocábulo latino pons e do sânscrito panthab (caminho). O mar era o caminho por excelência, que conduzia a Ponto – o venerável “ancestral” da civilização marítima, situado a oeste ou noroeste (direções confundidas pelos geógrafos antigos).
- A constelação das Plêiades (as filhas de Pleione, verbo pleiô = navego), que aparecia no céu na primavera (por volta de maio), sinalizava a retomada das comunicações com o ocidente; foi portanto posta em relação ontológica com a Terra primordial e com as montanhas sagradas a ela ligadas, montanhas cuja energia transcendente frequentemente se hipostasiava em Atlas.
- As Virgens Hespérides (“filhas” de Atlas e dispensadoras das maçãs de ouro) eram também, sem dúvida, iniciadoras a transformações.
- Compreende-se assim que Maia (que provavelmente adquirira pouco a pouco esse último caráter, e dele fizera beneficiar seu “filho” Hermes) tenha tido lugar naturalmente entre as Plêiades e sido incluída na progênie de Atlas.
- Por aí se atesta, ademais, que se está bastante distante do neolítico, onde quase sempre (explicou-se o porquê) a posição central no seio do sagrado era ocupada por uma personalidade feminina.
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