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RISO INICIÁTICO

GORDON, Pierre. Le Mythe d’Hermès. Paris: Arma Artis, 1984.

Hermes e o riso iniciático, uma incongruência e o espirro

  • Ao avistar a tartaruga que matará para transformá-la em instrumento musical, Hermes põe-se a rir – não um riso qualquer, mas um riso ritual de beatitude, provocado pelo contato com o sagrado (a tartaruga é um réptil divino).
  • Ainda hoje, na Grécia, a tartaruga faz rir as pessoas do povo (Jean Humbert loc. cit., p. 118, n° 1): o antigo riso iniciático (como em Roma o riso dos Lupercos) tornou-se gradualmente riso folclórico.
  • No momento em que Apolo vem reclamar suas vacas ao pequeno ladrão, ocorre o seguinte incidente: “Febo Apolo pegou a criança e quis levá-la. Então, intencionalmente, enquanto era erguido pelo braço do deus, Argeifontes, o Forte, soltou um presságio, insolente servo de seu ventre, mensageiro impudente.”
  • Descobre-se assim o peido sagrado – veículo de energia transcendente e instrumento de presságio. A antiguidade não o ignorou, assim como não ignorou os excrementos sacrossantos.
  • O rei Fineu (da Salmidessa na Trácia) é obrigado a temperar todos os seus manjares com esses excrementos para se santificar – as matérias em questão são de três mulheres-pássaro (as divinas Harpias, famosas no mundo jônico como Grandes Caçadoras iniciáticas); casos similares ocorrem em outros lugares, notadamente na Irlanda.
  • Tais incongruências mostram até onde chegava, entre os antigos, a reverência em relação a tudo o que tocava as iniciações.
  • Percebe-se por aí o sentido exato de mitos como o das Harpias (universalmente tidos como ficções indecorosas): essas velhas tradições, como todos os mitos verdadeiros, são rigorosamente exatas e possuem valor documental indiscutível, desde que interpretadas literalmente no terreno dos ritos.

O espirro de Hermes como manifestação do sagrado

  • O hino homérico prossegue: “Logo depois, ele (Hermes) apressou-se a espirrar; Apolo ouviu, e seus braços deixaram cair no chão o glorioso Hermes.” – O deus revelou-se mestre na arte dos presságios e das transmutações corporais.
  • Em inúmeras povoações, o espirro permanece (até nossos dias) considerado uma prova do acesso súbito ao mundo superior: acredita-se que um Espírito se manifesta por uma sacudidela física súbita acompanhada de ruído.
  • Em diversos países, o espirro do rei dava lugar a aclamações e ações de graças que corriam de boca em boca por toda a cidade.
  • Na Guiné (há cerca de cem anos), se uma personagem importante espirrava, todos os presentes caíam de joelhos, beijavam o chão, batiam palmas e formulavam votos de prosperidade.
  • Na África, entre os zulus, o indivíduo que espirra declara imediatamente que é abençoado; os Amalosas invocavam outrora, ao espirrar, seu divino mestre Utixo; após sua conversão ao cristianismo, dizem: “Lança sobre nós os olhos, Deus Salvador”, ou “Criatura do céu e da terra”.
  • Em todos os continentes (mesmo na América pré-colombiana), encontram-se usos similares (Tylor, A Civilização Primitiva, trad. fr. 1876 I, pp. 114 seg.).
  • Na antiguidade helênica, Aristóteles assinala que o povo tinha o espirro por divino (Prob. XXIII 7). Xenofonte, em sua Anábase (III, 2-9), menciona o espirro de um soldado durante a Retirada dos Dez Mil e o grito de adoração que de todas as fileiras subiu imediatamente ao céu.
  • O espirro de Telêmaco (Odisseia XVII, 541) é bem conhecido. De modo geral, qualquer grego que espirrava exclamava: Zeu, Sôson (= Zeus, salva-nos).
  • Na Índia, os assistentes pronunciam “Vida”, e aquele que espirra responde: “com vocês” (Ward, Hindoos, T. I, p. 142). Na mesma ocorrência, a fórmula judaica é Tobim chayim (= Boa vida); no Islã, diz-se: “Glória a Allah” (Tendlau, Deutsch-Jüdischer Vorzeit, p. 142; Lane, Modern Egyptians, T. I, p. 282).
  • Não há dúvida, portanto, que em toda parte, desde época muito antiga, o espirro foi envisado como uma brusca invasão da energia sobrenatural no seio do universo fenomênico – como uma autêntica e irresistível manifestação do sagrado, dominando a vontade do homem.
  • Nada de espantoso, então, que se reencontre esse reflexo entre os traços iniciáticos mencionados a propósito de Hermes.
  • As desse gênero, referindo-se a pontos acessórios e mais tardios, não devem ser tomadas como fundamentos da argumentação, mas confirmam a atmosfera ritual em que todo o mito se desenvolve.
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