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AMAZONISMO
GORDON, Pierre. L'Initiation sexuelle et l'évolution religieuse. Paris: PUF, 1946.
- Para compreender o papel do deflorador sagrado e a natureza do casamento em certas sociedades de uma época remota, é necessário estudar os agrupamentos de amazonas, que representam o tipo de uma combinação cultural muito antiga entre as aldeias matriarcais e os civilizadores pastorais — chamados de deuses.
- O amazonismo é definido como a combinação entre o princípio matriarcal das aldeias agrícolas e a civilização pastorale dos chamados deuses
- Nas comunidades amazônicas, as mulheres exerciam todas as funções do Estado e constituíam a base única do Direito, da economia social e doméstica, tendo em certas coletividades femininas se formado uma classe guerreira que vivia da caça e onde todas as mulheres permaneciam virgens até determinada idade.
- Em alguns lugares, o casamento era autorizado somente às mulheres que tivessem matado um certo número de inimigos
- A costumeira das Amazonas do Termodon consistia em reunir-se uma vez por ano com o povo vizinho, os Gargaréens, que viviam na montanha, para realizar cerimônias religiosas que duravam vários dias, após as quais as mulheres retornavam à comunidade, entregando os filhos machos nascidos dessas uniões aos Gargaréens e conservando apenas as filhas.
- O episódio se relaciona, sem dúvida alguma, parcialmente às iniciações sexuais acompanhadas de defloração ritual — a liturgia se desenrolava no Gargara, montanha sagrada
- É provável que a mesma época sagrada fosse aquela em que as mulheres visitavam seus maridos, pois nenhum homem era admitido a residir entre elas, embora vivessem em certa simbiose com seus vizinhos
- A forma primeira do casamento amazônico, segundo as tradições antigas, era aquela em que o marido residia obrigatoriamente em lugar diferente do da esposa e era visitado por ela em data fixa, havendo uma segunda forma de casamento matriarcal sem coabitação em que o marido visitava a mulher em sua casa durante certas solenidades.
- Nos grupos em que o elemento masculino da tribo era admitido ao interior da comunidade amazônica, o homem era encarregado dos cuidados domésticos e da pequena caça, enquanto as mulheres deliberavam, administravam, guerreavam e, sobretudo, cultivavam o solo
- A segunda modalidade do casamento matriarcal sem coabitação assumiu formas variadas ao longo do tempo — as visitas tornaram-se menos espaçadas e o marido passou a residir na aldeia vizinha àquela onde morava a esposa, conservando o aspecto clandestino das visitas
- Referências citadas: R. Briffault, As Mães, vol. I, pp. 513 e seguintes; lorde Raglan, O Tabu do Incesto, pp. 132-133
- Entre os Khasis da Birmânia, o homem não entrava na morada de sua sogra; entre os Nagas de Manipur, o marido visitava a mulher apenas clandestinamente à noite; o Tipperah de Bengala entrava no quarto da mulher como um ladrão e o deixava antes da aurora — o mesmo fazendo os Iacoutes, os Courils e os Samoyedas da Sibéria
- Um dos termos japoneses para casamento é yome-iri, interpretável como deslizar de noite dentro da casa, o que demonstra como a linguagem pode conservar traços de arcaísmo
- O tabu que proíbe ao genro aproximar-se ou mesmo olhar para a sogra — um dos mais graves tabus da etnografia, tão grave quanto os que proíbem o incesto — é a sobrevivência dessa situação antiga em que a sogra exercia a autoridade e agia contra o genro quando se deixava surpreender.
- Muitos autores consideram que esse tabu visa impedir relações culpáveis entre sogra e genro, constituindo um aspecto da proibição do incesto — mas essa interpretação é totalmente falsa
- Entre os Caraíbas das Índias Ocidentais e certos índios da América do Norte — Navahoes, Cherokees, etc. — o genro podia desposar a sogra viúva, o que fazia cair ipso facto a obrigação de evitá-la
- Entre os Wagogos e os Wahehe da África Oriental, os genros têm comércio ritual com as sogras antes de se unir às filhas, podendo frequentá-las livremente
- Entre os Akambas, um homem pode frequentar livremente a sogra mediante a oferta de um boi; entre os Arapahos de Nevada, o presente equivalente é um cavalo
- Referências citadas: Briffault, loc. cit., p. 262; lorde Raglan, loc. cit., pp. 130-131
- O que habitualmente confunde a questão do amazonismo é imaginar erroneamente um reino especial das Amazonas, de onde elas teriam se espalhado pelos continentes para constituir um vasto império, quando na realidade o que existiu na origem foi a difusão da sociedade agrícola fundada no princípio matriarcal.
- Grupos independentes uns dos outros se constituíram sobre os mesmos fundamentos e chegaram a organizações similares — mas não se tratava das mesmas Amazonas
- Há, segundo toda verossimilhança, um ponto do globo de onde a organização político-religiosa fundamental do amazonismo irradiou, servindo de modelo às pequenas coletividades matriarcais — e esse foco, segundo todas as tradições, deve ser buscado na Ásia Menor, ao longo do Mar Negro, nas margens do Termodon, próximo a Trebizonda, ou seja, perto da região caucasiana-armênia onde se instalaram os Olímpicos.
- As comunidades matriarcais amazônicas receberam seu culto do ciclo pastoral dos deuses — veja-se, por exemplo, a pedra sagrada que, na ilha de Arétias, no Mar Negro, servia de centro às suas cerimônias, e os sacrifícios de cavalos a que procediam
- Um agrupamento de tipo amazônico formado na África chocou-se, perto do lago Triton, com outro agrupamento matriarcal de proveniência urano-poseidônica — o das Górgonas — e essa luta entre as Amazonas africanas e as Górgonas é célebre.
- As Amazonas são encontradas na Circássia, na Crimeia, na Síria, nas ilhas do Egeu, na Albânia, na Ática, etc., e a elas se atribui a fundação de Éfeso, Esmirna, Sinope, Pafos, Cumas, etc. — nenhuma dessas indicações deve ser descartada
- O complexo cultural amazônico, no qual o matriarcado aceitava no mínimo a influência do ciclo pastoral, possuiu ampla difusão, e Zeus teve muito que fazer para dominá-lo e reduzi-lo — a força de expansão desse complexo residia no fato de estar inicialmente ligado ao desenvolvimento da economia agrícola
- A grande divindade desse complexo foi a Mãe Divina, frequentemente chamada Ártemis e concebida como Virgem Celeste, enquanto a energia divina de proveniência pastorale se hipostasiou quase sempre em Ares, chamado em Argos de deus das mulheres — Theos gunaïkôn — e em Tégée de aquele que se festeja com banquetes de mulheres — gunaikothoïnas.
- O escudo amazônico, em forma de crescente, evoca a deusa lunar, tendo dado origem mais tarde ao pelta
- Em Roma, a raiz KRN, que designa o caráter transcendente da energia divina, evoluiu para quirinus, equivalente de Ares
- Isso confirma os estreitos vínculos entre o deus da guerra e o matriarcado
- As indicações dos escritores antigos sobre as Amazonas foram confirmadas, nos tempos modernos, pela etnografia — os missionários jesuítas reencontraram nas Filipinas uma organização feminina em que os maridos visitavam as mulheres numa certa época do ano e, ao partir, levavam consigo os filhos machos nascidos desde a última visita.
- As Amazonas negras da África, cujos batalhões se assemelhavam singularmente às hiérees da Mísia, são universalmente conhecidas
- No século XI, Bremensis assinalava Amazonas na Europa, nas margens do Báltico
- Um grande rio da América Meridional não tira seu nome do fato de que em suas margens foram encontrados povos correspondendo às descrições dos autores antigos?
- A fórmula da combinação cultural matriarcado-civilização pastorale possuiu extensão e vitalidade prodigiosas
- O amazonismo não tem nada de primitivo na humanidade — representa um estágio muito evoluído e diferenciado que supõe o encontro de uma organização de base feminina, plenamente consciente de si mesma, com uma organização de fundamento masculino, reposando sobre concepções amplamente opostas.
- As mulheres, animadas de um mana próprio, tendem a viver à margem dos homens, junto aos quais a energia divina reveste aspectos pouco compatíveis com as exigências da natureza feminina e da economia agrícola
- Os ritos religiosos dos civilizadores se impuseram às coletividades femininas, e a maneira como estas fizeram evoluir a energia transcendente em Ares é suficiente para mostrar o quanto deformaram as noções superiores
- Nas coletividades onde os heróis não conseguiram triunfar sobre o princípio matriarcal, os homens transformaram progressivamente seus próprios agrupamentos iniciativos em sociedades secretas que fazem reinar o terror nos grupos de direito feminino
- Compreende-se, por outro lado, a importante posição ocupada por Hera no Olimpo quando se pensa na potência das comunidades amazônicas
- O amazonismo aparece assim como um complexo cultural resultante do núcleo das filhas dos homens pelo contato com os filhos de Deus, sendo o estado mais próximo, intrinsecamente — se não cronologicamente — do matriarcado puro, anterior às fusões culturais, e o mais próximo que nos é acessível.
- Os Gargaréens desempenhavam junto ao grupo matriarcal do Termodon o papel de iniciadores e defloradores sagrados
- O contato deles com as mulheres do amazonismo ocorria uma vez por ano, durante cerimônias religiosas — a união sexual possuía caráter sacrossanto e sucedia à liturgia iniciática
- Todos os grandes heróis da antiguidade — Heraclés, Teseu, Belerofonte, Aquiles, Príamo, etc. — combatem contra as Amazonas, contra as mulheres que detêm o poder político, o comando militar e são soldadas
- Esses combates dos heróis contra as Amazonas foram, não atos de guerra, mas ritos que se renovavam anualmente — a uma alta época, a guerra revestia forma ritual
- Os heróis, jovens iniciados, desempenhavam o mesmo papel que os Centauros em relação aos Lápitas ou que os Sabinos em relação aos Romanos
- Nada contribuiu tanto para degradar o conceito dos heróis antigos — como o dos Centauros, dos sátiros e dos lobisomens — quanto o fato de a função de deflorador sagrado ter cessado de ser compreendida, transformando esses seres, primitivamente muito santos e sábios, em criaturas lúbricas de instintos desencadeados
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