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PROMETEU
PROMETHEUS
Prometeu
KERÉNYI, Károly. Miti e misteri. Torino: Bollati Boringhieri, 2017.
I.
- Prometeu estabelece com a humanidade uma relação paradoxal que evoca a figura cristã do Redentor por analogia e contraste.
- Intervenção divina e causa comum com os homens sem nunca assumir a forma humana.
- Sofrimento e humilhação de um ser mitológico como dado da imagem grega de mundo.
- Paralelo histórico—religioso com o Antropo ou Primeiro Homem dos gnósticos.
- Diferença entre a divindade natural mitológica e a divindade paradoxal de Cristo baseada na fé.
- A interpretação dos textos clássicos exige a renúncia às ideias modernas de redentores e rebeldes divinos influenciadas pelo cristianismo e pela gnose.
- Análise centrada em textos de Hesíodo, Ésquilo e fontes mais antigas.
- Busca por uma percepção livre de elementos da cultura tradicional.
- Uso de prólogos poéticos e filosóficos para estabelecer o contexto interpretativo.
- O poema Prometeu de Goethe expressa uma espiritualidade subjetiva que rompe com a estrutura da tradição mitológica grega.
- Cobre o teu céu, Zeus, com vapor de nuvens e exercita—te, como o menino que corta cabeças de cardos, em carvalhos e cumes de montanhas.
- Deves deixar—me ficar a minha terra e a minha cabana, que não construíste, e o meu fogão, por cuja brasa me invejas.
- Não conheço nada mais pobre sob o sol do que vós, deuses.
- Quando eu era criança e não sabia para onde ir, voltava o meu olho extraviado para o sol, como se acima houvesse um ouvido para ouvir a minha queixa, um coração como o meu, para apiedar—se do oprimido.
- Quem me ajudou contra a soberba dos Titãs? Quem me salvou da morte, da escravidão? Não completaste tudo por ti mesmo, coração sagradamente ardente?
- Eu honrar—te? Por quê? Aliviaste as dores do carregado? Estancaste as lágrimas do angustiado? Não me forjaram homem o tempo onipotente e o destino eterno, meus senhores e teus?
- Aqui estou sentado, formo homens à minha imagem, uma estirpe que seja igual a mim: para sofrer, para chorar, para gozar e alegrar—se e não te respeitar, como eu.
- A poesia lírica de Goethe transforma o deus grego em um protótipo do homem rebelde concebido como um antideus.
- Prometeu como filho de Zeus em oposição ao Titã de Ésquilo.
- Defesa contra a arrogância dos Titãs e abandono pelo pai inumano.
- Mitologia própria de Goethe que se afasta dos relatos clássicos de Hesíodo.
- O Prometeu goethiano pertence à história espiritual moderna e apresenta um estilo mais gnóstico do que propriamente grego.
- Função de plasmar homens à própria imagem com caráter bíblico e desprezo antibíblico.
- Protótipo imortal do rebelde e primeiro habitante da terra.
- Distância da figura clássica fundamentada na criação de homens.
II.
- A tradição pitagórica defende a eternidade do gênero humano como parte integrante da ordem cósmica imutável.
- Pitágoras de Samos, Ocelo Lucano e Arquitas de Tarento como autoridades da sentença.
- Argumentação de que as partes de um todo eterno, como o céu e a terra, devem coexistir com seus conteúdos desde sempre.
- Divisão do cosmos em esferas atribuídas aos deuses, aos homens e aos demônios.
- A imagem de mundo grega é estruturalmente bipolar, estabelecendo uma distinção absoluta entre os homens e os deuses celestes.
- Uma é a estirpe dos homens, uma a dos deuses. De uma mãe tiramos fôlego ambos. Separa—nos porém toda a distinta potência de modo que aqui não seja nada, lá porém, metálica, sempre segura sede, permaneça o céu.
- Píndaro e a caracterização do céu como sede metálica e inabalável.
- Os demônios como seres intermediários na esfera da atmosfera.
- A despeito da separação absoluta, a tradição mitológica reconhece uma origem comum para divindades e mortais a partir da Terra mãe.
- Que da mesma origem são os deuses e os homens mortais.
- Gaia como matriz de ambos os gêneros na visão de Hesíodo e Píndaro.
- Inexistência de uma criação do homem em um sistema onde ele é um dos polos fundamentais.
III.
- A vulnerabilidade divina na poesia homérica aproxima a forma de existência dos deuses de certas características humanas.
- Hera sofreu quando o filho fortíssimo de Anfitrião atingiu—lhe o seio direito com uma seta de três pontas; e ela então padeceu dores incuráveis.
- Ferimentos de Afrodite por Diomedes e de Hades por Héracles.
- Paieon como médico dos deuses no Olimpo.
- Cura celestial periódica em contraste com a natureza incurável da mortalidade humana.
- Prometeu destaca—se como a única divindade grega que carrega uma ferida persistente e necessita de libertação ou redenção.
- Relação entre a ferida que se reabre e a infelicidade do gênero humano.
- Sofrimento que adquire significado grego para além da redenção cristã.
- Necessidade de investigar o deus ferido através da Teogonia de Hesíodo e do Prometeu de Ésquilo.
IV.
- O mundo mitológico grego organiza—se através de teogonias e epifanias em vez de relatos de criação do mundo.
- Fundação da ordem cósmica por meio de uniões, separações e nascimentos divinos.
- O cosmos como uma organização de fundamentos existentes.
- A linhagem de Japeto estabelece o destino humano e a temporalidade em oposição à esfera luminosa de Zeus.
- Japeto e Crono confinados no Tártaro profundo sem a luz do sol.
- Casamento de Japeto com a oceanina Clímene, identificada como a Terra mãe.
- Descendência composta por Atlas, Menoitios, Prometeu e Epimeteu.
- Prometeu e Epimeteu como uma possível unidade original do Primeiro Homem frente à Primeira Mulher, Pandora.
- O espírito titânico de Prometeu e Epimeteu caracteriza—se pela astúcia imperfeita e pela estupidez que complementa o engano.
- Epíteto de mente tortuosa compartilhado com Crono.
- Limites humanos inseridos na natureza titânica através da deficiência existencial.
- Punição de Menoitios por arrogância e o fardo eterno de Atlas de sustentar o céu.
- O sofrimento de Prometeu possui um fundo astronômico onde o fígado regenerado simboliza a relação entre o dia e a escuridão noturna.
- E o fígado imortal via de regra todo ao redor crescia, de noite, quanto o dia devorado tinha a ave.
- A águia de Zeus como metáfora do sol que consome a escuridão das paixões.
- Modificação da imagem de mundo arcaica através da libertação do deus por Héracles.
- A fundação do sacrifício e o roubo do fogo por Prometeu definem a separação definitiva entre o divino e o humano.
- Disputa em Mecone onde Prometeu engana Zeus na partilha das partes do boi.
- Escolha divina pelos ossos envoltos em gordura em contraste com a carne deixada aos homens.
- Instituição do costume de queimar ossos brancos nos altares.
- Roubo do fogo indômito em uma férula oca como resposta à negação de Zeus.
- O ato prometéico é simultaneamente um benefício para a humanidade e um sacrilégio contra a ordem divina.
- Caráter equívoco do sacrifício que oculta o crime do esquartejamento.
- Necessidade humana de purificar a sacralidade através de meios incruentos.
- Substituição de animais por imagens de massa nos mistérios de Deméter e a consagração pelo vinho no simpósio de Dioniso.
V.
- Prometeu é identificado em fontes raras como o arauto dos Titãs sob nomes arcaicos como Ithas ou Ithax.
- Afinidade de caráter com Ulisses, o itacense, e proximidade com Hermes.
- Uso do barrete pontiagudo de artífice compartilhado com Hefesto e os Cabiros.
- Função de mediador entre reinos opostos baseada em circunstâncias celestes.
- A natureza de Prometeu está ligada à lunaridade obscurecida e à ferida que representa o sofrimento da condição humana.
- O mensageiro lunático que encarna a escuridão e a vulnerabilidade.
- Diferença entre o mensageiro olímpico Hermes e o mensageiro titânico Prometeu.
- Atos primordiais de penetração e ferimento como fontes de vida e alimento para o homem.
- A tradição vincula Prometeu aos mistérios dos Cabiros em Tebas como um pai divino e habitante primevo.
- Deméter como fundadora dos mistérios cabíricos entregues a Prometeu e seu filho Etneu.
- Hephaistos ou Etneu como sucessor do Titã no culto ateniense da Academia.
- Identificação de Prometeu com a masculinidade absoluta e a origem da vida na esfera obscura.
- Os Titãs e os Cabiros compartilham uma culpabilidade mitológica primordial relacionada à fundação do mundo e da humanidade.
- Titãs como seres celestiais e astrais anteriores aos deuses olímpicos.
- Cabiros como homens primordiais ou espíritos da vida que precedem o gênero humano.
- Prometeu como o cálice que preenche de humanidade a obscuridade da lua no antípoda do mundo divino.
VI.
- A reconstrução das tragédias perdidas de Ésquilo é limitada pela impossibilidade de recuperar momentos criativos individuais.
- O portador de fogo, O libertado e O acendedor de fogo.
- Capro, chorarás então pela tua barba.
- Ordem provável da trilogia situando o portador de fogo como peça inicial.
- O tempo da punição de Prometeu é estabelecido em Ésquilo como uma medida de milhares de anos determinada pelo destino.
- Olhai com que ultrajes despedaçado o tempo de dez mil anos suportarei.
- Citação de três vezes dez mil anos como duração da pena titânica.
- Previsão da libertação na décima terceira geração após Io.
VII.
- O ato de roubar o fogo revela a deficiência fundamental da existência humana e a necessidade de meios técnicos para a vida.
- Contraste entre a posse natural de fogo por Hefesto e o furto necessário de Prometeu.
- Caça da fonte criadora do fogo para preencher a férula.
- Localização do furto em Lemno, ilha sagrada de Hefesto e dos Cabiros.
- A relação entre Hefesto e Prometeu no teatro de Ésquilo é de consanguinidade e relutância diante da punição imposta por Zeus.
- Não me posso resolver a ligar com a força o deus consanguíneo neste precipício atormentado pelas tempestades.
- Queda de Hefesto em Lemno após ser expulso do Olimpo.
- Brilho dionisíaco nos mistérios cabíricos de Lemno.
VIII.
- O Prometeu acorrentado é uma obra de caráter cosmogônico que ilustra a fundação do mundo sob a nova soberania de Zeus.
- Tensão entre a ordem vitoriosa e a possibilidade de superação dos deuses olímpicos.
- Aparição do Poder e da Violência como executores da vontade absoluta do novo senhor.
- Contraste entre a rigidez das leis abstratas e a afinidade elemental de Hefesto e Prometeu.
- Prometeu assume a posição de mártir da humanidade que invoca os elementos naturais como testemunhas de sua injustiça.
- Ó éter divino e asa rápida de brisas; fontes geradoras de rios e vós no mar inumeráveis calafrios de sorrisos de ondas; terra de toda criatura mãe; e ainda o disco do sol que tudo vê eu invoco: observai que sorte torpe por obra dos deuses padeço eu deus.
- A dor física e o ultraje moral como marcas da punição.
- Denúncia do tratamento injusto diante da mãe veneranda e do éter.
- O sofrimento de Prometeu resulta de seu excessivo amor pelos mortais e da transgressão da medida imposta por Zeus.
- Acatamento da medida divina como fundamento do direito.
- Elevação da existência humana através do fogo contra a remissividade animal.
- O homem como ser que não pode adaptar—se à ordem animal e sofre a injustiça de sua própria condição.
- A consciência de sofrer injustiça define a particularidade da existência humana em relação ao sofrimento mudo dos animais.
- Diferença entre a dor puramente física e o ultraje moral.
- Nascimento do ideal de justiça a partir da experiência do injusto.
- Punição dirigida ao próprio fato de ser homem.
IX.
- O drama de Ésquilo é conduzido pelo sofrimento moral de Prometeu e pelo seu saber secreto sobre o destino de Zeus.
- Conhecimento recebido de sua mãe Têmis sobre a ameaça ao trono divino.
- Fragilidade de Zeus que desconhece os limites de seu próprio poder.
- A dominação patriarcal de Zeus é contrastada com o sofrimento e a disarmatez das figuras femininas como Io.
- Obrigatoriedade de obediência aos ordens do pai.
- Servidão ao rochedo preferível à fidelidade servil ao pai Zeus.
- Compaixão das oceânidas que acodem ao desamparado apesar do temor.
- O saber de Prometeu oferece uma esperança cega para a humanidade e uma ameaça real para a estabilidade do Olimpo.
- Esperanças cegas colocadas nos mortais para curá—los da expectativa do inevitável.
- Possibilidade de um sucessor forte o suficiente para derrubar o tirano.
- Necessidade de Zeus recorrer ao saber do Titã para evitar a queda.
- A figura de Têmis representa a legalidade e a justiça como fundamentos maternos que regem o tempo e a maturidade do mundo.
- Identificação com Gaia ou a Terra mãe.
- Papel de conselheira e deusa oracular superior.
- Conhecimento sobre o nascimento de um filho destinado a ser mais forte que o pai.
X.
- A ideia de redenção em Prometeu aponta para uma crise interna no ordenamento cósmico e a possibilidade de um colapso do deus universal.
- Oráculo de Têmis sobre Tétis e o filho destinado a superar o progenitor.
- Competição entre Zeus e Posêidon pela deusa marinha.
- Decisão de entregar Tétis a um mortal para que o filho fosse igualmente mortal.
- Aquiles representa o ápice da tragédia humana como o filho imortalizado de uma união destinada à morte.
- Gênio potentíssimo, melancólico e delicado filho de deuses.
- Flor mais perfeita e efêmera do mundo heroico.
- Contraste entre a força do leão e a melancolia da finitude.
- A existência de Achille impede a realização da ameaça contra Zeus e mantém a ordem do mundo fechada e limitada.
- Preço da estabilidade divina pago com a mortalidade do herói mais belo.
- O segredo de Prometeu como uma possibilidade de redenção que nunca se concretiza no plano histórico.
XI.
- O Prometeu libertado apresenta o ponto culminante do sofrimento físico do Titã e sua busca pela solução final na morte.
- Castelo das Fúrias e o suplício diário da águia sanguinária.
- Desejo pela morte como termo de todo mal.
- Imortalidade sentida como um fardo sem sentido diante da dor incurável.
- Quíron atua como o redentor substituto que aceita descer aos inferos para libertar Prometeu de seu suplício eterno.
- O mestre médico ferido involuntariamente por Héracles.
- Troca da imortalidade sofredora pelo repouso na morte.
- Garantia eterna do aspecto doloroso da existência humana através do médico que padece.
- A libertação definitiva de Prometeu ocorre mediante um acordo com Zeus e o uso de símbolos de vínculo perpétuo.
- Uso da coroa de salgueiro e do anel de ferro com um fragmento da rocha.
- Leve traço da antiga punição carregado como recordação solene.
- Anel como herança cabírica e sinal dos iniciados nos mistérios.
- O salgueiro ou agnocasto simboliza o vínculo conscientemente aceito por aquele que se submete às leis da luz celestial.
- Relação com os ritos de Hera e a fase obscura da existência lunar.
- Confissão de uma submissão voluntária ao ordenamento divino.
XII.
- A consciência dos limites humanos é expressa na submissão fidelíssima à ordem divina que delimita a vida.
- Quando o ancestral Pai sagrado com mão sossegada semeia raios abençoados sobre a terra, beijo a última bainha de sua veste, calafrios infantis fiéis no peito.
- Pois com deuses não se deve medir homem algum. Se ele se eleva e toca com o topo da cabeça as estrelas, em lugar nenhum aderem então as solas incertas.
- O que distingue deuses de homens? Que muitas ondas caminham diante daqueles, um eterno fluxo: a nós levanta a onda, engole a onda, e nós afundamos.
- Um pequeno anel limita nossa vida, e muitas gerações as enfileiram permanentemente na cadeia infinita de sua existência.
P.S.
- O estudo fixa as interpretações apresentadas em seminários na Suíça em 1945 sobre o material mitológico de Prometeu.
- Desenvolvimento orgânico de trabalhos anteriores sobre religião antiga, mistérios e o deus Hermes.
- Referência a manuais mitográficos para os dados específicos utilizados na análise.
- A filologia moderna sobre a trilogia de Ésquilo inicia—se com Friedrich Gottlieb Welcker e seus esforços de reconstrução.
- A trilogia esquilea Prometeu e a iniciação cabírica em Lemno.
- Críticas às tentativas de restauração do que está definitivamente perdido.
- Valorização do sentido, da sensibilidade e da compreensão para julgar as obras da antiguidade.
- O legado de Winckelmann e a compreensão do belo na arte servem de paralelo para a necessidade de percepção ideal dos mitos.
- O antigo não vale um figo como mote de resistências passadas.
- Diferença entre a concepção puramente racionalista e a compreensão da natureza primitiva e ideal.
- A centelha da interpretação como algo comunicável que ilumina os objetos históricos para a posteridade.
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