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DIVINDADES DAS CAVERNAS

ROHDE, Erwin. Psyche: the cult of souls and belief in immortality among the Greeks. London: K. Paul, Trench, Trubner, 1925.

  • A trajetória da cultura e da religião gregas é definida por um fluxo contínuo e natural, desprovido de rupturas abruptas ou revoluções violentas.
    • O povo grego, reconhecido por sua elevada dotação intelectual, desenvolveu ideias fundamentais que serviram de base para os séculos posteriores.
    • As especulações mais profundas sobre a natureza de Deus, do mundo e da humanidade encontram suas raízes na diversidade de pensamento desse povo.
    • A multiplicidade de perspectivas gerou um estado de equilíbrio no qual diferentes fatores se moderavam mutuamente.
    • Diferentemente de outras nações fanáticas que abraçam uma única ideia por vez, os gregos mantiveram-se abertos a influências externas.
    • Invasões pacíficas trouxeram costumes e conceitos do Oriente, enquanto o culto extático de Dioniso, proveniente da Trácia, provocou um impacto significativo.
    • O gênio grego demonstrou capacidade de assimilar novos elementos sem abandonar suas tradições originais ou sua ingenuidade genial.
    • A amálgama entre o antigo e o novo permitiu que o aprendizado ocorresse sem que nada fosse totalmente esquecido.
    • O fluxo cultural é descrito pela máxima: Nem permanece como era nem conserva as mesmas formas, mas, no entanto, é o mesmo.
  • A ausência de épocas contrastantes na história grega indica que as mudanças ocorreram de forma orgânica, sem o descarte completo do passado.
    • Sugere-se que as transformações mais drásticas tenham ocorrido em um passado remoto, antes da consolidação do epos de Homero.
    • A vida grega torna-se plenamente visível através da obra de Homero, embora a uniformidade desse quadro tenha se dissipado com o tempo.
    • O surgimento de novas forças e o ressurgimento de elementos esquecidos acompanharam a fragmentação do sistema de ideias homérico.
    • O pensamento do povo comum não manifestou uma reação violenta contra o mundo e a religião de Homero.
    • A compreensão da história posterior da adoração da alma e da imortalidade ainda pode ser guiada pelo fio de Ariadne da tradição épica.

TRADUÇÃO SUBTERRÂNEA

  • O herói e vidente argivo Anfiarao, descendente do profeta Melampo, figura como um exemplo proeminente de tradução para as profundezas da terra.
    • Anfiarao participou relutantemente da guerra contra Tebas, sob a liderança de Adrasto, em apoio a Polinice, por prever o desfecho trágico do conflito.
    • Durante a fuga após a morte dos irmãos oponentes, o vidente foi perseguido por Periclimeno.
    • Zeus interveio abrindo o solo com um relâmpago, permitindo que Anfiarao, seus cavalos, carroça e auriga fossem tragados vivos.
    • Relatos de Píndaro e da antiga epopeia Tebaide confirmam que o herói recebeu a imortalidade nas profundezas.
  • A existência eterna de Anfiarao sob o solo foi localizada pelos mitos na região de Tebas.
  • Um prodígio semelhante foi atribuído a Trofônio, que habitaria de forma imortal em uma caverna perto de Lebadeia, na Beócia.
    • As lendas sobre Trofônio carecem de uniformidade por não terem sido fixadas precocemente por poetas heroicos.
    • Relatos possivelmente vinculados à Telegonia descrevem-no como um mestre construtor que mergulhou no subsolo para fugir de inimigos.
    • Trofônio permanece nas profundezas da terra, de onde revela o futuro para aqueles que o buscam.
  • Essas narrativas detalham casos de indivíduos engolidos vivos pela terra que continuam sua existência em locais geográficos precisos da Grécia.
  • Existem outros exemplos esparsos na tradição que descrevem desaparecimentos análogos em fendas ou abismos no solo.
    • O espírito Caineu, do povo Lápita da Tessália, foi transformado de mulher em homem e tornou-se invulnerável por obra de Posidão.
    • Em combate contra os Centauros, Caineu foi golpeado com troncos de árvores, mas, em vez de morrer, afundou-se de pé ereto nas profundezas.
    • Em Rodes, Altemenes, considerado o fundador das cidades locais, desapareceu em um abismo no chão sem passar pela morte.
    • Anfiloco, filho de Anfiarao e herdeiro de seu poder profético, também seria habitante do subsolo na Acarnânia ou na Cilícia.
  • A poesia épica tendeu a ignorar tais lendas locais por elas contradizerem a perspectiva homérica convencional sobre o destino humano.
    • A crença subjacente nessas histórias é de que a imortalidade depende da não ocorrência da morte e da preservação da integridade entre a psiquê e o corpo visível.
    • As narrativas não contemplam a existência de uma alma desincorporada ou separada da forma física.
    • Essa premissa de unidade vital mantém raízes na crença homérica ortodoxa.
  • Os heróis dessas lendas possuem moradas subterrâneas exclusivas, situadas fora do domínio coletivo reservado aos falecidos.
    • Cada um detém um domínio peculiar, distante da Casa de Aidoneu.
  • O isolamento individual no subsolo não se alinha perfeitamente ao sistema homérico, embora vestígios dessa ideia apareçam na figura de Tirésias.
    • Na Néquia, Perséfone permite que o vidente tebano Tirésias conserve sua consciência e inteligência de forma excepcional.
    • Diferente dos heróis traduzidos, Tirésias permanece confinado no Érebo e desconectado do mundo superior conforme exige a visão de mundo de Homero.
  • Anfiarao e Trofônio são considerados isentos das leis de Hades por não terem sofrido a dissolução da vida.
    • Por terem evitado a morte, tais figuras não ingressaram no reino dos mortos sem força.
  • A tradução subterrânea é um fenômeno de natureza distinta da tradução para as Ilhas dos Bem-Aventurados.
    • Os heróis das ilhas sagradas encontram-se removidos da vida humana e fora do alcance de desejos ou súplicas.
    • Devido à falta de influência sobre os assuntos deste mundo, não se prestava culto aos habitantes do Elísio como tal.
    • Tais seres são percebidos como visões da imaginação poética sem interferência ativa na realidade.
  • Os habitantes das cavernas mantêm-se vivos e presentes no território grego, o que possibilita o contato com a humanidade.
    • Orações e perguntas podem atingir essas entidades, que respondem enviando auxílio aos que as invocam.
  • A percepção desses seres como espíritos poderosos e eficazes fundamentou a prática de cultos religiosos específicos.
  • O culto a Anfiarao expandiu-se de Tebas para Oropo, localidade que se tornou um centro de influência oracular.
    • Oropo, na fronteira entre a Beócia e a Ática, foi identificada com sucesso como o ponto exato do desaparecimento do herói.
  • Registros de épocas posteriores fornecem evidências sobre a continuidade e a evolução da adoração a Trofônio.
  • Os sacrifícios oferecidos a Anfiarao e Trofônio eram idênticos aos destinados às divindades ctônicas que habitam as profundezas.
    • A atuação desses seres não era esperada em assuntos cotidianos, mas restringia-se à revelação do futuro no local de sua descida.
    • Figuras históricas como Croeso e, posteriormente, Mardônio, enviaram consultas aos oráculos de Anfiarao e Trofônio em Lebadeia.
  • O método oracular de Anfiarao consistia no envio de visões através de sonhos para aqueles que dormiam em seu templo.
    • O consulente deveria realizar oferendas antes de se deitar para o sono sagrado.
  • Para consultar Trofônio, o indivíduo devia atravessar uma passagem estreita para ingressar em sua caverna.
    • Esperava-se ouvir instruções ou ver Trofônio pessoalmente, pois ele residia fisicamente no fundo da cavidade.
  • A prática da incubação fundamenta-se na crença de que o daemon reside permanentemente no local do oráculo.
    • A divindade, visível apenas no estado elevado da alma durante o sonho, mantém sua morada subterrânea sob o templo.
  • Homero não demonstra conhecimento sobre daemons fixos em locais terrestres ou sobre a prática de oráculos de incubação.
    • Supõe-se que esse método de contato com o espírito seja um dos tipos mais antigos da arte oracular grega.
  • A lenda de Anfiarao na Tebaide cíclica atesta a crença em habitantes imortais do subsolo já no período da poesia quase homérica.
  • O culto preexistente ao daemon oracular forneceu a base para que a poesia épica criasse a narrativa sobre Anfiarao.
    • A epopeia adaptou o fato religioso, transformando o espírito local em um chefe e vidente transportado por um fiat de Zeus.
    • O herói traduzido recebeu vida eterna nas profundezas para se adequar à visão de mundo épica.
  • A mitologia alemã contém paralelos modernos de heróis que habitam cavernas ou câmaras subterrâneas por tempo indeterminado.
    • Carlos Magno e Carlos V são associados ao Odenberg ou Unterberg, enquanto Frederico I Barbarossa ou Frederico II estariam no Kyffhäuser.
    • Personagens como Henrique o Passarinheiro, o Rei Arthur e Holger Danske também figuram como habitantes de cavernas na tradição popular.
    • Essas figuras heroicas frequentemente ocuparam o lugar de antigos deuses pagãos das montanhas em processos de tradução subterrânea.
  • Anfiarao e Trofônio representam substitutos épicos para divindades ancestrais que sempre possuíram natureza imortal e morada subterrânea.
    • Inscrições em Lebadeia e autoridades eruditas referem-se à divindade como Zeus Trofônio ou Trefônio.
    • Anfiarao também foi ocasionalmente designado como Zeus Anfiarao ou simplesmente como um deus.
    • O processo de transformar deuses em heróis na Grécia assemelha-se à substituição de deuses por reis em lendas de povos cristianizados.
  • Os poetas épicos elaboraram um sistema teológico pan-helênico que unificava a multiplicidade de noções locais de divindade.
    • Essa perspectiva permitiu uma visão universal que transcendia as contradições dos cultos regionais isolados.
  • Diversas manifestações de Zeus, Apolo, Hermes e Atena foram condensadas em personalidades únicas e centralizadas.
    • Os deuses deixaram de ser confinados a habitações locais específicas para se tornarem figuras móveis e universais.
  • O Olimpo consolidou-se como a morada idealizada dos deuses, enquanto o mar tornou-se o domínio de Posidão.
  • Aïdes e Perséfoneia residem em uma terra imaginária, distante das cavidades do subsolo grego.
    • A evolução da figura onipotente de Zeus, Pai de Deuses e Homens, tornou incompreensível para o poeta épico a ideia de um Zeus Trofônio limitado a uma caverna.
  • Fiéis locais resistiram à perda de suas divindades ancestrais, mantendo o culto inalterado apesar da influência homérica.
    • A persistência do culto local serviu como prova da verdade objetiva das crenças nessas comunidades remotas.
  • Divindades terrestres antigas receberam novas formas de vida após o período homérico, sendo frequentemente tratadas como heróis traduzidos para o restante da Grécia.

§ 2

  • A poesia épica preservou reminiscências vagas da crença em deuses que habitavam permanentemente o interior de montanhas.
  • A Odisseia menciona Minos, filho de Zeus e governante em Cnossos, como o confidente familiar do grande Zeus.
    • A interpretação posterior associa esse contato à Caverna de Zeus no Monte Ida, em Creta.
    • A ilha de Creta preservou elementos primevos de lendas, apontando cavernas no Monte Ida ou no Monte Dicte como locais de nascimento de Zeus.
    • Lendas locais sugeriam que o deus adulto ainda residia em câmaras subterrâneas, sendo consultado por mortais como Epimênides.
  • O Zeus do Monte Ida era objeto de um culto místico que envolvia banquetes divinos chamados Theoxenion.
    • Iniciados vestidos com roupas de lã preta permaneciam na caverna por vinte e sete dias.
    • Tais práticas assemelhavam-se ao culto de Zeus Trofônio, com a expectativa de uma aparição pessoal da divindade.
  • Surgiram relatos paradoxais afirmando que Zeus estava enterrado no Monte Ida, afirmação explorada por Euêmero, Luciano e autores cristãos.
    • O termo túmulo refere-se, na verdade, à caverna encarada como morada permanente e confinamento perpétuo do deus.
    • A noção de um deus enterrado é comum em tradições semíticas, mas permanecia estranha ao pensamento grego convencional.
  • A tradição grega não fornece suporte para a ideia de que o sepultamento de deuses simbolizaria a morte da natureza.
  • Existe menção a um túmulo divino sob o Ônfalo em Delfos, local originalmente consagrado à Deusa da Terra.
    • Autoridades identificam o ser ali enterrado como Píton, oponente de Apolo, embora uma fonte cite Dioniso.
  • O estabelecimento do templo de Apolo sobre o suposto túmulo representa a sobreposição de um novo culto a um antigo oráculo da terra.
    • Apolo, o deus da profecia, instalou-se sobre o local de um daemon oracular anterior que residiria vivo no subsolo, como Trofônio.

§ 3

  • O sepultamento de Píton sob o Ônfalo marca a vitória do culto de Apolo sobre um daemon ctônico habitante da terra.
  • A ideia de um Zeus morto e enterrado ilustra sua redução à condição de herói, mantendo, contudo, seu título divino.
  • A heroização de deuses subterrâneos pode ter ocorrido por analogia em casos onde a teoria original das profundezas tornou-se ininteligível.
  • É comum o registro de heróis sepultados em templos e associados à adoração de divindades de hierarquia superior.
  • A figura de Erecteu exemplifica a transição de uma divindade local da terra para um herói imortal sob a guarda de Atena.
    • O Catálogo das Naus relata que Atena estabeleceu Erecteu, filho da Terra, em seu templo, onde recebia sacrifícios anuais dos atenienses.
    • A residência de Erecteu situava-se em uma cripta no Erecteion, onde ele habitava imortalmente sob a forma de uma serpente.
    • Eurípides menciona que a terra se abriu e o cobriu, indicando um processo de tradução e vida contínua no subsolo.
  • Erictonio, identificado com o Erecteu homérico, foi descrito como enterrado no Templo de Polias na Acrópole.
  • O processo de transformação resultou na submissão de divindades aborígenes à proteção das deusas olímpicas dominantes.
  • Casos análogos apresentam o estágio final em que um túmulo de herói é localizado dentro do recinto de um deus.
  • Jacinto, enterrado no altar de Apolo em Amiclas, era originalmente uma divindade ctônica que recebia oferendas anuais.
    • Diferente do jovem da lenda helenística amado por Apolo, monumentos mostram Jacinto barbado e acompanhado por Poliboia.
  • O ritual das Jacíntias envolvia a entrega de oferendas diretamente ao local subterrâneo onde Jacinto supostamente residia.
  • O festival revela a fusão de dois cultos distintos, marcada pela alternância entre a adoração alegre a Apolo e as cerimônias sombrias a Jacinto.
    • Poliboia, representada como irmã de Jacinto, é identificada como uma deusa do submundo semelhante a Perséfone.
  • A divindade olímpica Apolo acabou por ofuscar o antigo espírito da terra Jacinto, cuja imortalidade foi reinterpretada como a de um herói morto.

§ 4

  • Muitos heróis cultuados em templos de deuses eram antigos deuses locais cujas moradas subterrâneas foram transmutadas em túmulos.
    • Jacinto e Asclépio exemplificam divindades que sofreram o processo de humanização e heroização.
    • Asclépio, embora tratado como um mortal que aprendeu medicina com Quíron, era uma divindade da Tessália que concedia cura e vaticínios.
    • O raio de Zeus, em vez de destruir a vida de Asclépio, traduziu-o para uma existência superior fora do mundo visível.
  • A existência de túmulos atribuídos a Asclépio em diversos pontos reflete sua natureza original de deus habitante do solo.
  • O culto a Asclépio tornou-se itinerante e amplamente difundido por meio de um sacerdócio que acompanhou as migrações de sua tribo.
  • Anfiarao e Trofônio guardam estreita relação com Asclépio, agindo como divindades que permaneceram fixas em suas cavernas beócias.
  • A imaginação de épocas posteriores, incapaz de compreender divindades das cavernas, transformou tais seres em homens de uma era passada.
    • Esses daemons estranhos foram mantidos na memória como seres humanos que alcançaram a vida eterna sem a separação entre alma e corpo.
    • Anfiarao tornou-se um modelo de esperança, como demonstrado pelo apelo do coro na Electra de Sófocles sobre o seu governo contínuo no subsolo.
    • O exemplo de tradução subterrânea aponta para uma vida superior após a saída do mundo visível, contrastando com a visão sombria da morte épica.
  • O épico integrou divindades das cavernas na mitologia heroica, preservando sua existência sobre-humana e poderes mânticos sob a forma de heróis traduzidos.
    • Tais indivíduos foram localizados em pontos definidos da Grécia, permitindo que permanecessem próximos e úteis aos vivos.
  • A redução das divindades ao posto de heróis mortais paradoxalmente resultou na exaltação do elemento heróico ao nível divino.
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