====== CONTO DA SERPENTE VERDE ====== //CENTENO, Yvette. A Simbologia Alquímica no Conto da Serpente Verde de Goethe. Lisboa: Universidade Nova Lisboa, 1976.// O Conto da Serpente Verde ((O título original é Das Maerchen, isto é. O Conto, mas nas traduções vulgarizou-se como título O Conto da Serpente Verde. Por isso o denomino assim.)) de Goethe, escrito em 1795, ainda hoje é, de todas as suas obras, aquela que nos deixa mais perplexos. Integra-se numa obra a que o autor deu o título de Conversas de Emigrantes Alemães. Mas nem o título, nem o teor geral das histórias narradas, ajudam a entender melhor o Conto com que a obra finaliza. Várias histórias são contadas pelos emigrantes uns aos outros, que assim vão matando as horas que têm de passar juntos. A ameaça do invasor francês foi a causa que os reuniu. Mas este pormenor histórico serve meramente de pano de fundo, não condiciona em mais nada os episódios que entre os emigrantes depois vão ocorrendo. Nem chega a modificar a natureza das histórias que são contadas. Estas relacionam-se com o mundo do sobrenatural, ou então pretendem que o leitor delas extraia alguma moralidade. A baronesa de C., viúva de meia-idade, em cuja residência os emigrantes se encontram reunidos, fala com insistência da generosidade de alma que é necessário ter, da capacidade de se sacrificar por outrém, pelo bem alheio, pelo bem comum, ’fuer andere zu leben, fuer andere sich aufzuopfern’, ’viver para os outros, sacrificar-se pelos outros’, eis uma qualidade rara que dificilmente se encontra nas pessoas,((Hamburger Ausgabe, vol. 6, pag. 129. A esta edição das obras completas de Goethe serão referidas todas as citações.)) diz ela. Algumas das histórias contadas pelo velho sacerdote são como que comentários a esta afirmação. E no Conto veremos como o sacrifício de um pelo bem de muitos é a forma que melhor conduz à auto-realização, à perfeição. Já para os seus contemporâneos o Conto permaneceu um enigma. O sacerdote que narra a história limita-se a dizer dela que fará lembrar ’tudo e nada’. E Goethe não prestará, como autor, mais esclarecimentos. Numa carta a Humboldt, de 27 de Maio de 1796, afirma que lhe foi difícil ser ’ao mesmo tempo significativo e não dar uma interpretação’((Opus cit.)). Reconhece que se trata de uma obra de carácter simbólico, mas nada diz de concreto sobre o seu simbolismo. Ronald D. Gray em Goethe the Alchemist((Gray, Ronald Douglas: Goethe the Alchemist, Cambridge University Press, 1952.)) debruça-se sobre o mistério do Maerchen, que define como um ’conto de fadas, carregado de profecias misteriosas e de fantasias alegóricas, ou simbólicas, de natureza alquímica’. O Maerchen de Goethe, escreve Gray, é o ’rubi sem rival das alegorias alquímicas’. De fato é para o domínio da alquimia, do seu mundo secreto, arquetípico, que o Conto nos arrasta, logo desde as primeiras páginas. O sacerdote pede, antes de começar, que lhe deem algum tempo, para que, depois do seu habitual passeio, da raiz da alma lhe possam aflorar à consciência as ’singulares imagens’ que outrora tantas vezes o tinham entretido.((Pag. 209, Maerchen, opus cit.)) E é à noite que inicia a narrativa. Que Goethe noutros tempos também se tinha entretido com os mistérios da alquimia, sabemos nós muito bem. Fraeulein von Klettenberg foi a sua iniciadora. Agnès Bartscherer, em Paracelsus, Paracelsisten und Goethes Faust ((Dortmund, 1911.)) chama a atenção para o fato de Goethe em 1769 ter sido curado da sua longa doença pela ’tintura universal’ de um sábio paracelsista. Das obras que leu e meditou durante o tempo desta doença, em Frankfurt, podemos destacar as de Paracelso, (como é lógico, quanto mais não seja devido ao misterioso processo da sua cura), as de Boehme, a célebre Aurea Catena Homeri, e a não menos célebre Opus Mago-Cabbalisticum de Welling, bem como obras de Christian Rosenkreutz, de Basilius Valentinus, de Agrippa von Nettesheim, de Starkey, van Helmont, etc.((Noggler, Joseph: Goethe und die Alchimie, 1949. Ver ainda vol. 9 (Edição de Hamburgo) pag. 342: Dichtung und Wahrheit, 2a. parte, livro 8.)) Mas quantas outras obras não poderá ele ter lido, sem que o fato ficasse assinalado? Seja como for, em todas elas determinados símbolos constantemente se repetem, símbolos de que Goethe virá depois a servir-se, e muito explicitamente no Maerchen. Só à luz destes símbolos o conto se deixa desvendar. Ronald Gray aponta como esquema básico da concepção alquímica ’uma polaridade inicial e um conflito de opostos, caracterizados pela divisão geral do macho e da fêmea, da luz e das trevas, e representando o estado de tensão que existe no mundo da natureza. A esta tensão não se pode fugir, mas ela pode ser vencida pela renúncia a diferenciação pessoal, pela morte do eu. Esta morte é simbolizada ao mesmo tempo como uma rotação e como um regresso à origem das coisas, na qual uma centelha de vida pode ser descoberta. Alimentando-se desta centelha o adepto renasce, identifica-se com Deus, e esta identificação é representada como uma união entre o macho e a fêmea’.((Gray, Ronald D., opus cit., capit. VI.)) Elaborado em conto, transposto para um clima de maravilhoso, este esquema é o esquema do Maerchen. Os acontecimentos narrados obedecem a uma imprevisível lógica, tão interior como a dos sonhos, e da qual só Goethe verdadeiramente nos poderia dar uma chave completa. Mas não o quis fazer. As personagens que participam das grandes mutações verificadas no conto surgem de repente, sem serem anunciadas nem justificadas umas perante as outras e menos ainda perante o leitor. E mal surgem misturam-se e intervêm numa ação que está em curso e de que fazem parte integrante, como se conclui pela leitura, embora nada antes tivesse sido dito que o fizesse prever. E logo influem sobre os acontecimentos, e reagem umas perante as outras com a maior das naturalidades, como se tudo já tivesse sido explicado algures (noutro tempo, noutro espaço, noutra dimensão da narrativa) como se tudo fosse por demais evidente, o que não é o caso, e muito menos para o leitor desprevenido. Só mergulhando no mundo do inconsciente, só regressando a um tipo de imagens mais do que ’singulares’ (como disse Goethe) oníricas ou arquetípicas, se pode entender o Conto. As personagens e os acontecimentos sucedem-se, apontando para uma grande mutação, para uma grande revelação final. Que personagens? Os fogos-fátuos, o velho barqueiro que os atravessa para o outro lado do rio, o próprio rio, a serpente verde, a bela Flor-de-Lis, o gigante, o rei de ouro, o rei de prata, o rei de bronze, e o rei dos três metais imperfeitamente misturados, o homem da lanterna, a sua mulher, o cão Mops, o Jovem, o canário, o Açor, etc. Ainda outros elementos intervêm, como o ouro, a luz, as pedras preciosas, os frutos da terra com que se deve pagar a travessia ao barqueiro e ao rio, o santuário ou templo, em que a serpente penetra e onde se encontram as estátuas dos quatro reis, esperando ’que chegue o momento’ e onde a conjunção final do rei e da rainha terá lugar (quando se cumprir a profecia e o templo surgir das águas) a ponte — tudo elementos de natureza simbólica que vão indicando, à medida que surgem, novas fases do desenrolar da ação. **[[esoterismo:goethe:conto-da-serpente-verde-resumo|RESUMO DO CONTO]]** ---- ==== COMENTÁRIOS ==== * O rio aparece logo no início do conto com artigo definido, como se todos soubessem de qual se trata, o que o institui imediatamente como símbolo e não como elemento geográfico comum. * Referência a "o grande rio" em vez de "um grande rio" sinaliza singularidade simbólica * O rio é resumo de todos os rios existentes, um rio que é mais do que rio * Significado oculto torna-se transparente ao ser lido como símbolo * O rio do conto corresponde ao rio dos alquimistas, presente em obras como a Atalanta Fugiens de Michael Maier e o De Lapide Philosophico de Lambsprinck, onde a água transformadora preside à Obra. * Gravuras dessas obras ilustram a presença do rio e da água transformadora * A ponte sobre o rio simboliza a unidade obtida entre os opostos * A perfeição da Pedra Filosofal é representada por essa unidade * O rio e seu barqueiro ligam-se ao simbolismo das Águas como fonte, origem e matriz de todas as possibilidades de existência, segundo Mircea Eliade, sendo o rio também a prima matéria da Obra alquímica. * O rio contém imperfeição que deve ser alterada e falta de completude * Junto com terra, fogo e ar, o rio deve ser conduzido a um acabamento * As margens precisam ser unidas de modo perene pela ponte, superando a precariedade do barqueiro * O rio é água excessiva e transbordante, movimento e agitação opostos à serena imobilidade descrita por Boehme, além de caos informe e princípio masculino agressivo cujas águas representam um inconsciente ameaçador por não ordenado. * Chuvas torrenciais e cheia manifestam o excesso do elemento aquático * O rio opõe-se à imobilidade serena sistematizada por Boehme nos símbolos alquímicos * A ligação definitiva das duas margens é condição para que o rio se torne mais perfeito * O barqueiro e o rio não são símbolos da morte à maneira de Caronte, mas símbolos alquímicos de matéria imperfeita a transmutar, situados sob o signo da vida e da ressurreição, apontando para a integração dos opostos numa realidade superior. * No início do conto o nível superior ainda não foi atingido * O rio não suporta o ouro porque ainda é um princípio vital não depurado * O ouro das moedas lançadas pelos fogos-fátuos ainda era ouro vulgar, diferente do ouro da sabedoria * O ouro prematuro pode atuar como veneno sobre um inconsciente descontrolado, pois a maturação alquímica, como a maturação da vida, dá-se a seu tempo e não pode ser forçada. * Contrapor à força o equilíbrio total a um inconsciente descontrolado agrava o desequilíbrio * O momento adequado é condição para que o ouro vivifique em vez de destruir * O rio e o barqueiro aceitam apenas frutos da terra como pagamento, estabelecendo uma ligação profunda entre os elementos água e terra, num mundo seminal de onde germinarão formas mais perfeitas. * Os fogos-fátuos, oriundos de outra esfera, desprezam os frutos da terra e não os compreendem como moeda válida * Esse mundo é o da matéria primeira e da força obscura que anima a natureza * Os fogos-fátuos, como o rio, contribuem para a Revelação final que diz respeito ao Homem, embora não façam parte dela, apenas a precipitando. * São elementos ainda não acabados e não perfeitos * Sua função é catalisar o processo sem participar de seu resultado * Rio e barqueiro funcionam no conto como um único elemento, sendo o barqueiro apenas um aspecto de uma realidade mais universal que é a força do rio, a qual contém em si mesma a unificação. * O barqueiro declara não poder aceitar nada sem entregar um terço ao rio * A primeira união incipiente das margens é realizada pelo barqueiro * A união definitiva só se consegue mais tarde com o sacrifício da serpente * A aliança do rio com o negro revela-se quando a mão da mulher do velho da lanterna sai do rio preta como carvão, sinal da imperfeição daqueles que não cumpriram as obrigações da terra antes de aspirar à espiritualidade. * O negro é a imperfeição, e o rio marca com ela quem transgrediu a ordem dos elementos * A mulher cedera ao pedido dos fogos-fátuos e assumira uma dívida que era deles * Ela era complexa e humana, não um elemento puro como os fogos-fátuos * O sinal mais negro de imperfeição é, paradoxalmente, o sinal requerido para confirmar que a Obra progride em direção ao branco e à perfeição, conforme o Abade Dom Pernety no seu Dicionário ao definir o Branco do Negro. * Dom Pernety descreve o magistério em branco perfeito como aquele que só alcança a brancura passando pela cor negra * A cor negra é o verdadeiro indício da perfeita putrefação * Só renasce purificado quem primeiro bem morre * O rio é água humana, humanizada ainda pela presença do barqueiro, e pertence a um primeiro mundo material que cederá lugar a outro mais espiritual e perfeito, quando chegar o momento. * Da noite se chegará ao dia, das trevas à luz, da não-organização à unidade * Gaston Bachelard, em L'eau et les Rêves, ao falar de Poseidon, oferece um dado relevante: Poseidon teria começado como deus da água doce e da água terrestre, e em Trezenas recebiam-se oferendas de frutos da terra, o que ilumina a razão pela qual o rio do conto aceita apenas esse pagamento. * Poseidon é divindade marinha mas de origem ligada à água doce e terrestre * A correlação entre o culto de Poseidon e os frutos da terra confirma a lógica simbólica do conto * Há relação profunda entre a água-terra do conto e o céu, pois as chuvas que provocam o transbordamento do rio vêm do céu, tornando-o água divina, designada pelos alquimistas como Água Divina, Água Bendita ou Água de Vida. * O rio será no fim local de purificação * A serpente pede ao velho da lanterna que lance as pedras do seu corpo transmutado nas águas do rio * Das águas do rio surge o templo sagrado e sobre elas cresce a ponte * As pedras do corpo transmutado da serpente, lançadas ao rio, cintilam como estrelas e inauguram a conjunção do espírito e da matéria, precedendo a Conjunção final do rei e da rainha. * As pedras vogam com as ondas sem se poder distinguir se se perdem ao longe ou se afundam * A integração das pedras e da água é sinal de perfeição * O simbolismo do rio é ao mesmo tempo o da possibilidade universal, o do escoamento das formas, o da fertilidade, da morte e da renovação, conforme citação incorporada ao texto. * O rio pode ser ameaçador ou regenerador conforme o momento * A lição moral do conto é que se deve vencer de modo permanente o obstáculo da travessia * A travessia do rio, segundo o Patriarca zen Houei-neng, corresponde à passagem de um obstáculo que separa dois domínios e dois estados, sendo a margem oposta a paramita, o estado além do ser e do não ser. * O obstáculo separa o mundo fenomenal do estado incondicionado * O mundo dos sentidos é separado do estado de desprendimento * O rio simboliza ainda a existência humana e seu decurso com a sucessão de desejos, sentimentos e intenções, e todos os personagens do conto atravessam-no antes de chegarem à Conjunção e às transformações definitivas. * A travessia múltipla precede a superação dos estados efêmeros * O estado mais elevado é o da Imutabilidade e Perfeição * O rio é purificador, como afirma Michael Maier na Atalanta Fugiens ao dizer que a onda lava a sujidade do corpo negro, e no momento propício a mulher sai do banho com a mão curada e o corpo rejuvenescido. * Na água todos encontram remédio para os seus males, segundo Michael Maier * A água pode ao longo da Obra alquímica funcionar como elemento negativo, chamada por Maier de água fétida, mas essa impureza nunca é permanente * Bachelard, em L'eau et les Rêves, afirma que a balança moral inclina-se sem dúvida para o lado da pureza e do bem, pois a água tende para o bem, proclamando também sua íntima natureza celestial ou divina. * Bachelard descreve sonhos impuros com correntes negras e lodosas * É junto da água e sobre a água que se aprende a vogar sobre as nuvens e a nadar no céu * O barqueiro atinge a transcendência, participa das maravilhas que se operam nas profundezas da terra, e sua cabana é simbolicamente recebida no templo como altar de prata, ao qual sobem o Jovem e a princesa Flor-de-Lis. * O barqueiro surge vestido de branco e trazendo na mão um leme também branco, de prata * A prata e o branco ligam-se ao simbolismo lunar da Pedra, adequado ao rio e à água * O barqueiro atinge ao menos o grau da Pedra branca, o mais perfeito antes da Pedra rubra * A água preside a todas as formas alquímicas de mutação, como se vê nas gravuras do Rosarium Philosophorum e da Atalanta Fugiens, e a primeira fase da Conjunção dos opostos realiza-se na água, antes de se chegar ao branco ou ao rubro da Pedra. * No Rosarium é mostrada a pedra branca e a árvore das luas * Grande preponderância é dada à água nas gravuras desses tratados * Elie-Charles Flamand afirma que, depois de engendrado na onda viva, o agente filosófico eleva-se ao céu químico e torna-se a Pedra ao rubro, que realiza milagres, confirmando o que foi dito sobre o rio. * O agente filosófico é a parte espiritual da matéria * A elevação ao céu químico é resultado do processo iniciado na água * Os fogos-fátuos chegam de noite, acordam o barqueiro com urgência para passar ao outro lado e perturbam a travessia com seu comportamento irrequieto e brincalhão, obrigando o barqueiro a chamá-los à ordem para não virar o barco. * A eles está aliado o ouro precioso que o rio não suporta * O barqueiro precisa esconder esse ouro entre os rochedos * O fogo e o ouro andam sempre ligados nos textos dos alquimistas, pois é o fogo que prepara a matéria, a modifica, a purifica e lhe acelera o caminho para a perfeição imutável que o ouro simboliza. * A Obra dos alquimistas é frequentemente chamada Obra do fogo por Michael Maier * Maier afirma que a pedra vive do fogo e que o hermafrodita se prepara na regeneração pelo fogo * A Obra alquímica compõe-se de seco e úmido, como escreve Michael Maier, e no conto o elemento úmido foi introduzido pelo rio enquanto o elemento seco é introduzido pelos fogos-fátuos, mas como a união dos opostos ainda não se realizou, o ouro não pode ainda ser recebido. * O ouro é culminação da Obra e o conto está ainda na fase do nigredo * Os fogos-fátuos agem sobre essa fase inicial * O ouro dissipado erroneamente será jogado pelo barqueiro na caverna rochosa onde a serpente dorme * É necessário semear ouro na progressão da Obra, como diz a Atalanta Fugiens ao ordenar semear o ouro na terra branca trabalhada, e nos tratados até chove ouro como presságio feliz do fim da obra. * O ouro é elemento vivificador que anima tudo o que toca * O erro foi querer dar o ouro ao elemento líquido ainda não purificado * O semelhante rejubila com o semelhante, e o ouro deve ser dado a uma matéria já em vias de transmutação * A chuva de ouro dos fogos-fátuos é um prenúncio bom, pois os gregos contavam que uma chuva de ouro caía onde o Sol e Vênus se abraçavam, anunciando a conjunção de macho e fêmea e a resolução dos princípios opostos em unidade. * A chuva de ouro é um símbolo alquímico apontado pelos próprios fogos-fátuos ao provocarem essa chuva * Os fogos-fátuos são importantes porque a Pedra é o fogo e o ouro é o fogo em alquimia * Michael Maier escreve que a pedra é quente e gosta de um calor igual ao seu * O Epigrama de Michael Maier com a legenda O hermafrodita necessita de fogo e o emblema que o acompanha explicam melhor do que qualquer outra imagem a Conjunção do Rei e da Rainha e a importância do fogo para essa união. * O fogo detém toda a força da Pedra filosofal * O fogo desencadeia, precipita e acelera toda a evolução * O significado dos fogos-fátuos na história torna-se mais claro como o fogo acelerando a purificação e estabelecendo a unidade entre o branco perfeito e o negro seu oposto, entre o masculino e o feminino, e sua urgência em prestar homenagens à princesa Flor-de-Lis explica-se por essa função. * Os fogos-fátuos deixam cair moedas de ouro dentro do barco úmido, mas é cedo demais para essa ligação com o elemento líquido * Antes de atuar sobre a água terão de atuar sobre a terra * O ouro jogado pelo barqueiro na fenda dos rochedos desperta a serpente que o devora sofregamente, e esse primeiro processo de modificação transforma a serpente em transparente e luminosa, contaminando com brilho fantástico toda a natureza ao redor. * O primeiro efeito purificador do ouro é tornar a matéria transparente e luminosa * As folhas parecem de esmeralda e as flores ficam transfiguradas * A serpente identifica-se com os fogos-fátuos e com o ouro, reconhecendo neles elementos que lhe proporcionam a transformação interior e exterior a que aspira, declarando que faria tudo que lhe pedissem por amor desse ouro querido e na esperança de alcançar aquela magnífica luz. * Os fogos-fátuos pertencem ao mundo vertical e classificam a serpente na linha horizontal * Chamam-na comadre com certo ar jocoso mas reconhecem um parentesco com ela * Os fogos-fátuos pedem à serpente que os leve ao palácio e ao jardim da bela Flor-de-Lis * A Grande Obra dos alquimistas é obra de paciência e não de impaciência, e os fogos-fátuos não podem ser logo conduzidos à princesa, tendo de esperar pela sombra do gigante ao pôr do sol ou pela própria serpente ao meio-dia. * A precipitação prejudica a obra em vez de facilitá-la * É preciso esperar pelo momento adequado * Enquanto aguardam, os fogos-fátuos desencadeiam novos acontecimentos: dizem mil amabilidades à mulher, conseguem que ela assuma a dívida dos frutos da terra, lambem o ouro das paredes e provocam involuntariamente a morte do cão Mops com as moedas que derramam. * O fogo mata e o fogo vivifica * O ouro é simultaneamente elixir e veneno conforme a matéria está ou não preparada para recebê-lo * O cão Mops e a mulher funcionam por enquanto em níveis mais baixos de existência, não totalmente iluminados pela consciência * São os fogos-fátuos que, após a transmutação definitiva da serpente em pedras preciosas e em ponte, ajudam a abrir a porta do santuário onde a Conjunção do Rei e da Rainha terá lugar, consumindo com a ponta aguçada de suas chamas a fechadura e o ferrolho de ouro. * O domínio do sagrado está defendido por um grande portão * O fogo é o elemento que propicia e permite essa progressão iniciática * O fogo é a chave da Obra * O simbolismo da porta sempre esteve ligado à iniciação em templos hindus, chineses, gregos, romanos e nas tradições judaica e cristã, sendo Cristo descrito em São João como a porta do reino dos céus, enquanto para hermetistas e alquimistas a porta é a chave e a entrada que permite ao longo da Obra obter a Pedra. * Atravessar a porta da catedral ou do templo equivale a ser iniciado, passar da morte à vida, da escuridão à luz * Ripley tem um tratado chamado As Doze Portas e Basile Valentin tem As Doze Chaves, as doze operações necessárias para chegar à Pedra Filosofal * Já no santuário os fogos-fátuos prestam homenagem aos reis, mas o rei de ouro diz que seu ouro não é para a boca deles e os manda saciar em outra parte e trazer-lhe sua luz. * O fogo como elemento purificador não pode atuar sobre o que já está purificado * Sua ação deve exercer-se sobre o rei de liga, que por estar imperfeitamente misturado não resiste ao efeito do fogo * O fogo aniquilou o rei de liga em vez de sublimá-lo, causando sua ruína * Os elementos precisam estar perfeitamente integrados como se fossem um único elemento para que a obra alquímica se realize, e o fracasso do rei de liga demonstra que a imperfeição na integração leva à destruição em vez da sublimação. * A luz que o rei de ouro pede aos fogos é a da Revelação suprema * O rei de ouro, perfeito, não podia ser atacado pelo fogo e os fogos-fátuos não podiam dele se alimentar * Em Selige Sehnsucht, poema do West-Oestlicher Divan, Goethe louva o vivo que aspira à morte na chama, celebrando o efeito espiritualizador do fogo que consome mas purifica, transmutando apenas os eleitos como acontece à serpente. * O rei imperfeito e o povo que se atropela para apanhar moedas não beneficiam do fogo * O rei permanece imperfeito por estar em fase de excessiva imperfeição * O povo só dá atenção ao ouro material e não ao espiritual * O rei de ouro pede aos fogos que se alimentem e lhe tragam depois sua luz, e a serpente, em resposta ao rei de ouro, afirma que mais magnífico do que o ouro é só a luz, estabelecendo a ligação entre fogo, ouro e luz como símbolos de purificação espiritual. * No Rosarium lê-se que o ouro é o fermento da obra e que ele ilumina e preserva da combustão, sinal de perfeição * O rei de ouro não podia ser destruído pelo fogo * O fogo filosófico, conforme Etienne Perrot, une a humidade da lua à secura do sol e é um sol húmido, mas os fogos-fátuos no início do conto carecem desse equilíbrio duplo, o que os faz ameaçar o rio e matar o cão. * A harmonia entre os opostos seco-úmido ainda não estava realizada nos fogos-fátuos * Eles também se sublimam à medida que o conto e a Obra progridem, pois o ouro da cabana do velho da lanterna lhes sabe melhor do que o ouro vulgar * A serpente verde é o símbolo mais expressivo do conto do ponto de vista alquímico, aparecendo adormecida nas rochas, despertada pelo ouro, que a transforma em transparente e luminosa, mais próxima da pedra preciosa em que virá a se transformar no fim. * A serpente contempla maravilhada em si o novo brilho e a agradável luz que transfigura a própria natureza * As folhas à sua volta pareciam de esmeralda * A serpente é o símbolo da Pedra preciosa dos filósofos herméticos, o Ouroboros dos antigos alquimistas gregos, o Uno e o Todo, a chave e o centro de toda a Revelação, movida pelo amor desse ouro querido e pela esperança de alcançar aquela magnífica luz. * A serpente é aparentada ao fogo e aos fogos-fátuos mas é mais complexa e completa do que eles * Pertence à terra como pertence ao céu * É ela que liga as margens do rio ao meio-dia * É a serpente que descobre primeiro o santuário oculto, e depois, no interior, as estátuas dos quatro reis, e com eles troca palavras de iniciação, e só depois dessa penetração no mistério o homem da lanterna surge e ilumina maravilhosamente toda a catedral sem projetar nenhuma sombra. * O iluminar sem sombra significa que nada mais fica por diferenciar no mundo do inconsciente * Pela primeira vez o homem da lanterna pronuncia as palavras proféticas: chegou o momento * Após um grande estrondo no templo, o homem da lanterna e a serpente desaparecem projetados cada um para seu lado, a serpente para o Oriente e o velho para o Ocidente, e projetada para o local da Aurora a serpente acelerará todos os processos de mutação. * Dentro da caverna rochosa a serpente fora a prima matéria, caótica, informe, adormecida * Iluminada pelo ouro e transmutada em sua essência mais íntima, iniciada graças à visita ao santuário, ela progredirá rapidamente em direção à matéria mais perfeitamente organizada * É a serpente que revela ao velho da lanterna o quarto segredo, que ele não sabia, e só quando ela lho sussurra ao ouvido ele proclama que é chegado o momento, mostrando que o arco da ponte que cintila à luz do sol é a própria serpente tornando-se cada vez mais belo e mais brilhante. * O Jovem, antes de atravessar, pergunta se não será de recear pisá-la agora que parece construída de esmeralda, crisópraso e crisólito * Com a mutação da serpente começa a cumprir-se a Profecia da ponte * A transparência da pedra é símbolo de pureza e perfeição, e a transformação da serpente de jaspe sem transparência e simples ágata em pedra preciosa de berilo límpido e esmeralda de bela cor confirma o progresso em direção à perfeição. * Não há berilo tão límpido nem esmeralda de tão bela cor, segundo o conto * A serpente anuncia à princesa Flor-de-Lis que o templo está construído, embora oculto ainda nas entranhas da terra, e age como iniciadora, revelando à princesa o que primeiramente lhe fora revelado a si. * A serpente já viu os reis e lhes falou * Ouviu o homem da lanterna dizer que era chegado o momento * Para que não restassem dúvidas quanto ao seu misterioso e antigo simbolismo, a serpente verde forma com seu corpo um círculo ao redor do cadáver do Jovem, segurando a extremidade da cauda com os dentes, reconstituindo o símbolo do Ouroboros que os alquimistas escolheram para representar o Uno e o Todo, a Perfeição e a Imutabilidade. * Esse símbolo aparece nos textos dos antigos alquimistas gregos estudados por Berthelot * Aparece na Atalanta Fugiens no emblema XIV com o dragão que devora a sua cauda * Aparece também no De Lapide Philosophico de Lambsprinck de 1677 * Sobre o simbolismo do Ouroboros muito haveria a dizer, mas basicamente ele significa a unidade e a regeneração, salientando-se no Dictionnaire des Symboles a unificação do mundo inferior representado pela serpente com o mundo celeste superior representado pelo círculo. * A serpente-ponte reúne as margens opostas e simultaneamente todos os pares de opostos concebíveis: céu e terra, bem e mal, dia e noite, macho e fêmea, luz e trevas * Representa segundo Bachelard a dialética material da vida e da morte, a morte que sai da vida e a vida que sai da morte * A serpente capta o primeiro bom indício de que a Obra se aproxima de sua fase final ao ver pairar no ar com penas purpurinas o Açor, estremecendo de alegria ao reconhecer o bom sinal do vermelho púrpura que confirma a boa progressão na Obra. * A serpente começa a rastejar pela última vez em direção ao rio * É sobre a água que se estende o sinal da purificação: a ponte, o corpo transmutado, o arco luminoso * O cortejo vê sobre o rio um magnífico arco luminoso formado pelo corpo transmutado da serpente, admirado de noite por sua deslumbrante magnificência, com o círculo luminoso recortando-se distintamente no escuro do céu e vivos raios partindo para o centro. * De dia admiravam as pedras preciosas transparentes de que parecia formada a ponte * De noite contemplavam com espanto sua deslumbrante magnificência * Na parte superior o círculo luminoso recortava-se no escuro do céu e na parte inferior vivos raios mostravam a flexível solidez da construção * O arco da ponte é símbolo da aliança entre o céu e a terra, a ponte que liga o temporal ao espiritual, e na alquimia o arco-íris corresponde à cauda de pavão, fase da obra de colorações múltiplas e irisadas que precede e anuncia a Pedra Filosofal. * No conto a mulher do velho da lanterna observa à princesa Flor-de-Lis que o mundo está a ficar cheio de cores, anunciando a Revelação que se aproxima * Muitos elementos se veem reunidos e contrapostos: dia e noite, luz brilhando contra o escuro do céu, raios que se projetam em direção ao centro * Chegou a hora do sacrifício de amor, em que o eu se entrega por amor desse ouro querido e na esperança de alcançar aquela magnífica luz, abdicando de uma existência particular mas efêmera para nascer para outra vida mais perfeita e duradoura. * As pedras preciosas e a solidez da ponte são consequência e manifestação dessa vida mais perfeita * Para Goethe a ponte do arco-íris é um presságio celeste de amor e felicidade * Em 1814 Goethe tem a visão de um arco-íris branco no meio do nevoeiro da manhã, exclamando ser um arco celeste, e a serpente já realizara esse arco no conto, primeiro com múltiplas cores preciosas, depois verde puríssimo e branco no fim quando a Obra podia considerar-se realizada. * A serpente modifica-se em sinal e por amor do Uno e do Todo * Após seu sacrifício o bem geral é possível * A serpente unifica terra, água e céu em sua totalidade, refazendo um cosmos * Citando o poema do West-Oestlicher Divan, Goethe afirma que enquanto o homem não entender o morre e devém, será apenas turvo conviva nas trevas da terra-mãe, e no conto o sacrifício da serpente concretiza esse princípio. * O velho da lanterna pergunta à serpente o que resolveu e ela responde: sacrificar-me * Seu belo corpo esguio desfaz-se em milhares de pedras cintilantes * Sua forma material desaparece e fica apenas um círculo de pedras brilhando sobre a relva * O Rosarium explica que a medicina está completada ao passar de uma forma a outra forma cristalina, e que a matéria deve tornar-se tão sutil que todas as partes iguais em natureza sejam misturadas com água, produzindo um único corpo transparente de continuidade por conjunção de numerosas partes. * O brilho, a transparência e a luminosidade perfeita das pedras em que o corpo da serpente se mudou indicam que a Obra alquímica chegou ao fim * Esse corpo sutil da serpente é lançado à água, unindo dois elementos e prenunciando as outras uniões * O velho e a mulher levam o cesto com as pedras preciosas para lançá-las todas ao rio, obedecendo ao pedido da serpente, e o rio aceita a dádiva, transportando as pedras cintilantes como estrelas luminosas. * Conjunção perfeita da água e do céu, da terra e do céu * O último conselho do velho ao Jovem já rei é honrar a memória da serpente * O Jovem deve-lhe a vida e os povos devem-lhe a ponte sem a qual as margens nunca teriam sido unidas * As pedras preciosas cintilando na água, resto do corpo sacrificado da serpente, formam os pilares da ponte gloriosa, sobre os quais ela se edificou a si própria e a si própria se manterá. * Surge a pergunta de por que o rio se enfurecia antes com o ouro e o rejeitava, se agora recebe as pedras preciosas * O rio não aceitava o ouro como pagamento de serviço prestado porque isso encerrava componente material * O rio aceita as pedras preciosas porque são ouro espiritual puro e perfeito entregue como dádiva, e repare-se que a serpente o recebeu sob forma de dádiva súbita e inesperada, sem saber de onde vinha, como se tivesse caído do céu, e é também como dádiva total que ela se entrega. * A dádiva é generosa e fica a servir de exemplo às gerações * A serpente chama atenção para a importância do amor e da oferta generosa de si mesmo em proveito dos outros * Sem o auto-sacrifício da serpente nunca se daria a Conjunção entre o rei e a rainha * A serpente é a serpente verde, e no Dictionnaire Initiatique o verde resulta da revelação e da manifestação, sendo ação e por extensão caridade, e cor terrestre que simboliza a realização e a ação, simbolismo que a serpente assume integralmente no conto. * Quando o rei de ouro pergunta o que é mais revigorante do que a luz, a serpente responde: a conversa * Mais importante do que o conhecimento revelado é a possibilidade de comunicá-lo, sendo útil a muitos * Ronald D. Gray, em seu estudo do Maerchen, chama atenção para o aspecto da comunicação, que coincide com a própria maneira de ser de Goethe, e a linguagem desconhecida dos fogos-fátuos seria uma alusão ao hermetismo excessivo dos filósofos alquimistas que a Goethe não agradava por ser incompatível com a função social de esclarecer o próximo. * A linguagem dos fogos-fátuos pode ser considerada também alusão direta ao fogo secreto ou fogo filosófico * O Revelado é o segredo mais importante, segundo o velho da lanterna ao rei * O velho da lanterna afirma que uma pessoa sozinha não pode fazer nada e que é preciso unir-se com muitos no momento propício, confirmando pela sua atitude a atitude exemplar da serpente e a importância da terra, da vida e do mundo no simbolismo do conto. * A ponte é símbolo de realização e unidade individual e também instrumento de progresso e perfeição social * O verde da serpente é assim respeitado em sua dimensão social * O homem da lanterna e sua mulher são talvez o par de opostos mais perfeito e mais significativo do conto, e paralelamente à conjunção dos jovens celebra-se a conjunção renovada desse par de velhos, com o casamento renovado e a mulher rejuvenescida. * O homem da lanterna diz que recebe de novo a mão dela e que com prazer viverá com ela o próximo milênio * Essa perenidade contida na imagem do milênio é a da Philosophia Perennis, sabedoria eterna a que aspira o alquimista verdadeiro * O contraste e a complementaridade entre o homem da lanterna e sua mulher são mais nítidos do que entre a princesa Flor-de-Lis e o Jovem príncipe, que são apenas princípios feminino e masculino esperando sua união. * A princesa é o branco, a luz * O príncipe é o indeterminado, o indiferenciado que a ela aspira e que sem ela não consegue viver * O manto de púrpura do príncipe é sinal de progressão na Obra, mas ele ainda terá de morrer para renascer vivo * O simbolismo do velho da lanterna é mais rico, pois é apresentado como homem de estatura média que traja como lavrador e traz na mão uma pequena lanterna, cuja luz clara é a da Consciência, serena, iluminando maravilhosamente toda a catedral sem projetar a menor sombra. * Já não fazia sombras porque toda a sombra estava nela integrada * O homem da lanterna simboliza o princípio da Sapiência Eterna e da Realização Suprema que os filósofos tanto querem obter * O Emblema XLII da Atalanta Fugiens de Michael Maier apresenta um homem caminhando com uma lanterna na mão como fator de esclarecimento, e uma figura de mulher com flores e frutos da terra, simbolizando a natureza que deve presidir a toda a Obra. * No conto o homem da lanterna diz que o gênio de sua lanterna o impele e que a lanterna chameja quando precisam dele * A natureza e o conhecimento, a mulher e a lanterna, são os polos sobre os quais se forma o equilíbrio sábio do homem * Quando o rei de ouro pergunta por que vem se têm luz, o homem da lanterna responde que não pode iluminar a escuridão, pois a sabedoria só funciona quando os obscuros valores do inconsciente são entendidos e integrados pelo homem. * A revelação só é dada àquele que já se pôs a caminho e a merece * A serpente já estivera no templo mas nada pudera ver * Agora que via graças à luminosidade de seu corpo, o homem da lanterna também apareceu e a revelação dos mistérios tornou-se mais total * A lanterna do homem tem o condão maravilhoso de mudar todas as pedras em ouro, todas as madeiras em prata, os animais mortos em pedras preciosas e de aniquilar todos os metais imperfeitos, e os fogos-fátuos afirmam que o ouro das paredes lhes sabe melhor do que o ouro vulgar. * Esse ouro não é o ouro material mas o ouro espiritual, o ouro dos filósofos, a Pedra, símbolo da perfeição suprema * Pela ação da luz da lanterna as paredes voltam a cobrir-se de ouro e o cão morto transforma-se no mais belo ônix que se pode imaginar * O homem da lanterna não simboliza a luz que brilha nas trevas, mas a luz mais perfeita que é resultado de uma conjunção de luz e trevas, e antes de operar a modificação das paredes e do cão cobre os carvões com uma camada de cinza, sendo sua presença eliminadora do negro na Obra. * O Jovem está interessado nos efeitos da luz sagrada da lanterna, pressentindo que dela dependeria sua salvação * O velho provoca com suas palavras que as estátuas dos reis se ergam nos lugares que lhes compete * O velho da lanterna comanda a coroação do príncipe, a cura da mão negra da mulher e todo o processo alquímico do acabamento da Obra, concluindo sobre o poder do amor: o amor não governa, mas constrói, o que é mais. * Chama atenção de todos para o mérito da serpente, de cuja capacidade de auto-sacrifício e de amor generoso todos beneficiaram * A mulher liga-se ao simbolismo da terra, da terra-mãe e do negro fértil regido por Isis no Egito antigo, encarrega-se da dívida dos frutos da terra que é preciso pagar ao barqueiro e ao rio e, porque não consegue cumprir, é castigada com a mão negra que corre o risco de desaparecer. * Os mortos não lhe pesam, pesam-lhe os vivos * É uma figura ligada ao domínio da sombra, ao ritual da fertilidade e ao inconsciente representado pelo gigante * O gigante, símbolo das forças descontroladas do inconsciente, é a causa direta da perda da mulher ao roubar-lhe três dos frutos que ela devia entregar ao barqueiro, e quando ela mete a mão no rio como sinal da dívida reconhecida, a mão sai preta como carvão. * A mulher não pode evitar o encontro com o gigante ao ir com o cesto de oferendas em direção ao rio * Sob a orientação do homem o negro torna-se fecundo, pois será ultrapassado por uma fase de perfeição total, sendo a mulher o negro que o homem, cobrindo o carvão, transmuta. * A mulher é a primeira do grupo a encontrar-se com Flor-de-Lis * É ela que lhe transmite o recado do homem de que chegou o momento e de que a maior infelicidade deve ser tomada como sinal da maior felicidade * A mulher é o complexo, imperfeito mas indispensável complemento do homem da lanterna, e sem ela a luz da lanterna poderia ser confundida com a fria luz da razão, pois a verdadeira luz da Sabedoria Suprema está intimamente ligada à afirmação da Vida de que a natureza é a manifestação. * O rio era elemento importante, mas essa figura de mulher comparável a Isis que governa o negro perfeito é elemento ainda mais positivo para a total compreensão da história * A mão escura da amiga na canção da princesa Flor-de-Lis é tida por bom sinal * Na alquimia a nigredo é a fase que anuncia a perfeição das seguintes, que culminam na albedo e na rubedo, e a passagem ao negro é necessária para que haja depois passagem ao branco e ao vermelho. * A mulher não parece ter consciência do processo em que está participando * Só pensa no perigo de ficar sem a mão e no negro dessa mão como castigo * É a serpente que diz à mulher para esquecer sua aflição e lhe pede que ajude a salvar o Jovem indo procurar os fogos-fátuos e mandando-os ao homem da lanterna, e por esse esquecimento de si própria a mulher será recompensada. * A mulher logo faz o que a serpente pede * A velha participa da transmutação da serpente ao tocar-lhe inadvertidamente o corpo, que se desfaz em milhares de pedras, e é em seu cesto que os frutos são transportados, bem como o cão, o Jovem morto, o canário e finalmente as pedras da serpente. * O cesto é um ventre de mãe, local de uma maturação que conduz à vida, símbolo do corpo maternal * Contendo frutos, significa o gineceu, os trabalhos domésticos e a fertilidade * O cesto torna-se luminoso, sinal de que participa da purificação geral, e é alargado como um útero para nele caber um corpo humano que em breve renascerá * O cesto é ainda o athanor, o vaso precioso dos alquimistas em que se perfaz a Obra, e junto do athanor trabalham o homem e a mulher ao apanhar juntos as pedras preciosas do corpo da serpente para lançá-las ao rio. * A mulher é obscura e inconsciente portadora de vida * Desse modo ela completa o homem, seu par real e par e oposto alquímico * A mulher é símbolo da Terra-mãe, da fértil terra regeneradora e criadora de vida descrita por Mircea Eliade, que analisa o conceito de Terra Genetrix presente em certas tribos de índios americanos do século passado, revelando a imagem primordial da Terra-mãe em que pedras são assimiladas a ossos, solo a carne e plantas a cabelo. * A Terra-mãe dá origem a todos os seres: humanos, animais, vegetais e minerais * Sendo uma mãe viva e fecunda, tudo o que ela produz é simultaneamente orgânico e animado * Muitos mitos falam das pedras como ossos da Terra-mãe, e nas tradições mais antigas dos povos caçadores que remontam ao paleolítico o osso representava a origem mesma da vida e era a partir dele que renascia o animal, bem como o homem. * Os tratados hindus de mineralogia descrevem a esmeralda na sua matriz, a rocha, como um embrião * A Terra sendo assimilada a uma mãe, tudo que ela esconde em seu seio pode ser considerado ser vivo, gérmen ou embrião em vias de se desenvolver * Na alquimia esses conceitos primordiais manifestam-se no forno dos filósofos e no vaso hermético considerados como matrizes da Obra, e Nicolas Flamel no seu Livro das Figuras Hieroglíficas diz que o forno é como o ventre e a matriz que contém o verdadeiro calor natural para animar o jovem Rei. * Os minerais em embrião terminariam seu desenvolvimento no athanor * O adepto funciona como acelerador dos processos naturais e como regenerador da matéria imperfeita * A alquimia inscreve-se no mesmo horizonte espiritual em que o alquimista retoma e acaba a obra da Natureza, enquanto simultaneamente se aperfeiçoa a si mesmo. * Pelo simbolismo das personagens muitos passos do conto se esclarecem * Quando o rei de ouro pergunta de onde vieram e para onde vão, e o velho responde do mundo e para o mundo, compreende-se que se trata da vida perfeita numa terra perfeita * A passagem da escura noite ao nascimento do dia é a aurora alquímica mais do que a natural, símbolo da regeneração obtida, e a mulher que se lamenta da desgraça de sua mão é enviada pelo marido a banhar-se no rio com a garantia de que todas as dívidas estão perdoadas. * Para a princesa Flor-de-Lis, símbolo diurno e luminoso, a mutação teve de se efetuar de noite * Para a mulher, princípio marcado pela escuridão, o processo teve de se efetuar de dia * O pôr do sol e a noite para uma, o nascer do sol para outra, foram os momentos propícios segundo a lei dos opostos e da complementaridade necessária * A velha regressa mais bela do que as três jovens companheiras da princesa, e o marido exclama feliz por ela e por toda a criatura que se banhe no rio nessa manhã, e diz que pode escolher outro marido se assim entender, pois nenhum casamento será válido se nesse dia não for renovado. * A par da conjunção do rei e da rainha opera-se a conjunção da vida e da sabedoria, da natureza imperfeita e da perfeição, do inconsciente obscuro e da luz da razão * A mulher que antes não sabia ver agora vê, e o homem diz que se alegra em aparecer-lhe como um jovem, e ela contempla finalmente sua verdadeira natureza, adquirindo a clarividência que lhe faltava, como está escrito no final do Mutus Liber dos alquimistas: Partes clarividente, ou Partes munido de Olhos. * São esses olhos que revelam à mulher a eterna juventude do marido * O homem da lanterna, símbolo da luz e da clara consciência, celebra também o rio, pois Goethe é complexo no caminho que traça à perfeição, que não se obtém por via linear nem direta. * A força da razão iluminada e a vitalidade do mundo natural são ambas fatores de progressão * Já no templo, no primeiro encontro, a serpente é projetada a Oriente e o homem a Ocidente, apontamento simbólico da ideia do Ex Oriente Lux * A viagem ao Oriente de Christian Rosenkreutz simboliza a busca da Iluminação, mas o homem da lanterna que já tem essa luz parte em direção ao Ocidente, relativo à matéria e à vida ativa, para acelerar com sua luz todos os processos em gestação, partindo do fundo da terra e celebrando no fim o rio e suas virtudes de regenerador. * O banho purifica o par na Conjunção e dentro da água ela se realiza em muitos dos tratados * De Michael Maier lê-se que a Pedra Filosofal é concebida nos banhos * A água é o elemento vivo, dinâmico e fecundo por excelência * O homem da lanterna tem como par a terra, e mais fecunda ainda do que o rio é a terra neste conto, com sua imobilidade mais profunda em que se opera toda a maturação, pois é da terra que saiu a serpente, no ventre da terra está o templo sagrado, e só os frutos da terra o rio aceita. * O paradigma da Grande Obra em Basile Valentin é: Visita o interior da terra, rectificando descobrirás a pedra oculta * Todos os heróis penetram no templo ainda no interior da terra e assim acedem ao conhecimento supremo * Jung em Psychologie und Alchemie refere a necessidade da descida ao mundo obscuro do inconsciente, do ato ritual da descida à caverna de noite, cujo objetivo é o restabelecimento da vida, a ressurreição e o triunfo sobre a morte. * No conto é à terra que o homem se encontra mais ligado * A serpente sabe que por muito alto que levante a cabeça tem de curvá-la de novo para a terra para poder avançar, como observa Ronald D. Gray no seu estudo do Maerchen * Derivando para o gnosticismo, cuja influência sobre a alquimia é marcante, vê-se que a sua doutrina afirma o encontro fecundo de um Espírito masculino e de uma matéria caos feminina que dá origem a um Logos andrógino, a um Homem Superior, a um Grande Homem cósmico exemplar. * A terra é essa matéria caos feminina, tal como a mulher do velho a simboliza * A velha ao queixar-se dos fogos-fátuos diz: olha para as velhas pedras que eu já não via há centenas de anos, que são as velhas pedras que a velha terra contempla * O fato de o homem apresentar-se vestido de lavrador mostra sua ligação íntima com a terra, e a luz da lanterna é o símbolo do Logos Andrógino integrado, perfeito, e de sua sabedoria cósmica exemplar. * Aos fogos-fátuos a velha chamou sua Rainha * Rainha e Rei são componentes do Andrógino gnóstico e alquímico * A companheira do homem da lanterna é a Terra-mãe, e quando a princesa Flor-de-Lis se abraça ao homem e lhe chama querido pai, conclui-se que a velha companheira é logicamente sua mãe, sendo eles no conto, além de tudo o mais, a Mãe e o Pai da Obra, a Lua e o Sol que a regem. * A conjunção final se dará nas pessoas dos jovens * Flor-de-Lis não é menos importante do que as outras personagens, e seu significado liga-se ao Branco Perfeito a que todos em última análise aspiram, sendo ela o único objetivo que todos se propõem alcançar. * Os fogos-fátuos querem prestar-lhe homenagem * A serpente ao meio-dia transporta sobre si quem queira ir para lá * A sombra do gigante faz o mesmo à noitinha * O Jovem perdeu seus bens, poder, riqueza e saúde por amor dela * O velho da lanterna e sua mulher visitam-na regularmente * No nome Flor-de-Lis encontra-se parte do simbolismo que a explica, pois a flor-de-lis é sinônimo de brancura, pureza, inocência e virgindade, e seu peito é alvo e seus lábios são celestes, podendo o lírio ser considerado símbolo da realização ou possibilidade de realização do Ser. * Alice Raphael observa que para os alquimistas a substância denominada lírio era identificada à Rainha, à Lua, e na alquimia esotérica à prata ou mercúrio filosófico * Na história da cultura religiosa o lírio da luz dos egípcios significava uma substância cósmica equivalente à prima matéria * No Livro dos Mortos um antigo rito de iniciação mostra Osíris emergindo de um lírio * As observações de Alice Raphael confirmam o caráter luminoso da princesa, o que explica que todos os personagens se dirijam para ela, sendo ela o lírio da luz e da perfeição por um lado e o princípio feminino lunar que deve unir-se com seu par masculino solar por outro. * A princesa Flor-de-Lis tem outra característica que não se adivinha logo pelo nome: dá vida ao que está morto e mata o que está vivo * Força regeneradora e funesta ao mesmo tempo, ela faz meditar sobre a necessidade de morrer para ser salvo e para nascer de novo * Os seres que Flor-de-Lis mata são reanimados pela clara luz da lanterna do homem, que é o mais sábio de todos os personagens e o Guia, e a profecia do conto fala da libertação da princesa cuja hora está próxima, conforme o recado do homem da lanterna. * O Jovem queixa-se da nefasta influência dos olhos claros da princesa que tiram a força a todo ser vivo * Aqueles que não morrem ao contato de sua mão sentem-se reduzidos ao estado de errantes sombras vivas * A libertação de Flor-de-Lis consistirá em não mais ser funesta aos vivos, mas para isso todo um processo geral de aperfeiçoamento deve decorrer, cujos bons sinais são a morte do canário amarelo imperfeito, ouro em transformação, e a chegada do Açor. * Já se iniciou o processo com o aparecimento dos fogos-fátuos, a ingestão do ouro pela serpente e a iniciação com os reis dentro do templo sagrado * O Açor ligado à morte e à ressurreição é o complemento adequado à natureza de Flor-de-Lis, mas porque o momento da regeneração ainda não chegou, ele ferido pelo olhar dela se arrasta sem forças junto à água, e em breve será visto avermelhado pairando no ar como símbolo da regeneração de todas as forças vitais. * No Dictionnaire des Symboles diz-se do Açor que é o mais rico dos seres, pois só ele conhece o ouro verdadeiro * Freud faz do Açor uma imagem do Andrógino, confirmando seu significado alquímico * A morte do Jovem é melhor sinal ainda, e uma das aias de Flor-de-Lis traz-lhe um véu vermelho de fogo com que lhe ornamenta a cabeça, anunciando com a presença da rubedo as núpcias e a fase final da Obra em que tudo se tinge de vermelho e todos atingem a perfeição sonhada. * A imagem da princesa no espelho é a mais agradável que se podia encontrar na terra * O tratado Aurora Consurgens atribuído a São Tomás de Aquino, comentado por Jung, liga-se à princesa Flor-de-Lis por meio da aurora, cujo véu espalhava uma doce luz que como uma suave aurora coloria de graça infinita suas faces pálidas e seu vestido alvo. * O progresso da princesa é acompanhado pela evolução das cores, não como elemento material como a serpente * A aurora brilha à medida que a escuridão aumenta, numa conjunção da luz e das trevas, do branco e do negro, anunciando a perfeição * Ao sair de sua morte e da meia vida em que ficara até entrar no templo e receber dos reis seu poder, força e sabedoria, o Jovem exclama o nome de Flor-de-Lis e a toma nos braços, e suas faces cobrem-se do mais belo e perdurável rubor. * A transmutação anunciada no véu concretiza-se na própria substância da princesa * Celebra-se com plenitude o Poder do Amor que não governa mas constrói, como dissera o velho da lanterna * Embora muito se possa sempre escrever sobre a simbologia do conto de Goethe, sua ligação com o mundo da alquimia, seus objetivos e seus processos já ficou bem clara, e restam ainda alguns elementos a confirmar essa ligação. * O gigante, os quatro reis, o cão Mops, o canário, o Açor, o espelho redondo, o nascer e o pôr do sol, a noite e a aurora, a cor negra e a progressão do vermelho até o fim do conto são esses elementos * O gigante não pode fazer nada com o corpo, mas sua sombra pode tudo, o que o determina como símbolo das forças do inconsciente ainda não integradas, pois há nele um desequilíbrio total entre o princípio luminoso inexistente ou adormecido e o noturno que é o único que se manifesta. * O gigante rouba os frutos da terra à mulher, prejudicando-a gravemente * Não integrada, a sombra é destrutiva * O gigante não participa na ação geral de aperfeiçoamento que decorre * O gigante volta a surgir no fim, já depois de realizada a profecia da ponte, e causa grande confusão com sua sombra ao projetá-la desastradamente sobre a multidão, mas o descontrole das forças do inconsciente só ameaça a multidão confusa, não os heróis do templo. * O velho da lanterna diz nessa altura: ainda bem que a sombra não se projeta para o nosso lado * O inconsciente só ameaça a multidão confusa e não o indivíduo esclarecido e realizado * Para não destoar do quadro de perfeição final o gigante também será transmutado em pedra avermelhada e reluzente junto à entrada do Templo, tornando-se uma estátua que marca as horas com a sombra projetada num círculo à sua volta. * O rei alegrou-se muito por ver a sombra do monstro utilizada, nova chamada ao bem comum * A pedra avermelhada e o círculo em que as horas se inscrevem são alusões indiretas à perfeição da Pedra Filosofal * O gigante não chega à Pedra Filosofal, embora a sirva * O relógio de pedra em que o gigante se transforma pode ser aproximado de outro relógio de pedra de que Jung fala em Psychologie und Alchemie, e ambos representam formas imperfeitas de integração com interesse próprio. * O inconsciente coletivo de Jung pode ser imaginado como um depósito universal de memórias, imagens e símbolos atuantes, um athanor gigante onde tudo o que é do homem permanece e ao longo dos tempos se transmuta * A aproximação entre o símbolo do relógio gigante no conto de Goethe e a existência real de uma estátua de pedra vermelha de 7,03 metros de altura em Tiahuanaco no Peru, que representa um ser humano de aspecto inquietante e poderia ser a representação em tamanho natural de um gigante, é talvez ainda mais significativa. * Jaques Bergier escreve a respeito dessa estátua * A transmissão dos símbolos dá-se ao nível do inconsciente do homem * A alquimia é talvez de todos os repositórios o mais antigo e completo, englobando as aquisições simbólicas das religiões do Ocidente e do Oriente * Jung refere em seu comentário sobre o Segredo da Flor de Ouro que o mais antigo desenho do gênero mandala que conhece é uma roda solar paleolítica descoberta na Rodésia, com estrutura quaternária, e as imagens de um passado tão remoto tocam nas camadas mais profundas do inconsciente. * Tais coisas não são meras conclusões do pensamento mas emergem dos obscuros abismos do esquecimento * Exprimem os pressentimentos mais profundos da consciência e a mais elevada intuição do espírito, fundindo a unicidade da consciência do presente com o passado imemorial da vida * No conto de Goethe o sacerdote antes de começar a narração pede que o deixem recolher-se e concentrar-se para que lhe aflorem novamente as imagens singulares e estranhas que outrora o ocuparam, imagens estranhas apenas na plena época do Racionalismo por pertencerem ao mundo do inconsciente. * Essas imagens são estranhas mas não menos reais e verdadeiras * Nos quatro reis facilmente se reconhecem os metais dos alquimistas: ouro, prata, bronze e a liga imperfeita de todos eles, sendo o quarto rei símbolo da impossibilidade de realização para aqueles que, quando chega a hora, não estão preparados. * Os reis transmitem ao Jovem seus poderes na cerimônia da iniciação * O quarto rei descrito como desagradável ficará reduzido no fim a massa informe * O rei de ouro tem uma coroa de folhas de carvalho, símbolo de sabedoria venerável * O rei de bronze é aconselhado a aliar-se a seus irmãos mais velhos * O cão Mops surge ligado à mulher, e para os alquimistas o cão devorado pelo lobo simboliza a purificação do ouro pelo antimônio, penúltima etapa da Grande Obra, sendo lobo e cão para os alquimistas a matéria da Obra com a mesma origem mas o lobo vindo do Oriente e o cão do Ocidente. * Dom Pernety no Dictionnaire Mytho-Hermétique escreve que o cão era muito venerado pelos egípcios sob o nome de Anúbis como símbolo do mercúrio dos sábios * Vários autores deram o nome de cão à matéria da Grande Obra * No conto de Goethe o cão é ainda o negro da matéria-prima e do caos ainda por ordenar, e depois de transformado pela lanterna em ônix tem cor castanho e preto, e ao ser reanimado por Flor-de-Lis acentua-se o contraste entre a alvura do peito da princesa e a negrura do focinho do cão que ela beija. * O ônix tem como equivalência simbólica no Dictionnaire Initiatique o chumbo e o negro * A velha ao levar o ônix a Flor-de-Lis por indicação do homem da lanterna entrega o negro à ação regeneradora do branco perfeito * O canário e o Açor têm significado que só se entende pela simbologia das cores, e no Dictionnaire Initiatique o amarelo, produto da mistura do branco e do vermelho, é a cor do sol, testemunha visível do Amor divino e da Sabedoria divina, e simboliza a Revelação. * O canário era o fiel companheiro de Flor-de-Lis e sua única alegria * Sendo ela a Lua, é natural e adequado que se compraza na presença de um elemento solar * O canário morre na manhã em que o Jovem chega junto da princesa, substituindo um símbolo mais fraco por um mais forte * A morte do canário e a morte do cão transmutado em ônix são bons sinais confirmados por Flor-de-Lis em sua canção, e a princesa pede à velha que leve consigo o canário para a lanterna o transformar num belo topázio. * Cão Mops e canário, o negro da matéria elementar e o amarelo do sol, são ambos necessários à realização futura da princesa * O branco perfeito inclui todas as cores * Quando o Jovem cai inanimado e o homem da lanterna chega para salvá-lo, manda pôr o canário dentro do mesmo círculo da serpente e depois junto com a mulher põe o Jovem dentro do cesto e coloca-lhe o canário sobre o peito, pois o pássaro lhe está simbolicamente próximo. * Mais adiante ambos recuperarão a vida ao mesmo tempo * O Jovem estava de pé e o canário esvoaçava sobre seus ombros, havia novamente vida em ambos, mas o espírito não tinha regressado * O Jovem parecia animado apenas de uma espécie de meia vida, como a serpente em letargo que o ouro vem acordar, e o espírito ainda não se revelara nele, de modo que nessa altura do conto o Jovem e o canário não recuperam ainda um espírito tão gravemente ausente em ambos. * Só depois da iniciação pelos reis a reintegração do espírito se dará * A partir daí não se fala mais do canário, pois a perfeição progrediu para o famoso vermelho púrpura * O Açor simboliza no conto o mesmo que a águia ou o falcão na alquimia, isto é, a Sublimação Filosófica, e provocando indiretamente a morte do canário acelera o processo de purificação, conservando-se tranquilo sobre a mão do Jovem como uma pomba de asas caídas. * Seu papel na história é sinalizar uma pureza crescente e uma gradual predominância do Espírito * Por isso pousa na mão do Jovem já manso como uma pomba * Quando a serpente enrolada em círculo aguarda que chegue o homem da lanterna, o bom sinal de sua chegada é dado pelo Açor que ela vê no ar com penas cor de púrpura tendo a refletir-se no peito os últimos raios do sol posto. * O homem explica à princesa que foi o gênio de sua lanterna que o impeliu e que foi o Açor que o guiou até ali * O Açor ficará a segurar o Espelho para iluminar as jovens adormecidas com o primeiro raio de sol e despertá-las com a luz assim refletida do alto * O Açor está sempre ligado à luz e aos raios vermelhos do sol, simboliza no conto o despertar para a vida do Espírito, e tal como a águia real dos alquimistas preside à Obra e participa como elemento glorioso da Conjunção final, como se fosse o Santo Espírito. * O Açor com o espelho pairava nas alturas sobre a catedral, captava a luz do sol e a refletia sobre o grupo no altar * O Rei, a Rainha e seu séquito apareceram iluminados por uma luz celestial e o povo prostou-se de rosto no chão * O Açor transporta o espelho por indicação do homem da lanterna, e o espelho simboliza igualmente a Iluminação, a Sabedoria e o Conhecimento, sendo também símbolo solar que reflete sobre o mundo a luz divina, como está gravado num espelho chinês do museu de Hanói: o espelho reflete a verdade, a sinceridade, o conteúdo do coração e da consciência. * A alma em seu processo de espiritualização deve cada vez mais assemelhar-se ao espelho * O espelho claro e redondo é símbolo da perfeição descrita * O espelho é instrumento de revelação da luz do Alto, ou seja, da luz da Consciência suprema e divina, e é com a luz do sol refletida no espelho que o Açor chamará as donzelas adormecidas à Consciência, enquanto o gigante não desperta e fica petrificado. * Michael Maier na Atalanta Fugiens escreve concretamente: ouve o Açor que fala, ele não te engana * O Epigrama do Açor em Maier descreve-o como dizendo-se negro e branco, amarelo e vermelho, sem mentir, sendo também o corvo que sabe voar sem asas tanto na noite tenebrosa como em pleno dia * À Obra alquímica presidem, como no conto de Goethe, as cores fundamentais que são o negro, o branco e o vermelho, e a progressão do vermelho no conto é equivalência da progressão da rubedo na Obra alquímica, pois a Goethe não escapou nenhuma equivalência. * A Pedra Filosofal, o Ouro dos Hermetistas, são rubros quando perfeitos * No Rosarium há um Quadro da Perfeição denominado Enigma Regis que simboliza a Pedra vermelha ou Pedra solar * Nessa obra lê-se que o enxofre vermelho dos filósofos se encontra no sol devido a uma digestão mais completa, e o enxofre branco na lua devido a uma digestão menor * O vermelho aparece no conto e vai tornando-se cada vez mais notado até que se celebram as núpcias dos dois jovens que passam a ser Rei e Rainha, e a luz que os ilumina torna-se totalmente celestial e divina. * Dos ombros do Jovem pendia um manto cor de púrpura * Uma das companheiras de Flor-de-Lis traz-lhe um véu vermelho de fogo após a morte do Jovem * As penas do Açor são de cor purpúrea quando ele paira no alto recebendo os últimos raios do sol posto * O véu da bela princesa brilha na escuridão espalhando uma doce luz que como uma suave aurora coloria de graça infinita suas faces pálidas e seu vestido alvo, sendo essa Aurora ou o vermelho da manhã que vai tingindo de perfeição maior a perfeição menor que significa o branco. * Os fogos-fátuos à medida que a história progride mostram-se muito sensíveis ao encanto que o véu luminoso espalhava sobre Flor-de-Lis e suas companheiras * Nessa fase a vermelhidão ainda é só exterior, é só sinal, não tingiu ainda a própria substância da bela * No fim, quando o Jovem a toma nos braços, as faces de Flor-de-Lis tingiram-se do mais belo e perdurável rubor, tornando-a bela, rubra e perdurável como a Pedra Filosofal em toda sua glória e perfeição. * Mais perfeita do que isso só a puríssima luz em que todos no fim serão banhados, que provoca no povo adoração * O vermelho simboliza também uma humanização da excessiva brancura de Flor-de-Lis, e ser mais humano é para Goethe ser mais perfeito, pois a branca Flor-de-Lis era estéril, suas plantas não davam flor nem fruto, e é o poder do amor que a modifica. * A experiência do sofrimento a humaniza, e a bela chora repetidas vezes após a morte do Jovem, o que compensa nela a secura do fogo com o elemento água * O vermelho penetrando em sua própria substância torna-a em pedra fecunda, capaz como a Pedra dos filósofos de ser geradora de vida * Não seria possível a partir do conto definir com maior clareza a Pedra Filosofal, pois a pedra é ao mesmo tempo simples e complexa, é só uma mas abarca tudo como o Unum Totum, e as personagens, os elementos naturais, os acontecimentos, a marcação das cores, os sacrifícios e as regenerações são o todo da Pedra. * Dom Pernety no Dictionnaire Mytho-Hermétique do século XVIII cita os filósofos herméticos que deram muitos nomes diferentes à Pedra conforme os diferentes estados por que ela passa até a perfeição * Isaac, o Holandês, afirma que depois de aberta e espiritualizada chamaram-na Cousa Vil; depois de sublimada, Serpente e Animais Venenosos; depois de calcinada, Sal; depois de dissolvida, Água; depois de reduzida a óleo, Cousa Viscosa; depois de congelada, Terra; quando adquiriu cor branca, Leite virginal; quando passou ao vermelho, Fogo * A Pedra é descrita no Dictionnaire Mytho-Hermétique como bendita, mineral, animal e vegetal porque não tem nome próprio, e sua água toma os nomes das folhas de todas as árvores, das próprias árvores e de tudo que apresenta cor verde com o fim de enganar os insensatos. * A pedra é composta de corpo, alma e espírito como os animais * O corpo imperfeito é pesado, doente e morto; a água purga-o e purifica-o; o fermento dá vida ao corpo * O corpo é Vênus ou a fêmea; o espírito é Mercúrio ou o macho; a alma é composta do sol e da lua * A primeira observação a fazer é a que Dom Pernety faz: todos os filósofos herméticos falam do mesmo, mas fazem-no de maneiras diferentes, falando da Pedra, da matéria de que se compõe e das fases que atravessa. * Como em Goethe, tudo são elementos de um processo único tendente à regeneração de uma matéria impura até a proclamação da perfeição final * A Pedra é mineral, vegetal e animal * A Pedra é a natureza exterior e interior * A Pedra é dissolvida e coagulada e nessa fase de fixação de suas qualidades passa ao branco e depois ao vermelho, sendo as quatro cores dos alquimistas tomadas por Goethe como base: o negro do carvão, o branco da flor-de-lis, o amarelo do pássaro e o vermelho da perfeição. * O tratado chinês Flor de Ouro afirma que a flor de ouro é a luz, e o vermelho é a verdadeira energia do grande Uno transcendente * Alice Raphael afirma que o Ouro e a Luz são as palavras chave no primeiro episódio do conto, e traçando uma possível influência de Paracelso chama atenção para as duas formas de luz: a luz da natureza e a luz espiritual, mas a luz está presente em todo o conto, não apenas no primeiro episódio. * Desde a aurora ou o pôr do sol, desde os minerais, vegetais e animais tocados pelo seu brilho, em todo lado a Luz está presente * Acima de tudo na lanterna, cuja luz é a Sabedoria capaz de transmutar tudo à sua volta * A Pedra Filosofal é como a Luz: dá vida aos corpos mortos, purifica e ilumina os que estão corrompidos e manchados * Que a Água também é divina e luminosa e participa da natureza da Lanterna fica afirmado no fim pela figura do barqueiro vestido de branco no altar que é sua cabana, participando dos rituais sagrados da conjunção do Rei e da Rainha. * A Pedra é macho e fêmea, sol e lua, a unificação de todos os contrários * O Abade Dom Pernety afirma que o magistério faz-se de uma só cousa, por uma só via e por uma mesma operação, e que o branco e o vermelho saem de uma mesma raiz sem mistura de coisas de outra natureza, enquanto Rhasis acrescenta que essa matéria se dissolve por si própria, casa-se, branqueia-se, avermelha-se, torna-se negra, amarela, e trabalha-se a si própria até à perfeição da obra. * Isaac Holandês afirma que a Pedra deve fazer-se do Sol e da Lua, sendo um macho vermelho e outro uma fêmea branca * Raymond Lulle afirma que a conjunção do Sol e da Lua faz a pedra, e que o Sol tira a substância da Lua e lhe dá sua própria cor e natureza pelo fogo da pedra * A matéria da Pedra é a própria natureza humana em seus variados aspectos, na inconsciência ou na maturidade, na velhice ou na juventude, no masculino ou no feminino, e realizada a obra com sucesso a natureza humana integra-se na divina e atinge a felicidade suprema. * Goethe apresenta neste conto uma Obra em maturação, uma Obra alquímica, processo de transformação simultaneamente material e espiritual que dá acesso à Perfeição e à Sabedoria * Todos os ingredientes necessários para a realização da Obra estão presentes no conto: os quatro elementos, os dois princípios Sol e Lua, masculino e feminino, as fases de progressão marcadas pela nigredo, albedo e rubedo, completando-se a Pequena Obra e a Grande Obra e adquirindo-se no templo a Revelação Suprema. * A Conjunção dos quatro, o Jovem, a princesa, o velho e a mulher, é a grande confirmação * Deste modo se realiza no conto a Obra do Uno e do Todo de que a serpente era desde o início um símbolo fundamental * Através dela cumpriu-se o Omnia in Uno dos alquimistas * A visão alquímica desencadeia ainda um processo que conduz no fim à plena consagração do amor e da sabedoria, e o velho da lanterna recomenda a todos que venerem a serpente, a quem todos devem de uma maneira ou de outra a perfeição atingida. * O templo e a ponte são as imagens finais com que Goethe deliberadamente encerra o conto * Dando a todos os homens acesso àquele templo, a serpente-ponte continua sua missão de regeneradora * Para os heróis do conto o círculo fechou-se, mas para a humanidade o processo iniciado continua, e a Pedra Filosofal está escondida nas profundezas da alma, sendo o V.I.T.R.I.O.L de Basilius Valentinus, Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Occultum Lapidem, o acróstico de que o Conto da Serpente Verde pode ser considerado a ampliação. * É no interior da terra, isto é, no interior de si mesmo e de sua alma, que o homem descobre a Pedra, o Espírito, a Luz do seu Sol interior * A exclamação de Dorneus, transformai-vos de pedras mortas em pedras filosóficas vivas, resume precisamente o que Goethe propõe, pois a Pedra viva é dinâmica, atuante e transformadora do mundo à sua volta. * Goethe não visa apenas a realização individual, mas uma realização individual posta ao serviço da humanidade inteira * O templo como centro de revelação e formação espiritual e a ponte como elemento unificador de dois mundos são a dádiva aos outros dos heróis desta história * Sobre o simbolismo particular da serpente Goethe foi mais claro do que sobre o conto em geral, escrevendo numa carta de 1814 que, ao contrário do símbolo da serpente que se fecha num círculo como símbolo da eternidade, ele prefere considerá-la como parábola de uma temporalidade feliz. * Para o mundo e para a vida que é dada aponta o Maerchen em Goethe * A sublimação, conforme observou Paulo Quintela a propósito do morre e devém do poema Selige Sehnsucht, não se dá fora do mundo e da terra, e esse regresso à terra é o que é caracteristicamente goetheano e ocidental