Na perspectiva da vida goethiana, o ocultismo definirá um conjunto complexo de influências recebidas, convicções, curiosidades, interesses e fervores, ao qual o pensador oporá recusas, dúvidas, controles e condenações.
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Permanecerá centrado em torno do grande problema: não haveria além do sensível e do racional a intuição possível de uma realidade misteriosa, mas não quimérica, que daria a razão primeira das harmonias superiores do universo?
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Não haveria no mistério, concebido como realidade vital, mais que no conhecimento lúcido e no claro inteligível?
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A história dos relatórios de Goethe com a corrente ocultista remonta à experiência decisiva de 1768-1769, compreende a mensagem inacabada das Geheimnisse, a condenação do Gross-Cophta, os anos em que o magnetismo apaixona o autor das Wahlverwandtschaften e do Divan, e se encerra com o personagem surpreendente de Makarie dos Wanderjahre e certas revelações de Goethe velho a Eckermann e von Müller.
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Assim encarado com suas referências históricas, o termo ocultismo aparece como preferível entre todos e justifica o título do presente trabalho.
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M. Th. Maurer, abordando num breve trabalho Goethe e o esoterismo alsaciano, hesita em falar francamente de ocultismo, reconhecendo o embaraço sem resolvê-lo.
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O ocultismo supõe uma dupla atitude, cuja falta de reconhecimento expõe o pesquisador à confusão.
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O oculto, das Geheime, é ao mesmo tempo, por uma perigosa ambiguidade, o que está escondido e o que se esconde, o segredo que se descobre e o segredo que se faz, o sujeito e o objeto.
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A primeira atitude visa pesquisar, revelar, offenbaren, o oculto e promovê-lo à luz, fazendo eclodir o mistério, penetrando-o, sondando-o, exteriorizando-o.
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É exotérica e pertence ao conhecimento.
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Del Rio, definindo a magia natural, diz que ela é simplesmente um conhecimento mais exato dos arcanos.
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Nesse caso, contrariamente ao que observa A. Lalande na expressão ciências ocultas, o epíteto apenas se reporta ao caráter misterioso dos fatos que elas têm por objeto.
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A segunda atitude visa esconder, tornar oculto, envolver de mistério ou reencontrar o mistério, interiorizando o objeto por razões de prudência ou eficácia.
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É esotérica e pertence à ação.
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Goethe a define no poema maçônico simbolicamente intitulado Verschwiegenheit: os irmãos unidos sabem o que ninguém sabe, e ninguém saberá o que confiam uns aos outros, pois sobre silêncio e confiança é que o Templo é edificado.
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As duas atitudes, assim definidas, podem coexistir e se completar, embora suponham duas tendências inversas, encontrando-se ligadas no pensamento de Goethe e constituindo um dos aspectos mais originais de sua personalidade.
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Pelo ocultismo, Goethe vai ao mistério que descobre e faz o mistério que esconde aos olhares indiscretos.
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Desmascarar e mascarar, revelar e velar, são os dois polos de sua vida de homem e de poeta.
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Há na personalidade goethiana mais do que uma atração pelo maravilhoso, partilhada pela época, devida ao meio e às heranças, sobre a qual o escritor se explicou muitas vezes de maneira positiva nas Geheimnisse e negativa no Gross-Cophta.
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A experiência ocultista de 1769 abriu ao jovem Goethe perspectivas que permanecerão no fundo as grandes linhas de seu pensamento.
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Ela contribuiu para formar sua visão dos homens e do mundo, para determinar nele novas exigências espirituais que serão despertadas e confirmadas mais tarde pelo estudo da natureza, pela experiência da vida e pelo interesse pelo magnetismo animal.
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É necessário medir a distância que separa um Cagliostro de um Goethe, o amador banal do maravilhoso do poeta das Geheimnisse, a pitonisa de esquina de um ser superior e etéreo como Makarie.
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Os primeiros podem atrair a curiosidade do historiador das sociedades; os segundos atraem veneração e respeito.
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Eles têm seu mistério que é preciso conhecer; eles têm sua mensagem cujo sentido e alcance vale a pena pesquisar.
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O trabalho consiste em grande parte em estudar a literatura ocultista em que Goethe bebeu, não para fazer um estudo de fontes propriamente dito, mas para separar as leituras cuja influência se exerceu sobre o pensamento e o devenir espiritual do poeta das que responderam a uma pura preocupação de documentação literária explorada para fins unicamente estéticos.
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Essas últimas, que relevam de um estudo crítico das fontes, não entram na investigação proposta.
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O objetivo é delinear como, preparado e amadurecido pelo meio espiritual e humano e pela crise de Leipzig, Goethe recebeu as influências e as orientações da magia, da teosofia e da alquimia.
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Também se busca entender como, para além dessa experiência passageira mas decisiva, reaparecerão as perspectivas, curiosidades e fervores que ela havia aberto ou despertado nele.
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A antítese simbolizada pelas Geheimnisse e pelo Gross-Cophta representa a dupla atitude, positiva e negativa, do pensador diante do mistério e do oculto.
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A partir de 1798 e sobretudo de 1807, quando o Dr. Eschenmayer publica seu Archiv für den thierischen Magnetismus, o novo impulso e as descobertas recentes do magnetismo aproximam novamente Goethe desse mundo supra-sensível e maravilhoso que ele havia, jovem em Frankfurt, saboreado.
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Spérata, Odile e Makarie, as heroínas mais puras de Goethe, são os meios, médiums, desse mundo e talvez detenham o segredo das realidades primeiras.
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Tal investigação sobre o ocultismo de Goethe deve se encerrar numa questão central: que significa o mistério para o Sábio de Weimar, esse ser ávido de luz?