1.7 O Católico Universal

HANEGRAAFF, Wouter J. Esotericism and the Academy: Rejected Knowledge in Western Culture. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.

O Católico Universal: Agostino Steuco

1. Desde as últimas décadas do século XV, a narrativa da sabedoria antiga passou a dominar os pressupostos de uma “clerezia esotérica” europeia que, de Lazzarelli e Lefèvre d'Étaples a Reuchlin, Agrippa, Patrizi, Bruno e Cudworth, constituiu o corpus referencial inicial do esoterismo ocidental, mas coube a Agostino Steuco publicar, com o “De perenni philosophia” de 1540, o primeiro tratamento sistemático do tema.

2. Steuco, clérigo agostiniano próximo do papa Paulo III, versado em línguas, dirigiu em Veneza a biblioteca do cardeal Grimani, que incluía manuscritos de Pico, foi prior em Reggio e Gubbio, assumiu em 1538 a direção da Biblioteca Vaticana, o mais prestigioso posto erudito acessível a um humanista, acumulando-a com o bispado de Chissamo, e participou do Concílio de Trento até sua morte em 1548.

3. Depois de ter combatido na juventude as filosofias platônica e cabalística, Steuco desenvolveu na maturidade uma philosophia perennis ao mesmo tempo extrema em seu universalismo e ortodoxa em seu distanciamento dos métodos cabalísticos e mágico-simbólicos, defendendo uma perspectiva profundamente conservadora em vez do potencial revolucionário da prisca theologia, o que explica as raras menções a Ficino e Pico diante das numerosas referências às fontes antigas.

4. Segundo Maria Muccillo, a filosofia perene de Steuco, profundamente platônica e publicada às vésperas de Trento, quando a unidade cristã parecia irrecuperável após a Reforma e declinava o ideal de interpenetração entre humanismo e catolicismo, representou uma última e desesperada tentativa de reconciliar pela erudição histórica o mundo cristão fragmentado e de pôr os ideais humanistas a serviço da Reforma católica antes que esta cedesse à força disciplinar e dogmática da Contrarreforma.

5. Nascida num concílio de união entre Oriente e Ocidente, a narrativa renascentista da sabedoria antiga encerrou seu primeiro ciclo sob a sombra de outro concílio, pois para conservadores como Steuco a crise cristã não se resolvia por um retorno às fontes, como se estas tivessem sido perdidas, já que a verdade sempre estivera disponível e a Igreja a representava legitimamente desde Cristo, razão pela qual sustenta que sempre houve uma única sabedoria e uma única religião celeste, a mesma desde o princípio do gênero humano, transmitida ou descoberta pela natureza ou pela revelação, outrora obscura e restrita a poucos e depois resplandecente no mundo inteiro.

6. Essa formulação revela uma ambiguidade macro-histórica típica de Steuco, que não esclarece se houve progresso de menos para mais luz ou um declínio entre a luz antiga e a cristã, nem se importa se a verdadeira religião foi transmitida historicamente, descoberta pela razão ou revelada, pois, embora esboce um desenvolvimento da Caldeia e do Egito, com Zoroastro e Hermes como sábios mais antigos e Moisés como escritor mais antigo, aos gregos e hebreus, seu único interesse é afirmar que a Verdade única sempre esteve acessível a quem a buscasse, nunca tão perfeitamente quanto na Igreja católica.

7. O ponto central de Steuco não é histórico, mas exegético, pois a doutrina católica, manifestação suprema da filosofia perene, é o modelo exclusivo de medida e a chave hermenêutica da verdadeira natureza de toda religião e filosofia, de modo que ele não pretende aprender dos pagãos, mas ensinar-lhes a verdadeira natureza de sua própria filosofia.

8. Segundo Freudenberger, Steuco interpreta arbitrariamente as passagens dos poetas e filósofos antigos como confirmação de suas ideias e, quando uma passagem se recusa a encaixar-se em seu sistema, admoesta paternalmente o autor a voltar à razão.

9. Os cristãos não descobrirão nas fontes pagãs verdades novas nem precisarão de novos métodos exegéticos, cabalísticos ou outros, mas apenas a confirmação de que o Logos encarnado em Cristo atuou entre todos os povos desde o princípio, de modo que, estando no catolicismo tudo o que há de verdadeiro no paganismo, purificado de erros, a autoridade espiritual suprema da Igreja se torna indubitável.

10. A sólida ortodoxia dessa posição explica por que os autores protestantes antiapologéticos que atacariam o “cristianismo platônico-hermético” a partir do século XVII visavam não uma heresia humanista, mas o próprio catolicismo romano, invertendo o argumento de Steuco para expor o paganismo como núcleo oculto do catolicismo e vendo nas filosofias platônicas e cabalísticas de Ficino e Pico apenas a manifestação extrema de um potencial pagão latente no catolicismo desde Justino Mártir e os apologistas patrísticos.