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NAGARJUNA
VIVENZA, Jean-Marc. Nâgârjuna et la doctrine de la vacuité. Paris: A. Michel, 2001.
- Nagarjuna, monge budista dos séculos II e III originário da Índia, é célebre por ser o fundador da escola filosófica dita do “Meio”, e sua vida — da qual pouco se sabe com certeza — é relatada por um importante corpus literário histórico entremeado de lendas e mitos característicos das hagiografias religiosas tradicionais.
- O nome Nagarjuna deriva de Naga — serpente — e Arjuna — uma variedade de árvore —, indicando simbolicamente que teria nascido sob uma árvore e que serpentes foram instrumentos da transmissão de seu saber
- A tradição relata que Nagarjuna curou Mucilinda, o rei dos Naga, que em agradecimento lhe transmitiram os cem mil versos do Prajñaparamita-sutra
- No palácio dos Naga, Nagarjuna teria descoberto sete cofres preciosos contendo numerosos Mahayana-sutras e memorizado em noventa dias os cem mil gathas que resumem a essência da doutrina da Prajñaparamita
- As representações iconográficas de Nagarjuna com a cabeça protegida por serpentes remontam a esse episódio legendário
- Nagarjuna parece ser originário do Vidarbha, então parte do reino de Andhra, governado pela dinastia indiana do Dekkan, cujos reis eram fervorosos adeptos do budismo
- Seu mestre foi um brâmane chamado Rahulabhadra, autor de um Prajña-paramita-sutra que figura à frente de numerosos manuscritos sânscritos
- As obras principais de Nagarjuna são o Madhyamaka-karika — Tratado do Meio —, o Suhrlekha — Carta a um amigo —, o Rajaparikatha-ratnamala — A Preciosa Guirlanda de conselhos ao rei — e o Vigrahavyavartini — Recusa de um debate filosófico —, este último apresentado como método de dialética argumentativa
- Nagarjuna recebeu a ordenação monástica do mahasiddha Saraha em Nalanda e tornou-se em pouco tempo abade da universidade, terminando provavelmente a vida em Sriorvata sob proteção real
- Debruçar-se sobre a obra e o pensamento de Nagarjuna é descobrir uma personalidade de primeira ordem — metafísico de grande envergadura e temível dialético —, cujo papel central e influência capital no desenvolvimento das teses fundadoras do Mahayana são unanimemente reconhecidos por todas as escolas, e cuja preocupação constante foi manter fiel a doutrina do Buda em sua pureza primitiva, combatendo sem cessar as tendências que travestiam o pensamento original do Desperto.
- O budismo não teria o rosto que a história apresenta atualmente sem a contribuição filosófica da Via nagarjuniana do Meio
- A atividade de Nagarjuna se desenvolveu em um contexto de múltiplas correntes filosóficas em disputa — tradição védica e substancialismo das Upanishad, Nyayika e sistemas lógicos, criacionistas, partidários do atman, da imortalidade da alma, do tempo e da eternidade do mundo, céticos, materialistas e evolucionistas
- O conjunto das filosofias do Darshana indiano e a totalidade da ontologia bramânica foram objeto da crítica nagarjuniana — sendo Darshana o termo que designa os sistemas filosóficos indianos ortodoxos
- Nagarjuna dirigiu igualmente o feixe de sua crítica às escolas e tendências budistas que haviam desenvolvido posições filosóficas consideradas inaceitáveis por contradizerem a concepção doutrinária inicial do Buda — a afirmação primordial do encadeamento causal e da interdependência recíproca dos fenômenos como únicas leis de determinação do real.
- A dialética nagarjuniana é designada em sânscrito por prasanga
- O imenso esforço teórico da dialética nagarjuniana consiste em restituir toda a amplitude à lei da “produção condicionada” — em sânscrito pratitya-samutpada —, formulada pela primeira vez na história pelo Buda e considerada por Nagarjuna absolutamente equivalente à vacuidade — em sânscrito sunyata — ela mesma
- Qualquer restauração insidiosa das concepções substancialistas comprometeria a possibilidade de atingir a libertação — em sânscrito nirvana — e perderia a essência da mensagem do Desperto
- A questão central da empresa doutrinária de Nagarjuna é a possibilidade mesma de pôr em obra o processo de libertação, pois a estrutura argumentativa das Quatro Nobres Verdades não se sustentaria se a perspectiva da cessação — nirvana — fosse comprometida por uma incompreensão do fundamento principal do discurso do Buda sobre a origem do sofrimento.
- O sofrimento é designado em sânscrito por dukkha
- Compreender a origem do sofrimento equivale a compreender sua extinção — um único erro analítico coloca em questão a validade e a possibilidade da Via
- Nagarjuna não luta teoricamente pelo prazer de manipular conceitos, mas está a serviço da missão íntima do Buda: anunciar aos seres não apenas a origem, mas também e sobretudo a possibilidade da cessação do sofrimento
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